MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

02/05/2017

QUARENTA ANOS DA MAIS POPULAR OBRA DE CLARICE LISPECTOR

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 02 de maio de 2017)

“Se tivesse a tolice de se perguntar ”quem sou eu?” cairia estatelada e em cheio no chão. É que “quem sou eu?” provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto”.

Em 1977, poucos meses antes de sua morte, Clarice Lispector publicou um livro que seria sua obra mais famosa e amada, A HORA DA ESTRELA. Curiosamente, uma autora que era considerada hermética e difícil, conseguiu uma popularidade imensa, desde a época (começo dos anos 70) em que começou a publicar textos no Jornal do Brasil. Também ajudaram as edições de “A Legião Estrangeira” (contos) e “Para Não Esquecer” (crônicas) pela Ática, as quais a fizeram popular entre os jovens. Ao mesmo tempo, sua figura era mitificada, pelas suas excentricidades, o que fez com que muitos críticos não reconhecessem sua qualidade literária, até hoje.

A HORA DA ESTRELA conta o desamparo da singela nordestina Macabéa, tentando encontrar a felicidade no Rio de Janeiro, “uma cidade feita toda contra ela”. Macabéa é um “fiapo de ser”, mas sempre otimista e esperançosa: “Macabéa, ao contrário de Olímpico, era fruto do cruzamento de “o quê” com “o quê”. Na verdade ela parecia ter nascido de uma ideia vaga qualquer dos pais famintos”.

Quem nos relata as aventuras (ou desventuras), da mais frágil heroína da nossa literatura é o escritor Rodrigo S. M.; apesar de adorar o livro, acho que ele é o ponto fraco do texto, pois Clarice não consegue criar uma voz narrativa masculina. Rodrigo S. M. tem o mesmo tom das narradoras femininas dos outros livros da genial escritora (“A Paixão Segundo G. H.”; “Água Viva”). Isso não impede que haja passagens belíssimas, contudo, as primeiras páginas pareçam trôpegas (aliás, eu particularmente prefiro sua fase “hermética”, onde estão seus livros supremos: “A Maça no Escuro”; “Laços de Família”; “A Paixão Segundo G. H.”).

No entanto, o livro é de Macabéa. O fiapo de gente confirma as palavras do narrador: “Sim, estou apaixonado por Macabéa a minha querida Maca, apaixonado pela sua feiura e anonimato total pois ela não é para ninguém”. Ledo engano, Rodrigo S. M., ela é para todos nós.  Todos somos apaixonados por Macabéa.

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26/05/2013

Chaya Pinkhasovna: desvarios em torno da judia Clarice Lispector


   “Afiado como a extremidade de uma navalha é

o caminho, dizem os sábios, difícil de atravessar.”

“…que ilusão ou tristeza existe para aquele que vê unidade?…”   (Upanixade)

(uma versão do texto abaixo foi publicada como resenha em 20 de julho de 2010, em A TRIBUNA de Santos)

Fiquei muito irritado com a biografia escrita por Benjamin Moser que originalmente se chama Why this world e, que traduzida por José Geraldo Couto, vem fazendo sucesso com o título brasileiro de Clarice,.

Em primeiro lugar, nada contra o projeto de realçar as origens étnicas da autora, destacando sua identidade como judia.  A questão toda é como isso afeta a sua identidade como escritora na visão que emerge do trabalho de Moser e a qualidade da biografia em si mesma.

Na minha opinião, todo o lado estritamente biográfico já fora feito de forma muito melhor (inclusive o realce à sua condição judaica) por Teresa Cristina Montero Ferreira em Eu sou uma pergunta, e sobretudo por Nádia Battella Gotlib (especialmente do ponto de vista literário) em Uma vida que se conta. Não acho que Moser acrescenta muito ao leitor brasileiro, embora tenha que se levar em conta de que ele está biografando Clarice basicamente para o leitor estrangeiro . Só acho impressionante sua biografia fazer tanto sucesso por aqui, em detrimento das outras duas, e convenhamos que ele foi supemamente deselegante, nos agradecimentos, ao se referir à Nádia como “a maior autoridade no Brasil em Clarice Lispector”; o tom é de quem está dizendo o seguinte: “ela é a maior autoridade num país de segunda”, e nós, do primeiro mundo assumimos de agora em diante, muito obrigado, e adeus.

Por outro lado, há uma hipertrofia da “questão judaica” no livro. Há momentos em que ela literalmente atropela Clarice, e nós sentimos que estamos lendo uma vida vivida na Berlim nazista, ou que o anti-semitismo, que aparece em surtos episódicos no desenrolar temporal do livro, fosse uma questão essencial do nosso país. Há momentos até em que parece que o que ele gostaria mesmo era de biografar Elisa Lispector,  a irmã de Clarice que mais peremptoriamente manteve a identidade judaica, e cujas obras, tão superestimadas ao longo de Clarice,, a julgar pelos trechos selecionados pelo biógrafo, parecem muito fracas (tirando o aspecto catártico), cafonas, especialmente o texto sobre a irmã, Corpo a corpo, que é de uma ruindade constrangedora.

O que me irritou no livro de Moser pode ser esclarecido com uma espiada nas páginas  156 e 157, nas quais se fala do grupo de escritores homossexuais e católicos com os quais Clarice conviveu (Octávio de Faria, Cornélio Penna, Lúcio Cardoso, pelo qual ela foi apaixonada). Nelas, Moser aproxima homossexualidade e judaísmo:

“…buscavam ser salvos por meio da arte. Escrever era para eles um exercício mais espiritual do que intelectual.

     Era isso que Clarice Lispector, ´culpada nata, aquela que nascera com o pecado mortal´, tinha em comum com Lúcio Cardoso: A beleza era uma qualidade, não uma forma; um conteúdo, não uma organização, disse um escritor acerca da visão de mundo dos judeus pobres do Leste Europeu. Ao escrever que os judeus ficariam profundamente perplexos diante da idéia de que a estética e a moral são reinos distintos, ele também poderia muito bem estar falando da obra de Lúcio Cardoso e outros católicos homossexuais, cuja exaltada literatura era em grande parte uma missão urgente para salvar almas que eles temiam estar irrevogavelmente condenadas.

    Essa também era a meta de Clarice Lispector e de muitos outros escritores judeus, confrontados com o silêncio de um Deus que, a despeito de suas fervorosas orações, insistia em afastar-se deles. Ambos era rejeitados e ambos tinham sede da redenção que haviam perdido a esperança de encontrar.”

Que embrulhada, que mixórdia!  Infelizmente, Moser vem acrescentar mais um tijolo à construção de uma identidade de martirização que os gays vêm erigindo (e nisso se associando aos judeus) como bodes expiatórios da humanidade, e cuja face mais deletéria do ponto de vista artístico, é  valorização de determinados autores por serem gays; ao fim e ao cabo, sob o pretexto de libertação de preconceitos e estereótipos, os autores são amarrados a suas identidades étnicas e orientações sexuais, reduzindo-os e domesticando-os. É o que se tenta fazer, por exemplo, com Thomas Mann: não que alguém possa negar o seu homo-erotismo, mas extirpar toda a sua vida familiar, seu casamento por toda a vida, seus muitos filhos, é não considerar que independentemente dos atavismos, há uma liberdade humana de se inventar, de fazer da sexualidade o que se quiser, e como negar que Mann construiu para si uma vida heterossexual e que, como muitos, ele era fascinado mais pela beleza pessoal do que pela determinação do sexo?

E como negar que a vida de Clarice é um afastamento das suas origens judaicas, e que transformá-la numa escritora representante da mística judaica é um delírio, uma forçação de barra? Assim como Moser apresenta leituras da obra (muito fracas) tentando aproximá-la da mística judaica (e diminuindo bastante Clarice como escritora como efeito de suas análises), eu, por exemplo, usei com bastante proveito as reflexões sobre o sagrado de Octavio Paz na minha análise de A paixão segundo G.H., Benedito Nunes fez uma maciça aproximação da obra dela com a filosofia existencialista, de forma ainda hoje instigante, e, muito recentemente,  Dany Al-Behy Kanaan, em À escuta de Clarice Lispector, mostrou fontes tanto do Antigo Testamento, mais fortemente judaicas, quanto do Novo Testamento, mais especificamente cristãs, em sua obra, com exemplos convincentes.

Moser vincula a trama de A maçã no escuro à lenda judaica do Golem, esquecendo-se da epígrafe da própria autora, citando a fonte de sabedoria do hinduísmo, o Upanixade, que abre um escopo mais amplo (e, para mim, muito mais próximo ao pensamento clariceano): “Criando todas as coisas, ele entrou em tudo. Entrando em todas as coisas, tornou-se o que tem forma e o que é informe; tornou-se o que pode ser definido e o que não pode ser definido; tornou-se o que tem apoio e o que não tem apoio; tornou-se o que é grosseiro e o que é sutil. Tornou-se toda espécie de coisas: por isso os sábios chamam-no o real.”

