MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

02/06/2015

Destaque do Blog: A DIFICULDADE DE SER, de Jean Cocteau

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«O ser humano procura no mito uma forma de fugir de si mesmo. E para tal utiliza-se de todas as formas. Droga, álcool ou mentira. Incapaz como é de adentrar em si mesmo, o ser humano se disfarça. As mentiras e imprecisões lhe proporcionam alguns instantes de alívio, o mesmo conforto provocado por um baile de máscaras. Desta forma, destaca-se daquilo que sente e daquilo que vê…»

(Jean Cocteau, 1889-1963)

«De manhã, debruço-me, debruço-me, e deixo-me cair. Caio de fadiga, de dor, de sono. Sou inculto, nulo. Não sei um número, uma data, um nome de rio, uma língua, viva ou morta. Tenho zero em geografia e em história. Se não fossem uns passes de mágica, corriam comigo. Além do mais, roubei os documentos a um tal J.C., nascido em M.L., no dia……, e que morreu com dezoito anos, depois de uma brilhante carreira poética.

Esta cabeleira, este sistema nervoso, mal implantados, esta França, esta terra, não me pertencem. Dão-me agonias. Sempre os dispo à noite, em sonhos.

Pois aqui largo o pacote. Que me fechem num hospício, que me linchem. Quem puder que entenda. Eu sou uma mentira que diz sempre a verdade»

(trecho de O pacote vermelho, tradução de Jorge de Sena)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 02 de junho de 2015)

Neste primeiro semestre de 2015 a França detém os destaques entre as traduções: por um lado, o atualíssimo e perturbador Submissão, de Michel Houellebecq; por outro, a versão tardia (realizada por Wellington Júnio Costa para a Editora Autêntica) de A Dificuldade de Ser[1], um dos mais importantes títulos de um autor cultuado (devido às suas realizações em múltiplas áreas: poesia e romance, teatro, cinema, até designer e ilustração[2]), no entanto escassamente traduzido: Jean Cocteau.

Em 1947, exaurido pela realização do clássico A bela e a fera, uma de suas obras-primas, tomado por uma doença que se traduzia em torturante e dolorosa urticária, ele se isolou: «Os médicos me haviam prescrito a montanha, a neve. É, diziam eles, o único tratamento eficaz. Meus micróbios desapareciam como por encantamento»[3].

Não desapareceram, assim como suas obsessões («Meu pior defeito vem da infância como quase tudo o que tenho. Pois eu continuo a ser vítima desses ritos doentios que fazem das crianças seres obsessivos que colocam seu prato de uma determinada maneira sobre a mesa e saltam algumas linhas do passeio»). Admirador de Montaigne, pôs-se a escrever 31 pequenos ensaios em que temas “gerais” (conversa, amizade, sonho, medida dor, morte, frivolidade, juventude, beleza, riso e por aí vai) servem como mote para reminiscências e reflexões. O polêmico “príncipe frívolo” do surrealismo, personagem de si mesmo, figura performática da alta cultura francesa, de repente debruça-se sobre si mesmo, a existência e os valores morais, nos moldes do estilo clássico que marcou a prosa de seu país, com frases lapidadas como: «É por onde escapamos que a lenda caminha»; «Invisível sob tantas fábulas e monstruosamente visível por meio delas»; «O luxo do mundo está na perda».

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O título já sinaliza a simbiose entre a superfície anedótica («Minha lenda afasta os tolos. A inteligência suspeita de mim. O que me sobra entre esses dois?»[4]) e as correntes profundas que fazem de certas poesias (Plain-Chant é uma delas) e peças (A voz humana, A máquina infernal), mais alguns dos filmes de Cocteau, momentos fundamentais da arte do século passado: «Eu sinto uma dificuldade de ser. É o que responde o centenário Fontenelle quando ele vai morrer e seu médico pergunta: Senhor Fontenelle, o que o senhor sente? Só que a sua é da última hora. A minha data de sempre».

Pode-se indicar com entusiasmo um título que praticamente cai no vazio, com suas menções recorrentes a obras remotas ou inéditas entre nós? Sim, porque mesmo com o peso do teor biográfico e das referências culturais, o charme indispensável de A Dificuldade de Ser reside mais na luminosa miríade das reflexões minimalistas (ainda que autocentradas, até mitômanas, quem poderá dizer?) incrustadas na poesia da prosa de um homem que conseguiu traduzir em imagens cinematográficas indeléveis fábulas e mitos (como o de Orfeu): «É possível que eu acorde um belo dia sem sofrer de algum membro e que eu me engane completamente nos meus prognósticos. Será melhor assim, mas eu prefiro ser pessimista. Sempre fui, por otimismo. Eu esperava demais para não me precaver contra uma decepção». E como não se identificar com a desconfiança lírica diante da suposta exatidão numérica: «Dois mais dois são quatro? Gustave de Rothschild dizia: Dois mais dois são vinte e dois. E duas cadeiras mais duas maçãs não são quatro»?

