MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/01/2012

O escritor como personagem: Conan Doyle e seu “caso Dreyfus”

De vilão a mártir a quase um joão-ninguém—isso não era injusto? Seus defensores tinham garantido que seu caso era tão importante quanto o de Dreyfus, que ele revelava tanto a respeito da Inglaterra quanto o do francês sobre a França, e assim como tinha havido os que eram a favor e aqueles que eram contra Dreyfus, houve os que eram a favor e os que eram contra Edalji. Eles insistiram ainda que em Sir Arthur Conan Doyle ele tinha um defensor tão importante, e um escritor melhor, do que o francês teve em Émile Zola, cujos livros eram considerados vulgares e que fugiu para a Inglaterra quando foi ameaçado com a prisão. Imagine Sir Arthur correndo para Paris, a fim de fugir de algum político ou promotor. Ele teria ficado e lutado, e teria feito muito barulho e sacudido as grades de sua cela até derrubar a prisão.

E, no entanto, apesar de tudo isso,a fama de Dreyfus tinha crescido e seu nome agora era conhecido nu mundo inteiro, enquanto o de Edalji mal era conhecido em Wolverhampton (…)ele suspeitava que a sua obscuridade tinha a ver com a própria Inglaterra. A França, no seu entendimento, era um país de extremos, de opiniões veementes, princípios extremados e memória longa. A Inglaterra era um lugar mais calmo, com os mesmos princípios sólidos, mas que não gostava de fazer tanto alarde deles; um lugar onde se confiava mais na lei comum do que nos decretos do governo, onde as pessoas cuidavam da própria vida e procuravam não interferir na vida dos outros, onde aconteciam grandes comoções públicas de vez em quando, comoções que podiam até resultar em violência e injustiça, mas que logo eram esquecidas e que raramente passavam para a história do país. Isto aconteceu, agora vamos esquecer e continuar como antes: este era o jeito inglês de ser. Houve um erro, algo se quebrou, mas agora foi consertado, então vamos fingir que não foi um erro muito grande. O caso Edalji não ocorreria se houvesse uma corte de apelação? Muito bem, então concedam um indulto a Edalji, criem uma corte de apelação antes de terminar o ano—e não há mais nada a dizer sobre o assunto. Assim era a Inglaterra, e George era capaz de compreender o ponto de vista da Inglaterra, porque George era inglês…”

 

(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de janeiro de 2012)

Julian Barnes (autor de um pequeno clássico contemporâneo, O papagaio de Flaubert) venceu o Booker Prize 2011. Mas ele já havia chegado bem perto dessa badalada (e tantas vezes discutível) premiação com Arthur & George1 (Inglaterra, 2005, traduzido para a Rocco por Léa Viveiros de Castro), onde recria as circunstâncias e reverberações de um erro judicial no Reino Unido, em 1903, motivado por racismo, das quais participou Arthur Conan Doyle.

Antes que se envolva com a história de George Edalji (filho de um parse nativo de Bombaim e uma escocesa), acompanhamos a trajetória do criador de Sherlock Holmes, um self made man que resgata sua família da pobreza, e que de fracassado oftalmologista, a partir do momento que resolve escrever ficção popular, se torna um dos homens mais célebres e venerados de um período que vai do final dos anos 1880 até sua morte, em 1930.

Sua esposa, por quem tem mais amizade do que um sentimento verdadeiramente amoroso, contrai tuberculose, vivendo como eterna moribunda (só que por muitos anos), e ele se apaixona por uma mulher mais jovem (que virá a ser a segunda esposa).

Além da existência oficial e prestigiosa, e desse dilema “cavalheiresco” (o termo não é exagerado nem indevido, como verá quem ler o romance de Barnes: Doyle fica parecendo um herói conradiano), ele deixa-se converter e absorver pelos caminhos do espiritismo, a seu ver uma etapa natural do descortínio científico, tão galopante à sua época, que iria varrer os preconceitos e superstições das religiões institucionalizadas.

A esposa morre enfim, e de repente Doyle vive um momento de depressão e letargia, sentimentos pouco comuns a esse homem enérgico e produtivo. É nessa fase crítica que sua atenção se volta para o drama de Edalji. O pai deste é pastor anglicano numa região pra lá de atrasada (e sem nenhuma Jane Austen que lhe dê a mínima pátina de encanto), e desde que o filho era adolescente, a família sofreu uma campanha de cartas anônimas, difamações, intimidação por parte das autoridades policiais locais (que sempre implicaram com George, por ser “esquisito” e lhe fizeram acusações estranhas).

Quando o “mestiço” já é um advogado atuante (trabalha em Birmingham, contudo volta todos os dias para a casa paroquial 2), vários animais da região são mutilados, e ele passa a ser considerado o único suspeito. É preso, julgado, considerado tanto autor dos crimes quanto das próprias cartas anônimas, que tantos transtornos trouxeram à sua família (há peritos, depois desacreditados por outros a quem Doyle recorrerá, que afirmam que sua caligrafia é a mesma dessas missivas), e condenado a sete anos de trabalhos forçados. Libertado após cumprir metade da sua pena, procura limpar seu nome e conseguir reparações do Ministério do Interior (não havia tribunais de apelação naquele tempo, seu caso é que vai dar ensejo para a criação deles).

E aí entra Doyle em cena, dando uma de Holmes e iniciando não só uma campanha através da imprensa, como assumindo uma investigação que fora negligenciada pela polícia. E conforme o escritor familiariza-se com as pessoas e os detalhes do caso nas aldeias, “vórtices de falatórios”, o leitor se defronta com a estupidez, as idéias preconcebidas, a arrogância de classe, os estereótipos sobre raças, a avidez gananciosa e todos os defeitos grotescos da humanidade num “país de ponta”, no qual as pessoas se sentiam tão mais civilizadas e superiores que os demais cidadãos do mundo.

