MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/08/2013

Destaque do Blog: DIGAM A SATÃ QUE O RECADO FOI ENTENDIDO, de Daniel Pellizzari

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de agosto de 2013)

Para o leitor que, como eu, tenha forte prevenção contra a moda recente de projetos editoriais nos quais um escritor passa algum tempo em um determinado lugar do nosso mundo dito “globalizado”, publicando um livro a partir dessa fugaz experiência, Digam a Satã que o recado foi entendido (que faz parte da série Amores Expressos—a Daniel Pellizzari coube Dublin) revela-se uma exceção de peso.

A capital irlandesa que aparece no romance se vale, em certa medida, das imagens tradicionais e estereotipadas que circulam sobre ela (os habitantes briguentos, beberrões, chauvinistas e extravagantes; os “dublinenses” como personagens joyceanos[1]) e, mais ainda, de núcleos dramáticos bizarros e farsescos que reviram aquelas imagens-clichês pelo avesso e fornecem uma legítima atmosfera de humanidade, para além da “ambientação”, empurrando para um papel decididamente secundário a questão da “localização espacial”.

O que está em cena é a Ficção, no que tem de melhor e mais exuberante. Não sei como Pellizzari conseguiu, talvez seja mesmo o caso de nos rendermos ao que um talento tem de único, ainda que num trabalho de encomenda, e que lhe permite brilhar onde outros participantes do mesmo projeto sucumbiram ao falso, modernoso e literariamente pobre, utilizando um material que se prestava totalmente  ao pastiche, e que (sem perder as possibilidades de humor e paródia) ele trabalha de uma forma tão inteligente.

São muitos os narradores dessa Dublin pellizzariana. Há os que exploram a credulidade turística, oferecendo passeios enganosos a partes mal assombradas da cidade, como o maior candidato a protagonista na estória, Magnus Factor, homem “de lugar nenhum”[2] (“Eu teria voltado para casa, se soubesse onde ficava. Mas como eu não tinha mais certeza sobre coisa nenhuma, resolvi ficar parado no mesmo lugar para ver se minha casa acabava me encontrando”), envolvido com duas mulheres: Stefanija, eslovena escorregadia, e a nativa Laura, que faz parte de um grupo universitário de “terroristas poéticos”; ou como o maravilhoso personagem que é o dono do negócio, Barry O´Shaugnessy (sua intervenção como narrador é um dos pontos altos do relato), cujo “tom”, um achado de mestre, é o do cara tosco arquetípico que pode viver em qualquer rincão do globo: politicamente incorreto, trata afrontosamente outros membros da trupe turística e mora de favor no sobrado de Stuart, este último perigosamente enredado com traficantes gregos, vivendo do dinheiro que uma tia mantém muito bem escondido.

E há aqueles como a pré-adolescente Patricia (a narrativa nos reserva surpresas sobre ela), que foge de casa após a morte de um avô pra lá de exótico e acaba associando-se aos seguidores de Demetrius Vindaloo, guru do culto dos Ofídios Gnósticos, inimigos da imperialista Confederação Galáctica, cujo domínio sobre nosso planeta seria quase absoluto não fossem esses iluminados, que esperam a Arrebatação a partir do sacrifício de uma virgem (no caso, a própria Patricia). Parece ridículo? Não, não é, em razão da atordoante capacidade de Pellizzari em entrar na mente e no discurso peculiar de cada um de seus narradores, de forma que eles soam críveis dentro da sua própria lógica de percepção (“Essas pessoas acreditam mesmo nessa história toda, e eu também quero acreditar pelo menos um pouco. Ou pelo menos deixar que exista essa possibilidade. Estou falando da chance de eu talvez decidir acreditar nessas coisas, não de elas serem mesmo verdade).[3]

E há também um capítulo composto pelo diálogo entre dois membros—Rod e Marcel—dos  “terroristas poéticos”, com marcação em 3ª. pessoa.

