MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

09/09/2012

“Se todas as direções são a mesma”: COSMÓPOLIS e o futuro insistente

“O futuro se torna insistente… o passado está desaparecendo. Antigamente, a gente conhecia o passado, mas não o futuro. Isso está mudando… Precisamos de uma nova teoria do tempo”.

“A cidade come e dorme barulho. Ela faz barulho em qualquer século. Faz os mesmos barulhos que fazia no século XVII, mais os outros que surgiram de lá para cá

(a resenha abaixo foi  publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 16 de novembro de 2004)

“Estava parado na rua. Não havia o que fazer. Nunca havia imaginado que isso pudesse acontecer com ele. Era um momento esvaziado de urgência e propósito. Ele não havia planejado aquilo. Onde estava a vida que ele sempre levara?  Não tinha vontade de ir a lugar nenhum, não tinha nada em que pensar, não havia ninguém à sua espera. Como podia dar um passo em determinada direção se todas as direções eram a mesma?”

Tenho examinado, aqui nesta minha coluna, a solução que grandes escritores encontraram (ou não) para representar o início do novo milênio.

Nada mais justo que terminar a série com Don DeLillo, autor do maior romance dos derradeiros anos do século passado, Submundo, e cujo Cosmópolis (2003) possivelmente representa a mais alta literatura de ficção que se pode encontrar nesses primeiros anos do novo século-milênio-era, seja lá o que for. Na história do último dia (em abril de 2000) do jovem—já se sentindo ultrapassado (“Eu sempre fui mais jovem que todo mundo. Um dia isso começou a mudar”)—milionário Eric Packer, mega-especulador financeiro, que perde sua fortuna e é assassinado enquanto cruza Nova Iorque para cortar o cabelo (“Ele não sabia o que queria. Então descobriu. Queria cortar o cabelo”), numa limusine gigantesca forrada com cortiça, a grande tentação de qualquer resenhador é citar, citar, citar (mesmo porque a tradução de Paulo Henriques Britto, publicada pela Companhia das Letras, é irretocável).

Como se trata de um texto alucinantemente perfeito, pode-se extrair citações incríveis quase que página a página, embora talvez o melhjor seja seguir o conselho da primeira: “Dizer o quê? Era uma questão de silêncio, não de palavras”.

Parente espiritual do Psicopata americano, de Bret Easton Ellis, Eric move-se (embora o trânsito com freqüência fique congestionado, inclusive com violentas manifestações contra a globalização, numa das grandes seqüências do livro) num mundo em que a obsolescência é muito rápida e no qual as relações esgarçam-se ao ponto da insubstancialidade: “Levou um instante para se dar conta de que conhecia a mulher no banco de trás do táxi ao lado. Era a mulher com quem ele havia se casado 22 dias antes”.

A característica mais intrigante em DeLillo é que ele consegue manter o estatuto épico, que é básico para uma narrativa (ainda que tão maltrato na ficção contemporânea), mesmo quando mergulha fundo na estética minimalista mais fantasmática. Como Clarice Lispector e Robert Musil, ele mantém-se no mundo do grandioso, evocando mitos e potências muito maiores do que a da pós-modernidade: “Estavam cercados por um crescendo de buzinas. Havia naquele barulho alguma coisa que ele não queria apagar da mente. Era o tom de alguma dor fundamental, um lamento tão antigo que parecia aborígene. Pensou em homens esfarrapados em bandos, dando urros rituais, unidades sociais formadas para matar e comer. Carne vermelha. Era esse o chamado, essa a necessidade gritante”.O motorista de Eric: “Ibrahim parecia desconfiado e reparado, uma preparação que ele adquirira em algum deserto, setecentos anos antes de nascer”. O assassino de Eric lhe diz: “Mesmo quando você se autodestrói, você quer fracassar mais, perder mais, morrer mais que os outros, feder mais que os outros. Nas tribos antigas o chefe que destruía mais coisas dele mesmo que todos os outros chefes era o mais poderoso”.

A citação que abre este texto mostra como a jornada de Eric por Nova Iorque e sua própria vida são desprovidas de sentido. Cosmópolis, porém, mostra que a literatura ainda faz todo o sentido do mundo.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2014/06/28/o-triunfo-inesperado-do-romance-submundo-de-don-delillo/

https://armonte.wordpress.com/2014/06/28/mao-ii-de-don-delillo-o-indizivel-o-impensavel-e-a-linguagem-que-o-ocidente-entende/

https://armonte.wordpress.com/2011/05/24/destaque-do-blog-ponto-omega-de-don-delillo/

VER O MESMO TEXTO NUM CONTEXTO MAIS AMPLO EM:

https://armonte.wordpress.com/2010/05/17/doctorow-rushdie-delillo-e-a-virada-do-milenio/

17/05/2010

Doctorow, Rushdie, DeLillo e a virada do milênio

Primeira parte

    Nos anos 80, um recorde de estupidez foi alcançado quando a Rocco transformou Roger´s version, de John Updike, em Pai-Nosso Computador. A Record, talvez inspirada por seu nome, tentou quebrá-lo recentemente com o título brasileiro de City of God, de E.L. Doctorow: Deus—Um fracasso amoroso!!??

