MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

13/10/2010

A LAMA DA ESTRADA E O ESPELHO DO VIAJANTE

(resenha publicada em 27 de janeiro de 2004)

       Quem já leu O VERMELHO E O NEGRO [“Le rouge et le noir”], Lucien Lewen & A cartuxa de Parma sabe que Stendhal (1783-1842) é o máximo. Em qualquer lista dos maiores romances do século XIX,  um dos três poderia entrar nos primeiros lugares, ao lado de Guerra e Paz (Tolstoi), Madame Bovary (Flaubert), Os irmãos Karamazov (Dostoievski), Middlemarch (George Eliot) e Moby Dick (Melville).

      A Cartuxa de Parma tem um enredo extraordinário (e as intrigas do principado de Parma absorvem até bem mais do que as reviravoltas do destino do herói, Fabrício del Dongo; quem poderá esquecer Sanseverina e Mosca?). Sobre os outros dois, bastaria lembrar as palavras de Doris Lessing: “ler O Vermelho e o Negro e Lucien Lewen é compreender que parecia que a França estava todinha neles retratada”.

     Ambos têm o mesmo movimento narrativo, primeiro na província e depois em Paris. Ambos mostram o período pós-napoleônico, dominado pela mediocridade, no qual o Deus-Orçamento (e as vantagens que se pode tirar dele) corrompe toda a sociedade. O que os diferencia é a origem social dos protagonistas: Lucien é o rico herdeiro de um banqueiro; Julien Sorel é o filho de um camponês dono de serraria (portanto, da ralé plebéia).

      Outra diferença: Lucien Lewen ficou inacabado (inclusive devido à sua ousadia política), embora isso não faça diferença na leitura; O VERMELHO E O NEGRO é mais perfeito, ainda que não necessariamente melhor. O leitor brasileiro atual pode conferir essa perfeição porque há uma nova tradução (realizada por Raquel Prado) lançado pela CosacNaify.

       Julien é um provinciano que idolatra Napoleão e que se torna um hipócrita recitador de latim para ingressar na carreira religiosa, única maneira de ascender na sociedade quando o exército já não é opção. Contratado como preceptor pelo burgomestre da sua cidadezinha, torna-se amante da dona da casa, Mme. De Renal.

     Antes de Proust, Stendhal já era um psicólogo insuperável ao decompor quase que quimicamente as diversas fases do sentimento amoroso e suas contradições (a vaidade, a necessidade de seguir convenções etc). E antes de Machado de Assis, ele já conversava com o leitor e quebrava a ilusão romanesca: “Confesso que a fraqueza demonstrada por Julien nesse monólogo inspira-me uma lastimável opinião a seu respeito”.

      Enviado para um seminário, ele consegue se distinguir e o diretor o recomenda como secretário do marquês de La Mole, em Paris. E lá ele inevitavelmente envolve-se com a filha do marquês, Mathilde, uma espécie de histérica que o ama quando ele a despreza e o rejeita quando ele se mostra apaixonado.

     Tudo daria certo para Julien: ele casaria com Mathilde (que engravidou) e ganharia um título de nobreza apócrifo (por influência do marquês, que gosta muito dele, embora relute em permitir o casamento). Só que chega uma carta de mme. De Renal e a hipocrisia de Julien perde terreno para seu temperamento fundamentalmente passional: ele volta à sua cidade natal e comete um crime (falhado, diga-se de passagem). O que nos levará a uma das frases mais memoráveis e descabeladas da ficção francesa: “Nunca esta cabeça fora tão poética quanto no momento em que ia rolar”.

      E em meio a tudo isso, a sociedade francesa da época encontra-se admiravelmente retratada, fazendo o leitor do século XXI interessar-se pelas questiúnculas políticas e quotidianas de 1830, que, longe de empoeiradas, parecem mais vivas que nunca sob a ótica stendhaliana, contrariando até o dito do próprio autor de que a política em literatura é como um tiro num concerto (imagem que ele repete tanto em O VERMELHO E O NEGRO quanto em A cartuxa de Parma), isto é, uma intromissão desagradável: “Pois bem, senhor, um romance é um espelho que se carrega ao longo da estrada. Tanto pode refletir para os seus olhos o azul do céu como a imundície do lamaçal da estrada. Por acaso o homem que carrega o espelho em sua sacola pode ser acusado de imoral? Seu espelho mostra a sujeira e o senhor acusa o espelho? O senhor deveria acusar o longo caminho onde se forma o lamaçal e, sobretudo, o inspetor das estradas que deixa a água apodrecer e o lodo se acumular”.

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