Também a primorosa capa de Diogo Droschi para A Dificuldade de Ser já é um dos pontos altos deste ano, dando a ideia precisa desse homem multiforme e ainda incrivelmente moderno: «Gostaria de dizer a verdade/Gosto da verdade. Mas ela não gosta de mim/A verdade é esta: a verdade não gosta de mim/Mal acabo de dizê-la, ela muda de rosto e volta-se contra mim/Tenho o ar de mentir e todos me olham de revés…/Mentiroso, eu? No fundo, já não sei. Sinto-me confuso/Que tempo o nosso! Serei um mentiroso?/Pergunto–lhes. Sou antes uma mentira/Uma mentira que diz sempre a verdade» (trecho de O Mentiroso[5]).

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TRECHO SELECIONADO

«O que é a linha? É a vida… Na obra do escritor, a linha prima pelo conteúdo e pela forma. Ela atravessa as palavras que ele reúne. Emite uma nota contínua que nem o ouvido nem o olho percebem. De algum modo, ela é o estilo da alma e se essa linha parar de viver, se ela desenhar apenas um arabesco, a alma estará ausente e a escrita morta. É por isso que eu repito incessantemente que o progresso moral de um artista é o único que vale a pena, já que essa linha debanda desde que a alma enfraquece a sua chama. Não confunda progresso moral e moral. O progresso moral consiste apenas em resistir…»

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NOTAS

[1] “La difficulté d’être”, publicado originalmente em 1947 e revisado pelo autor pouco antes de sua morte, em 1963

[2] «Por que você escreve peças de teatro? Pergunta-me o romancista. Por que você escreve romances? Pergunta-me o dramaturgo.  Por que você faz filmes? Pergunta-me o poeta. Por que você desenha? Pergunta-me o crítico… Sim, por quê? Eu me pergunto. Provavelmente para que a minha semente se espalhe por toda  parte. Eu conheço mal o sopro que me habita, mas ele não é suave…»

[3] «Ocorre que há seis meses eu sofro cada minuto, vejo  a dor tomar todas as formas, frustrar a medicina e continuo alerta e corajoso…»

[4] «…Não aceito, porém, que me tolerem. Isso fere o meu amor ao amor e à liberdade…» (cito o trecho de O livro branco na tradução de Aníbal Fernandes, lançada pela Assírio & Alvim)

[5] Que eu cito em tradução de Gastão Cruz, em O filho do ar, edição da Relógio D´Água).

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04/12/2012

A voz do povo: “Ouro dentro da cabeça”

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“…quem é que sabe, afinal, o que há de verdadeiro nas coisas que a gente lembra?, e que verdade se esconde nas coisas que a gente pensa que está inventando agora?” (O voo da guará vermelha)

“Pensei que até poderia enfim aprender a ler, porque ali por todo lado havia uma placa escrita. Se havia letras, havia gente que sabia ler, e, então, saí buscando caderno e quem quisesse me ensinar. Perguntava a todo mundo, homem, mulher e soldado, mas todos eles me olhavam como se eu estivesse louco:

__ Pra que aprender a ler, se nunca se ouviu dizer que lendo se encontra ouro?

   Começaram todos eles a me chamar de Doutor, a mangar de mim, me enganar, me aconselhando a procurar esse e aquele, que era um bom professor. Eu passava um dia inteiro procurando por Fulano pra, quando achava, saber que o sujeito era maluco, dos muitos loucos que havia, ou dos que já amanheciam afogados na cachaça. Por fim, vi que as bodegas dali não vendiam livro, nem um lápis, nem papel. Pensei aprender com as placas escritas pelas ruelas, mas, sempre que eu perguntava o que uma placa dizia, o outro sem nem olhar respondia as mesmas palavras que não iam me servir pra quase nada.

__ Compro ouro.

   Muitos dias se passaram, senti uma tristeza funda. Quando voltava da mata, onde eu ia bem cedinho controlar as arapucas e apanhar alguma fruta, entregava na cozinha o que eu trazia do mato, pra pagar minha pensão, e me largava na rede, cismando na minha vida, em tanta ilusão que eu tinha quando abandonei a Furna e desci aquela serra.

    Depois de tanto sofrer, embolando pelo mundo, o que é que eu tinha? Nadinha. A inocência perdida, assim como a alegria e a esperança de poder ler esses livros que eu ainda carregava e os livros todos que eu tinha a ambição e a certeza de ler, um dia, pra viver todas as vidas que alguém viveu e escreveu…” (Ouro dentro da cabeça)

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada em A TRIBUNA de Santos, em 04 de dezembro de 2012)

Além da realeza da nossa MPB, um dos maiores nomes da cena atual da nossa literatura, Maria Valéria Rezende, completa 70 anos em 2012 (no próximo dia 8).

Preocupada com a formação de novos leitores, ela vem realizando experiências fundamentais na área da literatura infanto-juvenil (O arqueólogo do futuro, 2007, pelo qual tenho um apreço especial; o delicioso O problema do pato, 2007, que discute diversas concepções de morte e sepultamento a partir da morte de um pato de estimação;os haicais de No risco do caracol, 2008, entre outros[1]) e agora lança a ousada reescritura de um dos estratos narrativos de sua obra-prima O voo da guará vermelha (2005), no qual o protagonista contava sua trajetória de vida, mas de forma enovelada e não-linear (como o romance se fazia num ritmo “mil e uma noites”, o relato de um episódio desembocava em outro, numa técnica de encaixes).