      Doctorow escreveu um dos melhores romances norte-americanos, O livro de Daniel (1971). Chegou perto com A Grande Feira e a novela Vida dos poetas, e ainda tem outros belos livros, como os muito famosos Ragtime e Billy Bathgate, além de Tempos Difíceis (na verdade, Benvindo a Tempos Difíceis, pois Hard Times é o nome de um lugarejo) e The Waterworks- A mecânica das águas.

      Estabelecida, portanto, a minha admiração, é preciso dizer que City of God (traduzido com empenho por Roberto Muggiati) representa um fracasso amoroso de leitura. O título original nada tem a ver com o nosso Cidade de Deus, de Paulo Lins, e sim com Santo Agostinho. Como a metrópole urbana dos nossos dias, representada por Nova Iorque, pode ser o palco da manifestação do Senhor, como podemos nos relacionar com Ele num mundo como o nosso, com seus problemas específicos e carregando o fardo dos horrores muito particulares do século XX?

      “…do jeito que as coisas estão acho que temos de refazê-Lo. Se precisamos nos refazer, precisamos refazer o Senhor, Deus”.

     Um Deus contemporâneo?  “Estamos vivendo numa democracia pós-moderna. Acha que Deus não sabe disso?”

    O livro de Santo Agostinho serve como referência devido à “toda a sua mala de truques de escritor. Todas aquelas doutrinárias tratadas como se existissem, como personagens num romance de Henry James” (outro padroeiro do romance é Wittgenstein, o qual tem até seu estilo parodiado).

      Os problemas de Deus são associados aos problemas dos narradores. Como organizar esse material caótico à nossa volta? Tim Pemberton, o protagonista, diz ao seu amigo Everett: “Está perturbado porque se deu conta… como você, errônea e gloriosamente, presumiu que podia escrever um livro sobre isto!” Everett tenta tecer um romance partindo do roubo da cruz de uma Igreja Episcopal, ato sacrílego que servirá para  aproximar o casal central, o reverendo Pemberton e a rabina Sarah Blumenthal, embora Doctorow, autor evocativo por excelência, continue a exercitar sua máquina do tempo, desta vez com incursões nos guetos judeus da época da Segunda Guerra e nas trincheiras da Primeira, só para dar dois exemplos. Ele se vale também dos nomes de família que utilizou em Mecânica das águas, Pemberton e McIlvaine.

    Ele precisava de 350 páginas para exercitar a ironia de contestar a onipresença tanto de Deus quanto do Narrador? Já que estamos no terreno religioso, Doctorow cometeu os pecados do orgulho e da soberba, pretendeu escrever o Livro da virada do milênio, a obra-referência. Não conseguiu. O que salva City of God de ser apenas um romance cansativo e falho, são as mesmas qualidades que também salvavam Loon Lake- O lago da solidão, até então seu trabalho mais discutível: iluminações repentinas, o estilo, enfim,  toda a sua mala de truques de escritor.

(resenha publicada em  26 de outubro de 2004)

 

Segunda parte

    Em City of God, de E.L. Doctorow, tentativa meio frustrada de sintetizar ficcionalmente a virada do milênio, se pode ler: “Os infelizes migrantes do mundo acham que, se conseguirem apenas chegar aqui, poderão fincar um pé. Manter uma banca de jornais, uma birosca, dirigir um táxi… o que pintar. Você quer dizer a eles que este não é um lugar para pessoas pobres. A linha de fractura racial que corre pelo coração da terra também corre através do seu coração. Somos seres étnicos sujeitos a um código de cor e criadores de enclaves sociais, multiculturalmente desconfiados e verbalmente agressivos, como se a cidade, considerada como uma Idéia, fosse um fardo pesado demais até mesmo para as pessoas que moram nela”.

