MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

16/04/2014

“A história secreta” e o peixe de Donna Tartt: linguado ou bagre?

tartta história secreta (1)

(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 16 de maio de 1995)

Richard, jovem californiano de família remediada, consegue entrar para um seleto grupo que estuda grego antigo com o professor Julian Morrow, em Hampden, Vemont. O primeiro do grupo a ficar mais íntimo dele é o parasitário Bunny, que acabará por chantagear os outros quatro (Henry, Francis, Camilla e Charles), os quais assassinaram um fazendeiro durante uma “orgia dionisíaca”. Atormentados por Bunny, eles contam com a cumplicidade de Richard para se livrarem dele, jogando-o de um desfiladeiro…

Não terminará aí A HISTÓRIA SECRETA [The secret history, 1992, em tradução de Celso Nogueira], romance de estreia de Donna Tartt que vem fazendo sucesso (está até na lista dos mais vendidos). Há remorsos, deterioração psíquica, buscas pelo corpo que se arrastam por 50 páginas, funerais que se prolongam por quase outro tanto, inúmeros cafés da manhã, almoço, jantares, descritos quase que dia-a-dia. E um resenhista ainda teve a pachorra de afirmar que TUDO nesse romance tem função dramática!!!???

Donna Tartt tem pouca história para contar e o leitor páginas demais para ler (500 e poucas). Isso torna chato o livro? Para dizer a verdade,não. A jovem autora escreve bem, num grau incomum até mesmo nos EUA, onde há aquela risível disciplina chamada “escrita criativa”. Porém, houve muitos equívocos e chavões nos elogios ao romance.

Antes de tudo, é totalmente improcedente se falar em Crime e castigo (quase tanto quanto compararem Woody Allen com Bergman quando ele envereda pelo drama). É muito difícil sentir profundidade em Richard & Cia. ou sequer sentir simpatia por eles, vendo em seu drama a condição humana problematizada.

E que burro é esse Richard! Mesmo se descontarmos a idade e o desejo de ascensão social, será que ele é mesmo incapaz de perceber a mediocridade daquela turma (e várias vezes insiste que ama a todos, mas troco de quê?)? E a sua imediata e absurda adesão à conspiração que resulta no criem? E será que ele não consegue ver, nem a partir de certo momento, o empedernimento e egoísmo de Julian, tão óbvios? Aliás, como levar a sério esse professor (um daqueles professores exclusivistas que já viraram um chavão nas histórias de formação e decepção da inocência) que escolhe discípulos tão rasos, com uma erudição de araque (exceção feita a Henry), insistindo, ainda assim, na sua “seletividade”?

a história secreta (5)

A erudição meio que enfeita a trama da mesma forma que a poesia no pueril Sociedade dos poetas mortos e parece ter lançado uma cortina de fumaça nos olhos de alguns comentadores. Contudo, o que me parece forçado e artificial mesmo em História Secreta é o gancho do crime, em seu vezo moralizante (o perigo das más companhias, “me diz com quem tu andas” etc etc etc), essa coisa da desagregação de personalidades vazias e sem valores, que poderia ser mostrada sem essa forçada de barra. O modelo de Tartt jamais poderia ser Dostoievski e sim Scott Fitzgerald (guardadas as devidas proporções ao autor de Belos e malditos). Se não houvesse espetaculosos crimes na trama, poderia haver uma overdose ou um suicídio, e seria mais evidente que estamos diante de uma história do tipo fitzgeraldiano, do tipo O grupo, de Mary MacCarthy, ou ainda Ciranda de pedra, de Lygia Fagundes Telles.

O melhor de A História Secreta é a sua descrição do meio universitário (esnobado pela turma de Richard e que se move e se mostra pelo romance afora, apesar disso ou por isso mesmo). Qualquer um que tenha vivido num campus interiorano sabe como Tartt descreve bem (e acidamente) o clima das festas, dos alojamentos, dos restaurantes, enfim, da vida universitária encravada num meio provinciano. Os melhores achados estão nesse golpe de vista (a vizinha de Richard, o traficante). Donna Tartt demonstra, assim, afinidade com seu colega de geração, Bret Easton Ellis (a quem ela dedica o livro), cujos romances (como Os jogos da atração, onde mostra um semestre universitário) têm como personagens esses mesmos jovem materialmente prósperos (ou aspirando a isso, quando não aspiram outras coisas) e vazios, frutos da era Reagan, se não de um conformismo característico de certa faixa social norte-americana.

Se há um aspecto que faz A História Secreta merecedor (com suas limitações e sua prolixidade) de uma permanência maior que a da lista dos mais vendidas, é esse. O resto é uma inteligentíssima estratégia de marketing de editores que sabem vender bagre por linguado. Na varinha de condão da mídia o Geraldo pode virar Sigmund Freud e a Silvia Poppovic uma Melanie Klein. É só saber vender o peixe.

história secreta (2)

02/02/2012

O que terá acontecido a Baby Sauro?