Dizer que um livro é muito divertido sempre pode dar ensejo ao  equívoco comum que coloca a diversão como fator preponderante de uma obra menor. Eu ri muito ao longo da leitura de Digam a Satã que o recado foi entendido porque ali o estapafúrdio não se faz de rogado (por exemplo, a maneira como Barry causa a morte da tia de Stuart devido ao hábito do escocês de tentar despertá-lo, após festas dignas de épicas ressacas, com baldes de água suja[4]). Ao mesmo tempo, o livro trata de problemas tão sérios e portentosos, até mesmo sombrios (a inserção da Irlanda na comunidade européia, a subcultura de diversos “losers”, a solidão e incompletude essenciais que residem em nós, as mitologias e fetiches particulares—pode ser até o mundo dos “games”—que criamos na falta de uma Grande Crença a costurar a civilização)[5] que só podemos admirar a mão leve de Pellizzari, sem cair no frívolo ou no besteirol (mesmo porque todos os núcleos se concatenam à perfeição, no final, mesmo que as desordens pessoais prossigam ao infinito)[6], fazendo com que acreditemos piamente nessa gente toda que ele cria para a sua Dublin nada turística, mas tão animada. Certamente, um dos melhores livros do ano.

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TRECHOS SELECIONADOS (amostras dos narradores de Digam a Satã que o recado foi entendido)

Magnus: “De novo em diante me alimentei somente de espigas de milho, pipoca, tacos sem recheio, Doritos e Jack Daniels, tentando convencer Chicomecoatl a me levar embora de uma vez. A derrocada do meu império pessoal teve início com meu último encontro com Laura, uns dez dias depois da explosão que não aconteceu em Temple Bar. Eu estava sentado meio corcunda no balcão do Hairy Lemon, mastigando devagar as últimas batatas do meu ´coddle´, quando ela apareceu.

__ Sabia que você ia estar aqui—disse com aquela  risada que não causava mais efeito nenhum em mim. Restava apenas um buraco onde antes havia uma resposta fisiológica que um dia eu tinha imaginado ser alguma coisa além disso.”

Patricia: “Não é porque eu vou fazer treze anos daqui a dois meses que sei menos coisas que o meu pai, por exemplo. Estou de mal com ele faz mais de um ano. Ele não entende nada. Nadinha. Mas eu também não. é outra coisa que aprendi bem cedo. Ser humano é estar confuso. Não. Ser humano e medíocre é fingir que não existe confusão nenhuma (…) Meu avô era legal. Pai da minha mão. Ninguém sabe de onde ele veio, só que tinha catorze anos e chegou na Irlanda de navio, sozinho, numa época em que todo mundo estava indo embora porque faltava tudo por aqui. Agora é que ninguém vai ficar sabendo de onde ele veio, mesmo. Sempre que ficava sozinho ele cantava umas musiquinhas que pareciam meio árabes. Ou judaicas, sei lá. Confundo (…) Ele tinha cheiro de lustra-móveis, mas cheiros são que nem idades. Não querem dizer nada.”

Siobhán: “… é um momento difícil  e então convido todos  para cantarem e começo a cantar o hino dos Ofídios Gnósticos  que fala sobre a luta contra a Confederação Galáctica  e a vitória final no dia da Arrebatação  e eles me olham sem dizer nada   e ficam assim até o final do hino  e depois eu saio da cozinha  e me sento em uma cadeira  na sala de costas para a janela. Fico imóvel e curvada  como uma das gárgulas da igreja grande ali subindo a rua, amanhã bem cedinho quero levar a menina nova até lá para ver,  acho que ela vai gostar porque ouvi ela dizendo que nasceu  e morou a vida inteira em Dublin e nunca tinha vindo para Howth e então sei que nunca viu as gárgulas. Elas ficam do lado de fora do templo com aqueles rostos congelados em caretas de ameaça e o corpo todo transformado em pedra e rígido para sempre por amor ao dever de assustar as coisas ruins e os demônios e  a imundície e impedir que entrem dentro do espaço sagrado…”

