MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

12/04/2011

O LIVRO DE CABECEIRA DE DORIAN GRAY

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de abril de 2011)

“Sempre tentei viver numa torre de marfim, mas uma maré de merda arrebenta os muros, quer derrubá-los…”

(Gustave Flaubert, 1872)

“Nossos mais ardentes momentos de êxtase são meras sombras daquilo que algures sentimos ou daquilo que desejamos um dia sentir. Ao menos assim me parece. E, o que é bastante estranho, o que disso resulta é somente uma curiosa mistura de ardor e de indiferença. Eu mesmo sacrificaria tudo por uma experiência nova, mas sei que não existe em absoluto algo assim como uma experiência nova…”

(Oscar Wilde, 1886)

Em O Retrato de Dorian Gray (1891), o protagonista ficava abalado por um livro venenoso”, que parecia a ele “conter a história de sua própria vida, escrita antes de ele a viver”. Era uma referência velada a uma obra-prima que existe de fato: Às avessas [“À rebours”], de Joris-Karl Huysmans (1848-1907), cuja magnífica tradução (de José Paulo Paes) foi incluída na coleção de clássicos da Penguin-Companhia das Letras[1]. Oscar Wilde estava em Paris— em lua-de-mel, aos 29 anos—, no momento em que o romance era lançado (em 1884), tendo sido colhido diretamente pelo seu impacto.

De minha parte, só vim tomar conhecimento menos genérico do romance de Huysmans, em 1995, num curso que o próprio José Paulo Paes ministrou na pós-graduação (embora  como professor não fosse nem de longe tão vivaz e interessante como era como escritor multifacetado: ensaísta, poeta, tradutor), em que ele comparava duplas de romances, entre elas a dupla Às avessas e Mocidade Morta, de Gonzaga Duque.[2]

O herói de Às avessas, Des Esseintes, último e lânguido representante de uma estirpe aristocrática, por sofrer do “mal do século”, o spleen, o tédio, a saciedade absoluta—além de um refinamento estético que o faz desprezar a cultura burguesa, a mediocridade mercantilista da sua época—,personifica uma tendência chamada decadentismo[3], na qual—na contramão dos ideais de progresso, fraternidade e igualdade (“Seu desprezo pela humanidade aumentou; compreendeu enfim que o mundo se compõe, na maior parte, de sacripantas e imbecis… A essa altura, já sonhava com uma refinada tebaida, num deserto confortável, com uma arcada imóvel e tépida onde ele se refugiaria, longe do incessante dilúvio da parvoíce humana”)—procura-se uma Torre de Marfim para cultivar a própria sensibilidade.

Atacado pela nevrose (o nome pré-psicanalítico da neurose), não suportando mais viver entre seus semelhantes, Des Esseintes se isola numa casa modelada conforme seus princípios peculiares, com dois criados, nos arredores de Paris. Uma parte da decoração lembra um navio, dando a ele a impressão de estar viajando: “Ele obtinha assim, sem sair de casa, as sensações rápidas, quase instantâneas, de uma viagem de longo curso”. Para esse excêntrico, “a imaginação podia facilmente substituir-se à realidade vulgar dos fatos”. Pois “o artifício parecia outrossim a Des Esseintes a marca distintiva do gênio humano. Como ele costumava dizer, a natureza já teve a sua vez”.

O fascinante em Às avessas é que nada acontece no romance. Até o final, em que a evasão de Des Esseintes é colocada em xeque pelo seu médico, a única peripécia é um divertidíssimo episódio de “viagem” à Inglaterra, após a leitura de Dickens: ele prepara as malas, sai de casa, vai a Paris, sob bátegas de chuva (“ruído monótono de sacos de ervilha despejados acima de sua cabeça pelo aguaceiro que se derramava sobre as malas  e a cobertura do fiacre”), refugia-se num restaurante inglês, come e bebe à larga, mais do que o seu costume (“Sentia um peso no estômago e uma moleza pelo corpo todo”) e desiste de prosseguir, já tendo experimentado os “ares de além do canal da Mancha”. Para que prosseguir? : “…uma imensa aversão pela viagem, uma imperiosa necessidade de ficar tranqüilo se lhe impunham com uma firmeza cada vez mais acentuada, cada vez mais tenaz (…) Em suma, experimentei e vi o que queria experimentar e ver. Estou saturado de vida inglesa desde a minha partida (…) regressou, com suas malas, seus pacotes, suas valises, seus estojos, seus guarda-chuvas e suas bengalas, a Fontenay, sentindo o esfalfamento físico e a fadiga moral de um homem que retorna ao próprio lar ao cabo de uma longa e perigosa viagem…”


No mais, ficamos conhecendo as idéias e experiências (narradas com uma volúpia inventariante e enumerativa que faz desse romance uma espécie de As palavras e as coisas fin-de-siècle XIX) desse quixotesco herói nos campos da literatura, bibliofilia, mobiliário, decoração, moda, jóias e pedrarias, pintura, floricultura, licores, perfumaria.