Em Ouro dentro da cabeça, o Rosálio de O voo da guará vermelha transforma-se em Marílio e, como um artista popular de praça pública, conta suas errâncias pelo mundo de uma forma mais ordenada. O tento da sua criadora é que, propondo basicamente um texto para leitores iniciantes, ela consegue apaixonar e enredar o leitor experiente,  por meio de um discurso narrativo tão convincente, tão plástico, tão expressivo, que a “voz” de Marílio ecoa dentro da nossa cabeça como pedra preciosa lapidada, bem pouco “naive”. Nada falta, nada sobra. Ou melhor: gostaríamos de mais aventuras (alguns episódios do romance anterior foram abreviados, como a história de João Santeiro[2] e sua mulher adúltera, a qual no entanto sempre voltava para ele, quando abandonada e estropiada pelo amante; outros foram suprimidos, como o do Gaguinho, que organizava espetáculos de teatro no morro), mas tratando-se da formação de um herói macunaímico, proteico como a feição mais natural do povo brasileiro, graças a Deus ainda não uniformizado completamente pela televisão e pelo consumismo, a tendência é para o infinito.

Não se pense que a brilhante autora de Vasto Mundo (2001) e Modo de apanhar pássaros à mão (2006) tenha apenas reordenado a busca de Marílio, desde que era o Coisa-Nenhuma, menino sem nome, mestiço numa comunidade de negros, a Furna dos Crioulos (“Logo que eu nasci, não se sabia bem a cor da pele… O silêncio de minha mãe sustentou esse mistério até que eu cresci um pouco, minha cor foi se mostrando), e que sempre teve como maior desejo alfabetizar-se (“a coisa que eu mais queria era aprender a ler livros, que, quando o Pajé morresse, e eu fosse um pouco maior, ia sair pelo mundo por mor de aprender a ler e a escrever”). Cada capítulo, já a partir do título, é moldado como uma volta do parafuso em torno do eixo central que é essa procura de sentido, de organização da experiência através da palavra (“Conforme ela ia lendo, vi que ali estava tudinho que eu tinha lhe contado, até minha viagem de avião. Pedi pra ela ler de novo e escutei, assombrado, ir saindo a minha história das letras naquele papel que a mulher tinha traçado. Como se fosse um sonho, um milagre, a voz da bêbada lendo, apontando as letras com o dedo e contando toda a história de Maria Flora, que eu achava que ela nem tinha escutado, nem lembrava”), e por meio de uma disposição tipográfica que mimetiza exemplarmente a “fala” do herói (o livro também é ilustrado de forma admirável, por Diogo Droschi).

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O Coisa-Nenhuma, o Piá, pupilo do forasteiro branco que lê histórias (como a de Dom Quixote) e que lega a ele uma caixa com livros, por causa de uma alfabetizadora cuja fugaz passagem pelo lugarejo ermo o frustra enquanto leitor e homem desabrochando, forja para si o nome de Marílio e ganha o mundo, conhecendo o drama dos sem-terra, dos trabalhadores em regime de escravidão nos latifúndios do país, o desmatamento criminoso, a loucura da busca pelo ouro nos garimpos alucinantes, tomando consciência do poder bruto da exclusão, em toda a sua significação: “Descobri que, na cidade, tudo aquilo que eu sabia… tudo aquilo que eu pensava que era bom conhecimento, não valia quase nada na cidade, quase nada. Fiquei burro de repente. Só valia força bruta dos meus braços, minhas pernas, como se eu só fosse um corpo com uma cabeça vazia.”.

No final de O voo da guará vermelha, morta Irene (para imensa tristeza do leitor), a outra protagonista da história (que não aparece em  Ouro dentro da cabeça), Rosálio diz: “vou para o meio do mundo contar tudo o que já sei e mais as coisas que eu só posso conhecer quando disser, soltando minhas palavras, sem teto, laje ou telhado por cima de minha cabeça que me separe de Irene, que eu sei que por onde for, a minha guará vermelha, minha mulher encantada, vai sempre me acompanhar…”

A impressão que temos, ao ler esse novo livro de Maria Valéria Rezende, é que ela, também contumaz viajante por todo o vasto mundo, incorporou em si, quase como uma alma gêmea, a dicção de Rosálio-Marílio, e que esta por sua vez é uma alegoria do povo brasileiro, que, das praças, dos grotões, dos lugares não-midiáticos, dá o ar da graça na páginas dessa pequena, mas preciosa pepita ficcional. Irene dentro de Rosálio, ele-Marílio dentro de Maria Valéria, caixinhas chinesas que proporcionam um dos encontros mais consequentes entre o oral e o letrado já efetuados neste país.

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[1] Em 2012, foi lançada também sua tradução para Micrômegas, de Voltaire.

[2] Em O voo da guará vermelha, ele se chamava João dos Ais.

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