MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

18/04/2015

OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES: Agatha Christie para nerds

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 31 de janeiro de 2012)

Apesar da deplorável e escandalosa decisão editorial de traduzir o livro da versão francesa e não do original sueco[1], me envolvi muito com o mistério criado por Stieg Larsson  (1954-2004) no primeiro volume da série Millennium (nome da revista dirigida pelo protagonista, Mikael Blomkvist), Os homens que não amavam as mulheres: a investigação, décadas depois, do desaparecimento e possível assassinato de Harriet Vanger, em 1966, aos 16 anos, numa pequena ilha onde os moradores são  membros da sua família, que se odeiam e hostilizam entre si (e alguns deles têm um passado de engajamento nazista).

Mikael (condenado num processo de difamação jornalística, e que por esse motivo aceita o trabalho, afastando-se da Millennium) se reúne a uma parceira improvável: a hacker que preparou o dossiê a respeito dele para o empresário Henrik Vanger, o qual todos os anos recebe uma flor emoldurada como presente de aniversário, gesto que credita ao assassino da sobrinha.

Lisbeth Salander é uma figura disfuncional, com aparência anoréxica, toda tatuada, parecendo uma menina ainda, e um comportamento antissocial acentuado. Ela nunca baixa a guarda (e, pelo desenvolvimento da trama, não deve mesmo, pois sofre severos abusos sexuais de um tutor legalmente constituído, já que ela apresenta histórico psiquiátrico; aliás, diga-se de passagem, o diagnóstico de Stieg Larsson sobre a liberdade na Suécia, a violência contra a mulher e o estado de corrupção nas finanças do país parecerá desalentador a quem tenha ilusões com os países ultra desenvolvidos e civilizados).

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Conforme vai descobrindo novas pistas a partir da manipulação modernizada de fotos antigas, e também de uma associação entre passagens do Levítico bíblico anotadas pela desaparecida Harriet e brutais crimes contra várias mulheres, a dupla se sente cada vez mais ameaçada no microcosmo familiar da ilha onde os Vanger habitam.

Esse núcleo de mistério clássico foi muito bem adaptado na versão cinematográfica, que eliminou alguns elementos importantes do romance (como a ligação amorosa de Mikael com uma Vanger) sem grande prejuízo e alterou a solução do desaparecimento da Harriet de uma forma que considero muito mais eficaz e bem sucedida que a de Larsson.

Infelizmente, o competentíssimo e estiloso (embora nada pessoal) filme de David Fincher manteve o calcanhar de aquiles que compromete o resultado final de Os homens que não amavam as mulheres . Solucionado o  caso da família Vanger, Mikael volta à Millennium para ajustar contas com o corrupto empresário Wennerström, que o liquidara nos tribunais. Até aí tudo bem. Acontece que ele faz Lisbeth Salander virar uma heroína de romance de Robert Lundlum ou do seriado Alias (aquele do J.J.Abrams, onde Sidney Bristow-Jennifer Garner se disfarçava a torto e direito pelo mundo afora, acessando qualquer sistema ou área restrita): dando uma de loira fatal, turbinada e poderosa, limpará as contas do vilão pela Europa afora e fará dele um fugitivo arruinado e com a cabeça à prêmio. Ora, ora. Até Rooney Mara, indicada ao Oscar, e cuja caracterização é absolutamente perfeita, vacila nessa hora, tropeça e vira uma caricatura. Não dá para  para um leitor ou espectador verdadeiramente adulto não achar lamentável essa transformação de Agatha Christie em fantasia nerd.

A personagem, que era o grande trunfo de Stieg Larsson, transforma-se num elemento risível. E Os homens que não amavam as mulheres perde todo o seu encanto sombrio. Mas talvez já se devesse pressentir tal triste fim diante de passagens como a seguinte, ao longo do texto: “A mochila continha seu iBook Apple 600, branco, com o disco rígido de 25 gigas e memória RAM de 420 megas, fabricado em janeiro de 2002 e com tela de 14 polegadas. Quando o adquiriu, era o que havia de melhor na Apple (…) Fizera cópias de todos os documentos e ainda possuía um velho computador de mesa Mac G3 e outro Toshiba portátil que poderia usar (…) Optou, como era de se esperar, pela melhor escolha possível: o novo Apple Powerbook G4 de 1Ghz, com tampa de alumínio e dotado de um processador Power PC 7451, AltiVec Velocity Engine, memória RAM de 960 megas e disco rígido de 60 gigas. Tinha Bluetooth e um gravador de CD e DVD integrado. Mais que isso, era o primeiro notebook do mundo com tela de 17 polegadas, uma placa Nvidia e resolução de 1440 por 900 pixels…” A Apple agradece o merchandising.

