MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

09/09/2012

O Gênesis da Psicanálise e sua Lilith, ou pelo menos é assim que john “um método muito perigoso” kerr

(resenha publicada de forma mais condensada, e sem notas de rodapé,  em A TRIBUNA de Santos, em 24 de abril de 2012)

    Era quase inevitável que o grande David Cronenberg, um dos maiores diretores de cinema vivos, chegasse a Freud. Afinal, seus originalíssimos filmes sempre transitaram pela zona em que as fantasias se apossavam do corpo e criavam híbridos (Videodrome, Gêmeos-Mórbida semelhança, The Naked Lunch-Mistérios e Paixões, Crash-Estranhos Prazeres, eXistenZ etc). E suas últimas realizações, Marcas da violência e Senhores do crime, nas quais aborda submundos mafiosos através de dilemas envolvendo lealdades e figuras paternas, já preparavam a arena para o confronto entre o “pai”da psicanálise (vivido pelo já cronenberguiano Viggo Mortensen) e seu maior e mais decepcionante discípulo-“filho” (Jung, o esplêndido Michael Fassbender, uma força da natureza–como parece ter sido o próprio      pensador suíço–mesmo  em figurino “almofadinha”). Por isso, Um método perigoso parece tanto uma obra de mestre, sintetizando os caminhos de uma carreira perturbadora. Se a encenação é só na aparência “convencional”, só não combina mesmo aquelas horríveis anotações no final, indicando o destino de cada personagem “real”.

    A peça que o inspirou, The talking cure, de Christopher Hampton (não sei se como ele é como dramaturgo, como roteirista é notável), foi por sua vez baseada num volumoso e quase sufocante trabalho historiográfico (na verdade, o livro é meio inclassificável) de John Kerr, lançado pela Imago (numa edição cheia de erros) da seguinte forma: Um método muito perigoso- Jung, Freud e Sabina Spielrein: a história ignorada dos primeiros anos da psicanálise [ a tradução de Laura Rumchinsky para A most dangerous method: the story of Jung, Freud and Sabina Spielrein, EUA-1993]. O título vem de uma advertência sobre a psicanálise feita por William James EM 1909: “Eu espero que Freud e seus discípulos levem suas ideias até seus limites extremos, de modo que possamos saber do que se trata (…) No meu próprio caso, não posso fazer nada com suas teorias dos sonhos e obviamente o simbolismo é um método muito perigoso”.

   Kerr relata, com doses maciças de pormenores, como Freud, após anos de isolamento em Viena, com suas ideias “perigosas”, aproxima-se dos psiquiatras suíços, entre eles o jovem Jung, cujo carisma e entusiasmo (além de ser um homem atraente) fazem com que o movimento psicanalítico, na feição freudiana, se torne uma força internacional, conquistando até a América. Para Freud, inclusive, uma das vantagens dessa liderança “política” de Jung estaria no fato de ele não ser judeu (de fato, podemos dizer que ele protagoniza Um método muito perigoso). De qualquer forma, dois pólos logo se fazem visíveis no mundo da recém-formada disciplina: o de Viena e o de Zurique.

   Acontece que, sob a ótica de Kerr (na verdade, seguindo as pistas de um livro anterior, de Aldo Carotenuto chamado A secret symmetry: Sabina Spielrein between Freud and Jung, de 1982), o tratamento a que se submete com Jung uma paciente russa, Sabina Spielrein (que, no filme, oferece a Keira Knightley a chance de um trabalho mais arrojado do que o de costume), e o subsequente envolvimento amoroso entre os dois (que pode ameaçar sua carreira como médico e por isso ele se afasta dela, embora seja afetado pelo resto da vida por esse relacionamento1), em que além do sexo, há uma interação teórica, leva o discípulo a conceber conceitos que contrariam o cânone do mestre.

   A paciente se torna psicanalista, formando-se em medicina, bandeia-se para o lado de Freud, e paralelamente o movimento sofre uma cisão: em 1913, há a ruptura definitiva (já há muito anunciada) entre Freud e Jung, porque o primeiro não aceita o pendor místico do segundo, cada vez mais evidente em seus mergulhos na mitologia e no simbolismo da salvação e do heroísmo (o uso de figuras arianas como Siegfried também não ajuda muito, embora seja um código erótico particular entre Sabina e Jung, que depois vai alimentar todo o seu imaginário enquanto teórico: “O fato de Spielrein ter sido amante de Jung de forma alguma teria perturbado Freud. Mas o fato de Siegfried, o próprio símbolo da união entre eles, pudesse ter sido subsequentemente reinterpretado como indicativo de uma luta espiritual interior, teria sido chocante. Tal interpretação subvertia toda a teoria psicanalítica e, de quebra, podia sugerir o pior tipo de hipocrisia, sob o ponto de vista de Freud, a hipocrisia sexual mascarada pela bazófia religiosa”).