Demetrius: “A memória serve para que você se esqueça de quem é, Demetrius. É um artefato do Inimigo. Quanto mais você se lembra, mais se esquece do que é natural e antigo e verdadeiro. E o olho com o qual a criança enxerga os Ofídios é o mesmo olho com que os Ofídios enxergam a criança. O olho puro e solitário de Crom Cruach. Mas sem demora esse olho é recoberto por memórias. E com as memórias vêm as opiniões. E com as opiniões, as preferências. E com elas, as abstrações. E por fim a chamada personalidade, a forma rígida dentro da qual a Confederação aprisiona os incontáveis seres que foram criados livres, mas que estão aprisionados em grilhões…”

Barry: “Larguei dela, dos meus velhos,dos meus parcêro, da minha cidade, da vida que eu tinha em Cork. Subi pra Dublin e fiquei livre pra não fazer porra nenhuma. Não que eu odiasse essa coisa toda. Nem é por aí. A assistente social tinha um peitão classe especial e chupava que nem uma sanguessuga, engargantava tudo. Meus velho eram uns inútil sem educação nenhuma, mas sempre fizeram de tudo pra mim. Meus parcêro eram um monte de bêbado gente boa. Minha cidade é o melhor lugar do universo e tinha cerveja barata em qualquer pub. Minha vida era só moleza. O ruim é que essas coisas toda me atrapalhavam. Pra falar a verdade, de vez em quando eu sentia uma vontade imbecil de fazer algo de útil com a minha vidinha, e isso é péssimo pra caralho. Aí cortei o mal pela raiz. Eu sou irlandês, porra. Sou um cara que tenho meus princípio…”

Zbigniew: “Mas não adianta, eu sei que agora o medo vai chegar a qualquer momento. E quando o medo vem  é intenso, piorando muito à noite ou em meio à multidões.  Luzes, ruídos e pessoas ficam cada vez mais velozes e se revelam forças agressivas, sinistras.  Quando alguém ri, está rindo de mim. Se gargalha, está me enfiando uma faca. Olhou, quer me matar. Até os gatos de rua estão planejando tocaias. Os ruídos do mundo tramam crescer em proporção geométrica até me envolverem por completo como um oceano de gelatina e me deixarem suspenso ali dentro para que as luzes cheguem muito rápidas e agudas e me perfurem o corpo inteiro, causando uma dor física sem adjetivos e permitindo que minha consciência escape pelas feridas abertas…”

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[1] Uma das características mais louváveis do livro é justamente se furtar a essa fácil apropriação do imaginário joyceano, uma tentação e tanto.

[2] E no entanto lemos:

“…ali estava eu no início da noite de Halloween, perdido no coração daquele bairro detestável, vestido com minha tradicional fantasia de brasileiro (camisa amarela da seleção de futebol com detalhes em verde, colar de contas coloridas com pingente de folha de maconha, calça azul de tactel, tênis de corrida escandalosos e muito gel no cabelo). E rumo ao Oliver St. John  Gogarty, ainda por cima. O pub mais cenográfico de todos, menos genuinamente irlandês que todos os pubs  supostamente irlandeses  que infestam cidades ao redor de todo o planeta,.”

[3] A alternância de vozes e  a falta de complacência de Pellizzari possibilitam que ele escape a cacoetes de uma certa “literatura de macho”, movida a testosterona (que era o que eu temia quando comecei a ler o livro e suas primeiras páginas), que permearia frases do tipo “Por que eu tinha me metido com essa gente, mesmo? Ah, claro. Minha vida inteira é uma história de decisões catastróficas tomadas pela cabeça do meu pau” (Magnus) ou “E assim levo adiante os meus dias, entre pensamentos circulares e obsessivos sobre sexo e suicídio” (o polonês Zbigniew, outro funcionário dos tours mal assombrados)

[4] Esse mesmo segmento, que narra uma das festas da casa de Stuart tem uma sequência de cenas escatológicas, em que o vômito é a tônica dominante, e mesmo assim o danado do Pellizzari hipnotiza a empatia do seu leitor.  Outro momento difícil de ser narrado, em sua comicidade potencial (e também a involuntária) e maravilhoso em sua realização, é a do sacrifício de Patricia por Demetrius.