O mais interessante, no entanto, com relação a Arthur & George, além dessa notável recriação da mentalidade em meio à qual foi julgado o caso Edalji, é que a investigação não se conclui e várias pontas ficam soltas, No fundo, é como a pesquisa do mundo dos espíritos, o grande projeto de Doyle: indícios, trilhas promissoras, porém a conta não fecha e se tem de movimentar na neblina.

Ao contrapor de forma tão elegante e delicada as trajetórias de , por um lado, um homem que fez tanto sucesso (e que entretanto criou um “fantasma” que adquiriu mais peso e realidade que ele mesmo, e com o qual foi muitas vezes confundido), que acumulou uma existência “material” tão imponente, e por outro, de um homem que viu se esboroarem todas as suas expectativas e perspectivas, ao fim e ao cabo, Barnes nos propõe uma meditação sobre a fragilidade da vida e a mortalidade, no que ela tem de menos melodramático e mais entranhado ao nosso próprio existir.

Em 1930, George Edalji vai a uma cerimônia espírita em função da morte de seu protetor, em Londres (onde vive então) e, dando um passeio pelo Hyde Park, antes da cerimônia, tem um momento digno da mrs. Dalloway de Virginia Woolf:”naquele momento George foi abalado pelo pensamento de que todo mundo ia morrer. Às vezes, ele refletia sobre sua própria morte; ele tinha chorado a morte dos pais—seu pai, doze anos antes, sua mãe, seis; ele tinha lido obituários nos jornais e tinha comparecido a enterro de colegas; e estava ali para o grande adeus a Sir Arthur. Mas nunca antes ele tinha entendido—embora fosse mais uma percepção visceral do que uma compreensão mental—que todo mundo ia morrer (…) Mas quando você se via em Hyde Park numa quente tarde de verão, no meio de milhares de outros seres humanos, poucos dos quais provavelmente pensando na morte, era mais difícil de acreditar que esta coisa intensa e complicada chamada vida pudesse ser apenas um acontecimento ao acaso num planeta obscuro, um breve momento de luz entre duas eternidades de escuridão. Num momento desses, era possível sentir que toda essa vitalidade tinha de continuar de alguma forma, em algum lugar. George sabia que não estava prestes a sucumbir a um súbito sentimento religioso (…) Ele também sabia que, sem dúvida, continuaria a viver da mesma forma como sempre vivera, observando como o resto do país—e principalmente por causa de Maud—os rituais da igreja Anglicana, observando-os de um modo imprecisamente esperançoso até morrer, quando então descobriria a verdade a respeito do assunto ou, o que era mais provável, não descobriria nada. Mas hoje (…) ele pensou enxergar um pouco do que Sir Arthur tinha visto…”

O real e o sobrenatural, igualmente inquietantes e cheios de mistérios insolúveis para qualquer candidato a Sherlock: “Em todo caso, sua mente tinha encalhado na expressão ´mundo real´. Com que facilidade todo mundo entendia o que era real e o que não era. O mundo no qual um jovem advogado ingênuo era condenado a trabalhos forçados em Portland…o mundo no qual Holmes solucionava qualquer mistério que estava além da capacidade de Lestrade e seus colegas… o mundo do além, o mundo atrás da porta fechada que Touie [apelido familiar da primeira esposa de Doyle] tinha atravessado tão facilmente. Algumas pessoas acreditavam em apenas um desses mundos, outras em dois,umas poucas nos três. Por que as pessoas imaginavam que o progresso consistia em acreditar em menos coisas, em vez de acreditar em mais coisas, em se abrir mais para o universo?”

 1 Perdeu para O mar, de John Banville.

 2 É preciso dizer que há elementos esquisitíssimos na vida dessa família (mas de perto quem é normal?). Desde que George era garoto, ele dorme no quarto com o pai, enquanto a mãe dorme no quarto com a irmã, que é meio adoentada (mais tarde, ela será uma companheira de toda a vida, no comovente quadro que o autor traça dos Edaljis após a morte de Conan Doyle). Quando a prisão de George ocorre, ele está com 27 anos, e ainda dorme com o pai (embora haja um quarto vago na casa paroquial, pois o outro irmão vive longe), o qual tranca a porta todas as noites. Não há nada sexual nisso, só quero dizer que é uma existência das mais estranhas para um homem adulto, e esse fato pesará muito contra ele no julgamento. Há até o boçal do chefe da polícia local (num diálogo tenso e provocativo com Doyle) que abraça a teoria de que “os olhos saltados” de George indicam um grande apetite sexual, que só foi se tornando mais reprimido e violento com essa rotina!

 

14/01/2012

Mais Spielberg que Conan Doyle

   Em seu romance de estréia,  Mark Frost (entre outras atividades, colaborador de David Lynch no seriado Twin Peaks) confirma o imenso fascínio exercido pela era vitoriana: A lista dos 7  (The list of Seven,1993, em tradução de Raquel Mendes para a Record) transforma Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, em personagem (aliás, quando olhamos as fotos dele vemos que ele daria um ótimo Watson), reunindo-o a um agente da rainha Vitória, Jack Sparks (o qual apresenta vários traços de Holmes: o gênio dedutivo, o gosto pelo violino, o pendor para os disfarces, a dependência de drogas), a madame Blavatsky (a maior autora esotérica de todos os tempos) e a Bram Stoker (autor de Drácula, outro ícone vitoriano).