      No post

https://armonte.wordpress.com/2010/07/26/chaya-pinkhasovna-desvarios-em-torno-da-judia-clarice-lispector-primeira-parte/

eu cito e comento os disparates de Flávio R. Kothe a respeito da obra de Clarice.

Em suas leituras da obra, Moser não fica atrás. Além de comentar, sobre A paixão segundo G.H.,  que “não é, pelo menos no primeiro plano, literatura”, diz que podemos ver em Uma galinha, uma das obras-primas do conto clariceano, uma figuração do sofrimento da mãe dela, judia estuprada nos terríveis pogroms do Leste Europeu, e que provisoriamente foi salva, como a galinha da história, de perecer como milhões da sua espécie!!!!!

Guimarães Rosa, o outro grande escritor brasileiro do século XX, é citado apenas de passagem (talvez seja “normal” demais, sem nenhum distintivo indicativo de uma perseguição, sem poder aspirar a ser bode expiatório), quando, se Moser se interessasse genuinamente pela literatura brasileira , e numa obra destinada ao leitor estrangeiro, seria obrigatório, para dizer o mínimo um pequeno paralelo entre as duas carreiras, que começaram praticamente ao mesmo tempo.Ele só indica a admiração de Clarice por Rosa, mas nada fala do impacto de Grande Sertão: Veredas, e como isso definiu o período em que ela lançou suas obras. No entanto, afirma que Crônica de uma casa assassinada, de Lúcio Cardoso, é uma obra-prima. Ora,ora. Será que se Lúcio Cardoso não fosse um homossexual católico atormentado e amigo da judia atormentada Clarice Lispector, ele consideraria esse livro realmente uma obra-prima?

E, quando faz um dos seus infelizes panoramas históricos, e comenta a visita de Jean-Paul Sartre ao Brasil (e seu livro de circunstância, Furacão sobre Cuba), sua caracterização é digna de Flávio R. Kothe: “O  livro trai uma tamanha ignorância de conceitos básicos de economia, história e política que é difícil imaginar que seu autor fosse mundialmente visto como um intelectual peso-pesado, ou mesmo que apenas fosse levado a sério. Mas era o livro do momento, do homem do momento, sobre o assunto do momento…” É difícil de imaginar que ele não considere um minuto que Sartre não era apenas o “homem do momento” , autor do livro do momento, como se fosse um sucesso fortuito  e passageiro, mas que também acabara de lançar Crítica da Razão Dialética,que não pode ser o mais consensual dos seus livros, mas é um marco histórico, e, de qualquer forma, era o autor de A náusea, Huis Clos, O ser e o nada. A idade da razão, As moscas, entre tantos títulos que podem ser lembrados. A explicação para tamanho desprezo está numa passagem anterior: “Os textos que ele publicava no France-Soir são o que se poderia esperar de alguém que nunca deixou de aderir a uma má idéia esquerdista, emitindo justificativas para tudo, das ações mais extremistas na Argélia ao assassinato de atletas israelenses na Olimpíada de Munique”. Ah, tudo se baseia nessa última informação. O pecado de Sartre: seus comentários ao assassinato dos atletas israelenses (de fato, uma monstruosidade). Isso já o desqualifica de vez. Assim como a ditadura brasileira ficará satanizada nessa biografia tão tendenciosa mais pela sua aproximação com os países árabes, durante a crise do petróleo dos anos 70, do que por qualquer outro detalhe.

Enfim, o que emerge é uma Clarice recortada às tesouradas, feita para os moldes moserianos.

Compre o peixe quem quiser.

30/05/2011

AGATHA CHRISTIE no século XXI

agatha

MISS MARPLE EM DOIS TEMPOS

um passe de mágicaNemesis

Agatha Christie morreu há trinta anos (e escrevia há mais de meio século) e nunca deixou de ser reeditada, como, por exemplo, na recente  parceria entre a L&PM e a Nova Fronteira, a Agatha Christie Pocket. Dois dos seus primeiros lançamentos, Um Passe de Mágica (que ganhou uma capa extraordinária, ainda que a coleção mantenha a precária encadernação típica da L&PM) e Nêmesis, são aventuras de Mrs. Marple, a astuta velhinha detetive que engana a todos com sua aparência: “tinha cabelos brancos, o rosto corado e macio, cheio de rugas, e inocentes olhos de porcelana azul. Parecia uma velha muito simpática”. Além de ser naturalmente bisbilhoteira como diz mr. Rafiel, ela tem um faro para o mal, um talento para detectá-lo.

Essa perspectiva (o Mal assombrando o mundo) é um dos elementos que fazem do universo de Agatha Christie algo anacrônico e que, todavia, detém um charme irresistível. Sem dúvida, povoado por idéias reacionárias (basta ler Um Passe de Mágica), só que ancoradas em puro bom senso. Um bom senso cruel e implacável, nada sentimental. É por isso que, mesmo fantasiosas e artificiais (e as duas palavras aqui são utilizadas num sentido altamente elogioso), as suas tramas sempre desmascaram com precisão cirúrgica os dois principais motivos para crimes: dinheiro e sexo.

Um Passe de Mágica se passa numa grande propriedade transformada em centro correcional para delinqüentes, no pós-guerra (e a decadência dessas grandes propriedades e das famílias tradicionais sempre interessou a criadora de Hercule Poirot, basta lembrar de A Extravagância do Morto).

Mrs. Marple (é incrível como encontramos essa pacata senhorinha de St. Mary Mead sempre em trânsito) está de visita ali para descobrir quem poderia  querer matar sua velha amiga Carrie Louise. O romance é um daqueles em que o assassinato principal acontece em meio a uma encenação preparada pelo(s) assassino(s)—é  o caso de Tragédia em Três Atos, Convite para um Homicídio, Morte no Nilo e Assassinato no Expresso do Oriente, por exemplo—, um truque de ilusionismo teatral. O teatro, aliás, forneceu muito material a Agatha Christie. A certa altura de Um Passe de Mágica, reitera-se até por demais tal perspectiva.

Ela também utiliza o recurso de se valer do equívoco quanto a quem seria o verdadeiro alvo do crime (como em Convite para um Homicídio, A Maldição do Espelho ou A Casa do Penhasco, por exemplo), embora com a diferença de que Carrie Louise não é a assassina.  Quem já conhecer os outros, facilmente descobrirá o criminoso. Nem por isso se divertirá menos.

Nêmesis é uma das obras-primas de Agatha Christie, uma das suas narrativas mais bem urdidas, notável mesmo por ser tão ardilosamente arquitetada sobre um fiozinho de mistério, com poucos suspeitos e uma história simples (e aproveitando alguns velhos truques, como o falso reconhecimento de identidade, que já aparecia em Um Corpo na Biblioteca).

Novamente uma grande propriedade (o Velho Solar) está no centro da trama, assim como um grupo de excursionistas. Há um crime durante a excursão, entretanto interessa a Mrs. Marple (encarregada disso pelo falecido mr. Rafiel, seu colaborador em Mistério no Caribe) desvendar acontecimentos de dez anos antes.

E, num passe de mágica, a maior escritora do gênero, após tantos e tantos livros, aparece com sua fórmula renovada. Mais ainda, rejuvenescida. Esse acaba sendo  o maior mistério de Nêmesis: a maestria de Agatha Christie.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de julho de 2006)

 

              HERCULE POIROT EM QUATRO TEMPOS

 

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    O interesse por Agatha Christie não arrefece mesmo. Dois oportunos lançamentos demonstram isso: comentarei nesta semana um deles, a reunião de quatro casos de Hercule Poirot numa edição de capa dura: Assassinato no Expresso do Oriente (1934); Morte no Nilo (1937), ambos adaptados com grande sucesso para o cinema (com o detetive belga vivido afetadamente por Albert Finney, que parece saído de um romance de Proust, e depois bonacheironamente por Peter Ustinov, ambos a léguas de distância do sensacional David Suchet, o “verdadeiro” Poirot, um dos trabalhos de ator mais brilhantes que já vi); A mansão Hollow (1946) e o melancólico e soturno Cai o pano (1975).

    Os dois primeiros são obras-primas ainda que utilizem a mesma fórmula: Poirot investigando um caso num ambiente praticamente fechado, em meio a uma exótica viagem. O que os torna notáveis, além da perfeita construção da atmosfera e o andamento devorável da narrativa, são as soluções: ela já havia revolucionado a arte do mistério ao fazer do narrador o assassino no genial O assassinato de Roger Ackroyd (1926), mas no crime do Expresso do Oriente tornava culpados todos os suspeitos da história e além do mais nem eram vilões (o morto é que o era)! E no crime a bordo da embarcação turística que atravessa o Nilo ela consagrou um recurso de que se valeria muito, até abusivamente (nunca com igual perícia): o casal criminoso. Cheio de sub-tramas muito bem urdidas, ainda tem a personagem talvez mais marcante já criada pela grande autora inglesa na sua galeria de assassinos: Jacqueline de Bellefort.

