MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

19/12/2010

O homem sem qualidades quando jovem

“Agora vocês têm um pensamento ou uma sensação, e quase ao mesmo tempo aparece um outro diferente, como se espocasse do nada. Se prestarem atenção podem até sentir, entre dois pensamentos, um instante em que tudo é absoluta escuridão”.

Quando Clarice Lispector estreou na literatura (em fins de 1943), muita gente viu nela uma espécie de Virginia Woolf brasileira ou aproximou-a do James Joyce de Retrato do artista quando jovem. Eu  sempre a achei mais próxima de outro grande autor, o austríaco Robert Musil, cujo primeiro livro (do qual foi tirado o trecho acima), o agora centenário O jovem Törless se parece bastante com os romances iniciais de Clarice, ao fingir utilizar um veículo narrativo tradicional apenas para que a estranheza não fosse absoluta (e também há o fato de os dois artistas ainda serem muito jovens).

Esses dois criadores geniais fingiam que eram narradores quando, na verdade, eram educadores de uma nova percepção e sensibilidade do leitor. Quanto à afinidade, basta citar um trecho de O Lustre (que Clarice publicou aos 26 anos, mesma idade de Musil ao lançar a história das perplexidades do aluno Törless), de 1946:

“E também sabia vagamente, quase como se inventasse, que dentro daquele intervalo havia ainda outro instante, pequeno, pálido e plácido, sem ter no seu interior nenhuma das coisas que ela estava vendo…” Ou então: “enquanto durava este segundo, de olhos fechados, rosto cauteloso e móvel, ela perscrutou-o longamente, mais longamente que o próprio segundo, sentindo-o então vazio, grande como um mundo não-povoado… Mas a visão da manhã apenas quisera faiscar dentro dela e seria inútil tentar enxergar o vazio de outro mundo.”

Musil: “Via por trás das pálpebras cerradas uma confusão de coisas acontecendo…via pessoas de um modo como nunca as vira, nunca as sentira. Mas via sem ver, sem imaginar, sem formar imagens, como se apenas sua alma as visse, eram tão nítidas que sua presença insistente atravessou-o milhares de vezes; no entanto, como se parassem no limiar de um umbral intransponível, recuaram assim que ele procurou palavras para dominá-las.”

É o mundo que subjaz sob as palavras e o pensamento que importa em O jovem Törless, ainda mais do que a história do adolescente que, num internato, envolve-se numa teia de crueldade, sadomasoquismo e perversão com outros dois colegas (Reiting e Beineberg) para atormentar um colega fraco e submisso, Basini (muitos viram nessas relações juvenis um prenúncio da mentalidade nazista, calcada na aniquilação do outro).

Musil propõe de forma poderosa o internato como microcosmo social, com suas grandes opressões e pequenas crueldades, mas é preciso reconhecer que esse importante aspecto foi o que mais ficou datado, de tanto que essa ambientação foi explorada, antes e depois. Basta lembrar que em 1888, Raul Pompéia já traçava um quadro definitivo do microcosmo que um internato pode ser da sociedade, em O Ateneu.

Na sua maior realização, um dos livros supremos do século XX, O homem sem qualidades (para ser mais exato, “O homem indefinido”), Musil abdicará de todas as amarras tradicionais, incluindo o sentido de “acabamento” (o texto ficou inconcluso). Mas é obrigatório para o apaixonado por literatura o convívio com o homem sem qualidades, que se sente possuidor de “um sentido a mais do que as outras pessoas, só que ainda incompleto), em sua versão juvenil, a qual embaraça professores e educadores com suas perguntas. Pois, como diz seu colega Beineberg, “depois delas ninguém encontra o caminho de volta”.

(resenha publicada em 29 de julho de 2006, devido ao centenário do livro de Musil, e baseada numa versão anterior, publicada em 17 de setembro de 1996)

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