   Em 1884, Doyle—ainda jovem e obscuro—presencia vários assassinatos numa sessão espírita, conseguindo escapar graças a Sparks. Descobre, então, que era o verdadeiro alvo dos homicidas porque escrevera uma obra chamada “A Irmandade da Sombra”, na qual, além de plagiar um livro de Blavastsky, ainda por cima involuntária e casualmente denunciava as atividades conspiratórias de um grupo de respeitáveis pilares da sociedade britânica, com o fito de trazer ao plano físico (e dominar a Terra, claro) uma Entidade maligna, o Habitante do Umbral.

    Para tanto, os 7 utilizam mortos-vivos, frutos de experiências laboratoriais (claro) e muitos outros recursos poderosos. O grande vilão, entre eles, é Alexander, irmão de Sparks, que o persegue e a Holmes Reino Unido afora…

   A lista dos 7 lembra, a todo momento, outras obras literárias e filmes: a confraria conspiratória e as características da Entidade, sem falar nas analogias explícitas com o nazismo (Hitler chega a aparecer no final), lembram bastante os romances de F.Paul Wilson, como Renascido & Represália. Frost, portanto, reúne dois imaginários ainda muito atrativos: o vitoriano e o nazista, que mexem com coisas profundas e mal resolvidas da humanidade.

    Há, também, um caixão misterioso que é trazido numa embarcação, como em Drácula. E mais: quando Sparks & Doyle estão fugindo de Alexander passam por uma aniga estrada romana e o diálogo que entabulam lembra bastante a Trilogia de Merlin, de Mary Stewart. Sem falar nas tais implosões ectoplasmáticas que parecem ter saído direto de Os caça-fantasmas.

  Nada disso constitui problema, pois Umberto eco fez praticamente a mesma coisa com O nome da rosa. Sob esse ponto-de-vista “pós-moderno” A lista dos 7 funcionaria perfeitamente. A chave do sucesso do livro de Frost está no slogan da medonha capa: suspense e ocultismo na Inglaterra Vitoriana. Porém, mais do que um livro de terror ou um thriller (embora apresente doses maciças dos dois gêneros), ele lembra os filmes seriados de antigamente e aí surgem os problemas. Tudo é exagerado e aparece em profusão cansativa. Temeroso, talvez, dos momentos de vazio em sua narrativa de 400 páginas, Frost tornou o romance episódico, com pequenos momentos de suspense e expectativa em meio à narrativa geral. Isso tem o mesmo efeito amortecedor e monotonizante dos filmes de Indiana Jones, nos quais todo o “ritmo” era muito calculado, excessivo, espasmódico. Não se trata mais de rapidez narrativa, e sim de histeria.

   Apesar de incômodo, o exagero narrativo não chega a comprometer uma leitura descompromissada da homenagem de Mark Frost a Conan Doyle, mas ele fica aquém da realizada por um filme lindo e infelizmente pouco apreciado, O enigma da pirâmide, que também era atravancado pelos cacoetes spielberguianos. E não há nada mais diferente do mundo de Sherlock Holmes do que o do diretor da série Indiana Jones, cuja puerilidade contaminou tantos talentos.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 09 de agosto de 1994)

Nota de 2012– Eu já não faria essa afirmação final de forma tão categórica. Quer dizer, penso ainda o mesmo de Spielberg, de quem nunca fui fã, mas eu não diria que o mundo de Conan Doyle é tão diferente assim.

13/01/2012

SHERLOCK HOLMES À FRANCESA

ANOTAÇÕES DO DIA 23.11.09

“O que há de mais mortal, mais destruidor que a ordem para o espírito curioso, para o olhar esquadrinhador, que encadeia elos aparentemente disparatados, mas na realidade profundamente complexos?” (Alexis Decaye, SHERLOCK HOLMES & MARX).

Em 1974, Nicholas Meyer engenhosamente imaginou um encontro entre Sherlock Holmes e Freud, em razão do vício do primeiro em cocaína, em Uma solução sete por cento (A seven per-cent solution, um dos três livros em que ele reinventou o detetive de Conan Doyle) , que depois seria, infelizmente,  adaptado por Herbert Ross, com sua habitual preguiça de criar qualquer coisa de pessoal ou marcante, num desperdício da inteligência do texto e também do maravilhoso elenco (Nicol Williamson, Robert Duvall, Alan Arkin, Laurence  Olivier, etc). O  filme virou por aqui Visões de Sherlock Holmes e lhe faz falta a  mistura da pena da galhofa & da tinta da melancolia que o mestre Billy Wilder imprimiu a um filme contemporâneo: A vida íntima de Sherlock Holmes.

Em 1981, foi a vez de Marx. O autor francês Alexis Lecaye escreveu o imaginativo SHERLOCK HOLMES & MARX, traduzido há alguns anos por André Telles e publicado numa interessante série da Zahar,  “Creme do Crime” (há outra aventura lecayana de Homes, Sherlock Holmes & Einstein).