 

    No geral, A mansão Hollow não é especialmente bem sucedido. O que tem de especial é que, sempre exercitando um gênero subestimado, Agatha Christie, já nos anos 40, utiliza (de forma sutil) técnicas bem modernas e mais avançadas do que o simples relato linear, como um quase “fluxo de consciência” (stream of consciousness), na esteira do romance pós-James Joyce. Aliás, se seus valores e seu universo foram, pouco a pouco, ficando anacrônico, ela nunca perdeu o tino de incorporar aspectos “moderninhos” que a interessassem particularmente (um estudo sobre a sexualidade ao longo de décadas nos livros de Agatha Christie seria bastante apreciável).

    Como todos os fãs dos seus livros, gosto muitíssimo de Cai o pano (que tem uma polêmica tradução de Clarice Lispector), apesar da ruindade da trama policial. Trazendo de volta o velho parceiro dos primeiros casos de Poirot, o ingênuo Hastings (que só me desagradou no pior livro que ela escreveu, Os quatro grandes, um fiasco), é o texto em que mata seu detetive para que ele não virasse alvo de imitadores e continuadores baratos. Precaução boba, porque ninguém escreve como Agatha Christie, o que torna impossível fazer a Poirot o que fizeram com Sherlock Holmes; é que Conan Doyle escrevia mediocremente e o personagem se tornou maior que sua obra, um ícone à parte (aliás, o melhor de Conan Doyle é o Dr. Watson).

    Espero que a Nova Fronteira também faça um volume similar com Miss Marple (sua última história, Um crime adormecido, também é impressionante). É sempre um prazer revisitar esse universo.

(resenha publicada originalmente em 18 de abril de 2009)

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OS FATOS E SUAS VERSÕES: O QUINTO TEMPO DE POIROT

    Quando era garoto, tirei a sorte grande de começar a leitura de Agatha Christie por três livros geniais, O assassinato de Roger Ackroyd, O caso dos dez negrinhos & Cinco porquinhos, todos com ousadas soluções narrativas e insuperáveis finais para seus mistérios. Na resenha anterior, comentei um dos dois lançamentos que a traziam de volta com destaque às livrarias. Faltava o outro: a nova tradução de Cinco Porquinhos (1943), o qual, revisto hoje, pode ser considerada a obra mais perfeita e intrincada da grande escritora inglesa.

    Trata-se de um “cold case”: Hercule Poirot é contratado pela bela Carla Lemarchant para investigar o assassinato (por envenenamento) do seu pai, Amyas Crale, um célebre pintor, dezesseis anos antes, crime pelo qual a mãe foi condenada.Tudo aconteceu num verão: Caroline Crale ia ser abandonada pelo marido, boêmio e mulherengo, por uma jovem, Elsa Greer, filha única de um industrial. Ela estava a essa altura hospedada na casa dos Crale porque Amyas pintava um retrato dela, fascinado com seu atrevimento e sua juventude. Além deles, havia por perto os irmãos Blake, Philip & Meredith, e Angela Warren, meia-irmã de Carolina, que, criança, fora desfigurada por ela durante um ataque de fúria, além da indefectível governanta inglesa solteirona, Cecília Williams. São eles os “cinco porquinhos” da canção infantil (o que foi ao mercado, o que ficou em casa, o que comeu rosbife, o que não comeu nada e o que gritou ui,ui,ui).

    O excepcional na construção narrativa de Cinco Porquinhos, e que permite que vejamos agora Agatha Christie como uma autora ainda muito moderna, é que a trama é repassada inúmeras vezes, parece até um Ano Passado em Marienbad do mistério, parece que o espírito de Alain Resnais(o cineasta que não gosta de enredos unívocos) pairava sobre a criadora de Poirot. Mas basicamente, os acontecimentos são revividos em dois feixes principais: quando o detetive belga entrevista os envolvidos (após ter procurado autoridades legais, advogados, etc); e depois quando cada um deles exercita com sua própria “voz” uma narrativa em primeira pessoa dos eventos da morte de Amyas Crale. Para que, no terceiro ato, Poirot possa reconstruí-los e dar novo significado ao conjunto. As cinco narrativas em primeira pessoa dos “porquinhos” são um tour-de-force, o melhor da sua carreira. E o desfecho (a solução do crime) não poderia ser mais perfeito.

    De qualquer forma, passada a surpresa da revelação, o que fica claro (e que motiva a releitura) é que um evento pode ser contado, recontado, subdividido em mil versões: será sempre interessante e inédito. É muito diferente ouvir as versões dos porquinhos em seus colóquios com Poirot e depois quando eles tomam da pena para tentar organizá-las por escrito: “Tenho só uma vaga lembrança de dias de verão, e incidentes isolados, mas não poderia dizer ao certo nem sequer em qual verão eles aconteceram!… E, misturadas com novas descobertas, ainda havia todas as coisas que eu gostava de fazer desde quando consigo me lembrar”. A narrativa impressionista de Angela Warren em contraste com as outras, mais objetivas, mais sentimentais, mais rancorosas, ou mais mentirosas.

    E, no fim, mesmo com a atuação ordenadora do maior detetive da ficção, ficamos com a seguinte convicção: tudo é versão.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de abril de 2009)

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21/08/2010

A repartição dos pães de Clarice

No lindíssimo A repartição dos pães (publicado em 1964 na coletânea A legião estrangeira), um grupo de pessoas, contrafeito, chega para um almoço “de obrigação” e é surpreendido com uma refeição preparada “para homens de boa vontade”: “Então aquela mulher dava o melhor não importa a quem?” Trata-se de uma boa ilustração da situação da própria Clarice Lispector ao tornar-se cronista profissional, devido a problemas financeiros, e no entanto brindando o leitor de jornal com alguns textos inesquecíveis, dando o melhor não importa a quem.

Dessa atividade surgiu um livro póstumo, com um título digno da autora, A descoberta do mundo. Ali eram reunidas quase todas as crônicas que escrevera (de 1967 a 1973) para o Jornal do Brasil, 500 páginas onde se podia verificar como frutificara o processo de aproveitar o “fundo de gaveta” que já fizera sua estréia na segunda parte de A legião estrangeira, textos sem gênero, anotações livres de quaisquer amarras, fragmentos que circulavam pela totalidade de uma obra ímpar. Se os fragmentos publicados de O livro do desassossego, de Fernando Pessoa, indicam um palácio em ruínas, essas “pulsações” (para utilizar da definição dada a Um sopro de vida) indicam que Clarice realmente optou por repartir seus pães com generosidade, desprivilegiando o publicado em livro de reter apenas o melhor.

Porém, como todos os autores mortos, Clarice tem que sofrer o processo do mercado. Se não se descobre mais nada de inédito, então aproveita-se o que já está aí: a Rocco pegou as crônicas de A descoberta do mundo, fez uma seleção aleatória, embaralhou a ordem cronológica e de 500 passamos a 200 páginas com um título deplorável (porém perfeito nessa nossa época de auto-ajuda): Aprendendo a viver (e ela que já achava terrível o título dado à segunda parte de A legião estrangeira quando foi publicada em separado: Para não esquecer!). Qualquer um que passeie os olhos pelos títulos da obra clariceana poderá ver que esse “novo livro” não combina nada. Enfim… o melhor não importa a quem.

E a mesa está preparada realmente “para homens de boa vontade”, pois não é que a seleção ainda assim é muito boa?  E até que os textos organizados dessa maneira ficaram mais límpidos, sem a indicação cronológica (que, entretanto, aparece no final). Lembra, guardadas as devidas proporções, o recorte realizado por Leyla Perrone-Moisés para uma edição do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, publicada pela Brasiliense.

Deveria ter sido mais rigorosa a escolha, há trechinhos que poderiam ser sacrificados sem dó nem piedade. Se a autora tinha um carinho pelo que chamava de “lixo”, pelo malfeito, pelo tosco, e os colocou na sua coluna, não precisamos ter a mesma complacência numa seleção. Coisas como: “Sou tão misteriosa que não me entendo.”  Ou:  “Um domingo de tarde sozinha em casa dobrei-me em dois para a frente –como em dores de parto—e vi que a menina em mim estava morrendo. Nunca esquecerei esse domingo. Para cicatrizar levou dias. E eis-me aqui. Dura, silenciosa e heróica. Sem menina dentro de mim.”

Mas boa parte é mesa farta. Os textos de reminiscências da infância  são  banquete à parte (alguns foram publicados com outros títulos, como “Tortura e glória” que virou o conto-título de Felicidade clandestina). Em “Medo da eternidade”, por exemplo, ela experimenta pela primeira um chiclete do qual se diz que “dura a vida inteira” e ela se sente culpada por jogá-lo fora por causa do “gosto de nada” daquele “puxa-puxa cinzento de borracha”: “E a vantagem de ser uma bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito. Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava era aflição.” Perdido o chiclete, o alívio: “Sem o peso da eternidade sobre mim”.