[5] E com a presença (virtual ou efetivada) da violência física.

[6] Porque o tom do livro é a apropriação paródica (e não o pastiche) dos discursos dessas pessoas “dançadas”.

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25/09/2012

Leitura em espelho: NÃO CONTEM COM O FIM DO LIVRO e A QUESTÃO DOS LIVROS

“Também aprendemos um monte de coisas lendo simples resenhas…” (Umberto Eco)

BIBLIOTECÁRIOS DE BABEL- primeira parte

A frase acima das fotos até poderia ser o mote do meu blog, já que nela aparecem os vocábulos monte e resenhas. É pena que ela se encontra no seguinte trecho, que eu achei incrivelmente frívolo e besta: “Quantos de nós já não se alimentaram do simples perfume de livros que víamos em prateleiras mas que não eram os nossos? Contemplar esses livros para deles extrair saber. Ora, uma razão para ser otimista é que cada vez mais pessoas têm acesso hoje à visão de uma grande quantidade de livros. Quando eu ainda era criança, uma livraria era um lugar muito escuro, pouco acolhedor. Você entrava, um homem vestido de preto perguntava-lhe o que você desejava. Era tão assustador que você não cogitava demorar-se. Ora, nunca houve na história das civilizações tantas livrarias quanto hoje, belas, iluminadas, onde você pode passear, folhear, fazer descobertas em três ou quatro andares, as Fnac na França, as livrarias Feltrinelli na Itália, por exemplo. E, quando vou a um desses lugares, descubro que estão cheios de jovens. Repito que não é necessário que eles compreme nem sequer que leiam. Basta folhear, dar uma olhsfs ns quarta capa. Também aprendemos um monte de coisas lendo simples resenhas. É possível objetar que em seis bilhões de seres humanos a porcentagem dos leitores continua muito baixa. Mas, quando eu era garoto, éramos apenas dois bilhões no planeta e as livrarias viviam desertas. A porcentagem parece mais favorável em nossos dias.”

Nos últimos meses, dois lançamentos vieram se somar à intensa discussão atual sobre o futuro do livro impresso, oferecendo a oportunidade de conhecer as posições de intelectuais e escritores da eminência de Robert Darnton,  Jean-Claude Carrière e do Umberto Eco da citação acima: pela Companhia das Letras, A questão dos livros; pela Record, Não contem com o fim do livro (cujo título original é bem mais saboroso: N´esperez pas vous débarrasser des livres). Tratarei primeiramente do segundo.

Jean-Philippe de Tonnac manteve longos colóquis (que viraram, evidentemente, um livro, como não podia deixar de ser!) com o semiólogo e romancista italiano, autor de O nome da rosa, e o roteirista francês que talvez seja o maior nome europeu na sua área[1]. E tanto Eco quanto Carrière não se mostram muito preocupados de que o e-book, as mídias eletrônicas vão substituir o livro tal como conhecemos hoje: “O livro é como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Uma vez inventados,não podem ser aprimorados. Você não pode fazer uma colher melhor que uma colher… O livro venceu seus desafios e não vemos como, para o mesmo uso, poderíamos fazer algo melhor que o próprio livro. Talvez ele evolua em seus componentes, talvez as páginas não sejam mais de papel. Mas ele permanecerá o que é”.

Tendo liquidado a questão com otimismo e chalaça, logo de início, como são recheadas as duzentas e tantas páginas de Não contem com o fim do livro?

