MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/08/2011

O prazer de perambular por Vigàta

(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 23 de agosto de 2011)

“O comissário examinou atentamente o solo, enquanto o cão se afastava rosnando, mas não achou nada, nem sequer uma guimba de cigarro. E como é que se acha uma guimba de cigarro hoje em dia, quando todo mundo tem pavor de fumar por causa daquelas frases que aparecem nos maços, tipo O fumo vai matar você de câncer? Até os delinqüentes perdem o vício do fumo, e o pobre do policial acaba privado de indícios essenciais…”

Em A paciência da aranha (La pazienza del ragno, na habitual e competente tradução de Joana Angélica D´Avila Melo para a Record [1]),, livro que marcou os 10 anos da deliciosa série policial (iniciada em 1994 com A forma da água [2]) protagonizada pelo comissário Montalbano, na cidade siciliana imaginária (mas tão vívida para o leitor) de Vigàta, Andrea Camilleri coloca seu herói cinqüentão num momento de impasse: levou um tiro no ombro, está em convalescença, no entanto já sente o gelado sopro da aposentadoria (não é muito benquisto pelos superiores, que adorariam se livrar dele) e da velhice solitária, o que o leva a constrangidos surtos de comoção e a uma mais agudizada percepção de como o politicamente correto é incapaz de abranger boa parte da vida, e pode ser até mesmo danoso (e essa percepção montalbaniana gera trechos ótimos como a citação que abre este meu texto e o seguinte: “Mas por que agora todo vilarejo, mesmo que só tivesse duzentos habitantes, acreditava ser no mínimo Noviorque e estabelecia complicadíssimas regras de trânsito que mudavam a cada quinze dias?”[3]).

Por ainda se encontrar em recuperação (e também para não ser um embaraçoso estorvo na comunicação com o público e a imprensa, com seus palpites e intuições “fora de esquadro”), ele é convocado para participar de uma investigação importante—só que mantido num nível subalterno: a universitária Susanna Mistretta, filha de um geólogo e de uma moribunda, foi seqüestrada. À medida que seus captores entram em contato, não só com a família (que não tem um tostão) como também com os meios de comunicação, e que novos fatos vão emergindo, fica claro que o seqüestro tem a ver com Antonio Peruzzo, tio de Susanna, forte candidato para as próximas eleições, e que sempre teve ligações com maracutaias e atos de corrupção. Peruzzo foi capaz de enganar a família da própria irmã, a mãe de Susanna, que por esse motivo, como todos dizem, “desistiu de viver” (a única visão que Montalbano tem da doente é um dos pontos altos de A paciência da aranha).  É quem pode pagar o resgate (mais de três milhões de euros) e a opinião pública se torna cada vez mais hostil a ele.

Para Montalbano, portanto, fica evidente que uma teia foi sendo urdida pacientemente para que se chegasse a esse estado de coisas. Antes, no entanto, um histérico representante da imprensa, acusava os estrangeiros (extracomunitários, no texto) de terem trazido a criminalidade para a região (o que não deixa de ser muito engraçado, em se tratando da Sicília), e por isso seriam os suspeitos óbvios. Como em todos os casos em que o peso da opinião pública é uma força[4], tudo leva ao exagero, à pressa, aos relatos mal ajambrados e à impostura (tema tão importante na ficção de outro ilustre siciliano, Leonardo Sciascia, cuja obra-prima O Conselho do Egito é explicitamente citada em A paciência da aranha). Afinal, se trata de um país (muito diferente do nosso, evidentemente) onde, “em matéria de obras públicas, o impossível até se torna possível”; ou onde, como podemos ver na solene biblioteca do advogado do duvidoso Peruzzo, “coletâneas de leis que remontavam ao século XIX, mas seguramente ainda em vigor, porque em nosso pais, das leis de cem anos atrás, não se jogava nada fora, como se faz com os porcos”. Como acontece  com o politicamente correto, essas minúcias legais de pouco servem, a não ser para enredar o cidadão comum em sua teia.

Eu recomendaria a leitura de A paciência da aranha mais para quem já conhece o mundo de Montalbano & Camilleri. Como primeira leitura da série, o livro talvez frustre o neófito, pois sem ser propriamente fraco ou banal[5] (embora ameace cair para esse lado várias vezes), depende do encanto geral que o conjunto tem para os seus apreciadores (também não aconselharia começar pelo primeiro, o já referido A forma da água, na minha opinião muito fraco, e sim por outros como O cão de terracota & O ladrão de merendas). Para o leitor contumaz, entretanto, percorrer Vigàta mais uma vez é sempre um prazer.


[1]  A edição brasileira, por sinal, tem uma das ilustrações de capa mais horrorosas que já vi, um verdadeiro atentado visual (diga-se de passagem, a mudança no estilo de capa da “Coleção Negra” não foi muito feliz). As ilustrações que abrem cada capítulo também são uma hora do espanto.

[2] Não é preciso lembrar que, à parte essa série, o grande autor italiano escreveu também maravilhosos romances como Um fio de fumaça, Por uma linha telefônica e A ópera maldita, em minha opinião, ainda melhores e saborosos do que as aventuras de Montalbano.

[3] O morador da Baixada Santista (SP) conhece muito bem esse fenômeno de “novaiorquização” do trânsito e de suas regras, as quais da lógica e da matemática saltam para a física quântica. Na tentativa de tudo racionalizar, tudo acaba ficando irracional. Ou estou ficando velho como Montalbano?

[4] Montalbano diz que os seqüestradores “continuam a nos mostrar o teatro que nos habituamos a ver. Um espetáculo fingido, o verdadeiro eles apresentaram para um só espectador, o engenheiro Peruzzo, e o chamaram para o palco. Também houve um terceiro espetáculo, destinado à opinião pública…” Os demais fãs e conhecedores  não precisam que eu destaque a importância do teatro, do espetáculo, do evento cênico, na obra camilleriana.

[5] Camilleri até brinca com uma espécie de flerte com a trivialidade que entretém ao longo do romance: “…o sorriso se transformou em gargalhada. A teia de aranha! Não havia lugar-comum mais batido do que aquele para falar de um plano tramado no escuro. Mas ele o adotara. E o lugar-comum quisera se vingar do seu desprezo concretizando-se e obrigando-o a levá-lo em consideração.”

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