MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

08/02/2010

O (PE)DANTE DE GIULIO LEONI

Pois bem, temos crimes ligados a concepções heréticas e blasfemas do mundo, conspirações cuja origem é o poder da igreja Católica, símbolos esotéricos, uma mulher que pode abalar os alicerces da civilização cristã, com um apelo ao mesmo tempo erótico e místico, igrejas sinistras, catacumbas, passagens secretas e, é claro, os templários, que parecem ser responsáveis por quase tudo o que aconteceu nos últimos dois milênios, ataques do PCC incluídos…

Parece familiar? E é. E será enquanto os tolos formarem legião, conforme nos advertiu Umberto Eco, e encamparem as baboseiras dos códigos da Vinci e das operações cavalo de Tróia. Só que o livro em questão é Os Crimes do Mosaico (I Delitti Del Mosaico, Itália 2004). Nele, o italiano Giulio Leoni pega outro gênio da humanidade, Dante Alighieri, e o torna o investigador de sua trama: em junho de 1300, Dante é prior, uma autoridade mais de prestígio (o qual não funciona muito quando se está afogado em dívidas e perseguido por agiotas) do que de fato, em Florença, pertencente ao partido dos Brancos, que logo serão vencidos, o que acarretará seu exílio da cidade, “no meio da sua vida” (como colocará no início da Divina Comédia).  O Papa Bonifácio está de olho na cidade e não hesita em utilizar meios radicais para apressar seu domínio, como mandar envenenar o vinho dos priores, não para que eles morram, mas que sejam desmoralizados devido a alucinações.

Um mosaicista, pertencente a um círculo de intelectuais, o Terceiro Céu, cuja missão é restaurar uma velha igreja para que se possa ali instalar uma universidade, é assassinado e, ao procurar seus confrades, os quais se reúnem numa taberna, Dante conhece Antilia (preste atenção no nome dela, é uma pista, se é que isso importa, leitor), uma dançarina que pode ser a herdeira do imperador Frederico, e, portanto, uma ameaça às pretensões hegemônicas de Bonifácio.

No peito do morto fora traçado um pentágono, seu mosaico evoca o número 5 e este começa a avultar em todas as inquirições feitas por Dante. Investigando o enigma, ele se confronta com os inquisidores papais, com um exército de ladrões que pratica a mendicância e se refugia em inesperadas catacumbas deixadas pelo urbanismo romano, e acaba descobrindo que a identidade do assassino, de Antilia, e a solução do mistério encontram-se no que será chamado quase 200 anos depois de Novo Mundo, isto é, o continente além-oceano, a única parte da terra ainda isenta das maquinações e mazelas do cristianismo.

Mais uma vez, apesar de ser perceptível a fluência narrativa de Giulio Leoni (ou seja, não é um desprazer ler Os Crimes do Mosaico), permanecemos mais na cenografia e no decorativo do que na ambientação autêntica, por mais que Dante perambule por toda Florença.  Não há um momento em que o romance convença enquanto discussão filosófica, especulação esotérica, crítica social ou confronto entre personagens, todas mal caracterizadas, difusas, truncadas. O único que merece realce se conduz de uma forma curiosa, pois o autor sistematicamente parece querer que antipatizemos com seu herói, um sujeito careta, reacionário (odeia o povo e é favorável à tortura e á repressão policial), puritano, vaidoso, hipócrita e auto-iludido.

Como se trata de uma trama de mistério, isso prejudica em muito a empatia que poderíamos ter com o processo de investigação, já que o detetive não passa de um pe(dante). Por isso, não temos nem Agatha Christie nem Umberto Eco nem Dante. Talvez só um candidato à superprodução hollywoodiana.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 3 de junho de 2006)

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