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[1] Tradução de Paulo Neves (de Les hommes qui n´aimaient pas les femmes). Millennium-I (Män som hatar kvinnor, Suécia, 2005)

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07/10/2014

“Garota Exemplar” e a dificuldade para ser um homem ou uma mulher (quanto mais uma pessoa) real

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  Era verdade que eu também sentira isso durante o último mês, quando não queria machucar Amy. Isso me ocorria em momentos estranhos—no meio da noite, dando uma mijada, ou pela manhã, servindo uma tigela de cereal–, identificava uma ponta de admiração e, mais que isso, afeto por minha esposa, bem no fundo de mim, nas entranhas. Saber exatamente o que eu queria ler naqueles bilhetes, me reconquistar, até mesmo prever todos os meus erros… A mulher me conhecia a fundo. O tempo todo eu pensara que éramos estranhos um para o outro, e na verdade nos conhecíamos intuitivamente, em nossos ossos, nosso sangue.

    Era meio romântico…” (trecho de Garota Exemplar)

“Se ela puniu uma amiga de alguns meses se jogando de uma escada, o que faria com um homem burro o bastante para se casar com ela?” (idem)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 07 de outubro de 2014)

Amy Exemplar é heroína de uma popular série de livros juvenis. Sempre faz as escolhas corretas e seu comportamento é impecável. Rand e Marybeth Elliott, os autores, têm uma filha chamada Amy, a quintessência da nova-iorquina sofisticada, linda e inteligente, que no entanto passou por experiências desagradáveis por causa de seu alter ego fictício: além de esperaram dela a perfeição (“o eu que eu deveria ser”), é constante a perseguição de pessoas obcecadas.

Sua vida começa a desmoronar mesmo quando ela e Nick Dunne, o marido, perdem o emprego, e os pais quase entram em falência (a série ficou fora de moda e eles fizeram investimentos ruins), tudo na esteira da recessão americana de anos recentes. Nick propõe uma mudança para sua cidade natal, Carthage (Missouri), com seus “derrotados satisfeitos”, corroída pelo desemprego endêmico e pela falta de perspectivas. Ali, a mãe dele está morrendo de câncer, o pai misógino e truculento sucumbindo ao Alzheimer. Amy investe o resto do seu dilapidado pecúlio num bar que Nick resolve montar com a irmã gêmea.

No dia do aniversário de cinco anos de casamento, ela desaparece, com fortes indícios de violência. Como dirá o advogado de Nick, problemas financeiros+ casal em crise e esposa grávida+ a existência de uma amante= suspeito número um.

Garota Exemplar [Gone Girl, 2012—que eu comento na tradução de Alexandre Martins] é dividido em três partes. Na primeira, com brilhantismo e uma prosa fantástica[1], Gillian Flynn alterna os pontos de vista de Nick e Amy, ele narrando os acontecimentos a partir da constatação do sumiço de Amy; ela, através de um diário, descrevendo o processo de transformação do casamento numa ratoeira de empobrecimento, hostilidade mútua e medo: “Nick se casou comigo quando eu era uma mulher jovem, rica e bonita, e agora sou pobre, desempregada, mais perto dos quarenta que dos trinta; não sou mais só bonita, sou bonita ´para a minha idade´. É a verdade: meu valor diminuiu. Posso dizer pelo modo como Nick olha para mim. Mas não é o olhar de um sujeito que se deu mal em uma aposta honesta. É o olhar de um homem que se sente enganado. Logo poderá ser o olhar de um homem preso em uma armadilha”.

