MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

19/04/2013

Um clássico do romance brasileiro: CIRANDA DE PEDRA

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https://armonte.wordpress.com/2013/04/19/historias-de-desencontro-entre-lygia-fagundes-telles-e-seus-contos/

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 07 de setembro de 2004, em função do cinquentenário do romance)

Lygia Fagundes Telles, exímia contista (basta ler Antes do baile verde), estreou há exatamente cinquenta anos na área do romance com CIRANDA DE PEDRA. Até agora publicou mais três, todos excelentes (Verão no aquário; As meninas; As horas nuas), sem que isso tire o status de clássico desse seu primeiro trabalho.

Há um aspecto relativamente envelhecido, ou melhor, datado, em CIRANDA DE PEDRA, aquele em que o olhar de Virgínia, filha bastarda de uma mãe que abandonou o lar para viver com o homem amado e que, entretanto, acaba vivendo com o falso pai, serve como instrumento de desmascaramento da hipocrisia e da podridão da sociedade burguesa.

Há muito tempo os alicerces da burguesia já foram carcomidos. Por isso, não será nenhuma surpresa para o leitor de hoje descobrir que os jovens que encantavam Virgínia e alimentavam seu sentimento de inferioridade e exclusão, na infância, revelar-se-ão ídolos com pés de barro: Conrado, seu amor “infantil” e um tipo recorrente na obra da grande escritora paulista, é impotente; a virtuosa Bruna, uma das suas meio-irmãs, e quem mais condenava a atitude da mãe, casa-se com toda a pompa e circunstância, mas mantém um caso com um tenista, Rogério, o qual fica atraído pela cinderelesca Virgínia que ressurge após anos de internato, assim como o marido de Bruna, Afonso; Otávia, a outra irmã, é quase um símbolo do descaso e da desfaçatez; Letícia, a irmã de Conrado, enveredou pelo lesbianismo e também se interessa pela heroína, a qual, dessa forma, é insistentemente convidada a entrar na “estranha ciranda! Eram solidários e no entanto se traíam. Eram amigos e contudo se detestavam”.

Esse lado mais epidérmico, mais condicionado pela expectativa de um enredo “ousado”, é superado totalmente pela brilhante construção do foco narrativo. CIRANDA DE PEDRA é uma das obras mais bem elaboradas e talentosas, do ponto de vista técnico, da nossa ficção, e sem o aparato laborioso e afetado de autores que se esforçaram para alcançar tal ‘sofisticação”, como José Geraldo Vieira, Lúcio Cardoso ou Octavio de Faria.

Lygia Fagundes Telles pratica o chamado discurso indireto livre, colando o discurso do narrador à percepção e linguagem da sua protagonista, de forma a garantir adesão total do leitor ao seu processo de decifração dos códigos que regem a ciranda desse grupo de familiares e amigos. Mas ela vai mais além: praticamente em todos os capítulos do romance, ao mesmo tempo em que acontece a cena presente, emergem reminiscências do passado, intuições do futuro, fantasias, de maneira natural e  quase imperceptível, fazendo jus ao universo sorrateiro e em surdina que retrata.

Cada momento se torna, dessa forma, riquíssimo e ampliado. E também perfeitamente adequado a uma personagem que diz: “…sinto os meus mortos em redor. Eles continuam, embora nenhuma força consiga governá-los. Mortos e vivos, estão todos por aí, completamente soltos. E a confusão é geral”.

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