Egresso do Naturalismo (o movimento literário que então dominava o romance), ex-discípulo de Zola, pode-se ter a impressão de que Huysmans rompeu com a feição naturalista e se bandeou para os lados do Simbolismo-Parnasianismo, ao criar essa existência emparedada no esteticismo e no elitismo, esse ser de exceção. No entanto, me parece que ele mais dá ênfase ao absurdo dessa existência e a parodia do que lhe ratifica os princípios (como pensou equivocadamente o Dorian Gray de Wilde, que se deixou “contaminar” pelo livro). Patrick McGuiness evoca a dupla flaubertiana Bouvard e Pécuchet em sua introdução ao texto de Huysmans, porém eu reivindico a precedência, já que o meu exemplar da edição de 1987—todo anotado na leitura de 1995—ostenta na pág.132 a seguinte observação na margem: “é quase um lado Bouvard e Pécuchet: tudo malogra”; eu me referia às experiências botânicas de Des Esseintes as quais acabavam por agravar sua nevrose (e todos devem lembrar dos absurdos experimentos da tola dupla flaubertiana0, tirados da leitura de milhares de livros): “Seu tédio passou a não conhecer limites; fora-se a alegria de possuir mirabolantes florações; já estava farto de sua contextura e de seus matizes;pois, malgrado os cuidados de que as cercou, a maior parte das plantas pereceu…” Outro exemplo: ele manda cravejar de pedrarias preciosas a carapaça de uma tartaruga para que ela combine com suas tapeçarias (é obcecado por nuances, matizes e combinação de cores em seus ambientes). O encarregado do serviço entrega o pobre animal, causando espanto nos criados; após um episódio rememorativo, Des Esseintes “inquieta-se com a tartaruga”: “Ela não se movia mais; apalpou-a; estava morta. Habituada sem dúvida a uma existência sedentária, a uma vida humilde passada sob a sua pobre carapaça, não conseguira suportar o luxo deslumbrante que lhe impunham, a chapa rutilante de que a haviam revestido, as pedrarias que lhe tinham engastado nas costas, como um cibório…”


Ademais, de ponta a ponta do romance, avulta o fisiologismo, numa presença saturante que nada fica a dever aos romances naturalistas mais ortodoxos. Do peso da hereditariedade (a deterioração da estirpe dos Des Esseintes) a dores de dente e lavagens estomacais, passando por estados patológicos e interesses “anormais” (algumas predileções sexuais de Des Esseintes), sem contar a presença da autoridade médica, todo o aparato do Naturalismo se faz onipresente em contracanto à sua linguagem parnasiana, com seu gosto descritivo e vocabulário preciosista. Nesse sentido, além do pendor inventariante ao qual já aludi, Às avessas é uma espécie de livro-síntese, fazendo valer a vocação enciclopédica do romance, que seria uma característica do Alto Modernismo.

Por falar em fisiologismo, há um lado assustador e odioso em Des Esseintes: podia-se imaginar que esse esteta, no seu isolamento, cultivasse apenas o suprassumo da civilização. Não, ele tem um gosto específico pela perversidade, pelos artistas que trabalham com o sofrimento humano, a tortura, a brutalização e a destruição do corpo, com massacres e suplícios, “corpos crestados sobre os braseiros, crânios com a calota decepada por sabres, trepanados por pregos, entalhados com serras, intestinos arrancados do ventre e enrolados em bobinas, unhas lentamente extraída com tenazes, pupilas vazadas, pálpebras reviradas com aguilhões, membros desconjuntados, quebrados com cuidado, os ossos postos a descoberto, demoradamente raspados a faca”. Foi dessas mentes sensíveis, desses eleitos, que surgiram as lideranças do totalitarismo que semeará o terror décadas depois.  Nessas estufas é que foi cultivada a flor dos nazismos  vindouros.[4]

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VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/04/08/o-retrato-desfigurado/

https://armonte.wordpress.com/2011/03/30/mr-hyde-emoldurado/

https://armonte.wordpress.com/2011/04/14/um-decadentista-fora-da-estufa-as-cidades-e-as-serras/


NOTAS

[1] A Companhia das Letras publicara a tradução de Paes em 1987, um dos primeiros títulos de seu catálogo. A edição atual, com introdução e notas de Patrick McGuiness, teve Donaldson M. Garschagen como tradutor do material inédito.

