MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

03/04/2018

UMA CORROSIVA SÁTIRA À LEITURA ALIENADA

Filed under: Livros que eu indico — alfredomonte @ 16:27
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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 03 de abril de 2018)

Quem, começar “O ÚLTIMO LEITOR” do mexicano David Toscana, com a expectativa elegíaca de homenagem ao ato de ler, ficará desapontado.

“Há um Deus que não diferencia as cores da pele, que ama igualmente negros e brancos… Lucio bufa e fecha abruptamente o livro. Duzentas páginas para que esse negro venha dar lição de moral feito uma freira”. Lucio, o último leitor, responsável pela biblioteca do miserável povoado de Icamole (onde não chove há anos), é mesquinho e tirânico. Os livros que não lhe agradam recebem o carimbo de censurado e são jogados num recinto infestado de baratas. Não suporta emprestar livros, embora seja sua função, lembrando o protagonista de “bibliomania”, de Gustave Flaubert, que assassinava os compradores de seus livros.

Uma menina é descoberta morta no poço de Remigio, o único com água na região. Lucio ajuda a esconder o corpo sob um abacateiro, o qual a partir daí passa a ter frutos melhores e mais doces (uma situação similar ao romance de Manoel Herzog, o ótimo “A Jaca do Cemitério é mais doce”).

Uma das manias mais irritantes de Lucio é aplicar acontecimentos reais situações lidas em romances (para ser justo, eu também faço isso: com o estado de coisas no Brasil me sinto num livro do genial Leonardo Sciascia, com sua Itália de corrupção e banditismo em todas as esferas). A menina morta se chama Anne, mas ele se refere a ela como Babette, heroína de um dos seus poucos romances preferidos. Esse jogo se torna insólito quando aparece na cidade a mãe da menina para investigar o paradeiro da filha, e ela se envolve com Lucio. Admiradora do mesmo romance, passa a se referir à filha como Babette.

Causou-me estranhamento a afirmação na orelha: “é, sobretudo, uma celebração dos romances que sabem embriagar e seduzir”. Pra mim, o livro de David Toscana é uma corrosiva sátira ao leitor alienado, incapaz de aprender com a experiência e adquirir sabedoria. Há uma cena em que o padre do povoado urina e o líquido logo desaparece na aridez do solo. É a mesma coisa que acontece com a mente do último leitor.

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