MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

13/01/2016

TRADUÇÕES INÉDITAS QUE SE DESTACARAM EM 2015

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(uma versão do texto abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de janeiro de 2016)

Como sempre digo, não dá para ler tudo, nem gostar de tudo. Por isso, faço uma lista de destaques entre traduções de Iivros ainda inéditos (apesar das várias versões diretas de obras anteriormente traduzidas do francês ou do inglês, não as levei em conta) por aqui, dentro do meu recorte pessoal, limitado, de leituras:

Livro do Ano: submissão (Alfaguara- trad. Rosa Freire d’ Aguiar), de Michel Houellebecq: os impasses do Ocidente diante do islamismo assombram o romance moderno desde sua fundação, com Dom Quixote. Não é surpreendente, então, que embasem a mais perturbadora obra do gênero (inclusive devido aos acontecimentos na França) desta década.

Destacaram-se também (por ordem alfabética dos autores), e de antemão pedindo desculpas pelos comentários genéricos:

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O ROSTO DE UM OUTRO (CosacNaify- trad. Leiko Gotoda), de Kobo Abe – o rosto associado à noção de identidade dando ensejo a mais uma fábula-pesadelo do originalíssimo autor japonês (do clássico Mulher das Dunas) —indicado apenas para leitores fortes, rsrsrs;

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TRÊS VEZES AO AMANHECER (Alfaguara- trad. Joana Angélica d’Avila Melo), de Alessandro Baricco- desdobramento extraordinário do livro anterior (Mr.Gwyn) do grande escritor italiano, concretizando o conceito de “quadros escritos”;

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MAL-ENTENDIDO EM MOSCOU (Record- trad. Stella Maria da Silva Bertaux), de Simone de Beauvoir- o furor reacionário desencadeado pela inclusão da pensadora francesa no ENEM aumentou o interesse por esse texto “deixado na gaveta” e no qual se imiscuem as tensões e dissensões com Jean-Paul Sartre, companheiro de toda a vida;

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TEXTOS PARA NADA (CosacNaify- trad. Eloisa Araújo Ribeiro), de Samuel Beckett- na 13º. e última dessas experiências de derrisão com a prosa narrativa, lemos: «Enfraquece ainda, a velha e fraca voz, que não soube me fazer, sumindo para dizer que vai embora… »;

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A DIFICULDADE DE SER (Autêntica- trad. Wellington Júnio Costa), de Jean Cocteau- textos de cunho biográfico de uma força descomunal, produzidos durante uma grave enfermidade, por um dos maiores personagens da cultura do século 20;

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O VÉU ERGUIDO (Grua- trad. Lilian Jenkino), de George Eliot – a autora genial de romances imensos (Middlemarch), exercitando-se, em 1859, na arte da novela, roçando o sobrenatural numa alegoria sobre o medo do futuro e o autoengano;

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REMISSÃO DE PENA/ FLORES DA RUÍNA/PRIMAVERA DE CÃO (Record- trad. Maria de Fátima Oliva do Couto), de Patrick Modiano- a leitura conjunta desses romances do Nobel 2014 lança luz sobre o seu projeto obsessivo e reiterativo: narradores que tentam evocar algo de permanente, que remanesça (“flores da ruína”), em meio a uma memória fuliginosa e dissolvente;

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ROSA CANDIDA (Alfaguara- trad. André Telles), de Audur Ava Ólafsdóttir – romance sobre a imprevisibilidade que abre ao leitor brasileiro uma fresta para a ficção praticada na Islândia;

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QUANDO O IMPERADOR ERA DIVINO (Grua -trad. Lilian Jenkino), de Julie Otsuka-  já em seu primeiro romance, a autora de O Buda no sótão expunha cirurgicamente o apartheid vivido por famílias japonesas nos EUA;