Para quem estranhar, a advertência da própria autora: “Vocês vêem como estou escrevendo à vontade ? Sem muito sentido, mas à vontade. Que importa o sentido ? O sentido sou eu.”

 

29/07/2010

A fisionomia plena de Clarice

I

Ao escrever sobre a vida de Clarice Lispector (1920-1977), Nádia Battella Gotlib (uma biógrafa  quase tão bela quanto a sua biografada) optou por um caminho incomum e difícil, renunciando a uma espécie de “objetividade” qu parece ser a enganosa lei das biografias. Além disso, fez um trabalho de análise literária, normalmente abafado, para dizer o mínimo, nesse tipo de projeto, com raras e honrosas exceções.

Deve ter sido um risco calculado, e ela agora está pagando o preço: boa parte das reações iniciais foi negativa, não por culpa do livro, que é ótimo, mas da crítica, que está ficando cada vez mais apressada e superficial.

Clarice- uma vida que se conta não é impecável, há falhas e lacunas: por exemplo, no tocante à recepção dos textos da biografada. Praticamente ela só trata do assunto quando do lançamento de Perto do coração selvagem. Todavia, Nádia acertou na mosca ao privilegiar como princípio estruturador a visão (ou seja, as versões) que a própria Clarice apresentava de si mesma, da sua vida, da sua infância, principalmente através das crônicas que escreveu por necessidade financeira (e que em sua quase totalidade foram publicadas no póstumo A descoberta do mundo, um livro pelo qual até então eu não tinha maior interesse, e que se revelou um tesouro graças à biografia). O enredo que é extraído desse material (e sua confrontação com os fatos)  já é um feito por si e uma demonstração cabal do conhecimento da obra/vida. Nenhum dos dois pólos (texto/fato) é tomado como elemento definitivo ou absoluto. Pode-se dizer que Nádia elegeu como lema as sábias palavras do grande amor de Clarice, Lúcio Cardoso: “A finalidade de um retrato não deve ser a de esclarecer, mas de contornar, sugerindo o enigma. De esforço em esforço, aingir a fisionomia plena, mas com o seu segredo, que é o que importa”.

Nem por isso o leitor fica sabendo menos sobre os fatos: as raízes judaicas, a infância pobre no Recife, a mudança para o Rio, o trabalho como jornalista, o casamento e a vida no exterior devido à carreira diplomática do marido, a separação…

Encaminhando-se para a década de 70, o livro vai se fechando cada vez mais em Clarice Lispector e na sua obra (os elementos exteriores vão se rarefazendo), ficando mais denso ao mostrar esses anos em que ela própria se fecha mais, talcez por causa do envelhecimento, das seqüelas de um acidente nefasto, da solidão, da ameaça da pobreza. E isso mostra a sabedoria com que Nádia escreveu Uma vida que se conta e seu conhecimento ímpar da obra de Clarice, que atingira a essa altura uma tensão quase insuportável (após Água viva) e estava sempre a um passo de chegar ao seu limite, o limite do dizer, a uma desintegração e desestruturação totais, esvaziando-se por conta de sua própria lógica interna desgastante (e meio suicida).

Muitas vezes, críticos sérios (como João Luiz Lafetá) têm demonstrado reservas quanto a Clarice (ou então têm mantido certo respeito distanciado), por conta do verdadeiro objeto de culto que ela se tornou nas mãos de inúmeros leitores que a tomam por uma espécie de Maria Bethânia, ou pior ainda, de Barbra Streisand ou Liza Minelli da literatura.

A autora de A paixão segundo G.H. já foi estudada com grande acuidade por um crítico do porte de Benedito Nunes. Mas Uma vida que se conta é uma envolvente prova de que ela, junto a Guimarães Rosa, Graciliano Ramos  e Dalton Trevisan, fez a melhor obra em prosa no Brasil pós-Modernismo. Também demonstra que ela era habilidosa, para não dizer genial, no “contar”, algo que ainda não se pensara muito como uma das suas qualidades centrais. Ter inventado a sua vida, “contando-a” em suas crônicas, foi uma das suas grandes realizações. Ela mesma deu combustível para que nos interessemos por uma biografia sua.

Em tempo: o projeto gráfico do livro de Nádia Battella Gotlib pela Ática é um dos melhores dos últimos aos, um prazer de se ter e ler.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de agosto de 1995)

II

Na arguta biografia que escreveu sobre Clarice Lispector (1920-1977), Uma vida que se conta, Nádia Battella Gotlib cita as seguintes palavras de Lúcio Cardoso: “A finalidade de um retrato não deve ser a de esclarecer, mas de contornar, sugerindo o enigma. De esforço em esforço, atingir a fisionomia plena, mas como o seu segredo, que é o que importa”. Naquele momento (1995), ela revolucionava a imagem da autora, privilegiando no conjunto da obra as crônicas (reunidas hoje em Para não esquecer & A descoberta do mundo, além de certos textos fundamentais que fazem parte de Felicidade Clandestina), que a princípio não pareciam ter maior importância, mas que lidas da maneira certa compunham uma intensa e coerente narrativa autobiográfica, servindo como canto paralelo (e complementar) às intensas pesquisas existenciais e de linguagem de suas obras-primas efetivamente ficcionais como Perto do coração selvagem, O lustre, A paixão segundo G.H. ou Água viva, para ficarmos nos “relatos” cujos protagonistas são mulheres.

Pelo menos para mim Uma vida que se conta foi um marco. Pois bem, após reeditar toda a obra clariceana, a Rocco despejou no mercado uma série de livros apócrifos; entre eles, um de fotografias, “enfeitado” por breves citações: Aprendendo a viver, que parece os lançamentos da editora Sextante com fotos de bichos do tipo Um dia daqueles, que todo mundo acha tão adoráveis.

E agora Nádia Gotlib lança Clarice Fotobiografia. Qual a diferença?  Sem contar a dedicação obsessiva da biógrafa, a qual, de esforço em esforço, fez realmente o impossível para registrar até o distante local de nascimento de Clarice (Tchechelnik, na Ucrânia), o livro é uma viagem colossal pelos fatos biográficos, pelos objetivos literários, pelas obras publicadas, pela correspondência, pelo casamento, pela pobreza, pelo envelhecimento, até mesmo pela solidão e pela angústia. E até pelo além, no sentido de que não pára no ano da morte da “ucrano-pernambucana”, na feliz colocação do mestre da crônica no Brasil, Rubem Braga, o qual continua, mais feliz ainda, dizendo que ela é (e o verbo no presente vai por conta do ano em que escreveu, 1965), na verdade, uma grande escritora carioca, “na boa e nobre linhagem de Machado de Assis” (e aliás, todas essas linhas se cruzaram e cristalizaram brilhantemente em outra suprema realização, A hora da estrela, não por acaso a odisséia patética e vertiginosa de uma nordestina perdida pelo Rio, e a última obra que publicou em vida).

É lógico que esse apaixonante caleidoscópio de imagens ganha muito se lido em conjunto com Uma vida que se conta. O que Nádia Battella Gotlib continua a provar, no entanto, é sua fidelidade à mesma intenção luciocardosiana de jamais esclarecer, jamais perder de vista o que importa (o segredo), mas contornando-o, sugerindo seu enigma através da fisionomia mais plena.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 05 de julho de 2008)

 

27/07/2010

Destaque do Blog: Os 50 anos de LAÇOS DE FAMÍLIA, de Clarice Lispector

      

      

“Há um ponto em que o desespero é uma luz…”

          “Se tanto amor dentro de mim recebi e continuo inquieta e infeliz

           é porque preciso que Deus venha…”

“Quem encontrou buscou, disse-se em forma de rifão rimado,

         o que sempre terminava por parecer com alguma verdade…”

Introdução: Literatura e “Vida”:

Ficou famosa no anedotário da vida de Clarice Lispector (1920-1977) uma declaração feita por Guimarães Rosa a ela de  “que a lia não para a literatura mas para a vida”. Ora, que bobagem insultante e dúbia! Ainda mais dita por alguém que deveria ver nela sua única “rival” séria no cenário literário da época. E como se pode separar literatura e vida? Em que grande obra podemos fazer essa separação?

Infelizmente faz parte do “mito” Clarice Lispector essa tentativa de afastá-la da excelência literária,  transformá-la em objeto de culto  e tomá-la como uma espécie de guru, estrela-guia espiritual,  xamã dionisíaco (quando ela era essencialmente saturnina) ,sei lá o quê, como se fosse uma diminuição ela produzir “apenas literatura” e como se a “literatura” fosse uma disciplina acadêmica tão somente, domesticada, cristalizada, canônica.