Lecaye imagina Marx (que morou em Londres boa parte da sua vida) contratando os serviços de um muito jovem Holmes (aliás, ele comete uma ousadia: faz do detetive o próprio narrador das suas aventuras: “É a primeira vez, e muito provavelmente a última, que pego da pena, pelo menos no que se refere à redação de um capítulo das minhas Memórias. Outros se encarregaram disso por mim. Por que, então, esse súbito prurido de escrever, esta necessidade irreprimível de traçar eu próprio os contornos esmaecidos de um passado irrevogavelmente morto?… O caso que vou recordar aqui… exerceu, mais que qualquer outro, grande influência em minha mocidade. Essa influência chegou inclusive a se estender para além da minha pessoa. O episódio talvez tenha alterado toda a história européia deste fim de se´culo. Será que o próximo também sentirá o seu peso?”), na época da eclosão da comuna de Paris (em 1871), quando a capital francesa ficou sitiada por meses, após a derrota francesa na guerra com a Alemanha. Um assassino, a soldo de uma potência estrangeira, pretende eliminar Marx, e este envia Holmes à França durante esses meses revolucionários que o autor de O Capital descreverá com uma retórica majestosa (às  vezes muito exagerada, porém como foi escrito no calor do momento) nos seus panfletos que consituirão A GUERRA CIVIL NA FRANÇA. Dessa mesma época temos as cartas que ele escreveu para seu admirador , o ginecologista L. Kugelmann, “que tomou parte em sua juventude no movimento revolucionário de 1848 e por toda a sua vida se considerou um ardente seguidor de Marx” (trecho do prefácio de Lênin a essa correspondência).

       Antes de mais nada: o romance de Lecaye é ótimo. Eu teria o maior prazer de indicá-lo (sem que isso represente uma diminuição ou visão paternalista) para jovens leitores: é uma aula de como abordar uma aventura histórica sem pedantismos e sem explicações inúteis, confiando apenas na narrativa e na curiosidade e inteligência do leitor.  Em 170 páginas consegue nos transmitir uma imagem perfeita da Londres vitoriana, dos dias da comuna, da paisagem francesa (que Holmes atravessa para poder chegar a Paris e cumprir sua missão), das querelas ideológicas daquele momento, e, sobretudo, da transformação de Holmes em.. Sherlock Holmes, com as características que o consagrara, através de um relato retrospectivo que é um pouco também um balanço de vida, uma espécie de “ilusões perdidas” ou “educação sentimental” do detetive inglês. Gostei muito e recomendo (depois teríamos um “jovem Sherlock Holmes” muito interessante, também, na visão de Chris Columbus que resultou no filme, para mim e para vários amigos, memorável, porém pouco apreciado pela crítica: O enigma da pirâmide, talvez por ter sido realizado por outro diretor tão bisonho e nulo quanto Herber Ross: Barry Levinson).

E, por falar em “jovem” Sherlock Holmes, abaixo temos uma foto do “jovem” Marx, longe do estereótipo de velho barbudão, meio Jeová, consagrado pela posteridade:

A GUERRA CIVIL NA FRANÇA, fixando definitivamente o conceito de “luta de classes” vai tentar interpretar, mesmo no calor da hora, como afirmou Engels (num texto escrito vinte anos mais tarde), a “significação histórica da Comuna de Paris”“A 28 de maio os últimos combatentes da comuna sucumbiam ante a superioridade de forças do inimigo… O desarmamento dos operários era considerado o primeiro dever para os burgueses que se achavam na frente do Estado… Era a primeira vez que a burguesia mostrava a que extremo de crueldade e vingança é capaz de chegar sempre o que o proletariado se atreve a defrontar-se com ela como uma classe independente, que tem seus próprios interesses e reivindicações… O Segundo Império fora o apelo do chauvinismo francês: a reivindicação das fronteiras do Primeiro Império, perdidas em 1814… isso implicava a necessidade de guerras periódicas e de ampliação de fronteiras… não havia extensão territorial que tanto deslumbrasse a fantasia dos chauvinistas franceses como as terras alemãs da margem esquerda do Reno… Defraudado em suas esperanças de  ´compensações territoriais´ por Bismarck e por sua própria política demasiado astuta e vacilante, não restava a Napoleão [não o original, bem entendido, e sim o seu desprezível arremedo] outra saída a não ser a guerra, que se deflagrou em 1870… A consequência inevitável foi a revolução de Paris de 4 de setembro de 1870. O Império desmoronou-se como um castelo de cartas e foi novamente proclamada a República…. A 25 de março foi eleita, e a 28, proclamada, a comuna de Paris… Como os membros da comuna eram todos, quase sem exceção, operários, ou representantes reconhecidos, as suas resoluções se distinguiam por um caráter marcadamente proletário. Uma parte de seus decretos eram reformas que a burguesia republicana não se atrevera a implantar por vil covardia e que lançavam os fundamentos indispensáveis para a livre atuação da classe operária, como por exemplo, a implantação do princípio de que, com relação ao Estado, a religião não é senão um problema de foro íntimo; outros tinham o objetivo de salvaguardar diretamente os interesses da classe operária, algumas vezes mesmo abrindo profundas brechas na velha ordem social. Mas tudo isso, numa cidade sitiada, não podia ir além de um início de realização… Paris estava submetida a incessante bombardeio e pelas mesmas pessoas que haviam estigmatizado como um sacrilégio o bombardeio da capital pelos prussianos… E então atingiu o seu ponto culminante aquela matança de homens desarmados, mulheres e crianças… Logo quando se viu que era impossível matar a todos, vieram as detenções em massa, iniciaram-se os fuzilamentos de vítimas arbitrariamente escolhidas entre as fileiras de prisioneiros e a transferência dos demais para grandes campos de concentração, onde aguardavam o comparecimento diante dos conselhos de guerra.” (utilizo aqui o texto constante nas Obras Escolhidas, volume 2, de Karl Marx & Friedrich Engels, publicadas pela Alfa-Õmega; nãohá indicação de tradutor).