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Após esse tour de force, na segunda parte descobrimos que a vitimização de Amy era um engodo meticulosamente planejado como uma vingança contra Nick, por ter sido infiel e por não corresponder à ideia de “marido exemplar”. Curiosamente, nem assim o leitor chega a simpatizar com esse homem fraco, manipulador de um charme “viril-vulnerável” (eterno filhinho da mamãe), o qual, se não chega às raias do ódio contra as mulheres do pai (e de toda uma faixa de machos emasculada pela crise econômica, tal como o Meio-Oeste é soturnamente retratado, apesar das fortes ligações comunitárias), começa a acreditar numa espécie de conspiração global das mulheres contra ele (é alvo de ataques constantes na mídia, muitos deles comandados por apresentadoras de programas sensacionalistas): “Andie tinha me sacaneado, Marybeth se virara contra mim, Go perdera uma dose crucial de fé, Boney preparara uma armadilha para mim, Amy me destruíra. Servi-me de uma bebida. Tomei um gole, apertei os dedos ao redor do copo e o arremessei contra a parede, vi o vidro explodir como fogos de artifício, ouvi o barulho tremendo, senti o cheiro da nuvem de Bourbon. Fúria em todos os cinco sentidos. Aquelas piranhas desgraçadas…”[2]

     Garota Exemplar é, então, uma reflexão ficcional sobre os EUA mergulhado numa regressividade tanto econômica quanto no plano das relações (“É uma época muito difícil para ser uma pessoa, apenas uma pessoa real, de verdade, em vez de uma coleção de traços de personalidade recolhidos de uma interminável máquina automática de personagens”). E, sobretudo, sobre impasses sexistas, em que os indivíduos têm consciência aguda das suas identidades de gênero, numa polarização quase alegórica. Nesse sentido, o romance está longe de ser um mero thriller, e dá para entender o interesse em filmá-lo de David Fincher[3], que já explorara o perturbador avesso misógino e brutal da sempre dita avançada sociedade sueca, em Os homens que não amavam as mulheres (usando um material literário bem inferior, pois Stieg Larsson é medíocre e sua trama foi até melhorada, dentro do possível na adaptação cinematográfica do diretor de Zodíaco, mesmo assim pouco empolgante[4]).

O erro de Gillian Flynn, sem que ela chegue a empanar o virtuosismo da sua prosa, é fazer de Amy um gênio do mal, com pormenores tão exagerados (até seu passado, quando se descobre a verdade sobre os supostos perseguidores, ganha a atmosfera irreal daqueles filmes do tipo Mulher Solteira Procura, A Mão Que Balança o Berço, A Órfã—enfim, o meu leitor poderá lembrar-se facilmente de vários exemplos) que tiram boa parte da força da história. Perde-se o tenso equilíbrio entre “a verdade, a não verdade e o que poderia ser verdade” que sustentava a alternância das narrativas. E Nick, apesar de conhecermos seu lado abjeto, se torna mais humano, em contrapartida a essa hiperbólica Amy Vilã.

A meu ver, Garota Exemplar é praticamente uma obra-prima, digna de O Colecionador, de John Fowles, e maior rival contemporâneo dos romances policiais de Kate Atkinson (Quando haverá boas notícias?; Saí cedo, levei meu cachorro), até a pág. 347 (na edição brasileira). A partir do momento em que Amy se deixa “sequestrar” por um bizarro admirador, que a manterá prisioneira numa erma mansão, e depois parte para a psicopatia explícita, o relato pode até manter o interesse por conta da habilidade ímpar da autora; contudo, parece ter se rendido às fórmulas fáceis. Mesmo o destino monstruoso que imprimirá ao casamento de Nick e Amy fica comprometido com esse ranço de suspense barato. No frigir dos ovos, os dois personagens, tão complexos e reveladores durante a maior parte do romance, reduzem-se a clichês sexistas padronizadores: ela, uma piranha psicopata; ele um banana babaca.

Há uma lista imensa de agradecimentos no final. Quem será o responsável por tê-la orientado para esse caminho inglório? 1/3 de concessões comprometendo 2/3 de puro talento.

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TRECHO SELECIONADO

“__ Sabe Noelle Hawthorne?—perguntou Boney.—A amiga de Amy que você nos mandou investigar?

