MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

09/09/2012

O HOMEM OCO: O psicopata de Brett Easton Ellis

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 02 de maio de 1993)

Por causa do título e por ser a história de um yuppie que tortura, mata e, por vezes, come pedaços de suas vítimas, O psicopata americano (American psycho, 1991, em tradução de Luís Fernando Gonçalves Pereira), de Bret Easton Ellis,pode fazer o leitor esperar algo como O silêncio dos inocentes. Todavia, ele é mais o aprofundamento psicológico do panorama (raso) traçado por Tom Wolfe, em A fogueira das vaidades, de Nova Iorque e, por extensão, da sociedade americana da era Reagan.

Nada poderia ser tão Primeiro Mundo como o universo em que Patrick Bateman se move. Ele mesmo narra sua vida, composta de trabalho em Wall Street, de exercícios físicos obsessivos entre Valiuns, Halcions, cocaína e ecstasy, e principalmente jantares e lugares da moda, onde se consegue reserva a duras penas.

O leitor fica atordoado com as grifes e marcas de todo tipo citadas no livro: “Price está vestindo terno de linho da Canali Milano, camisa de algodão da Ike Behar, gravata de seda Bill Blass e sapatos de maarrar, de couro, da Brooks Brothers. Visto um terno leve de linho, com calças pregueadas, camisa de algodão, gravata de seda pontilhada, tudo da Valentino Couture…”

    É um grande achado porque revela o principal componente da vida de Bateman & Cia, o consumo, e retrata com habilidade o egoísmo e autismo de sua faixa social, desmascarando, por exemplo, o cafajestismo embutido na sofisticação (basta ver como são tratadas as namoradas e mulheres em geral) e a necessidade de auto-afirmação narcisista, satirizada na mania que todos os rapazes de Wall Street têm de trocar o nome de seus pares, como se fossem incapazes de se lembrar de quem eles realmente são (o que, na economia dramática do romance, ganha uma conotação especial).

As próprias angústias de Bateman mostram que, aqui, as vaidades não queimaram: acessos de pânico porque se aproxima dos trinta anos, porque esqueceu de devolver fitas de vídeo ou por causa do fixador de cabelo.

Outro grande achado é fazer, durante mais de cem páginas, alusões perturbadoras soterradas pela banalidade: no meio de um jantar ele se lembra de uma garota que estuprou com um hairspray, mais adiante leva roupas manchadas de sangue a uma tinturaria. Só na página 163 entramos na psicopatia explícita.

Ellis radicaliza em O psicopata americano o estilo do seu romance anterior (do qual eu gosto muito), Os jogos da atração, que narrava paqueras e paixões de um semestre universitário. Nos dois, ele mostra personagens para quem os outros são fantasmagorias, pois são incapazes de perceber e se interessar pela realidade alheia. Temos a impressão, também, que bóiam no espaço e no tempo: as personagens de O psicopata americano, inclusive em festas como o natal, parece que nunca tiveram família.

Sintomaticamente, as raras cenas familiares causam mal-estar e propiciam (principalmente o encontro de Bateman e o irmão) alguns dos melhores momentos do romance.

Mas o que se sobrepõem a tudo é o tédio de Bateman, que progressivamente vai adquirindo consciência de como é oco, e se dá conta de que sua monstruosidade é sua única razão de ser: “Esta é a minha realidade. Fora disso, é como um filme qualquer a que uma vez assisti”, lemos na página 421.

Como é uma casca procurando sensações que o preencham, as descrições cada vez mais horripilantes vão mostrando que nem na mais desenfreada violência ele consegue escapar da futilidade: os assassinatos transformaram-se num produto excessivamente consumido. A única novidade é ser cada vez mais descuidado, para que a possibilidade de ser apanhado seja uma nova emoção.

Pena que Easton Ellis não seja um grande escritor (embora tenha um inegável e peculiar talento). Seu romance ganharia se tivesse umas cento e cinqüenta páginas a menos. Vai perdendo o fôlego, ficando repetitivo e há uma certa inverossimilhança incômoda quando Bateman passa a atacar gente do seu meio. Mesmo assim, ele realiza uma façanha: criar uma imagem crua, sem glamour, de um serial killer, longe dos psicopatas de mentirinha, ora risíveis ora charmosos demais, do cinema hollywoodiano. O psicopata de Ellis é fictício, mas inquietante.

Pena também que colocaram uma capa tão ordinária e que a tradução apresente flagrantes desleixos. Motivos que seriam mais-que-suficientes para que Bateman, tão meticuloso e chique, eliminasse metade da folha de pagamento da editora Rocco. Embora, wasp como é, achasse algo típico do terceiro mundo.

Nota de 2011– Gostei bastante da versão cinematográfica do livro (lançada em 2000), dirigida por Mary Harron,  particularmente pelo seu ritmo enxuto e sintético, mais eficiente até que o do original (sem contar o senso de humor), e pela interpretação simplesmente genial de Christian Bale, a quem admiro desde os tempos de Império do Sol, e para mim um dos maiores atores do mundo.

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