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OS LARGADOS (Alfaguara- trad. Joana Angélica d’Avila Melo), de Michele Serra- brilhante reflexão ficcional sobre a arte de ser pai na pós-modernidade, diante dos nossos adolescentes hiperconscientes de si mesmos e seus aplicativos;

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SONHOS EM TEMPO DE GUERRA (Biblioteca Azul- trad. Fabio Bonillo), de Ngũgĩ Wa Thiong’o- belíssimo e ao mesmo tempo desolador volume de memórias do escritor queniano, sempre cotado como um dos favoritos para o Nobel, e cujo romance Um grão de trigo foi também traduzido este ano (pela Alfaguara, por Roberto Grey);

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ABSOLUTAMENTE NADA E OUTRAS HISTÓRIAS (34- trad. Sergio Tellaroli), de Robert Walser- excepcional seleção  (lançada no final de 2014)de inclassificáveis 41 textos curtos do admirável prosador suíço: «Ir à cidade, eu fui, e queria, sim, comprar algo de belo e de bom para mim e para você; boa vontade não me faltou, estudei, estudei, mas a escolha era difícil e a cabeça estava em outro lugar, por isso não consegui, por isso não comprei absolutamente nada.  Hoje, vamos ter de nos contentar com absolutamente nada, não é mesmo? Absolutamente nada é o que há de mais rápido para preparar e, de todo modo, não causa indigestão… »;

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O SOL E O PEIXE (Autêntica- trad. Tomaz Tadeu), de Virginia Woolf- a autora de algumas das maiores obras-primas da literatura, também era uma arguta ensaísta e cronista, como atestam as nove preciosas amostras aqui reunidas;

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AS RÃS (Companhia das Letras- trad. Amilton Reis), de Mo Yan –um pouco prolixo, mas importante romance do Nobel 2012 sobre a interferência da esfera pública numa ilusória “vida pessoal” (no caso, a política governamental chinesa do f ilho único).

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TRECHO DE UM GRÃO DE TRIGO

«Quanto mais fraca ficava, mais ela o detestava. Fosse o que fosse que ele fizesse ou arranjasse, lá vinha ela diminuir o seu esforço. Assim, Mugo vivia assombrado pela imagem da própria inadequação. Ela possuía um modo de acabar com ele, numa pergunta, talvez, sobre suas roupas, sua cara ou suas mãos, que fazia todo seu orgulho despencar. Ele fingia ignorar as opiniões dela, mas como podia fechar os olhos a suas expressões e sorrisos enviesados?

Seu único desejo era matar a tia.

Uma noite esse pensamento demente o possuiu. Ele fervia por dentro. Naquela noite Waitherero estava sóbria. Ele não usaria um machado ou panga. Iria pegá-la pelo pescoço e estrangulá-la com as próprias mãos. Dê-me forças; dê-me forças, meu Deus. Olhava-a se debater, como uma mosca entre as patas de uma aranha; seus gemidos e gritos abafados pedindo piedade chegavam a seus ouvidos. Ele apertava com mais força, obrigava-a a sentir a força de suas mãos de homem. O sangue acorria para a ponta de seus dedos. Ofegante, estava profundamente fascinado pela audácia e a coragem do próprio gesto.

“Por que você está me olhando assim?”, Waitherero perguntou, rindo guturalmente. “Eu sempre disse que você era esquisito, do tipo capaz de matar a própria mãe, hein?”

Ele se encolheu. A forma como ela o via por dentro era dolorosa.

 Waitherero morreu de repente de velhice e de tanto beber. Pela primeira vez desde o casamento, suas filhas vieram até a cabana, fingiram não ver Mugo, e a enterraram sem fazer perguntas nem derramar lágrimas. Voltaram para casa. E então, estranhamente, Mugo sentiu falta da tia. Quem mais poderia agora chamar de parente? Queria alguém, qualquer um, que representasse uma família para ele, não importava se fosse bom ou mau. Tanto fazia, desde que ele não ficasse abandonado, excluído».

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