   É preciso dizer que se trata de um assunto fascinante, e enquanto acompanhamos Freud e Jung, o livro de Kerr nunca deixa de ser interessante, apesar de sua chatice (ele é um mau narrador) e de sua evidente má vontade com relação aos dois (especialmente, no que tange a Freud, por quem tem uma mal disfarçada antipatia), que aparece em formulações discutíveis como a seguinte: “O mérito intelectual da posição de Jung, contudo, por si só não cancelou o fato de a mesma estar emocionalmente carregada”!!??

   O que torna o projeto ridículo, quando não constrangedor, é que, afora a evidente importância biográfica (tão bem caracterizada por Hampton & Cronenberg), em toda a sua ambivalência, ele pretende impor a noção de que Spielrein é o elo perdido desses primórdios da psicanálise, quando não sua Lilith: uma teórica tão importante quanto Freud e Jung, se não mais, uma vez que um de seus trabalhos supostamente resolveu problemas pendentes da teoria geral de Freud (como o conceito de “repressão”2), nunca resolvidos nem pelo “pai” e muito menos pelo “filho”: “A teoria verdadeiramente admirável de Spielrein estava na iminência de se transformar em assunto morto. Há pouco, Jung havia interpretado erroneamente que ela descrevia um desejo de morte; e Freud também interpretara de forma equivocada que ela falava de suas próprias tendências caracterológicas. Nenhum dos dois parou para pensar no que ela havia alcançado. No entanto, para onde haveria de se encaminhar a teoria psicanalítica se não na direção apontada por ela?”

   Mas se esse era o objetivo-guia de Kerr, mostrar um destino esmagado e tornado obscuro pelas políticas, intrigas e mesquinharias dos detentores do poder psicanalítico, ele mesmo tem sua quota no triste fim da amante de Jung, pois soterra sua participação no livro de tal forma, com sua descrição (hesito em usar “sua análise”, já que toda vez que se aventura por esse caminho o resultado é desastroso, como se pode ver por um exemplo: “Os vinte meses seguintes, de janeiro de 1913 a agosto de 1914, foram decisivos. Em nível pessoal, a questão a ser resolvida durante esse período era o que Jung e Freud—e Spielrein—fariam agora que estavam todos irrevogavelmente sozinhos. No fundo, cada um à sua própria maneira, eles recolheram, para dentro de si mesmos e com tristeza, o amor e a idealização que haviam sentido pelos outros”!!??) do pensamento e da correspondência entre Freud e Jung, que, mesmo desmistificados, eles saem do livro tão gigantescos quanto sempre foram, e lá no meio, espremida, está a pobre e sofrida Sabina Spielrein (a não ser no último capítulo, o único que faz justiça a ela enquanto “personagem”). Um método perigoso, esse de John Kerr, de fazer alguém obscuro reviver através de seu relato. O que ele não entendeu é que essa é uma história de meninos, com toda a admiração mútua e a competição que compõem esse tipo de relação. A menina, aqui, sobra.

 

1 Veja-se este trecho de uma carta de 1919 de Jung para Sabina: “O amor de S. por J. fez com que este último se conscientizasse de algo que antes era uma vaga suspeita, ou seja, de um poder no inconsciente que molda o nosso destino, um poder que mais tarde o conduziu a fatos da maior importância…”

2 “Na primavera de 1911, trabalhando sozinha em Munique, Sabina Spielrein resolveu em essência o problema conceitual apresentado pela repressão sexual (…) de repente percebeu que tinha uma contribuição muito diferente a dar, que, em outros tempos, poderia ter assegurado sua reputação. Sua teoria mostrava por que a repressão tendia a agir específica e inevitavelmente contra os desejos sexuais, como se fossem diferentes de todos os outros desejos. O segredo estava em como se definia a sexualidade. Freud continuava a defini-la em termos de descarga e prazer; só que esta definição tornava difícil conceber por que deveria ser reprimida com tanta regularidade. Spielrein, ao contrário, percebeu que a sexualidade poderia ser caracterizada em termos bem diferentes—como se procurasse a fusão e não o prazer—e que, uma vez assim conceitualizado, o problema da repressão sexual praticamente se resolvia por si só…”

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