     Outro grande escritor, Salman Rushdie, ousou encarar de frente a virada do  milênio elegendo Nova Iorque, o centro do Império, como ponto de inflexão, apesar do resultado não ser tão caudaloso quanto suas imensas (e fabulosas) obras-primas anteriores (Os filhos da meia-noite; Os versos satânicos; O último suspiro do mouro). Enquanto Doctorow investigava manifestações de Deus na secularização triunfante (e Deus é uma obsessão norte-americana, junto com as armas, como bem lembrou Harold Bloom), Fúria (Fury, traduzido por José Rubens Siqueira e lançado pela Companhia das Letras), o modesto—em páginas—romance do milênio de Rushdie , atualiza o mito grego das Erínias, ou seja, as Fúrias, as divindades destruidoras que ameaçam seu protagonista, Malik Solanka, no primeiro verão do novo  milênio, enquanto Bush e Al Gore, ou Gush e Bore, se digladiam pela posse da coroa do Império, com os resultados que conhecemos.

     Solanka está longe de ser o migrante pobre que tenta fincar pé na terra da promissão americana. Pelo contrário, está rico devido à criação de uma boneca, Little Brain, um dos produtos mais rentáveis da indústria cultural. Amargurado com o destino da sua criatura, e após um ligeiro surto psicótico (quando pensara em assassinar esposa e filho), ele abandona sua família em Londres, como já riscara da sua vida suas origens, em Bombaim, procurando a América como lugar de renascimento. Dentro de si ele surpreende o regurgitar de uma raiva avassaladora, com lapsos de memória que o levam a suspeitar que bem poderia ser o assassino de três belas jovens da alta-sociedade, enquanto o eterno ruído da cidade o persegue (“A cidade estava lhe ensinando uma lição. Não havia como escapar da invasão do barulho. Viera em busca de silêncio e encontrara um ruído maior que aquele que deixara para trás. O ruído agora estava dentro dele”).

    “Debaixo da auto-satisfação retórica dessa Améria empacotada, homogeneizada, dessa América com 22 milhões de novos empregos e a maior taxa de casas próprias da história, dessa América Shopping Center dona de ações, de orçamentos equilibradose baixo déficit, as pessoas estavam estressadas, pirando, e falando nisso  o dia inteiro em supercadeias de clichês burríssimos”.

      Não pense o leitor que Fury se limita a ser essa diatribe anti-Império Americano, embora haja passagens assassinas, de uma forma que Michael Moore jamais sonharia.  A grande força de Salman Rushdie, apesar de todo o magma discursivo do livro, que não poupa nada e ninguém, ainda reside no seu talento incomum de contar histórias, com relação ao qual não parece ter perdido o prazer (ao contrário de Doctorow), na teia emocional que ata Malik Solanka às três mulheres mais importantes da sua vida: sua esposa; Mila, uma garota sérvia que lembra (pois quer fazer lembrar) sua boneca Little Brain; e sua verdadeira paixão, Neela, que fará com que ele se confronte com sua infância e o arrastará para fora de Nova Iorque,a city of god da hora,  ainda que para se dar conta de que a Fúria, ou seja, aquela linha de fractura racial que corre pelo coração da terra, está confortavelmente alojada no mundo todo.

(resenha publicada em 2 de novembro de 2004)

 

Terceira Parte

    Em Cosmópolis, o poema em prosa de Don DeLillo a respeito da insubstancialidade do mundo contemporâneo, pode-se ler: “O futuro se torna insistente… o passado está desaparecendo. Antigamente, a gente conhecia o passado, mas não o futuro. Isso está mudando… Precisamos de uma nova teoria do tempo”.

     Há duas semanas, estou comentando obras que vinculam o novo milênio a essa insistência do futuro em detrimento da percepção do passado e o sentimento fantasmagórico que o real, pensado dessa forma, suscita: City of God (2000), de E.L. Doctorow, Fury (2001), de Salman Rushdie. Neste último, vimos como o ruído da cosmópolis (DeLillo: “A cidade come e dorme barulho. Ela faz barulho em qualquer século. Faz os mesmos barulhos que fazia no século XVII, mais os outros que surgiram de lá para cá”, diz o protagonista, que mandara forrar sua limusine com cortiça) correspondia às potências destruidoras agitando-se dentro de Malik Solanka, o professor de história das idéias (passado) que ficou rico com a criação de uma boneca-ícone da indústria cultural (a insistência do futuro).

      Na visão escabrosa de Rushdie, a condição-boneca se torna o epítome da deterioração do material humano, daí a intensa associação entre esse artefato lúdico e três jovens da  alta-sociedade barbaramente assassinadas (“Um corpo morto na rua parece muito uma boneca quebrada”). Em sua origem, a boneca representava diretamente uma pessoa e era um perigo em mãos alheias.Mais tarde, com o advento da produção em massa, tal ligação se rompeu, pois as bonecas passaram para a esfera da linha de montagem, sem personalidade, uniformes: “Tudo isto estava mudando de novo. A conta bancária de Solanka devia tudo ao desejo das pessoas modernas de possuir bonecas não apenas com personalidade, mas com individualidade. Agora mulheres vivas queriam ser como bonecas, cruzar a fronteira e parecer brinquedos. Agora a boneca era o original, a mulher a representação”.

