MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

29/07/2010

A fisionomia plena de Clarice

I

Ao escrever sobre a vida de Clarice Lispector (1920-1977), Nádia Battella Gotlib (uma biógrafa  quase tão bela quanto a sua biografada) optou por um caminho incomum e difícil, renunciando a uma espécie de “objetividade” qu parece ser a enganosa lei das biografias. Além disso, fez um trabalho de análise literária, normalmente abafado, para dizer o mínimo, nesse tipo de projeto, com raras e honrosas exceções.

Deve ter sido um risco calculado, e ela agora está pagando o preço: boa parte das reações iniciais foi negativa, não por culpa do livro, que é ótimo, mas da crítica, que está ficando cada vez mais apressada e superficial.

Clarice- uma vida que se conta não é impecável, há falhas e lacunas: por exemplo, no tocante à recepção dos textos da biografada. Praticamente ela só trata do assunto quando do lançamento de Perto do coração selvagem. Todavia, Nádia acertou na mosca ao privilegiar como princípio estruturador a visão (ou seja, as versões) que a própria Clarice apresentava de si mesma, da sua vida, da sua infância, principalmente através das crônicas que escreveu por necessidade financeira (e que em sua quase totalidade foram publicadas no póstumo A descoberta do mundo, um livro pelo qual até então eu não tinha maior interesse, e que se revelou um tesouro graças à biografia). O enredo que é extraído desse material (e sua confrontação com os fatos)  já é um feito por si e uma demonstração cabal do conhecimento da obra/vida. Nenhum dos dois pólos (texto/fato) é tomado como elemento definitivo ou absoluto. Pode-se dizer que Nádia elegeu como lema as sábias palavras do grande amor de Clarice, Lúcio Cardoso: “A finalidade de um retrato não deve ser a de esclarecer, mas de contornar, sugerindo o enigma. De esforço em esforço, aingir a fisionomia plena, mas com o seu segredo, que é o que importa”.

Nem por isso o leitor fica sabendo menos sobre os fatos: as raízes judaicas, a infância pobre no Recife, a mudança para o Rio, o trabalho como jornalista, o casamento e a vida no exterior devido à carreira diplomática do marido, a separação…

Encaminhando-se para a década de 70, o livro vai se fechando cada vez mais em Clarice Lispector e na sua obra (os elementos exteriores vão se rarefazendo), ficando mais denso ao mostrar esses anos em que ela própria se fecha mais, talcez por causa do envelhecimento, das seqüelas de um acidente nefasto, da solidão, da ameaça da pobreza. E isso mostra a sabedoria com que Nádia escreveu Uma vida que se conta e seu conhecimento ímpar da obra de Clarice, que atingira a essa altura uma tensão quase insuportável (após Água viva) e estava sempre a um passo de chegar ao seu limite, o limite do dizer, a uma desintegração e desestruturação totais, esvaziando-se por conta de sua própria lógica interna desgastante (e meio suicida).

Muitas vezes, críticos sérios (como João Luiz Lafetá) têm demonstrado reservas quanto a Clarice (ou então têm mantido certo respeito distanciado), por conta do verdadeiro objeto de culto que ela se tornou nas mãos de inúmeros leitores que a tomam por uma espécie de Maria Bethânia, ou pior ainda, de Barbra Streisand ou Liza Minelli da literatura.

A autora de A paixão segundo G.H. já foi estudada com grande acuidade por um crítico do porte de Benedito Nunes. Mas Uma vida que se conta é uma envolvente prova de que ela, junto a Guimarães Rosa, Graciliano Ramos  e Dalton Trevisan, fez a melhor obra em prosa no Brasil pós-Modernismo. Também demonstra que ela era habilidosa, para não dizer genial, no “contar”, algo que ainda não se pensara muito como uma das suas qualidades centrais. Ter inventado a sua vida, “contando-a” em suas crônicas, foi uma das suas grandes realizações. Ela mesma deu combustível para que nos interessemos por uma biografia sua.

Em tempo: o projeto gráfico do livro de Nádia Battella Gotlib pela Ática é um dos melhores dos últimos aos, um prazer de se ter e ler.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de agosto de 1995)

II

Na arguta biografia que escreveu sobre Clarice Lispector (1920-1977), Uma vida que se conta, Nádia Battella Gotlib cita as seguintes palavras de Lúcio Cardoso: “A finalidade de um retrato não deve ser a de esclarecer, mas de contornar, sugerindo o enigma. De esforço em esforço, atingir a fisionomia plena, mas como o seu segredo, que é o que importa”. Naquele momento (1995), ela revolucionava a imagem da autora, privilegiando no conjunto da obra as crônicas (reunidas hoje em Para não esquecer & A descoberta do mundo, além de certos textos fundamentais que fazem parte de Felicidade Clandestina), que a princípio não pareciam ter maior importância, mas que lidas da maneira certa compunham uma intensa e coerente narrativa autobiográfica, servindo como canto paralelo (e complementar) às intensas pesquisas existenciais e de linguagem de suas obras-primas efetivamente ficcionais como Perto do coração selvagem, O lustre, A paixão segundo G.H. ou Água viva, para ficarmos nos “relatos” cujos protagonistas são mulheres.

Pelo menos para mim Uma vida que se conta foi um marco. Pois bem, após reeditar toda a obra clariceana, a Rocco despejou no mercado uma série de livros apócrifos; entre eles, um de fotografias, “enfeitado” por breves citações: Aprendendo a viver, que parece os lançamentos da editora Sextante com fotos de bichos do tipo Um dia daqueles, que todo mundo acha tão adoráveis.

E agora Nádia Gotlib lança Clarice Fotobiografia. Qual a diferença?  Sem contar a dedicação obsessiva da biógrafa, a qual, de esforço em esforço, fez realmente o impossível para registrar até o distante local de nascimento de Clarice (Tchechelnik, na Ucrânia), o livro é uma viagem colossal pelos fatos biográficos, pelos objetivos literários, pelas obras publicadas, pela correspondência, pelo casamento, pela pobreza, pelo envelhecimento, até mesmo pela solidão e pela angústia. E até pelo além, no sentido de que não pára no ano da morte da “ucrano-pernambucana”, na feliz colocação do mestre da crônica no Brasil, Rubem Braga, o qual continua, mais feliz ainda, dizendo que ela é (e o verbo no presente vai por conta do ano em que escreveu, 1965), na verdade, uma grande escritora carioca, “na boa e nobre linhagem de Machado de Assis” (e aliás, todas essas linhas se cruzaram e cristalizaram brilhantemente em outra suprema realização, A hora da estrela, não por acaso a odisséia patética e vertiginosa de uma nordestina perdida pelo Rio, e a última obra que publicou em vida).

É lógico que esse apaixonante caleidoscópio de imagens ganha muito se lido em conjunto com Uma vida que se conta. O que Nádia Battella Gotlib continua a provar, no entanto, é sua fidelidade à mesma intenção luciocardosiana de jamais esclarecer, jamais perder de vista o que importa (o segredo), mas contornando-o, sugerindo seu enigma através da fisionomia mais plena.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 05 de julho de 2008)

 

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