No primeiro dos onze capítulos de SHERLOCK HOLMES & MARX, o detetive novato recebe uma carta de alguém que ele ignora completamente quem seja: Marx, marcando uma reunião no dia 13 de abril de 1871. O indivíduo que se apresenta, com cerca de 55 anos,  tinha “estatura ligeiramente inferior à média, vestido com um casacão escuro, um pouco puído, e levemente folgado nos ombros, como se seu proprietário o tivesse pego emprestado de um amigo mais gordo, ou então subitamente emagrecido. Sua tez amarelada, doentia, e as olheiras roxas me fizeram inclinar pela segunda hipótese. Colarinho branco e botinas reluzentes, o restante do seu traje era irrepreensível. Uma grande barba precocemente grisalha, muito na moda em alguns círculos do continente, nele bastante crespa e encimada por um bigode basto e negro, engolia-lhe a parte inferior do rosto, sem conseguir dissimular uma grande boca, de expressão irônica”. Holmes fica admirado diante das “incrível vitalidade de sua expressão… Acima de espessas sobrancelhas, erguia-se uma testa imensa e ossuda, com pequenas entradas. O enorme cérebro escondido por trás daquela fronte devia encerrar uma inteligência prodigiosa. O que quer que tivesse vindo me propor, certamente eu não estaria perdendo meu tempo em escutar”.

Em 12 de abril de 1871, Marx escrevia a seu amigo Kugelmann, a respeito da sua saúde: “atualmente estou submetido ao tratamento do Dr. Matheson, o qual diz que meus pulmões estão em excelente estado e que a tosse é relacionada com bronquite, e pode afetar o fígado.” Ele informa seu correspondente também que, embora  genro (Lafargue) esteja em Paris, sua filha, Laura (guardem esse nome, terá grande importância neste post) não o acompanhou. Nesta carta lemos ainda: “Que elasticidade, que iniciativa histórica, que capacidade de sacrifício desses parisienses! Depois de seis meses de fome e ruína, causada mais pela traição que pelo inimigo externo, eles levantam-se por sobre as baionetas prussianas, como se nunca houvera uma guerra entre a França e a Alemanha  e o inimigo não estivesse às portas de Paris. A história não tem exemplo semelhante de tamanha grandeza…” (utilizo a edição conjunta, publicada pela Paz & Terra de O 18 Brumário & Cartas a Kugelmann, estas últimas traduzidas por Renato Guimarães).

ANOTAÇÕES DO DIA 24.11.09

“A diferença entre criminosos e inocntos não está na concepção, mas no poder e na força de transformação de um pensamento em ato. Se tivesse respeitado essa verdade eterna, infelizmente inacessível a um espírito de 23 anos, inexperiente, ainda imbuído de princípios rígidos, incapaz de imaginar uma passagem, uma passarela entre o mundo do Bem e o do Mal, a seqüência de minhas aventuras teria, uma vez mais, sido outra” (Alexis Lecaye, SHERLOCK HOLMES & MARX, mas aí na esteira dessas reflexões, precisaria ter uma pitada de Freud na perspicácia sherloquiana).

(para o leitor se orientar: estou comentando o livro SHERLOCK HOLMES & MARX, de Alexis Lecaye, mas utilizando como apoio dois textos de Marx da época da comuna de Paris de 1871: A guerra civil na França & Cartas a Kugelmann)

“É um fato estranho. Apesar de tudo o que se falou e se escreveu, com tamanha profusão, durante os últimos 60 anos, a respeito da emancipação do trabalho, mal os operários, não importa onde, tomam o problema em suas mãos, logo recomeça a ressoar toda a fraseologia apologética dos porta-vozes da sociedade atual, com os seus dois pólos, o capital e a escravidão assalariada… como se a sociedade capitalista se achasse ainda em seu mais puro estado de inocência virginal, com seus antagonismos ainda em germe, com suas ilusões ainda encobertas, com suas prostituídas realidades ainda não desnudadas. A comuna, exclamam, pretende abolir a propriedade, base de toda civilização! Sim, cavalheiros, a comuna pretendia abolir essa propriedade de classe que converte o trabalho de muitos na dos expropriadores.  Queria fazr da propriedade individual e o capital, que hoje são fundamentalmente meios de escravização e exploração do trabalho, em simples instrumentos de trabalho livre e associado. Mas isso é comunismo, o irrealizável comunismo! … Se a produção cooperativa for algo mais que uma impostura e um ardil, se há de substituir o sistema capitalista; se as sociedades cooperativas unidas regularem a produção nacional segundo um plano comum, tomando-a sob seu controle e pondo fim à anarquia constante e às convulsões periódicas,  conseqüências inevitáveis da produçao capitalista, que será isso, cavalheiros, senão counismo, comunismo realizável?

      A classe operário não esperava da comuna nenhum milagre. Os operários não têm nenhuma utopia já pronta para introduzir, por vontade popular… Eles não têm que realizar nenhum ideal, mas simplesmente libertar os elementos da nova sociedade que a velha sociedade burguesa agonizante traz em seu bojo…”

(Karl Marx, A guerra civil na França)