     Nesse caos,com seres humanos-brinquedos,com o virtual devorando o real, há espaço no entanto para um momento literariamente extraordinário, de resgate do Mito em plena cosmópolis. Mila, a garota que imitava a boneca de Solanka, o leva para  o mercado da alta-computação, e vendo-a em frente ao seu laptop, ele assiste, na verdade, à aparição daquele tipo de entidade tão recorrente na cultura da Índia, a que destrói e refaz o mundo: “Mila como Fúria, a engolidora do mundo, o eu como pura energia transformadora. Nessa encarnação, era simultaneamente aterrorizante e maravilhosa”.

(resenha publicada em 9 de novembro de 2004)

 

Quarta Parte

    “Estava parado na rua. Não havia o que fazer. Nunca havia imaginado que isso pudesse acontecer com ele. Era um momento esvaziado de urgência e propósito. Ele não havia planejado aquilo. Onde estava a vida que ele sempre levara?  Não tinha vontade de ir a lugar nenhum, não tinha nada em que pensar, não havia ninguém à sua espera. Como podia dar um passo em determinada direção se todas as direções eram a mesma?”

      Tenho examinado a solução que grandes escritores encontraram (ou não) para representar o início do novo milênio. Nada mais justo que terminar a série com Don DeLillo, autor do maior romance dos derradeiros anos do século passado, Submundo, e cujo Cosmópolis (2003) possivelmente representa a mais alta literatura de ficçãoque se pode encontrar nesses primeiros anos do novo século-milênio-era. Na história do último dia (em abril de 2000) do jovem—já se sentindo ultrapassado (“Eu sempre fui mais jovem que todo mundo. Um dia isso começou a mudar”)—milionário Eric Packer, mega-especulador financeiro, que perde sua fortuna e é assassinado enquanto cruza Nova Iorque para cortar o cabelo (“Ele não sabia o que queria. Então descobriu. Queria cortar o cabelo”), numa limusine gigantesca forrada com cortiça, a grande tentação de qualquer resenhador é citar, citar, citar (mesmo porque a tradução de Paulo Henriques Britto, publicada pela Companhia das Letras, é irretocável). 

    Como se trata de um texto alucinantemente perfeito, pode-se extrair citações incríveis quase que página a página, embora talvez o melhjor seja seguir o conselho da primeira: “Dizer o quê? Era uma questão de silêncio, não de palavras”.

     Parente espiritual do Psicopata americano, de Bret Easton Ellis, Eric move-se (embora o trânsito com freqüência fique congestionado, inclusive com violentas manifestações contra a globalização, numa das grandes seqüências do livro) num mundo em que a obsolescência é muito rápida e no qual as relações esgarçam-se ao ponto da insubstancialidade: “Levou um instante para se dar conta de que conhecia a mulher no banco de trás do táxi ao lado. Era a mulher com quem ele havia se casado 22 dias antes”.

    A característica mais intrigante em DeLillo é que ele consegue manter o estatuto épico, que é básico para uma narrativa (ainda que tão maltrato na ficção contemporânea), mesmo quando mergulha fundo na estética minimalista mais fantasmática. Como Clarice Lispector e Robert Musil, ele mantém-se no mundo do grandioso, evocando mitos e potências muito maiores do que a da pós-modernidade: “Estavam cercados por um crescendo de buzinas. Havia naquele barulho alguma coisa que ele não queria apagar da mente. Era o tom de alguma dor fundamental, um lamento tão antigo que parecia aborígene. Pensou em homens esfarrapados em bandos, dando urros rituais, unidades sociais formadas para matar e comer. Carne vermelha. Era esse o chamado, essa a necessidade gritante”.O motorista de Eric: “Ibrahim parecia desconfiado e reparado, uma preparação que ele adquirira em algum deserto, setecentos anos antes de nascer”. O assassino de Eric lhe diz: “Mesmo quando você se autodestrói, você quer fracassar mais, perder mais, morrer mais que os outros, feder mais que os outros. Nas tribos antigas o chefe que destruía mais coisas dele mesmo que todos os outros chefes era o mais poderoso”.

      A citação que abre este texto mostra como a jornada de Eric por Nova Iorque e sua própria vida são desprovidas de sentido. Cosmópolis, porém, mostra que a literatura ainda faz todo o sentido do mundo.

(resenha publicada em 16 de novembro de 2004)

 

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