__ Espere, quero falar sobre as contas, porque elas não são minhas—interrompi.—Quer dizer, por favor, falando sério, precisamos rastrear isto.

__Vamos rastrear, sem problemas—disse Boney, inexpressiva.—Noelle Hawthorne?

__ Certo. Eu disse para vocês darem uma investigada nela porque ela tem circulado por toda a cidade se lamentando por causa de Amy.

     Boney ergueu uma sobrancelha.

__ Você parece bravo com isso.

__ Não, como eu disse, ela parece um pouco abalada demais, meio que de modo falso. Ostensivo. Buscando atenção. Um pouco obsessivo.  

__ Conversamos com Noelle—explicou Boney.—Ela diz que sua esposa estava muito perturbada com o casamento, chateada com a coisa do dinheiro, com medo de que você estivesse casado com ela por causa do dinheiro. Diz que sua esposa se preocupava com seu temperamento. 

__ Não sei por que Noelle diria isso; não acho que ela e Amy tenham trocado mais de cinco palavras na vida.

__ Engraçado, porque a sala de estar dos Hawthorne está cheia de fotos de Noelle e sua esposa—disse Boney, franzindo a testa.

    Eu também franzi a testa: fotos reais dela e Amy?

    Boney continuou:

__ No zoológico de St. Louis em outubro passado, em um piquenique com os trigêmeos, em um fim de semana de junho passeando de bote. Junho, no sentido de mês passado.

__ Amy nunca pronunciou o nome de Noelle durante todo o tempo que moramos aqui, Estou falando sério.

    Revirei meu cérebro pensando em junho passado e esbarrei em um fim de semana em que viajei com Andie, dizendo a Amy que faria uma viagem com os rapazes a St. Louis. Voltei para casa e a encontrei com bochechas rosadas e com raiva, reclamando de um fim de semana de coisas ruins na TV a cabo e leituras tediosas no cais. E ela estivera em um passeio pelo rio? Não. Não podia pensar em nada que interessasse menos Amy do que o típico passeio de bote do Meio-Oeste: cerveja boiando em recipientes amarrados a canoas, música alta, jovens bêbados, acampamentos salpicados de vômito.

 __ Vocês têm certeza de que era minha esposa nas fotos?

    Eles trocaram olhares que diziam: ele está falando sério?”

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NOTAS

[1] Veja-se a seguinte passagem: “…Amy estudara em um colégio interno em Massachusetts chamado Wickshire Academy—eu vira as fotos, Amy de saia de lacrosse e faixa na cabeça, sempre com cores outonais ao fundo, como se a escola não fosse em uma cidade, mas em um mês…”; ou ainda: “Ele me conduziu a uma sala de estar severa, de uma masculinidade imaginada por um decorador”.

[2] Andie é a jovem amante (aluna no seu curso de jornalismo); Marybeth,  a sogra; Go, a irmã gêmea; Boney, a detetive que investiga o sumiço de Amy e que aparentemente simpatiza com Nick.

Por seu turno, acompanhando de longe o desenrolar do caso, Amy afirma: “Mesmo agora o babaca tem mulheres cuidando dele. Mulheres desesperadas identificando uma brecha”. Por essa visão crua de certo comportamento feminino, alguns comentadores do livro acusaram a própria Gillian Flynn de misógina.

[3] Com a maravilhosa Rosamund Pike como Amy e Ben Affleck como Nick (para o qual ele tem, a princípio, o physique du rôle). No momento em que escrevo o texto acima, ainda não assisti ao filme.

[4] Mesmo porque na parte final a protagonista feminina dá uma de “mulher fatal” internacional, uma sequência meio ridícula.