Em 27 de julho de 1960 foi lançada a primeira edição de Laços de família. Comentando-o aqui, eu gostaria de trazer Clarice “mais para a literatura” porque “mais para a vida” as feministas, os gays que a tomam como uma prima-dona à La Liza Minelli ou quejandos, os autores que fazem o proselitismo do judaísmo enquanto uma condição especial do ser (assim como as feministas fazem com as mulheres e os gays com a orientação sexual), já se apropriaram e o resultado são os aberrantes trabalhos de Hélène Cixous, Claire Varin ou Benjamin Moser.

Além deles, um exemplo da bizarrice acadêmica é o texto que acompanha as reedições feitas pela Rocco de todos os livros de Clarice, uma coisa sem que nem o quê: “A escrita de Clarice Lispector situa-se numa confluência de paradigmas que a narradora entretece, destece e põe em tensa: a cena do Realismo-Naturalismo e do Romantismo-Simbolismo. Isso significa que em seus textos encontram-se veios recessivos que, transformados por sua perspectiva estilística pessoal, criam um entrelaçamento significativo entre a realidade e a ´realidade adivinhada´. Neste sentido, ela produz uma poética que lhe é própria [uai, eu pensei que TODOS os grandes autores fizessem isso], e nela como que desenha uma arquitetura textual sui generis, na qual três obras se destacam [!!!!????] e se enlaçam (reclamando-se e afastando-se) com rara sabedoria, por permitirem perceber a tensão no traçado do conjunto: Laços de família, que contracena com A via crucis do corpo, mais próximo de uma lição realista-naturalista; Água viva, denso poema em prosa, na qual tempo, enredo, personagens se desagregam e A hora da estela, espécie de ponto ótimo de articulação, mas não de síntese, das tendências referidas”. Coitado do leitor comum, que tem de se haver com essas mistificações.

Felizmente, há uma meridiano de bom-senso e eficácia crítica atravessando o planeta “recepção da obra clariceana” desde os provectos primeiros comentadores (Álvaro Lins, Sérgio Milliet), apesar dos seus pressupostos e preconceitos críticos, passando por Antônio Cândido,Gilda de Mello e Souza, Roberto Schwarz, Luiz Costa Lima (este último errando feio com relação à autora de A paixão segundo G.H., mas sempre  um crítico surpreendente e estimulante) José Américo Motta Pessanha, Olga de Sá, Regina Pontieri, Yudith Rosembaum, Vilma Âreas, Dany Al-behy Kanaan, só para citar alguns, além do trabalho biográfico de Teresa Cristina Montero Ferreira e sobretudo Nádia Battella Gotlib, e mais que todos, os (ainda) insuperados estudos de Benedito Nunes.

Os textos curtos e os livros desses autores provam que se pode ler Clarice sem ser da perspectiva “ver a laranja” e viajar na maionese, sem delírios, sem oportunismo, sem apelo para abilolados e iletrados, sem espírito de devoção, culto ou mitificação.

A primeira vez que li inteiro Laços de família (como boa parte da produção da autora) foi em 1982. Já conhecia alguns contos, como Amor e Uma galinha. Fazia parte de um pequeno grupo de amigos radicalmente clariceanos, que a colocavam à parte de quaisquer outros autores. Contudo, mesmo nessa época, eu já era um membro espúrio, um dissidente nato, desse tipo de confraria (se algum autor teve esse poder de “guru” para mim, eu teria de apontar Doris Lessing, que também comecei a ler por essa época). Para o bem ou para o mal, a Clarice que me concerne, como já disse, é aquela circunscrita por seu talento literário ímpar e impactante, não como uma auto-ajuda em clave mais refinada e apurada.

clarice

27 de julho de 1960

Quando Clarice conseguiu publicar Laços de família, além de estar novamente se estabelecendo no Rio de Janeiro, após anos de “exílio” como esposa de um membro do corpo diplomático brasileiro (eles se separaram por essa época), ela dava fim a uma curiosa e aflitiva situação que se arrastava há muitos anos: era uma escritora de prestígio que não conseguia publicar. Já tinha quatro livros: o primeiro, Perto do coração selvagem (publicado entre fins de 1943 e começo de 1944, quando ela tinha 23 anos) foi um “acontecimento”,  muito comentado na imprensa; seus dois outros romances, porém, O lustre (1946) e A cidade sitiada (1949), pelo quais eu tenho especial apreço, quase não tiveram repercussão, e a pouca que houve foi mais negativa do que positiva  (o fato de ela residir no exterior e ser uma personagem com vários traços exóticos também não ajudava).

Em 1952, ela conseguiu que publicassem seis contos numa coleção, os Cadernos de Cultura do Ministério de Educação e Saúde, mas foi uma edição que quase passou em branco, embora os contos fossem Mistério em São Cristóvão, Os laços de família, Começos de uma fortuna, Amor, Uma galinha & O jantar.

Ao longo dos anos 50, ela escreveu mais contos e os enfeixou numa primeira versão do que seria Laços de família e o seu mais estupendo romance, A maçã no escuro. Seu prestígio crescia (ela começou a colaborar mais ativamente na imprensa, foi publicada pela prestigiada revista “Senhor”), sua beleza era proverbial, quem a conhecia ficava assombrado. Aos 39 anos,  ela estava no auge. Mas só então, em 1960, se desembaraçou o “nó”, e a publicação dos treze contos (além dos seis já publicados, Devaneio e embriaguez de uma rapariga, A imitação da rosa, Feliz Aniversário, A menor mulher do mundo, Preciosidade, O crime do professor de matemática & O búfalo; não sei bem porque Os desastres de Sofia, já escrito a essa altura, e uma de suas obras-primas foi descartado, e só apareceria em livro quatro anos depois, em A legião estrangeira). Laços de família rompeu a obscuridade, o círculo restrito, e a transformou numa autora popular (até hoje é um dos seus livros mais populares), e então começou definitivamente, para o grande publico, o “mito” Clarice.

Tentações: o estado de graça e o leite da bondade humana (a linguagem em comum):

“Deus sabe o que faz: acho que está certo o estado de graça não nos ser

        dado freqüentemente. Se fosse, talvez passássemos definitivamente para

       o outro lado da vida, que também é real, mas ninguém nos entenderia

       jamais. Perderíamos a linguagem em comum”.

Laços de família é um conjunto impressionante, embora os 13 contos não sejam do mesmo nível, longe disso, e certos textos se beneficiam justamente da unidade da coletânea, enquanto outros, isoladamente, se tornaram paradigmáticos da vocação epifânica dessa primeira fase da obra de Lispector: talvez (mas não apenas) em função de ter vivido por muitos anos no mundo diplomático e sua peculiar etiqueta,  os personagens (a maioria, mulheres) e os leitores, envolvidos na teia da vida quotidiana, e principalmente uma classe média que começa a prosperar naquele momento histórico, criavam tênues alicerces, laços familiares embebido no “leite da bondade humana” de que se fala em Macbeth, e que nada mais é do que a “linguagem em comum”, sentimentalizada, opaca, falsificadora, forjando uma  harmonia ou uma aparência de harmonia, sob a qual a vida neutra e bruta e nossa animalidade espreitam (diga-se de passagem, que o termo animalidade em Clarice Lispector não é pejorativo, é o sumo da espécie:  “porque desistir da nossa animalidade é um sacrifício”, lemos em uma de suas crônicas do Jornal do Brasil, do período 1969-1973, publicadas postumamente com o título A descoberta do mundo).

A “linguagem em comum” pode ser caracterizada por trechos como os abaixo:

“…Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher; com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem felicidade se vivia… Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto…” (Amor)

“Fora inútil recomendar-lhes que nunca falassem no assunto: eles não falavam, mas tinham arranjado uma linguagem de rosto onde medo e confiança se comunicavam, e pergunta e resposta se telegrafavam mudas…” (A imitação da rosa)

“A varanda estava aberta mas a frescura se congelara fora e nada entrava do jardim, como se qualquer transbordamento fosse uma quebra de harmonia…” (Começos de uma fortuna)

“O que tornava particularmente abastada a cena, e tão desabrochado o rosto de cada pessoa, é que depois de muitos anos quase se apalpava afinal o progresso nessa família; pois numa noite de maio, após o jantar, eis que as crianças têm ido diariamente à escola, o pai mantém os negócios, a mãe trabalhou durante anos nos partos e na casa, a mocinha está se equilibrando na delicadeza de sua idade, e a avó atingiu um estado. Sem se dar conta, a família fitava a sala feliz, vigiando o raro instante de maio e sua abundância…” (Mistério em São Cristóvão)

