MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/06/2012

Meio Jorge Amado meio José Saramago

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de julho de 1993)

Há todo um lado Jorge Amado na intriga de O REI PASMADO E A RAINHA NUA [Crónica del rey pasmado, 1989,em tradução de Clara Diament para o Rosa dos Tempos—não poderiam ter encontrado um nome menos cafona?—, selo da Record), de Gonzalo Torrente Ballester (1910-1999): na Corte espanhola do século XVI, o rei Felipe IV deseja despir a esposa, a qual nunca viu nua, após tomar conhecimento das maravilhas do corpo feminino graças aos serviços de uma prostituta. Tal desejo assanha debates teológicos, querelas populares e intrigas palacianas, numa combinação apimentada e bem “latina” de sensualidade pairando onipresente no ar que respiramos, disputas pelo poder e intromissão da religião no cotidiano.

E há também um lado José Saramago, o grande best seller português da atualidade e vizinho ibérico de Ballester, pois não temos somente uma ambientação “histórica” como também uma ambientação “linguística”: o leitor saboreia uma linguagem colhida diretamente da época, entremeando retórica religiosa com o delicioso coloquial profano: “…tinham-se posto a discutir sobre os pecados do Rei, à luz das informações chegadas por vias populares. O que se discutia não deixava de ser complicado: se as quatro cópulas e um fracasso deviam-se considerar um único delito, ou quatro, e se o fracasso deveria considerar-se também pecado mortal em matéria de intenção, ou se podia entender-se como meramente venial; por fim, se a cúmplice, sem dúvida sabedora de com quem partilhava o leito e a quem oferecia a sua colaboração para o pecado, devia ou não ser considerada ré de um delito contra o Estado…”

  Terei o direito de lamentar que Ballester seja mais feliz no lado Amado do que no lado Saramago? Seu romance é engraçado e fluente, mas deixa a incômoda sensação de ter transformado seu material (Inquisição, repressão sexual, burocracia palaciana) num vaudeville demasiadamente fácil.

Nada contra (era só o que faltava) um livro fazer rir. O humor, mesmo o grosseiro, é uma grande arma contra uma realidade que sempre parece farsesca. Só que o saldo final de O REI PASMADO E A RAINHA NUA (adoro esse título) rescende à gratuidade, como se a verve do autor espanhol servisse só como aperitivo e ele se detivesse a meio caminho entre a leveza do puro entretenimento e uma hipotética densidade e relevância de intenções (sim, eu sei que delas o inferno está repleto, mas é necessário fazer os justos repúdios).

Saramago, às vezes (como em História do cerco de Lisboa) é chato, mas o leitor de Memorial do convento, por exemplo, sai com a impressão de ter penetrado nos segredos da época. O leitor de O REI PASMADO, coitado, fica só na antecâmara e presencia pouca nudez e muita simulação, ainda que prazerosa. Um dos senões que eu tenho quanto ao desenrolar da intriga, por exemplo, é a rapidez com que Ballester demonstra a cupidez e vontade de poder do padre Villaescusa, que poderia ser um vilão inesquecível.

Essa precoce ejaculação narrativa também faz com que a participação do Demônio se perca no conjunto. Como o leitor não consegue abarcar quais as sutilezas pretendidas por Ballester, chega à conclusão que ele ratifica os piores temores da Igreja Católica quanto à liberdade do homem, pelo que se depreende da vitória final do Padre Almeida e do Conde de La Peña.

O grande problema do romance é que, como no erotismo, se a preparação é intensa crê-se que a consumação também o será. Mesmo frustrando essa expectativa, é um livro prazeroso que instiga e atiça, mesmo negando fogo depois.

Nota de 2012- Gosto da versão cinematográfica ( El Rey pasmado,1991), dirigida por Imanol Oribe, à qual assisti após escrever a resenha acima.

Alguns anos depois, comecei a admirar realmente Ballester, ao ler seu Don Juan (em edição pela Nova Fronteira), A ilha dos jacintos cortados & O casamento de Chon Recalde.

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