A capa traz a reprodução de um óleo de  Frantisek Kupka, Le yellow scale, de 1907, que traz uma lãnguida figura masculina que lembra sobremaneira Lúcio Cardoso, autor de Crônica da casa assassinada.

[2] Esse romance de 1900 é, no mínimo, uma curiosidade. Seus personagens são um grupo de artistas e intelectuais, cujas aventuras—ou antes desventuras—são narradas num estilo divertidamente pomposo e meio ridículo. Para narrar que um deles broxou, eis que “nascia-lhe, deste íntimo entendimento, uma rijeza de ânimo para suportar as desventuras que a sua hiperestesia aumentava com a nitidez e a grandeza das pesquisas microscópicas, dentre as quais ressaltava este percebido insucesso para o requesto, esta falha de masculinidade para o gozo comum da mulher… que ele, agora, desprezava, insexualizando-se numa elevada espiritualização de desprendimento da carne, até a suposição alucinante da hipocrisia abjeta do próprio amor, na sua mais imperiosa mutualidade de tendências gestativas, sublimizadas pela estesia poetizante de cada ser. A digressão reminiscente, penosa e demorada que fizera pelo passado, excitou a complicada filigrana do seu aparelho nervoso, predispondo-o a trabalhar nas suas frases atormentadas de incontentável, consubstanciando-se a irregularidade heteresial na contextura sintética de páginas originais, com a fina penetração das autopsicologias…”

O final do livro também serve como exemplo delicioso: “O plenilúnio, alma do esoterismo, transformada em astro, estranhamento belo como uma esfíngica e régia coroa de fantástica ninféia luminosa, levada pelo bafejo sussurrante da loucura sobre a quietação morta de uma lagoa infinita, ia flutuando, boiando, deslizando, serena e indiferentemente, banhada em seu halo de pérolas lucifeitas, a aveludar as ilusões dos que põem os olhos nos céus, a esmaecer nos sonhos as almas meigas dos que lhe vão na esteira macia de sua luz nostálgica, a esvair na sucessão de enganos os que a seguem, pela Terra, fascinados… fascinados… fascinados… Para onde?”


É preciso dizer que o universo de Huysmans pode ser enfadonho, exasperante e até antipático, mas está longe de ser cômico assim. No entanto, Des Esseintes—seu protagonista—também sofre de impotência. Quando ela se manifesta, após anos de desregramentos e deboches, ele oferece, “para celebrar o mais fútil dos infortúnios”, um “retumbante jantar”, um banquete de luto no estilo século XVIII:

“Na sala de jantar forrada de preto, aberta para o jardim de sua casa subitamente transformado, com as aléias cobertas de carvão em pós, o tanquezinho debruado agora de um parapeito de basalto e cheio de tinta, os maciços providos de ciprestes e pinheiros, servira-se o jantar sobre uma toalha negra, guarnecida de violetas e escabiosas, iluminada por candelabros onde queimavam chamas verdes e castiçais onde ardiam velas. Enquanto uma orquestra dissimulada tocava marchas fúnebres, os convivas haviam sido servidos por negras nuas, de chinelas e meias de tecido de prata pontilhadas de lágrimas…”


Além da impotência, há o fantasma da sífilis, moléstia que pode ter acometido Des Esseintes que tem um pesadelo apocalíptico com ela (“a mirada terrível da sífilis que sentia pesar sobre si”), contudo mesmo antes do episódio onírico, ele tem uma visão da humanidade “trabalhada sem cessar pelo vírus das épocas antigas. Desde o começo do mundo, de pai para filho, todas as criaturas transmitiam umas às outras a imperecível herança, a eterna doença que devastou os antepassados dos homens”. A conclusão do herói de Huysmans: “Tudo não passa de sífilis”.

Segundo Richard Ellmann, Oscar Wilde  (1854-1900) também contraiu sífilis. No seu estilo expressivo, o grande biógrafo nos diz que “talvez nesse momento tenha começado a se formar em sua mente a parábola da decadência secreta de Dorian Gray, enquanto a espiroqueta começava a subir pela espinha dorsal em direção às meninges…”

[3] A dica aqui é Caminhos do Decadentismo Francês, de Fúlvia L. Moretto, que nos fornece um panorama completo desse Zeitgeist.