Existem, por exemplo, poucos contos curtos tão perfeitos e avassaladores quanto Mistério em São Cristóvão e Uma galinha.  O primeiro sempre foi o meu favorito absoluto (não resisto à tentação de citar o  momento em que os mascarados para uma festa à fantasia–um galo, um touro, um cavalheiro– que invadem o jardim  para furtar jacintos são surpreendidos pela visão do rosto da menina da casa:“O galo imobilizara-se no gesto de quebrar o jacinto. O touro quedara-se de mãos ainda erguidas. O cavalheiro, exangue sob a máscara, rejuvenescera até encontrar a infância e o seu horror.  O rosto atrás da janela olhava. Nenhum dos quatro saberia quem era o castigo do outro. Os jacintos cada vez mais brancos na escuridão. Paralisados, eles se espiavam. A simples aproximação de quatro máscaras na noite de maio parecia ter percutido ocos recintos, e mais outros, e mais outros que, sem o instante do jardim, ficariam para sempre nesse perfume que há no are na imanência de quatro naturezas que o acaso indicara, assinalando hora e lugar–o mesmo acaso preciso de uma estrela cadente. Os quatro, vindos da realidade, haviam caído nas possibilidades que tem uma noite de maio em São Cristóvão”),seguido muito de perto da aventura da galinha que foge (literalmente foge, sai voando pelos terraços) ao seu destino de ser o almoço de domingo (“Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, parecia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou, respirando, abotoando e desabotoando os olhos…”) e é poupada por um tempo enorme até que chegamos a um dos mais cruéis finais já escritos: “Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara  contra o ar, à beira do telhado, prestes a anunciar… Embora nem nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando milho–era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada  no começo dos séculos. Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos”.

Ambos são límpidos e inesquecíveis na sua mistura de anedota, de desmascaramento da falsidade essencial dos “laços de família” burgueses, e na maneira como captam no cotidiano um lampejo de uma realidade inquietante. O mesmo clarão cegante que a nora, que detém um segredo culposo, surpreende na revoltada e impotente aniversariante de 89 anos em Feliz aniversário, um texto ainda poderoso e mortífero: “Porque a verdade era um relance… mais uma vez olhou para trás implorando à velhice ainda um sinal de que uma mulher deve, num ímpeto dilacerante, enfim agarrar a sua derradeira chance e viver. Mais uma vez Cordélia quis olhar. Mas a esse novo olhar—a aniversariante era uma velha à cabeceira da mesa. Passara o relance…”

    É por se entregar ao “relance” que a Laura do extraordinário A imitação da rosa , um dos maiores momentos da “escrita” clariceana, “enlouquece” (“Era preciso tomar cuidado com o olhar de espanto dos outros. Era preciso nunca mais dar motivo de espanto…E sobretudo poupar a todos o mínimo sofrimento da dúvida. E que não houvesse nunca mais necessidade de atenção dos outros–nunca mais essa coisa horrível de todos olharem-na mudos, e ela em frente a todos…”, mergulhando no “estado de graça” e perdendo a “linguagem em comum”,  tentação de que escapa, por muito pouco, a Ana de Amor (talvez  o mais famoso entre os treze), que tem acesso ao relance epifânico ao ver um cego mastigando chicles e depois meio que desorientada pelo Jardim Botânico: “Ela amava o mundo, amava o que fora criado–amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a  ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal–o cego ou o belo Jardim Botânico?–agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixinho, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego?… Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la… seu coração se enchera com a pior vontade de viver… A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego!pensou com os olhos molhados. No entanto não ea com este sentimento que se iria a uma igreja…”

    E o que dizer da realidade bruta com que se confrontam os protagonistas de outros dois pontos altíssimos dessa reunião ímpar, o conto Os laços de família e o último e mais radical de todos, O búfalo. No primeiro, o marido “via preocupado que sua mulher guiava a criança e temia que neste momento em que ambos estavam fora de seu alcance ela transmitisse a seu filho… mas o quê? Catarina, pensou, Catarina, esta criança ainda é inocente! Em que momento é que a mãe, apertando uma criança, dava-lhe  esta prisão de amor que se abateria para sempre sobre o futuro homem. Mais tarde seu filho, já homem, sozinho, estaria  de pé diante desta mesma janela, batendo dedos nesta vidraça: preso… Quem saberia jamais em que momento a mãe transferia ao filho a herança. E com que sombrio pesar. Agora mãe e filho compreendendo-se dentro do mistério partilhado. Depois ninguém saberia de que negras raízes se alimenta a liberdade de um homem. Catarina, pensou com cólera, a criança é inocente!”. O segundo encerra a coletânea com um parágrafo arrepiante: “…os olhos do búfalo, os olhos olharam seus olhos. E uma palidez tão funda foi trocada que a mulher se entorpeceu dormente. De pé, em sono profundo. Olhos pequenos e vermelhos a olhavam. Os olhos do búfalo. A mulher tonteou surpreendia, lentamente meneava a cabeça. O búfalo calmo. Lentamente  a mulher meneava a cabeça, espantada com o ódio com que o búfalo, tranqüilo de ódio, a olhava. Quase inocentada, meneando uma cabeça incrédula, a boca entreaberta. Inocente, curiosa, entrando cada vez mais fundo dentro daqueles olhos que sem pressa a fitavam, ingênua, num suspiro de sono, sem querer nem poder fugir, presa ao mútuo assassinato. Presa como se sua mão se tivesse grudado para sempre ao punhal que ela mesma cravara. Presa, enquanto escorregava enfeitiçada ao longo das grades. Em tão lenta vertigem que antes do corpo baquear macio a mulher viu o céu inteiro e um búfalo”.

    E a natureza do Crime do professor de matemática, abandonar um cão que exigia que eu fosse um homem”?, o que vai ao cerne das preocupações que fundamentam um dos maiores momentos da obra de Clarice, A maçã no escuro.

Essas são as jóias da coroa, a meu ver. É questão de opinião. Haverá sempre os leitores que preferirão aqueles que acho menos marcantes, como Devaneio e embriaguez de uma rapariga (para ser sincero, não entendo como se preteriu na hora de editar o livro um texto como Desastres de Sofia por esse exercício estilístico onde Clarice imita o modo de falar português e onde a personagem, ao contrário do que se diz de Lucrécia Neves de A cidade sitiada, é verdadeiramente caricata; Lucrécia não o é, apesar de detalhes satíricos e paródicos, mas essa portuguesa clariceana me incomoda; o que pode ser uma virtude, claro), O jantar, Preciosidade e Começos de uma fortuna, todos eles porém com passagens intensas.

Especial no conjunto é A menor mulher do mundo que, sendo mais uma belíssima crônica do que um conto, estabelece um caminho que depois seria intensamente trilhado pela obra clariceana, o texto sem definição possível, prescindindo dos alicerces narrativos para ser uma cintilação. Ela, inclusive, se coloca no texto e aos filhos também, como fará depois muitas e muitas vezes. É ela a mãe que lembra do que a cozinheira lhe contara do tempo de orfanato: “Não tendo boneca com quem brincar, e a maternidade já pulsando terrível no coração das órfãs, as meninas sabidas  haviam escondido da freira a morte de uma das garotas. Guardaram o cadáver num armário até a freira sair, e brincaram  com a menina morta, deram-lhe banhos e comidinhas, puseram-na de castigo, somente para depois poder beijá-la, consolando-a. Disso a mãe se lembrou no banheiro, e abaixou mãos pensas, cheias de grampos. E considerou a cruel necessidade de amar. Considerou a malignidade de nosso desejo de ser feliz.Considerou a ferocidade com que queremos brincar. E o número de vezes em que mataremos por amor. Então olhou para o filho esperto como se olhasse para um perigoso estranho. E teve horror da própria alma que, mais que seu corpo, havia engendrado aquele ser apto à vida e à felicidade. Assim olhou ela, com muita atenção e um orgulho inconfortável, aquele menino que já estava sem os dois dentes da frente, a evolução, a evolução se fazendo, dente caindo para nascer o que melhor morde…”

de chirico

A BARATA-MONÓLITO: “A Paixão segundo G.H.”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 24 de novembro de 1998)

A Rocco vem reeditando as obras da nossa mais cultuada  escritora. Além disso, a Scipione está lançando os volumes da Archivos, coleção planejada internacionalmente para oferecer edições críticas de obras representativas. Uma delas é justamente A Paixão Segundo G.H., que Clarice Lispector publicou em 1964 (os outros títulos brasileiros publicados são, por enquanto,  Macunaíma, de Mário de Andrade, Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, e, vai se saber por que, uma obra tão infeiror à ambição representativa da coleção como é o caso de Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso).

A Paixão Segundo G.H. é um texto que parece ter sido escrito para dar vida, numa amalgamação impressionante de experiência e linguagem, ao que Octavio Paz descreve tão bem em O arco e a lira: a experiência do sagrado:

“A experiência do sagrado é uma experiência repulsiva. Ou melhor, convulsiva. É um pôr para fora o interior e o secreto, um mostrar as entranhas. O demoníaco, dizem todos os mitos, brota do centro da terra. É uma revelação do oculto…. implica uma ruptura do tempo e deo espaço: a terra se abre, o tempo se parte; pela ferida ou abertura, vemos o outro lado do ser”.

