MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

21/11/2017

UM AUTOR PARA SER DESCOBERTO (SEGUNDA PARTE)

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 21 de novembro de 2017)

“Fica um sabor de ausência – que tantas vezes eu senti na vida – resultado da atitude daquela tartaruguinha sonhadora, que só quer fazer o que não é possível”. Na semana passada, iniciei um comentário sobre “COMO SÃO CATIVANTES OS JARDINS DE BERLIM”, de Decio Zylbersztajn. O trecho citado é de “Não existe mulher como Giulietta”.

Eu o escolhi por representar o grande tema da maioria dos contos: a frustração. É o caso das vidas do microcosmo retratado em “Pletzale” (“A fechadura e a porta são as mesmas desde a minha infância. Só que hoje eu não vou ter tempo para fazer este reparo – pensou Julio, enquanto alcançava a grade de ferro antiga que separa a vila, formada por casas idênticas, da rua cheia de galpões comerciais. Ao sair, dobrou à esquerda, subiu a ladeira, atravessou a primeira esquina movimentada, e seguiu por três quarteirões até o Pletzale. Fez os mesmos movimentos que fazia todos os dias, previsíveis e lentos”), o qual me lembrou o universo de Naguib Mahfouz e Isaac Singer.

Em “Encruzilhada” há um jogo de gato e rato entre um empresário e uma velha senhora. O título é tanto topográfico quanto existencial. Em “O milagre do São Gonçalo”, acompanhamos a eterna expectativa da protagonista, com o curioso nome de Ultima, por um violeiro genérico (“A filha de seu Tião da Dô lançou um olhar para Juca, que continuou a receber os pratos, compartilhando a tarefa de ajeitar a mesa. Ultima sentiu o calor do corpo de Juca, os dois estavam espremidos pela multidão que se apertava no espaço do altar. O rapaz tinha cheiro de florada de café, misturado com suor de cavalo. Tudo muito familiar. Percebendo o sol sumindo no poente, Ultima levou as mãos à nuca para arrumar os cabelos e saiu para banhar-se, se preparar para a dança de São Gonçalo. Não faltava muito tempo par ao término da missa”).

E nesse livro de timing sobra espaço para “Mão pesada”, que seria aterrador se a realidade não o fosse mais. “COMO SÃO CATIVANTES OS JARDINS DE BERLIM” é um dos livros mais importantes da década.

14/11/2017

UM AUTOR PARA SER DESCOBERTO (PRIMEIRA PARTE)

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 14 de novembro de 2017)

“Seu Mazinho se lembrava de tudo. Lembrava-se das histórias vividas e mais ainda das histórias vividas e mais ainda das histórias contadas. Parece que aqueles causos que ouvira dos velhos eram os mais reais. Tinham entrado fundo na sua lembrança. As histórias vividas não tinham as cores nem os sons e cheiros daqueles que seus ouvidos de bacuri ouviram. Com o passar do tempo, Mazinho já não sabia se sabia de ter ouvido ou se sabia de ter vivido. Era tudo igual em sabença”; “De vivo mesmo, só ficaram as histórias ouvidas que circulam pelas suas veias caboclas”.

Os trechos acima são de “Duelo com o Pescador”, onde Decio Zylbersztajn faz uma brilhante analogia entre histórias de pescaria e a chegada da “civilização branca”, destruindo a cultura e economia caboclas, herdadas dos índios e negros.

“Qual a graça de existir um parque vazio? ”, lemos no conto – título de “COMO SÃO CATIVANTES OS JARDINS DE BERLIM” (o qual curiosamente destoa dos outros 10 da coletânea, mas é uma obra-prima), uma intrigante trama sobre duas irmãs ucranianas, uma delas viciada em heroína, que se envolvem com um turista provinciano, que adora parques, e um velho jardineiro. Não deixe ninguém contar o desfecho, que vai mostrar a “graça” de um parque vazio.

Decio Zylbersztajn é bom tanto nos relatos mais curtos, além de ser afeito às frases lapidares. É o caso de “Puro sangue Árabe”, “A chuvarada”, ambos excelentes. E eu fico estupefato de ele não ter mais reconhecimento (continua na próxima semana).

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