Ontem, contei que no romance de Lecaye, Marx marca um encontro com o jovem Sherlock Holmes em 13 de abril de 1871. Querendo contratar os seus serviços, o informa de que, sob as ordens de Bismarck, um anarquista russo, “com status de desertor, um homem estranho, aristocrata arruinado, anti-semita e xenófobo” se prepara para assassiná-lo. Seu nome: Rupelski: “O que eu quero lhe pedir… procurar o assassino, desmascará-lo sem que ele suspeite de nada e fazê-lo desaparecer… Quando digo ´desaparecer´, entendo com isso esconder, dissimular, raptar se quiser, subtrair  à atenção e colocá-lo fora de circulação… O senhor o guardará durante algumas semanas, o tempo necessário para eu concluir um trabalho que me é caríssimo. Depois poderia soltá-lo…o importante é ele não me matar agora, o que representaria um golpe fatal para o movimento.” Que movimento? A Internacional dos trabalhadores. Marx fica espantado com o desinteresse e ignorância políticos de Holmes:  “Vocês, britânicos, são incríveis! Concedem asilo, quase irrefletidamene, ao cérebro de uma organização que, com ou sem razão, faz tremerem todos os burgueses e governos do continente, e não sabem sequer da sua existência…O senhor, jovem burguês briânico, inteligente e culto, não apenas não têm medo, o que concebo perfeitamente, como sequer tem conhecimento da nossa existência!” Numa carta de 27 de julho do mesmo ano a Kugelmann, Marx diz: “O trabalho da Internacional é imenso, e além disso Londres está abarrotada de refugiados, pelos quais tenho de olhar. Mas estou sobrecarregado por outras pessoas, jornalistas e gente de toda espécie, que querem ver o monstro com os próprios olhos. Acreditou-se até agora que o crescimento dos mitos cristãos durante o Império romano foí possível apenas porque a imprensa ainda não fora inventada. É precisamene o contrário. A imprensa diária e o telégrafo, que em um instante difundem invenções por todo o mundo fabricam mais mitos (o gado burguês acredita neles e aumenta com base neles) em um dia do que antes se fazia em um século.”. Numa preciosíssima  carta anterior (de 18 de junho), ele escreve: “Você sabe que durante o período da última revolução de Paris fui denunciado continuamente como o grand chef da Internacional, pelos jornais de Versalhes, e por extensão, pela imprensa aqui da Inglaterra… tenho a honra nesse momento de ser o mais bem caluniado e ameaçado homem de Londres. Isso faz um sujeito sentir-se bem, depois de um idílio entediante de 20 anos em seu antro…”

Voltando ao romance, após algumas peripécias londrinas (inclusive, um atentado contra sua vida), Holmes aceita a proposta de Marx, que é a de viajar para Paris, onde Rupelski, ou X (porque não há certeza firme da sua identidade) está camuflado, nos meios anarquistas, “em pleno coração da Paris revolucionária. Hoje em dia é o melhor lugar para se esconder e se urdir complôs, no meio da desordem e da efervescência populares”. Holmes vai para o continente com um colaborador francês da Internacional,  Philibert Longuet, e depois de algumas aventuras pelo interior da França (há até um duelo, mas deixo os detalhes para o leitor do romance), entra disfarçado em Paris, através de túneis subterrâneos antiquíssimos. acompanhado pelo desdenhoso e intrigante Vigot. Entre os comparsas da viagem de Holmes está a família Gottlieb, e madame Gottlieb, contrariando o marido, diz a seguinte frase, que vem a propósito, quando pensamos na missão do detetive e nas palavras que Marx escreveu em suas missivas a Kugelmann: “Se perguntar aos operários parisienses, não encontrará muitos que sequer conheçam o nome do senhor Karl Marx”.

Em Paris, Holmes refugia-se no apartamento de Vigot, conhecendo a irmã dele, Isabelle, uma pintora passional (e aqui podia-se temer que houvesse uma convencionalíssima aproximação amorosa, mas Lecaye se mostrou muito mais hábil do que se podia esperar, fazendo com que haja uma fixação por parte dele, enquanto os interesses dele irão por outros caminhos; ele a deixa indignado com sua “inocência” inglesa, não “entendendo” o que ela quer dele, e mantendo-se fleumático e racional: “Aquela desordem dos sentimentos, que nada seria capaz de explicar, bem diferente da apaixonante desordem de uma investigação criminal que esconde de fato elos secretos e encadeamentos rigorosos… O que há de mais fascinante que isolar o fio vermelho do crime da meada incolor da vida?”; mais adiante, numa daquelas considerações que são típicas das narrativas retrospectivas, ele se auto-congratula pelas decisões que moldaram sua existência: “felicito-me a cada instante por ter sido capaz, à minha revelia talvez, mas é o resultado que conta, de evitar os escolhos da paixão para me ater ao conforto de uma sólida e viril amizade“, referindo-se aqui, é claro, à sua relação com o doutor Watson).

       Enquanto conhece melhor os irmãos (chega a posar para quadros de Isabelle, entre um e outro arrufo), ele perambula por Paris, tentando estabelecer contatos (que Marx forneceu) e localizar X/Rupelski. E ele consegue se introduzir num círculo de niilistas (“o senhor viu a cidade que se diverte, vai descobrir a cidade que pensa”), que se reúnem nas catacumbas da Igreja Santo Eustáquio,  e ouvir o discurso inflamado, visando diretamente a figura de Marx, do tal Rupelski, um exemplo cabal dos eternos derrotistas, daqueles que teorizam para não agir e para impedir os outros de agir: “Entre esses homens, há um particularmente cuja ação e palavra devem ser imperativamente refreadas, tal é a astúcia diabólica que mostra na apresentação de seu programa e de suas idéias: trata-se de Karl Marx, gênio mau de todos os que aspiram ao movimento livre e espontâneo da revolta… Seguia-se então uma longa enumeração dos vícios imperdoáveis do pensamento e da ação de Karl Marx, um catálogo em que se misturava confusamente tudo o que Rupelski podia recriminar ao revolucionário alemão, inclusive sua origem judaica e seua pretensa lascívia (…) Apesar do tom virulento de Rupelski, a despeito do silêncio religioso que acolhia cada palavra sua, tive a estranha impressão de ter assistido a um sermão dominical, em que o fato de estar presente e escutar bastava para garantir a consciência limpa e sustentar a fé de todos os participantes. Decerto não era ali que se elaboravam os complôs e as decisões irrevogáveis.”