A abertura da narradora G.H. para o outro lado do ser é o quarto de empregada do seu apartamento, que ela resolve arrumar numa certa manhã. Lá encontra uma barata (e a esmaga com a porta do guarda-roupa, expondo justamente as “entranhas”, literais e metafóricas) e esse encontro é a sua “paixão”, a desagregação e aniquilação da vida alienada, “humanizada demais”, rumo à identificação com a Vida, “pré-humana”. Ou seja, o Inominável, que dá nojo, causa náusea, é o Inferno.

Essa experiência, contada sob a forma cristã da confissão penitente (e é por isso que, quando G.H. coloca a barata na boca, para prová-la, lembramos do ato de comungar), é “demoníaca”, no sentido das palavras de Paz. Ou, nas palavras de G.H., ao falar do neutro, do insosso, do inexpressivo que é o estado bruto do ser:

“Pois o inexpressivo é diabólico. Se a pessoa não estiver comprometida com a esperança, vive o demoníaco. Se a pessoa tiver a coragem de largar os sentimento, descobre a ampla vida de um silêncio extremamente ocupado, o mesmo que existe na barata, o mesmo nos astros, o mesmo em si próprio — o demoníaco é antes do humano”.

Há uma assimilação muito forte entre o sagrado e o imundo (a barata é chamada, entre outras coisas, de “amostra de calmo horror vivo”), nessa narrativa onde se tenta, justamente com um estilo “tateante”, interrogativo (e onde talvez a obra clariceana atinja seu ápice), mostrar “a verdade que não se quer”. Pois a verdade é o horror de ter que admitir que o Ser passa pelo nosso não-Ser, essa é a metamorfose de G.H, “de mim em mim mesma”, ali, presa no quartinho de empregada com uma barata que é um portal para o cosmo tanto quanto o monólito de 2001-Uma odisséia no espaço o era para os astronautas da história.

Para atingir esse estado é preciso perder tudo: a identidade, as extensões que nós criamos no mundo para registrar nossa identidade e que nos tornam objetos de nós mesmos (construções, cômodos, artefatos, sentimentos, conceitos). Para então abismar, ou, como se lê, em O arco e a lira, estupefar-se:

“a estupefação ante o sobrenatural não se manifesta como terror ou temor, como alegria ou amor, mas como horror. No horror estão incluídos o terror –o cair para trás– e a fascinação que nos leva a nos fundirmos com a Presença. O horror nos paralisa. E não porque a Presença seja por si mesma ameaçadora, mas porque sua visão é ao mesmo tempo insuportável e fascinante. E essa Presença é horrível porque nela tudo se exteriorizou. É um rosto no qual afloram todas as profundidades, uma Presença que mostra o verso e o reverso do ser… E a essa repulsa segue-se o movimento contrário — não podemos tirar os olhos da Presença, nos inclinamos para o fundo do precipício. Repulsa e fascinação. E depois a vertigem: cair, perder-se, ser um com o Outro. Esvaziar-se. Não ser nada– ser tudo: ser”.

É justamente na crucificação de G.H. em torno da barata-portal-para-o-cosmo que temos a confirmação mais poética, mais avassaladora literariamente, das afirmações do genial poeta e pensador mexicano: ‘Cada vez mais eu não tinha o que pedir. E via, com fascínio e horror, os pedaços de minhas podres roupas de múmia caírem secas no chão, eu assistia à minha transformação de crisálida em larva úmida… Eu havia prendido defronte de mim o imundo do mundo — e desencantara a coisa viva”.

Embora seja meio absurdo desentranhar desse texto lindíssimo passagens isoladas, pois elas darão conta de apenas um momento de um processo,de uma travessia, que têm de ser vividos pelo leito. E vivendo essa processo, essa travessia, ainda se descobre uma das obras-primas da literatura deste século. É uma recompensa e tanto, mesmo que não se saia ileso. Aliás, sair ileso é não ter lido o livro.

26/07/2010

EXERCÍCIOS DE VIVER

O OUTRO  ROMANCE MAIOR DA NOSSA FICÇÃO

Maio de 1956 é o mês desconcertante e mágico da nossa literatura: nele, foi lançado Grande Sertão: Veredas e Clarice Lispector, aos 35 anos, terminou A Maçã no Escuro (que só conseguiu edição em 1961), os dois romances mais fascinantes e extraordinários do século XX. Aliás, se naquele ano Guimarães Rosa realizou a façanha de publicar duas obras-primas (Corpo de Baile é a outra), Clarice não faria por menos: em 64 vieram a público duas das suas maiores obras, os contos de A Legião Estrangeira e A Paixão Segundo G.H.

“Bem, e agora então seria lembrar-se do que um homem quer. Esse era o verdadeiro julgamento…” Martim, o herói (palavra crucial no simbolismo de A Maçã no Escuro), aparentemente cometeu um assassinato e fugiu para o “coração do Brasil”, primeiro refugiando-se num hotel decadente, depois empreendendo nova fuga e perdendo-se numa “noite escura da alma”, longa travessia por uma região inóspita, na qual constata ter perdido a “linguagem dos outros”: seu ato criminoso fez com que o ser abstrato e irreal que se tornara se estilhaçasse, restando uma “potente estupidez”, a não-inteligência, capaz de revivificá-lo enquanto ser. Mas ele terá de descer ao nível das pedras, das plantas, dos bichos elementares, para se despojar e fazer tabula rasa da vida falseada.

Em meio a essa decisão de se fazer uma espécie de “primeiro homem”, ele tem de lidar com a esfera humana: sua peregrinação o levou a uma fazenda perdida no nada e à vida e aos desejos de duas mulheres: Vitória, a dona do lugar, áspera e desiludida; a prima desta, Ermelinda, insidiosa e vaga. Ao envolver-se com as duas, Martim sela seu destino: será entregue à polícia, retornando à Cidade, ao mundo abstrato (e sequer consumou o crime, pois sua mulher não morreu), a uma falsa e irônica redenção.

Já enfatizei, em várias ocasiões, que Grande Sertão: Veredas potencializava ao máximo a capacidade que a literatura tem de ordenar a experiência da vida. O monólogo-querendo-ser-diálogo de Riobaldo, tendo em vista um interlocutor urbano, seria o exercício de uma “dialética do esclarecimento”, de vencer o não-ser (embora reconhecendo seu peso neste mundo misturado) e afirmar o ser através do sopro do verbo se fazendo carne.

    A Maçã no Escuro transmite uma sensação contrária. Para começar, Clarice Lispector deixa de lado os expedientes da intriga (com os quais brinca, ao criar o clima de suspense, que depois saberemos ser falso, no belíssimo primeiro capítulo, o qual já se inicia num tom raramente encontrado em nossa ficção: “Esta história começa numa noite de março tão escura quanto é a noite enquanto se dorme”). Ademais, experiência e linguagem são desqualificadas como mercadorias danificadas pelo uso mentiroso, abstrato e ideológico, e acabam sendo mais estorvo que ajuda. Ao tentarmos organizar a alma em linguagem, caímos na falsificação e no logro. O mundo de Clarice Lispector é muito mais desesperado do que o de Guimarães Rosa.

Titubeando pela vida, ao fazer o pacto com o diabo Riobaldo reafirma seu “eu”: “… o que era que eu queria ? Ah, acho que não queria mesmo nada, de tanto que eu queria só tudo. Uma coisa, a coisa, esta coisa: eu somente queria era—ficar sendo!” Em contrapartida, Martim em seus “exercícios de viver”: “…se ele queria reconstruir o mundo, ele próprio não servia…É verdade que faltava pouco para destruir, pois com o crime, ele já destruíra muito. Mas não de todo… Havia ainda… havia ainda ele próprio, que era uma tentação constante.

Querendo não-compreeender, apenas olhar e ver, no “vertiginoso relance” da objetividade, do ser fundido ao mundo: “Ele compreendeu como se compreende um número: é impossível pensar num número em termos de palavras, é apenas possível pensar num número com este próprio número. E foi desse modo inescapável que ele compreendeu e se tentasse saber mais, então—então a verdade se tornaria impossível.”

(resenha publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos, em 27 de maio de 2006)

Chaya Pinkhasovna: desvarios em torno da judia Clarice Lispector (primeira parte)

VER TAMBÉM:

https://armonte.wordpress.com/2013/05/26/chaya-pinkhasovna-desvario-em-torno-da-judia-clarice-lispector-segunda-parte/

(escrito em julho de 2010, especialmente para o blog)

Em agosto de 2006, quando realizei um curso em Santos sobre Clarice Lispector (1920-1977), Fragmento e Totalidade, o material mais pitoresco com o qual lidei sobre o assunto, e que mais divertiu meus alunos, foi o extraído de O Cânone Republicano II, o último tomo de uma série que compreendia O Cânone Colonial, O Cânone Imperial e O Cânone Republicano (em dois volumes), escrita por Flávio R. Kothe e publicada pela editora da UNB.

