MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/01/2017

Crônica de uma ruína anunciada: “Dois Irmãos”, de Milton Hatoum

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente, em A TRIBUNA de Santos, em 24 de janeiro de 2017)

A certa altura de DOIS IRMÃOS (2000) (a narrativa não é linear), ficamos sabendo da relutância de Halim um dos personagens principais, em ter filhos:

“Não queria três filhos; aliás, se dependesse da vontade dele, não teria nenhum. Repetiu isso várias vezes, irritado, mordendo o bico do narguilé. Podiam viver sem chateação, sem preocupação, porque um casal enamorado, sem filhos, pode resistir à penúria e a todas as adversidades. No entanto, teve de ceder ao silêncio da esposa e ao tom imperativo da frase posterior ao silêncio. Ela sabia insistir, sem estardalhaço: ‘Quer dizer que vamos passar a vida sozinhos neste casarão? Nós dois e essa indiazinha no quintal? Quanto egoísmo, Halim! ’ ”
‘Um filho é um desmancha-prazer’, dizia ele, sério.
‘Três, querido. Três filhos, nem mais nem menos’ ”.

Já pelos capítulos anteriores, o leitor descobria o “acerto” nas palavras de Halim, pois conhecera os resultados da teimosia de sua esposa Zana: a rivalidade quase fratricida entre os gêmeos, Yacobi e Omar, e a existência da sombra da única filha, Rânia. Mas a passagem citada também revela os ingredientes que fomentaram toda a tragédia posterior: a inércia quase letárgica do pai e as fantasias exacerbadas da mãe (as duas posturas equivocadas e egoístas), as quais acarretam a ruína da família.

Eu nunca fui muito fã do trabalho de Luiz Fernando Carvalho, contudo o que ele fez com o romance de Milton Hatoum é imperdoável: movido pelo seu esteticismo incontrolável, que não deixa nenhuma sendo fluir naturalmente, fazendo os intérpretes caírem na caricatura, numa gritaria há muito não vista em produções nacionais (lembram como era irritante a impostação dos atores? No cinema brasileiro, mesmo nos melhores filmes), parece que ele sonha em ser uma mistura de Glauber Rocha e Visconti. Tenho que confessar que dei várias gargalhadas no decorrer desse dramalhão.

Voltando ao sóbrio romance de Milton Hatoum, seu mistério continua sendo a figura de Yacobi: por que ele, que sofre tantas vicissitudes injustas, não conquista a empatia do leitor? O único personagem parecido com ele que me vem à mente é Michael Corleone de “O Poderoso Chefão”, mais no livro de Mario Puzo do que nos filmes; ambos começam a vida com as melhores intenções, e posteriormente se transformam em máquinas calculistas e gélidas, num desperdício de afetos realmente trágico.

 

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