Nas duas últimas décadas do século XIX, sem que se prefigurasse um movimento específico, reconhecível facilmente, difundiu-se um esteticismo que configurava uma “mentalidade decadentista. Ela herdou um tanto do spleen ultra-romântico, um tanto do misticismo de Swendenborg, um tanto do pessimismo de Schopenhauer, um tanto da música de Wagner, um tanto do imaginário de Poe. Mesclou-se com o nascente Simbolismo, enquanto também encantava os parnasianos e nem o “realista” Flaubert deixou de sentir o seu influxo.

Há, em certa parte da elite intelectual, um sentimento de vazio, a sensação de que algo morre e que se está em uma civilização em declínio, um mundo em decomposição. Enquanto o povão e a outra “elite” (classes abastadas) vivem a euforia e o otimismo em função da ideologia positivista, os decadentes procuram se evadir dessa grande farsa burguesa e utilitarista.

Um dos fenômenos mais interessantes do decadentismo é o fato de que seus adeptos desdenhavam a prosa de ficção, no sentido de construção de intrigas, de pormenores realistas. Muito mais cultuada, e considerada mais rara, era a prosa poética, mais evanescente, menos tangível enquanto mimesis da realidade. Por isso, o decadentismo não produziu muitos romances, por razões óbvias. Duas exceções notáveis: o próprio Dorian Gray (em Oscar Wilde, o decadentismo se traduziu como esteticismo, sobre o qual ele discorreu em inúmeras conferências pelo Reino Unido e por todos os EUA), e, claro, Às avessas, o grande, autêntico e genuíno romance decadentista. Ao discorrer sobre suas preferências literárias, Des Esseintes faz a apologia do “poema em prosa”: “De todas as formas de literatura, a do poema em prosa era a preferida de Des Esseintes. Manejada por um alquimista de gênio, ela devia, a seu ver, encerrar em um pequeno volume o poder do romance de que suprimia as longas análises e as superfetações descritivas. Muito freqüentemente, Des Esseintes meditara sobre esse inquietante problema: escrever um romance concentrado em algumas frases que contivessem o suco coado das centenas de páginas sempre preocupadas em estabelecer o ambiente, em desenhar os caracteres, em acumular exageradamente as observações e os pequenos fatos…”


Um aspecto que me interessa particularmente em todas as considerações de Des Esseintes a respeito dos (poucos) autores contemporâneos que ele admira, é que os admiráveis apresentam um “estilo novo”, “o verbo indispensável às civilizações decrépitas que para expressar suas necessidades exigem, não importa em que época se produzam, acepções, estruturas, construções novas, tanto nas frases quanto nas palavras…” Uma equação insólita, não?, se insinua nessas reflexões: civilização decrépita + estilo novo.

Outra dica, além do livro de Fúlvia L. Moretto, é o ensaio “Os usos da decadência: Wilde, Yeats, Joyce” no qual Richard Ellmann fala bastante de Às avessas. Ele pode ser encontrado em ao longo do rio corrente (a edição brasileira que eu tenho é de 1991, não sei se foi reeditada pela Companhia das Letras–a tradução é de Denise Bottmann, o que é uma garantia de rigor e qualidade).

[4] E sabe-se como o catolicismo em sua feição mais reacionária, o antissemitismo arraigado e o chauvinismo francês tem parentesco de primeiro grau com o nacional-socialismo. É preciso lembrar também que, antes de isolar-se, um dos experimentos de Des Esseintes é a tentativa de criar um assassino: ele pega um rapazote Zé-ninguém, sem vintém, leva-o a um bordel chique, oferece-lhe todos os prazeres e combina com a dona que ele terá acesso de quinze em quinze em dias durante três meses: “…ao cabo de três meses, suspendo a pequena renda que te vou entregar adiantadamente para cumprimento dessa boa ação, e então ele irá  roubar a fim de poder voltar aqui; lançará meio de todos os meios para revolver-se nesse divã à luz desse gás!”. Pode-se argumentar que tal  episódio é pueril e inconseqüente. Eu acho que não. Não quero dizer que Huysmans seja um Des Esseintes, mas este prefigura um tipo que facilmente aderirá ao nazismo e/ou será colaboracionista.

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