Não se encontrará nenhuma reflexão aprofundada, sagaz ou surpreendente sobre a mudança no paradigma de leitura, da percepção do leitor quanto ao ato de ler, e Eco & Carrière manifestam uma singular convicção de que haverá mais leitores no futuro (mas como vimos logo na abertura, para Eco, o fato de as pessoas freqüentarem livrarias como se freqüenta quaisquer lojas de departamento ou shoppings, o leitor tomado basicamente como consumidor, e esquecendo de que o pessoal das classes D e E, e tenho minhas dúvidas sobre a classe C, a não ser os seus egressos “alternativos”, não ousa ir a lugares assim, que geralmente têm uma aura mais esnobe e intimidadora; e  aproveito para lembrar algumas palavras de Jean-Paul Sartre em Questões de Método“…numa sociedade onde tudo se compra, as possibilidades de cultura são praticamente eliminadas para os trabalhadores, quando a alimentação absorve 50% ou mais de seu orçamento. A liberdade dos burgueses, ao contrário,  reside na possibilidade de consagrar uma parte sempre crescente de sua renda aos mais variados campos de despesas”, , palavras publicadas há 50 anos e que ainda valem hoje), embora vejamos inquietantes indícios de que uma onda de analfabetismo real ou funcional varrerá todos os nossos alicerces culturais numa escala de tempo muito próxima.

Mas não, o que ocupa os dois entrevistados é sua condição de bibliófilos (aliás, José Mindlin é citado diversas vezes), de colecionadores (ambos possuem bibliotecas imensas e muitos livros raros e caros). Chega um ponto em que a vida entre livros fica equiparada à dos colecionadores de vinhos e selos. E então a trivialidade e auto-complacência destiladas em Não contem com o fim do livro começa a incomodar.

Conforme fui prosseguindo a leitura, fui me esquecendo progressivamente dos filmes admiráveis que Carrière ajudou a criar (A bela da tarde, O discreto charme da burguesia, A Via Láctea, Danton, Mahabharata) e do meu especial apreço por Eco tanto como teórico quanto como romancista (e da minha convição de que ele deveria ganhar o Nobel): sentia que estava acompanhando a conversa de dois velhos tarados ou dois empedernidos pedófilos, gabando-se de suas perversões e sacanagens, ou de dois nobres do ancien regime francês, pré-Revolução, ostentando sua gula, luxúria e vaidade, enquanto o povo passava fome e privações.

Claro, ambos têm todo o direito de viver bem e desfrutar dos seus prazeres. Só que tudo fica tão blasé, e parece que eles estão tão acostumados ao espetáculo do mundo (Eco diz que, pois estão próximos de se tornarem octogenários, “vivemos cada vez mais e temos a possibilidade de terminar nossos dias numa boa forma insolente”), no qual impera a burrice a estupidez (um tema comum à obra dos dois), que o melhor é dois veteranos trocarem anedotas eruditas, as quais no são ditas com um ar cansado e bolorento, como se eles as tivessem contado e recontado muitas e muitas vezes.

As inteligências afiadas, infelizmente, às vezes também ficam gagás. Esperemos que temporariamente.

(resenha publicada, de forma mais condensada, em “A Tribuna” de 10 de agosto de 2010)


[1] Colaborador tanto do genial Buñuel quanto do, a meu ver, superestimado Milos Forman. Uma colaboração recente entre os dois foi Sombras de Goya,  que não passa de um bom filme, muito convencional. Não conheço  a produção de Forman  na sua terra natal, a Tchecoslováquia, mas após sua ida a Hollywood, tirando o admirável (se minha lembrança  não falseia as coisas) Taking off, tudo o que veio depois e que eu assisti, não me causou maior impressão (e se causou foi mais negativa que positiva), a não ser  as coreografias de Hair e as notáveis  interpretações que ele extraiu em Valmont. Particularmente Um estranho no ninho & Amadeus tiveram uma recepção exagerada, hiperbólica mesmo.