E Holmes consegue capturar Rupelski e mantê-lo preso num porão abandonado do edifício em que moram os irmãos (Isabelle até se torna uma amiga do niilista russo). A missão estava completa? Holmes tem a sensaçao que não, sua intuição lhe diz que não aprisionou um tigre, mas um reles chacalzinho, astuto e escorregadio, porém inofensivo. Por isso, decide esperar instruções do próprio Marx…

Holmes recebe, então, uma carta de Laura, a filha de Marx casada com o jornalista e colaborador da Internacional Paul Lafargue, dizendo que está em Paris e deseja encontrá-lo no Hotel de Bordeaux. Lá, ele sofre um “coup de foudre”: é amor à primeira vista, fica idiotizado, desajeitado, completamente tomado por aquela mulher (e a coisa pelo visto é recíproca): “sou incapaz de achar as palavras adequadas para explicar as razões daquela súbita e vergonhosa perda de autocontrole”). Mesmo embasbacado, há assuntos urgentes:  ela traz uma carta do pai, escrita no seu estilo característico (pitoresco e misturando palavras de vários línguas, uma das várias coisas que me fazem aproximar na minha cabeça, às vezes, as figuras de Marx e James Joyce). Nessa carta, ele diz que a missão realmente pode ser encerrada, pois ele não corre mais riscos. Holmes informa à Laura que capturou Rupelski (ela até chega a vê-lo no porão onde está trancafiado, embora tenha ficado desconfiada e mesmo em pânico quando Holmes a encaminhou até ali). De qualquer forma, Holmes está apaixonado, citando Werther e completamente indeciso quanto a voltar para a Inglaterra…

ANOTAÇÕES FINAIS (dia 25.11.09):

“Já era tempo de botar para funcionar aquela massa cinzenta de que tanto me orgulhava e de que até então fizera tão pouco uso”.        (Alexis Lecaye, SHERLOCK HOLMES & MARX)

Holmes e Laura Lafargue, née Marx, iniciam um ardente romance em plena Paris sitiada.  Um dia ela desaparece misteriosamente. Em busca da mulher amada, ele  vai a Bordeaux, na qual  casal Lafargue reside, e descobre que teve em seus braços uma falsa Laura, pois conhece a verdadeira filha de Marx: “Era falsa a carta de Marx à sua filha que eu lera em Paris, falsas as boas novas. mais terrível ainda: falsa, a identidade da mulher que eu adorava e cuja doçura e entega haviam adormecido em mim todas as desconfianças, atenção e vigilãncia. Falso,  o rapto! Falsidade! Falsidade! Falsidade! Era tudo uma mistificação. Mas então quem era aquela mulher? O que ela pretendia? Quais eram seus motivos, seus interesses? “

Na verdade, a falsa Laura é o verdadeiro X, é ela quem pretende assassinar Marx (não vou revelar os motivos aqui). Para chegar a Londres e impedi-la (o que acontecerá, com Holmes assumindo a identidade do autor de O capital, numa demonstração das suas habilidades no disfarce), Holmes, voltando a Paris, tem de sobreviver (e seus amigos também, e mais o pobre Rupelski, que era inocente) à invasão bárbara que a cidade sofre, e ao massacre dos seus habitantes, narrados de uma forma ao mesmo tempo concisa e eficiente por Lecaye. Na figura de X, a falsa Laura, vemos também uma alusão àquelas formidáveis e atraentes mentes criminosas femininas que tanto obsedaram o Holmes de Conan Doyle, embora nenhuma delas chegasse a ser tão destrutiva.

27/12/2009

Em relação ao século XIX: BICENTENÁRIOS, SESQUICENTENÁRIOS

      “… todos os seres da natureza, perceptíveis para nós, mantêm uma relação recíproca (…) Imagine a água, o óleo, o mercúrio: você verá uma unidade, uma coesão entre as suas partes. Essa união só deixará de existir pela força ou por outra determinação qualquer. Cessando esta, tornam logo a juntar-se de novo (…) E isso será diferente segundo a diversidade dos seres. Ora agirão como amigos ou velhos conhecidos que rapidamente se reúnem, se juntam, sem modificarem um ao outro, tal como o vinho ao se misturar com a água; ora, ao contrário, permanecerão absolutamente estranhos um ao outro, sem se unirem, mesmo através de fricções ou misturas mecânicas, como o óleo a água (…) Não falta muito para vermos nessas forma simples as pessoas que conhecemos… Entretanto o que mais se assemelha a esses seres inanimados são as massas se enfrentando no mundo, as classes sociais, as profissões, a nobreza e a burguesia, o militar e o civil (…) Contudo, tal como esses grupos que se agregam por meio de costumes e leis, há também, em nosso mundo químico, elementos para juntar aquilo que se repele mutuamente…”

      2009 marca não só o bicentenário do nascimento de gênios como Edgar Allan Poe, Nikolai  Gógol  (há posts sobre as duas efemérides aqui no meu blog) e Charles Darwin, como também o de uma obra fundamental e curiosamente pouco conhecida do público comum: As Afinidades Eletivas (relançada recentemente, em tradução de Erlon José Paschoal, pela Nova Alexandria, em edição de capa dura, mas a que possuo é a de  1992; as citações podem ser encontradas na Primeira Parte- Capítulo IV; há uma notável adaptação cinematográfica do livro feita pelos irmãos Taviani, com a grande Isabelle Hupert).