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01/02/2012

“Os homens que não amavam as mulheres”: encanto e frustração

… há dezenas e dezenas de assassinatos de mulheres não solucionados na Suécia do século XX. Certa vez ouvi Persson, o professor de criminologia, dizer na tevê que os assassinos seriais são muito raros na Suécia, embora alguns jamais tenham sido identificados (…) Esses crimes foram cometidos num período muito longo e em diferentes regiões do país (…) Não há um esquema claro, marcante. Os crimes foram cometidos de formas diferentes e não há uma verdadeira assinatura, apesar de alguns elementos retornarem toda vez. Animais, Fogo. Violências sexuais graves. E, como você disse, uma paródia de conhecimentos bíblicos. Mas, pelo que se sabe, nenhum dos investigadores da polícia usou a Bíblia para interpretar os crimes…”

 

(o texto abaixo foi condensado para uma resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 31 de janeiro de 2012)

TRADUÇÃO E ESTILO

É escandaloso que as editoras brasileiras ainda publiquem traduções indiretas a partir de versões francesas ou anglo-americanas, como fez (em 2008) a Companhia das Letras com a série Millennium (2005), de Stieg Larsson (1954-2004): Paulo Neves, por exemplo, traduziu o primeiro volume, Os homens que não amavam as mulheres de Les hommes qui n´aimaient pas les femmes e não de Män som hatar kvinnor, o que explica talvez por que o título é tão rebarbativo, quando simplesmente seria mais lógico e preciso “Os homens que odiavam as mulheres”. O fato é tanto mais inexplicável porque, neste caso específico, o retorno financeiro era garantido, será que não poderiam investir numa versão direta do sueco?

Por conseguinte, a primeira observação a ser feita é que não dá para julgar o estilo de Larsson, sua qualidade geral como escritor, graças às opções da edição brasileira. Seria uma impropriedade, ainda mais porque de fato me incomodei muito com algumas passagens demasiadamente pedestres (sem contar quase que um tom publicitário, em certos momentos). Vou dar alguns exemplos, para desimpedir a área e falar do enredo, todavia é preciso considerar que se trata de uma versão de uma versão, e por isso não se pode chegar a nenhuma conclusão, mesmo que o leitor experiente possa alimentar algumas suspeitas:

(pág. 64): “Às vezes viam-se com tanta freqüência que tinham a impressão de ser um casal; outras vezes transcorriam semanas, meses, entre cada encontro. Mas, como os alcoólatras atraídos pelas prateleiras de bebidas após um período de abstinência, retornavam sempre um para o outro em busca de mais (…) Aí veio a Millennium e, menos de uma semana depois, todas as resoluções vieram abaixo quando, no final de um dia de trabalho, os dois fizeram amor selvagemente em cima da mesa de Érika…”

(pág. 136): “Tentou falar com Érika mais uma vez, e ouviu uma voz pedindo que deixasse uma mensagem. Fez isso, depois apagou a luz e foi se deitar. Seu último pensamento antes de dormir foi que corria o sério risco de enlouquecer com o isolamento de Hedeby...”1

(pág. 200-201): “A mochila continha seu iBook Apple 600, branco, com o disco rígido de 25 gigas e memória RAM de 420 megas, fabricado em janeiro de 2002 e com tela de 14 polegadas. Quando o adquiriu, era o que havia de melhor na Apple (…) Fizera cópias de todos os documentos e ainda possuía um velho computador de mesa Mac G3 e outro Toshiba portátil que poderia usar (…) Optou, como era de se esperar, pela melhor escolha possível: o novo Apple Powerbook G4 de 1Ghz, com tampa de alumínio e dotado de um processador Power PC 7451, AltiVec Velocity Engine, memória RAM de 960 megas e disco rígido de 60 gigas. Tinha Bluetooth e um gravador de CD e DVD integrado. Mais que isso, era o primeiro notebook do mundo com tela de 17 polegadas, uma placa Nvidia e resolução de 1440 por 900 pixels…”

(pág. 271): “Num dos primeiros dias de junho, Mikael foi a Hedestad. Estava pensando em outra coisa, quando o ônibus entrou na estação, e foi então que subitamente se deu conta do que havia germinado em seu cérebro. A luz o atingiu como um relâmpago num céu sem nuvens…”

Creio que é suficiente. Não insistirei no assunto.

