MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

23/09/2012

O desastre de “DOIS RIOS”: maldição do segundo romance, zombaria das ondas ou pose demais e ficção de menos?

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em primeiro de maio de 2012)

Como tantas outras pessoas, apreciei o primeiro romance de Tatiana Salem Levy, A chave de casa (2007). Ali estava uma escritora promissora, apesar da atmosfera sufocante e áspera do texto. Como o li mais ou menos na mesma época de Homem no escuro (2008), de um dos meus autores favoritos, Paul Auster (a condição de impotência, entre física e espiritual, dos protagonistas, dá um ar de parentesco aos dois livros que já pensei em explorar em alguma resenha ou estudo), e junto do qual ela não fez nada feio, a comparação lhe rendeu mais pontos favoráveis ainda, caso precisasse.

Eis que de repente assisto a uma entrevista da jovem autora (nasceu em 1979) com Maurício Melo, no programa “Leituras” da TV Senado, e o que me parecia rispidez talentosa durante a leitura do romance começou a soar mais como uma postura afetada, enjoadinha, um ar de o mundo não merece esse ser inefável que sou: Tatiana Salem Levy se me afigurou como aquelas pessoas que minhas tias, numa infância povoada delas, anatematizavam como “entojada”. Mais do que antipática,  porém,sua atitude (ou melhor, sua pose) na entrevista me deixou entrever algo que só posso diagonosticar como uma anorexia espiritual que me tirou qualquer vontade de voltar a lê-la.

Por motivos que não vêm ao caso, seu segundo romance, Dois rios, acabou nas minhas mãos. Não obstante a autora enjoadinha, não mereceria uma lida, em vista da promessa de A chave de casa?

O pequeno introito acima é para o leitor que detectar má vontade a priori no meu comentário a seguir, embora eu mesmo, fazendo um exame de consciência, não ache que li Dois rios com má disposição (por exemplo, sempre tive a maior antipatia pela figura de Rachel de Queiroz, o que não me impediu de me encantar com seus romances tardios, Dôra Doralina & Memorial de Maria Moura: a leitura de um bom texto sempre me conquista), saiba dos possíveis motivos, caso chegue a tal conclusão.

Dois rios (que, a princípio, ao que parece, tinha o título Em silêncio) apresenta como protagonistas os gêmeos Joana e Antônio: nascidos e criados em Copacabana, passavam as férias no lugarejo da Ilha Grande que dá título ao romance. Muito unidos, em Dois Rios houve um episódio incestuoso que coincidiu com a morte repentina do pai. A partir daí, os irmãos começaram a se afastar até de uma forma hostil (como se uma presumível “culpa” pelo ocorrido com o pai impedisse o relacionamento de fluir): Joana ficou em casa, cuidando da mãe, portadora de transtorno obsessivo-compulsivo, e Antônio caiu no mundo como fotógrafo free-lance. Do pacto infantil que os unira, só restaram  ressentimento e incomunicabilidade.

O livro é estruturado em duas partes, cada uma focada num dos irmãos. Na primeira, narrada por Joana, que está presa ao apartamento onde nasceu, com a mãe disfuncional, com a vida estagnada, aparece uma francesa, Marie-Ange, por quem ela se apaixona, iniciando um processo de libertação. Há alguns bons momentos[1], Salem Levy sabe utilizar habilidosamente as técnicas de ficção (desdobramento do tempo e do espaço). O que não impede que essa parte seja muito ruim. Somos obrigados a ler passagens do tipo “Nossos olhos se cruzaram, e num único segundo, senti aflorar a minha intimidade mais secreta”. Pior ainda, quando Joana e Marie-Ange encetam uma viagem reparadora a Dois Rios, e seu amor se funde à descrição da natureza, temos trechos que—tirando o tom mais moderninho—poderiam ter sido escritas por Cassandra Rios (penso em Macária, por exemplo), sem o seu charme kitsch. A própria Marie-Ange, a qual parece egressa do universo de Roberto Freire (o chatíssimo escritor reichiano de Cléo e Daniel e Coiote, não o político), como um anjo liberador das repressões, diz coisas hilárias do tipo: “Só o real importa, Joana. O mar, a areia, o sussurro da mata. Esquece o resto. Seus medos tolos, sua ansiedade, essa fantasia que, em vez de te soltar, te prende. Escuta o vento, as ondas que rebentam zombeteiras…”!!!??? Por que, cargas d água, as ondas rebentariam zombeteiras? Talvez porque a natureza, em Tatiana Salem Levy, pareça tanto um “cenário”, não evocando nada de vital ou verdadeiro.

Na segunda parte, ela faz um truque narrativo à David Lynch (o de A estrada perdida & Cidade dos sonhos), e é Antônio quem, na França, conhece Marie-Ange, a qual, ao invés de vir ao Brasil, o leva para a Córsega, sua terra natal, onde os dois têm tórridas experiências amorosas, depois das quais ela desaparece. O errante, o desenraizado, então, sofre um processo contrário ao da irmã, permanecendo ali, numa postura de espera impotente, no povoado corso, no meio de gente rústica e simples, ligada ao mar.

Duas coisas ficam claras, então: o leitor comum, que costuma se atrapalhar com experiências  “ousadas”, não precisa ficar inquieto, porque apesar do truque adotado, a autora explica tudo tintim por tintim (além de todo o desenrolar da narrativa ser mais ou menos previsível, inclusive o final), e essa parte, em que Antônio, ao narrar, está se dirigindo à ausente Marie-Ange, é extremamente fake: soa falso em todos os seus aspectos, de tal forma que acabamos até preferindo a primeira, que era fraca, mas parecia mais crível. Apesar de ausente, Marie-Ange não é menos chata: “Foi você quem me disse que todos os dias ele [o pai dela] faz a mesma coisa, como os animais que dormem, comem, vão ao riacho procurar água e nunca se colocam em desacordo com o mundo. Meu pai faz parte da paisagem como os calhaus da praia, você dizia. E continuava. Quando ele morrer, não haverá mais pescadores no vilarejo, pois os homens passaram a achar, num determinado momento, que ser humano é entrar em desacordo com o mundo…”

E como essa literatura “sofisticadinha” acabou roçando a auto-ajuda? “Nenhum dos dois conseguiu cumprir nem descumprir seus destinos, eles apenas esqueceram de ser felizes. Era uma coisa ou outra: seguir à risca a trajetória planejada, ou dar espaço para a felicidade. O erro deles foi achar que o amor os salvaria das desavenças. Mas o amor não salva.”

Dizem que há a maldição do segundo romance, que muitas vezes ele pode ser um passo em falso mesmo numa carreira posteriormente  bem-sucedida. Portanto, fica em aberto se Tatiana Salem Levy vai seguir o caminho fecundo, ainda que difícil, da sua estréia, ou vai capitular de vez rumo às falsidades oportunistas (pois convenientes à sua “pose” entojadinha ou portadora de anorexia espiritual) delineadas por esse seu segundo (e mero) “exercício” romanesco. Talvez dependa das ondas zombeteiras. Mas que não dependa das Marie-Anges da vida, por favor !


[1] Gosto do personagem da mãe, da narração das verdadeiras viagens que são as visitas da avó e do pai dos protagonistas ao presídio da Ilha Grande, onde está preso o tio por motivos políticos; gosto também da descrição da intimidade física entre os irmãos.

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