    Na citação acima, misturei as falas de vários personagens (o Capitão, Eduard, Charlotte) que estabelecem o “processo químico e orgânico” de modificação dos sentimentos de um casal nobre, devido à aparição de uma “outra determinação qualquer”, a irresistível Ottilie, a qual levará Eduard ao adultério. O extraordinário romance de Goethe (1749-1832) marca o aprofundamento da análise dos sentimentos individuais na ficção, mostrando que o absoluto não existe  nesse reino, só o relativo, e que portanto pode haver uma decomposição narrativa infinita dos seus elementos. Nem Rousseau nem Richardson, no século anterior, haviam ido tão longe.

p.s.- Apesar de estar fora do âmbito deste post, o nascimento do grande amigo de Goethe e seu maior “rival”, por assim dizer, na literatura alemã, Schiller, completa 250 anos em 2009.

    Além dos 200 anos do nascimento do profeta do Evolucionismo, temos os 150 anos da sua obra mais célebre, A Origem das Espécies, que deu origem a uma avalanche de lançamentos comemorativos (Richard Dawkins que o diga). Aliás, com relação à obra-prima de Goethe, é bom lembrar que o último capítulo da obra-prima de Darwin se chama “Afinidades mútuas entre os seres orgânicos”: “Tentei demonstrar neste capítulo que o arranjo de todos os seres orgânicos que viveram em todos os tempos em grupos subordinados a outros grupos;  que a natureza das relações que vinculassem num pequeno número de grandes classes todos os organismos vivos e extintos, por linhas de afinidades complicadas,  divergentes e tortuosas; que as dificuldades que encontram e as regras que seguem os naturalistas nas suas classificações;  que o valor que se liga aos caracteres  quando são constantes e gerais, que tenham uma importância considerável ou mesmo que não tenham nenhuma, como nos casos dos órgãos rudimentares; que a grande diferença de valor que existe entre os caracteres de adaptação ou análogos e de afinidades verdadeiras; tentei demonstrar, repito, que todas essas regras, e ainda outras análogas, são a consequência natural da hipótese do parentesco comum das formas associadas e de suas modificações pela seleção natural, junto às circunstâncias de extinção e de divergência de caracteres que determina.  Analisando esse princípio de classificação, é necessário não esquecer que o elemento genealógico foi unicamente aceito e empregado para classificar em conjunto, na mesma espécie, os dois sexos, as diversas idades e as variedades reconhecidas, seja qual for, além disso, a sua conformação. Se se estende a aplicação desse elemento genealógico, causa única conhecida das semelhanças que se verificam entre os seres organizados, compreende-se o que é necessário entender por sistema natural: é tudo um simples ensaio de coordenação genealógica em que os diversos graus de diferenças adquiridas se exprimem pelos termos variedade, espécies, gêneros, famílias, ordens e classes“…  (utilizo a tradução de Eduardo Fonseca, pela Ediouro).

     No mesmo ano, uma obra anteciparia o conteúdo de O Capital e, embora mais discretamente que a do pensador inglês, mudaria toda a nossa maneira de conceber o mundo e a história: Contribuição à Crítica da Economia Política, de Karl Marx, uma boa introdução às idéias do genial pensador prussiano, que naquele ano prosseguia em seu definitivo exílio em Londres, pensando no fim do capitalismo em pleno coração do Império.

       1859 marca também o nascimento do grande pensador francês Henri Bergson (autor do Ensaio sobre os dados imediatos da consciência, Matéria e Memória & A evolução criadora), um dos mais influentes da primeira metade do século XX; também naquele ano nascia  o criador de Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle, e a publicação, além de um dos textos mais deliciosos de Dostoiévski (A Aldeia de Stiepantchikov  e Seus Habitantes), uma jóia de humor e precisão narrativa (na minha opinião, sua melhor obra antes da grande fase iniciada com Memórias do Subsolo),  de uma das novelas mais lindas de  Tolstói, A Felicidade Conjugal (que também ganhou uma nova edição em 2009, pela 34, na tradução de Boris Schnaiderman).

     Trinta anos depois, ele anatematizará apocalipticamente a instituição do casamento (muito visada, assim como seu duplo, o adultério, pelos autores da época) em Sonata a Kreutzer. Porém, aos 31 anos, num tour – de force, ele adota o ponto-de-vista de uma jovem esposa, Macha, que se apaixona e se casa com um homem quase vinte anos mais velho. É através das impressões e reflexões de Macha que o leitor vai acompanhando uma profunda e alquímica (pensando em Afinidades Eletivas, podemos dizer que goethiana) transformação de sentimentos, mas que ocorre em filigrana: temos as diversas nuances que constituem a “realidade” dos sentimentos. O amor romântico de Macha e  Sierguei Mikhálitch morre e, como ela diz, “não tem mais força nem suculência. O que sobrou? Sobrou o amor ,  isto é, a felicidade conjugal,como conclui a narradora num dos mais belos finais já escritos: “…terminou o romance com meu marido; o sentimento antigo tornou-se uma recordação querida, algo impossível de trazer de volta, e o novo sentimento de amor aos filhos e ao pai dos meus filhos deu início a uma nova vida, de uma felicidade completamente diversa e que ainda não acabei de viver”. De Goethe a Tolstói, passando pelo grande Stendhal, os sentimentos na literatura se tornam mais interessantes que a ação romanesca, até chegarmos ao auge com Proust e seu Em Busca do Tempo Perdido.

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