ENREDO E MISTÉRIO

Passei dois dias inteiros entretido com a leitura das quinhentas páginas de Os homens que não amavam as mulheres. Como se diz, devorei o livro. Realmente me envolvi com a história do jornalista Mikael Blomkvist (um dos editores-sócios da revista investigativa Millennium, de Estocolmo) que vai para a isolada ilha de Hedeby, em Hedestad, para (a princípio relutantemente; convencido, contudo, com a possibilidade de virar o jogo contra o mega-empresário Wennerström, que o derrotara na justiça, impondo-lhe três meses de prisão e uma indenização) oficialmente escrever a biografia do idoso (82 anos) e afastado chefe de um tradicional grupo empresarial familiar da Suécia, agora em declínio, Henrik Vanger, e extra-oficialmente revisar todo o material acumulado desde 1966, ano do sumiço e provável assassinato da sobrinha do milionário, Harriet (que morava com ele, pois o pai se afogara e a mãe era uma alcoólatra), aos dezesseis anos.

O paradeiro de Harriet Vanger nunca foi descoberto nem o suposto crime solucionado. Nos aniversários de Henrik, a menina tinha o hábito de lhe dar flores emolduradas. Após 1966, ele continuou a receber esse tipo de presente, e como desconfia de que foi um dos membros da família que se livrou de Harriet (pouco antes de seu desaparecimento, ela disse—com outras pessoas presentes—que precisava muito conversar com ele, mas um acidente dramático na ponte que liga a ilha ao continente tomou a atenção de todos naquele dia), também suspeita que esse envio de flores é um perverso ato do assassino para infernizar sua vida, mantendo-o obcecado.

Mikael cai num ninho de cobras (ao mesmo tempo, é um encanto do livro narrar de forma tão meticulosa o cotidiano que ali estabelece, a paisagem, os tipos humanos, até o comércio local, parece que nos ilhamos com ele): as casas locais são habitadas por empregados leais ou parentes que se detestam e não se falam, a família tem na sua árvore genealógica vários membros que foram ativos participantes de movimentos nazistas, e a única pessoa realmente simpática, fora Henrik, é o seu atual sucessor à testa do grupo empresarial consideravelmente encolhido, mas gozando ainda de prestígio: Martin, irmão de Harriet.

Dos demais, a que mais se aproxima de Mikael (e se aproxima mesmo, pois iniciam uma ligação sexual) é Cecilia Vanger, só que depois ela se alinha com o restante dos familiares na pressão para que se afaste (ele sofre um atentado, o gato que acolhe na casa de hóspedes é esquartejado, e todos começam uma campanha de hostilidade explícita), quando fica evidente que está descobrindo novos fatos e indícios, nunca antes vistos no material reunido por Henrik ao longo das décadas.

Fazendo um tratamento tecnológico moderno das fotos de Harriet no dia do seu desaparecimento, ele percebe que antes de atravessar a ponte e voltar para casa, para a reunião familiar anual que ali acontecia, a garota viu algo em Hedestad que a perturbou e que fez com que ela quisesse ter a conversa esclarecedora com Henrik. E graças a uma visita da própria filha (envolvida em estudos bíblicos, causando preocupação ao pai), Mikael descobre que certos números e nomes anotados no diário de Harriet são referências ao Levítico, e ele estabelece uma ligação entre as passagens que os números apontam e brutais assassinatos (com mutilações terríveis, além de estupro) de mulheres ao longo de décadas por toda a Suécia. O que ele não consegue entender é como uma adolescente de dezesseis anos podia saber detalhes de tais crimes…2

Essa atmosfera de local isolado e microcósmico, com um pequeno grupo de suspeitos, sempre me cativará, é o legado Agatha Christie, e faz com que me interesse até por coisas do tipo Caçadores de Mentes, de Renny Harlin, que não é nenhuma maravilha, mas cuja premissa é atrativa.

Nem importa muito que se saque bem antes do final quem é o assassino e o que aconteceu com Harriet. Sob o ponto de vista do mistério tradicional, dá para ler numa boa, com grande prazer, Os homens que não amavam as mulheres.