Comentar essa colaboração com o tcheco Forman me faz lembrar que Carrière foi co-roteirista da adaptação de A insustentável leveza do ser (realizada por Philip Kaufman) do compatriota do diretor de O povo contra Larry Flint (outro filme bom e convencional), Milan Kundera. Há uma aura kunderiana nas seguintes palavras de Carrière: “O que mais me impressiona é a completa extinção do presente. Estamos obcecados como nunca pelas modas retrô. O passado nos alcança a toda velocidade, daqui a pouco teremos de nos curvar às modas do trimestre precedente. O futuro é como sempre incerto e o presente estreita-se progressivamente e se dilui.”

Bibliotecários de Babel (segunda e última parte)

“A leitura permanece um mistério. Como os leitores entendem os sinais na página impressa? Quais são os efeitos sociais dessa experiência? Como ela variou? Estudiosos da literatura côo Wayne Booth, Stanley Fish, Wolfgang Iser, Walter Ong e Jonathan Culler tornara a leitura uma preocupação central da crítica textual porque compreenderam a literatura como uma atividade, a construção de sentido dentro de um sistema de comunicação,e não como um cânone de textos”.

É irônico que eu tenha me interessado por A Questão dos Livros [The case for books]mais com o objetivo de enriquecer e complementar, em razão da  proximidade temática com  Não contem com o fim do livro e, no final das contas, como se pode verificar na primeira parte, as entrevistas de Umberto Eco e Jean-Claude Carrière, a respeito dos quais eu tinha tanta expectativa, se revelaram banais, uma decepção. E a coletânea de ensaios de Robert Darnton (um dos mais respeitados historiadores contemporâneos, especialista no século XVIII, com destaque para o Iluminismo francês, e cuja obra não conhecia ainda, já que não se tem tempo de ler tudo, apesar de já ter me interessado por O grande massacre de gatos, O Iluminismo como negócio e sobretudo Os Best-sellers proibidos na França pré-revolucionária) pode ser considerada um dos melhores lançamentos do ano. É um livro maravilhoso, que eu recomendo entusiasticamente..

Darnton também se mostra otimista com relação ao artefato de leitura em que se baseia nosso tipo de civilização. Mas esteve pessoalmente envolvido num ambicioso empreendimento de digitalização, o que dá um sabor todo especial à sua discussão (afora sua sedutora prosa): em 1997, ele foi o responsável pelo Gutenberg-e, premiação de monografias, e sua preparação e publicação no formato eletrônico (muitos autores de teses não estavam encontrando mercado para lançamento em formato impresso). Eu nunca pensei que ia mergulhar fundo e me interessar tanto pelas tramitações acadêmico-burocráticas de um projeto, mesmo que ele tivesse a função pioneira de “abrir caminho para um novo tipo de difusão do conhecimento, a monografia eletrônica de primeira categoria. Parece certo que determinados tipos de livro eletrônico irão prosperar no futuro próximo, mas isso só será feito corretamente se uma organização como a AHA [American Historical Association] tomar a frente de seu desenvolvimento determinando padrões e legitimando essa iniciativa aos olhos de uma classe profissional composta por céticos”.

Deixo para o leitor desse imperdível A Questão dos Livros saber se o empreendimento vingou. Ou, se vingou, foi nos moldes sonhados por Darnton (cito, entretanto, uma passagem reveladora: “No ano passado, o conselho da AHA votou por tirar das minhas mãos a supervisão cotidiana do Gutenberg-e e consigná-la ao Departamento de Pesquisa…Não creio que ninguém estivesse insatisfeito com meu gerenciamento, mas havia uma sensação de que o Gutenberg-e deveria fazer parte das operações normais da Associação, em vez de ser o projeto de estimação de Robert Darnton”.

Os ensaios (divididos em três seções, “Futuro”, “Presente” “Passado”) são quase todos irretocáveis e envolventes, e discutem a mais ampla gama de assuntos que se pode imaginar, desde o que o Google pode fazer com o futuro da publicação eletrônica, passando pelo massacre físico de milhões de volumes das bibliotecas públicas norte-americanas para que a digitalização dos mesmos se efetivasse, até apanhados históricos sensacionais sobre a importância da bibliografia, sobre o paradigma de leitura totalmente diferenciado do nosso, no início da Era Moderna, sem falar no meu favorito, uma panorâmica da publicação e divulgação das obras de Voltaire.

