MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

22/05/2018

FALTOU RELEVÂNCIA A UM RELATO CUIDADOSO

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 22 de maio de 2018)

Uma família quatrocentona falida cujo casarão foi revitalizado por um banco como fundação cultural (eles vivem nos antigos quartos dos criados), reúne-se para ouvir o relato, escrito em 1667, do fundador do clã.  Descobrem que surgiram de uma impostura: o antepassado roubou a identidade de outro homem.

“RELATO DAS VENTURAS, CONFISSÕES E ARREPENDIMENTOS DO SR. JOÃO DOS MATOS E SUAS NEFASTAS CONSEQUÊNCIAS”, de Rosangela Petta, divide-se em três planos: em 1617, Salvador Amaro desembarca como degredado em São Vicente e sofre mil desventuras até conhecer o homem cuja identidade usurpará. É uma narrativa em terceira pessoa; 50 anos depois, faz um exame de consciência em primeira pessoa; por fim, em 2017, em terceira pessoa, a família descobre a verdade.

Infelizmente apesar do cuidado com a linguagem de época e de ser gostoso de ler, “RELATO DAS VENTURAS, CONFISSÕES E ARREPENDIMENTOS DO SR. JOÃO DOS MATOS E SUAS NEFASTAS CONSEQUÊNCIAS” é um romance irrelevante. Não apresenta nenhum personagem ou cena marcantes, e desperdiça o material histórico que supostamente lhe daria sustentação.

Há até passagens piegas: “Higino, perto da janela, olhava a Rua Almirante Marques Leão. Na calçada oposta, em frente ao casarão-museu, um cubo de papelão cobria um colchão de espuma, de onde escapava um par de pés descalços e imundos: ali dormia um sobrevivente. Eram pés de quem não sabe o que vai ser amanhã. Podiam ser de João de Matos, dos gentios do século XVII. Ou os de Salvador Amaro, que desceram no batel, pisaram na restinga, entraram no rio gelado, fugiram das flechas… O homem debaixo do cubo de papelão não sabe que dorme em paz: ele não tem que se preocupar, não tem que decidir nada agora nem nunca apenas sobreviver”.

 

 

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