Acontece que não é só Mikael quem investiga o caso. Após se convencer de que há uma ligação entre o sumiço/provável morte por homicídio de Harriet e os crimes envolvendo as mais diversas mulheres, ele solicita ajuda para pesquisa do advogado de Henrik (o qual sofrera um infarto e está internado), Dirch Frode, que também pertence à lista dos suspeitos, e este revela sem querer que chegaram ao nome de Mikael através de um minucioso dossiê elaborado pela estranha investigadora da firma de segurança de Dragan Armanskij, uma figura disfuncional e no entanto eficientíssima em seu tipo de serviço subterrâneo, Lisbeth Salander (que, creio eu, Stieg Larsson tomou como seu grande achado ao conceber Millennium, e o sucesso de Rooney Mara na adaptação cinematográfica parece lhe ter dado razão).

Mikael fica ao mesmo tempo horrorizado e fascinado com o dossiê elaborado pela hacker que é tutelada pelo Estado (devido ao seu histórico psiquiátrico), procurando-a então e vencendo sua habitual resistência a qualquer pessoa, principalmente tipos masculinos que evocam “autoridade”, sua antissociabilidade, seu quase autismo, a atrai para a pesquisa dos históricos dos assassinatos.

Creio que é a hora de parar de falar dos eventos narrativos, sob o risco de ser por demais indiscreto e desmancha-prazer. O que se tem de verificar agora é se a participação de Lisbeth Salander realmente ajuda na história ou se a atrapalha. Para mim, há uma mistura dos dois resultados.

Para começar, há um deplorável proselitismo de Larsson com relação à violência contra as mulheres (que parece ser alarmante na insuspeita Suécia, assim como o nível de corrupção e o apego a elementos fascistas), representado por estatísticas e certas insistências desnecessárias. Não precisava tanta falta de sutileza: o título, o desvendamento dos crimes, passados e presentes, tudo deixaria isso muito mais claro e menos demagógico (mesmo porque ele, caso vivesse, lucraria muito com o livro). E o drama da própria Lisbeth Salander já seria suficiente (apesar dos exageros): ela sempre foi bem tratada por um tutor compreensivo, que talvez fosse a única pessoa de sua confiança, e que lhe permitiu liberdade absoluta na condução da sua vida; este, entretanto, sofre um AVC e lhe designam outro, que controlará suas finanças e abusará dela sexualmente, de forma particularmente hardcore, até que ela lhe o troco. Esse troco me parece um dos pontos discutíveis da narrativa, muito mirabolante e fantasioso. Pode até ser catártico para todos nós a maneira como ela se livra do tutor, pouco antes de Mikael aparecer em carne e osso na sua vida (e ela se apaixonará, de uma maneira também um tanto forçada), mas é uma das voltas do parafuso com o qual Lisbeth Salander, se por um lado ajuda no encanto entretecedor da história como elemento de uma dupla investigativa carismática, por outro a atrapalha e faz adernar.

Tudo bem sua disfuncionalidade e aparência pouco ortodoxa, se é que isso ainda existe (anoxérica, parecendo uma adolescente aos vinte e quatro anos, toda tatuada e cheia de piercings3) como contraste à figura mais convencional de Mikael. O que me irrita profundamente é que os autores sempre caem no clichê de mostrar que, por trás da disfuncionalidade, não há apenas uma inteligência normal, mas genialidade. Sim, porque a certa altura percebemos que Salander é praticamente um gênio da informática, além de possuir memória fotográfica, claro, consumindo documentos com a mesma facilidade do nerdíssimo dr. Reid de Criminal Minds. É mentalidade de seriado e de fantasia juvenil. Enfim, ela não podia ser esquisita apenas e envolvente como personagem, tinha de ser algo hiperbólico, vencendo inclusive um arguto (e fortíssimo fisicamente) adversário no desfecho do mistério da ilha (enquanto Mikael está em posição de vítima).

E é por isso que embora eu tenha me deixado envolver e gostado deveras do mistério da ilha, acho horrível e pentelha toda a parte final (além de longa), o momento do novo confronto entre Mikael e Wennerström, sua nêmesis inicial. O fato de ter enveredado por esse caminho não é, entretanto, a razão da decepção causada por essa parte. Se fosse mais curta, e menos hiperbolizada, seria um final perfeito.