No primeiro caso, o da bibliografia (A importância de ser bibliográfico), ainda mais numa época como a nossa em que “graças à internet, os textos se tornaram ao mesmo tempo mais disponíveis e menos confiáveis”, ele mostra como a comparação de exemplares das primeiras edições (todos apresentando discrepâncias) ajudou a montar um cânone shakespeariano ainda não-definitivo, porém o mais confiável a que se pôde chegar, e discute o futuro dessa área (cuja zona fronteiriça conflita com a dos historiadores do livro: “Ao contrário dos bibliógrafos,  os historiadores do livro estudavam todos os aspectos da produção e difusão da palavra impressa,  incluindo suas conexões  com mudanças sociais e políticas. Para eles, o ano de 1710 se destacou como momento decisivo  na história do copyright…”), para a  qual confluem várias disciplinas.

No caso do paradigma de leitura (Os mistérios da leitura), um assunto premente nesta nossa época em que se criam novos suportes físico-cognitivos para essa atividade, ficamos sabendo que os homens do passado liam sem a preocupação de continuidade, interessados em anotar passagens para suas próprias antologias pessoais, seus livros exemplares de como se conduzir na vida: “Os ingleses do início da era moderna liam de forma intermitente, pulando de um livro para outro. Dividiam os textos em fragmentos, que agrupavam em novos padrões ao transcrevê-los em seções diferentes de seus cadernos… ler e escrever eram atividades inseparáveis. Pertenciam a um esforço contínuo de compreender as coisas, pois o mundo era repleto de sinais: era possível navegar por ele utilizando a leitura, e, ao manter u  registro do que lia, você criava seu próprio livro, um livro com a marca da sua personalidade”. Acho que esse aperitivo já dá uma indicação do interesse do texto.

E no ensaio sobre a obra de Voltaire (O que é a história do livro?), parece que estamos fazendo uma viagem no tempo, conhecendo intimamente os livreiros-distribuidores que atendiam à imensa demanda da obra do genial e irreverente autor francês: “…eu gostaria de me concentrar no elo menos conhecido no processo de difusão, o papel do livreiro, tomando como exemplo Isaac-Pierre Rigaud, de Montpellier… Pessoalmente, não simpatizava nem um pouco com Voltaire”. Você pensa, leitor, que ele não simpatizava por motivos religiosos, ideológicos, chocado pela verve e iconoclastia voltaireanas? Nada disso: “…deplorava a tendência do filósofo de remendar seus livros, adicionando e corrigindo trechos enquanto colaborava em edições piratas pelas costas dos editores originais. Esses hábitos geravam reclamações dos compradores, que não concordavam em receber textos inferiores (ou insuficientemente audaciosos)…” Uma delícia.

Uma leitura como essa nos faz contar com um longo futuro para os livros…Mas é o futuro, e como saber? O próprio Darnton está há uma década preparando um e-book para revolucionar a sua prática de publicação de material pesquisado: “Não que uma publicação eletrônica ofereça atalhos, nem que eu tenha a intenção de despejar na internet todo o conteúdo das minhas caixas… Meu plano é trabalhar com esse material de diversas formas, abordando os temas essenciais na narrativa em primeiro plano e incluindo nos planos inferiores mini-monografias e documentos selecionados nos arquivos mais ricos. Meus leitores poderão se servir do que quiserem, nas porções que preferirem, e até mesmo interligar meu trabalho com as pesquisas de outros na florescente área da história do livro. Um livro eletrônico sobre a história do livro na era do Iluminismo! Não consigo resistir. Vou mergulhar…”

(resenha  publicada  em “A Tribuna” no dia 17 de agosto, de forma mais condensada)

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