O objetivo de Kothe na série era expressamente atacar o cânone instituído pela historiografia literária e pela crítica, por ser uma expressão do luso-fascismo, excluindo as minorias, entre elas, os imigrantes, especialmente os alemães: “A imigração alemã imprimiu milhões de jornais, revistas e livros no Brasil, mas é como se ela nada tivesse feito e nada tivesse valor. Ao espírito totalitário a supressão e o olvido parecem naturais, necessários e lógicos. O ´brasileiro´ pensa assim”. Em outra passagem, lemos: “A tradição de genocídio físico e espiritual lusitana convertida em espírito em princípio de brasilidade imobilizou os modernistas… se citavam o índio, era  para bater no imigrante e seus descendente (Macunaíma) ou para zerar a cultura mais alta (Manifesto Antropófago). Enquanto exercia o alto cargo de confiança de chefe de gabinete ministerial de uma ditadura fascista [a de Getúlio Vargas], Drummond, poeta principal, dava-se ao luxo de exaltar o russo em Berlim, mas nada expunha sobre a perseguição a brasileiros de origem alemã, japonesa, polonesa e italiana no Brasil”. E nesta outra: “O cânone é racial e racista, e discrimina quem não seja luso-brasileiro”. Querem mais uma amostra? “A língua portuguesa não produziu nenhum grande filósofo. Os dois mais renomados escritores portugueses, Camões e Pessoa, fazem parte da ´síndrome luso-nazista´ : expansionistas, autoritários, prepotentes, bélicos fascistas, racistas, intolerantes. Não são um acaso. Expressam a ´pura cepa lusitana´. E esta última gera a oligarquia brasileira…”

      O racismo luso-brasileiro pode ser encontrado, por exemplo, em Vidas Secas:

 

“Quando Graciliano Ramos fez de Fabiano um tipo de olhos claros e cabelos ruivos e, ao mesmo tempo, um sujeito fraco um mero ´cabra´, sob a aparência de atacar o arianismo caiu no lugar-comum oligárquico de atacar os tipos germânicos, portanto basicamente os teuto-brasileiros, ele está muito situado ao lado de Aluísio Azevedo, Graça Aranha, Mário de Andrade e tantos outros consagrados no cânone porque cultivam o preconceito e a discriminação… Vidas Secas é uma obra racista, o que alegra luso-brasileiros que, ao promovê-la a obra-prima, podem apresentar-se como donos do país… sem se apresentar como racistas e senhoriais (embora o sejam).”

E Clarice (que é quem me interessava então, e agora também), que afinal era imigrante, e de ascendência não luso-brasileira, porém judaica? Ela, no entanto, não escapou de ser uma diluidora e quase uma charlatã oportunista, que visava agradar ao público, ao poder e às fortes instituições religiosas (católicas) do nosso país:

“Clarice aparenta representar um horizonte novo na literatura brasileira e tem basicamente duas  (!!!???) obras consagradas no cânone,  A paixão segundo G.H. e A hora da estrela [1]… O que parece novo na ´grande ficção´ de Clarice é, em grande parte, não mais que a inserção da temática do existencialismo francês—Camus, Sartre, Beauvoir e Co—na ficção brasileira, mas sem passar propriamente por sua forma alemã mais densa, Nietzsche e Heidegger. A versão francesa foi uma diluição jornalística dos pensadores alemães, sendo, portanto, a versão de Clarice, a diluição de uma diluição.”

“Sendo Clarice de origem judaica num mundo católico, um tema óbvio e central—não elaborado propriamente por ela—seria  o sentido da ´epifania´, da história revelada a propor a divisão dos tempos em um mundo pré-salvação e um mundo já salvo… Os judeus mais esclarecidos, ainda que sintam vinculados à história de seu povo, não acreditam nos princípios religiosos do judaísmo, mas aproveitam seus impulsos para diferenciarem-se da limitada cosmovisão cristã. É o que se tem na obra de escritores como Freud, Kafka, Benjamin e Celan. Não se sente, porém, tal impulso duplamente crítico na autora brasileira… Clarice procurou produzir uma ´literatura da revelação e do milagre´: o texto como produto e afloramento de uma súbita iluminação desencadeada como que por uma graça divina, na qual um sentido transcendental afloraria. Assim, a autora seria uma espécie de anjo, mensageira do divino ou do profeta, destinada a revelar os homens a sabedoria divina. Se Clarice ficou presa a uma estética de pressupostos religiosos, foi sobretudo pelo judaísmo… Perdeu a oportunidade de discutir uma diferença que seria algo original em relação à tradição católica preponderante no país. Ela poderia, talvez, perder público e incompatibilizar-se com o poder e com fortes instituições religiosas do país. Foi-lhe oportuno reduzir tudo à psicologia e à sutileza da palavra.”

 

Tendo demonstrado as causas gerais da irrelevância conseguida pela produção clariceana, ele se volta para as suas obras “canônicas”. Em G. H. tudo se resume ao sentimento de angústia de uma madame que não precisa trabalhar para sobreviver. Sua conclusão sobre o livro é lapidar: “Perder uma empregada não é o fim do mundo, mas consegue sê-lo para a madame de Clarice. Tem-se aí uma bagatelização da temática existencialista; não por acaso, foi posta no cânone”.

Mas o clímax é mesmo o que ele escreve sobre A hora da estrela, principalmente quando ele escreve sobre o atropelamento de Macabéa, a heroína do livro, por um Mercedes Benz  “amarelo”, dirigido por um motorista “alourado e estrangeiro”:

Ora, em 1977, quando foi publicada essa história, o contexto brasileiro dava um sentido bastante unívoco a isso: o imperialismo está matando a brasilidade.  O que importa, portanto, é a defesa do ´nacional e popular´. É estranho que esse carro esteja pintado de amarelo. Quem iria estragar um carro tão bom com uma cor tão feia? Esse homem alourado e estrangeiro que aí aparece, tudo indica que deve ter sido quem dirigiu o carro, cuja cor é uma extensão ampliada e berrante da cor do cabelo: uma hipérbole por metonímia. O Mercedes não era no Brasil, na década de 1970, um carro usual. Era carro de milionário e de estrangeiro. Ora, a lógica de toda a narrativa leva a concluir que o capitalismo estrangeiro estava caçando nordestinas pobres pelas ruas para matá-las… Sob esse estreito e gritante nacionalismo há algo mais, porém. O homem é loiro, portanto, um tipo ariano. Essa loirice é tornada gritante na coloração absurda do carro. Não se trata de um carro qualquer, mas de um carro alemão. Clarice retoma o preconceito contra as alemães cultuado no cânone brasileiro desde Graça Aranha, como extensão de outros preconceitos tradicionais, cultivados desde os primórdios do cânone. Isso atinge principalmente a quem?—As teuto-brasileiros. Em nome da nacionalidade, é preciso persegui-los. Quem for brasileiro deve ajudar a aniquilá-los. E, eles mesmos, se quiserem sobreviver no Brasil, devem aniquilar a sua própria cultura e identidade, a começar pela língua. Esse preconceito antigermânico corrente no Brasil é tão estreito quanto o antissemitismo nazista. E a judia Clarice caiu nele. Mostrou-se mesquinha e pequena, o que corresponde ao seu comprometimento com o DIP.”

Portanto, alguém sempre ocupará com o maior prazer e pressa o papel de vítima, de mártir, de bode expiatório, mesmo que se invertam os termos. E a intolerância será a mesma.


[1] Há um resumo biográfico da vida dela muito mal-intencionado, ou pelo menos, feito com má-vontade evidente, além de mal embasado: “Clarice Lispector é oriunda de uma família que saiu da Ucrânia como protesto contra o advento do comunismo [isso não corresponde aos fatos]. Por volta de 1940, ela entrou para a Agência Nacional, um órgão oficial de informação do governo que logo foi transformado no DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda, um órgão de defesa e propaganda da ditadura fascista. A atividade na imprensa permitiu-lhe contatos com intelectuais, os quais a ajudaram a publicar seus trabalhos. Ao ter estudado Direito, casou-se em 1947 com um diplomata, o que lhe permitiu conhecer cidades como Nápoles, Berna e Washington. Quando solicitou  a cidadania brasileira a Getúlio Vargas, citou os seus préstimos ao governo. Retornou ao Rio de Janeiro em 1959, com o fim do seu casamento, e passou a ser jornalista e colunista  de diversos jornais. Teve um emprego na Secretaria da Administração do Estado do Rio de Janeiro. Participou, em 1968, na ´Marcha dos 100 mil´ contra a ditadura militar, mas não foi toi propriamente atingida pela censura e nem deixou de ter espaço na imprensa pós-64. Não abriu fogo, em sua trincheira literária, contra a ditadura. Faleceu em 1977.”

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