Acontece que Stieg Larsson resolveu fazer de Salander uma heroína de livros de Robert Ludlum, ou então algo entre Lara Croft e a Sydney Bristow, protagonista daquele delicioso seriado Alias (vivida por Jennifer Garner), a qual rodava o mundo em poucas horas, disfarçava-se de qualquer coisa, entrava em qualquer sistema ou área restrita.

Transformada numa mulher poderosa e turbinada, Salander vai esvaziando pela Europa afora contas estratégicas de Wennerström e Os homens que não amavam as mulheres se torna um outro livro para mim, uma ficção indigesta pelo qual não tenho o menor interesse, simpatia ou envolvimento (mesmo assim, com um instinto caça-níqueis invejável, cortejando a porção adolescente cada vez maior do público, que parece não se contentar mais com um tom adulto nas histórias, tem que ter essa reserva de puerilidade, muito enfatizada pela mentalidade nerd predominante). Ele já abusara da paciência, nos levando a Austrália (não contarei o porquê). Antes tivéssemos ficado em Hedeby, em meio às intrigas da família Vanger.

O FILME DE DAVID FINCHER

Por todos os motivos expostos acima, acabei apreciando mais o resultado final do filme de David Fincher, apesar das inevitáveis super-simplificações da trama e de detalhes apressadamente contados, que são inevitáveis quando se faz uma versão tradicional, sem nenhum empenho autoral, de um livro. Pois, apesar do trabalho estiloso, elegante, Fincher certamente fez um filme pouco pessoal, nada como o esplêndido Zodíaco, por exemplo. Mas muito eficiente.

O  roteiro de Steve Zaillian eliminou certas situações, sem prejuízo (como o caso com Cecilia Vanger e a período na prisão) e conseguiu um grande achado, alterando a solução do paradeiro de Harriet de forma muito mais consistente e bem-amarrada do que no romance (nada tira o fato de que não se pode ter a menor simpatia por uma pessoa que atormenta durante trinta e poucos anos uma pessoa dita amada, mandando-lhe presentes que ganham um ar macabro e perverso). É pena que ele não promoveu alterações mais profundas no final, que ficou mais rápido e enxuto (como devia ser no livro), dando mais dignidade à revanche de Mikael, mas ainda com a inverossímil e ridícula intervenção de Lisbeth Salander no mundo das altas (e escusas) finanças.

E aqui entra o calcanhar de aquiles de Rooney Mara, indicada para tantos prêmios de atriz principal (entre eles, o Globo de Ouro e o Oscar). Que ela é perfeita para o tipo de personagem, isso é inegável, e toda a sua composição cai como uma luva, principalmente no contraponto com o ótimo Daniel Craig (que está demais: ao invés de James Bond, temos um tipo meigo, sutil, quase frágil, sem veleidades de herói, inclusive no plano físico), até o clímax. Já era meio cômico ver a graciosa Jennifer Garner e seus disfarces de “fatal” e “poderosa” em Alias, só que era um dos fetiches da série: os seus absurdos. Quando Rooney Mara tem de se caracterizar quase como uma Bond girl na etapa final, ela acaba caindo na caricatura e convence muito pouco. Fica parecendo a vulgaríssima Cristina Aguilera quando quer dar uma de diva do passado ou figura de musical.

Mesmo assim, como thriller cinematográfico, Os homens que não amavam as mulheres convence mais, no todo, do que o romance. No futuro, preferirei frequentar essa versão abreviada e sintética de uma narrativa de quinhentas páginas que resultou mal alinhavada. A historinha no fundo está toda ali e numa dose mais aceitável.

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 1 O que representa uma risível super-suscetibilidade do personagem, que mal chegara ali. Diante do que acabara de enfrentar (um processo de difamação) e iria enfrentar depois (prisão, a investigação de um crime cheia de tensão, perigo de morte), o trecho soa como puro efeito vazio.

2Aliás, diga-se de passagem, o diagnóstico de Stieg Larsson sobre a liberdade na Suécia, a violência contra a mulher e o estado de corrupção nas finanças do país é meio desalentador, e contraria os estereótipos que as pessoas adoram apregoar sobre um país ultra-avançado em todos os sentidos civilizatórios.

3  -O que justifica o título original, muito mais atraente, a meu ver, do filme: The Girl with the Dragon Tattoo.

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