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de junho de 1993)

  Já se conhece o argumento de O parque dos dinossauros (Jurassic Park, 1990, em tradução de Celso Nogueira para Best Seller) devido ao filme se Steven Spielberg: a manipulação do DNA, fundamento genético da existência, permite a um empresário povoar uma ilha com seres pré-históricos. O resultado combina King Kong (primitivo versus civilizado) & Frankenstein (ambição desmedida da ciência) e é igualmente trágico.

    Michael Crichton já escreveu dois pequenos clássicos da ficção científica (O enigma de Andrômeda & O homem terminal) para chegar, em O parque dos dinossauros, apresentando em poucas páginas todo um leque de geografias e personagens, muitos dos quais não reaparecerão na história. Complicação inútil, muito comum em best sellers construídos tal como Crichton construiu o seu.

   Um pequeno senão. Mais insidioso e encorpado como um brontossauro é o exibicionismo didático. Não é defeito uma ficção ter fundamento científico, contudo é enfadonho quando o autor inventa trechos inteiros de cenas para que os personagens possam explicar ao leitor teorias, hipóteses e terminologias, o que soa falso porque atravanca o ritmo narrativo. Há até um daqueles geniozinhos (um guri de 12 anos) típicos do imaginário norte-americano. A ciência, aqui, é uma prima-dona empostada, chegada à canastrice. Não dá folga nem ao agonizante Ian Malcolm, que estrebucha filosofando sobre os rumos da pesquisa científica.

    O mérito “ético”, por assim dizer, é chamar a atenção da disneylandização do lazer: mais e mais o aparato tecnológico, o espetáculo aparente, substituem as emoções reais, a imaginação, a riqueza dos seres vivos.

   A narrativa, após os primeiros passos tartamudeantes, adquire velocidade impressionante, a partir do enguiço dos veículos dos visitantes em plena selva jurássica. O leitor passa a se sentir um predador, querendo saber o que vai acontecer, quem vai morrer em seguida, o que compensa a falta de um personagem de relevo, do qual se diga: podem morrer todos os outros, mas esse tem de se salvar, como a de Sigourney Weaver no primeiro Alien.

   A cena mais espetacular é o ataque do Tiranossauro, porém a de maior voltagem de emoção é a dos memoráveis Velociraptores, os psicopatas jurássicos, principalmente no Refeitório. Aliás, se é de dar inveja a Bret Easton Ellis e a Thomas Harris o detalhamento de mutilações e devorações (tem até um bebê devorado), Crichton se compraz no sadismo com as crianças. É verdade que elas não são das mais encantadoras (a menina, então, era capaz de causar indigestão se acabasse como aperitivo dos dinos), só que dá pena ver como são quase massacradas, sofrem mordidas, pancadas, fraturas, passam fome, são ignoradas pelas equipes de resgate, e ainda ficam encontrando pedaços de gente pelo livro afora.

    O parque dos dinossauros termina com um cataclismo, Crichton distribuindo uma justiça que soa meio ingênua, dado o cinismo desnudado ao longo do romance inteiro.

   Como não sei ainda o que restará das melhores qualidades do livro, apesar dos seus inúmeros aspectos discutíveis e apelativos, em meio às computações gráficas hollywoodianas, é bom ressaltar a inesquecível (de dar nó na garganta) cena final dos terríveis e maravilhosos Velociraptores, as criações de maior força dessa engenharia ficcional calculista, ambiciosa e competente.

10/05/2011

os mitos que fervem sob a american pie

(resenha publicada originalmente, sem as notas de rodapé, em  A TRIBUNA de Santos de 10 de maio de 2011)

“Não era capaz de dobrar Veda, por mais que batesse nela, a filha emergia vitoriosa desses embates e ela sofria uma derrota trêmula, ignóbil. Era sempre a mesma coisa. Ela sentia medo de Veda, de seu esnobismo, de seu desprezo, de seu espírito inquebrantável. E temia algo que se ocultava sempre sob a falsa sofisticação de Veda: um desejo frio, cruel e vulgar de torturar a mãe, de humilhá-la e, acima de tudo, de magoá-la. Mildred ansiava desesperadamente pelo carinho da filha… Mas só recebia dela uma contrafação afetada, teatral. Tinha de aceitar esse prêmio de consolação, tentando não vê-lo pelo que realmente era…”

A HBO está exibindo a caprichada minissérie Mildred Pierce, com a maravilhosa Kate Winslet[1]t. O autor do romance que a originou (publicado em 1941), James M. Cain  (1892-1977), sempre foi mais conhecido por suas duas outras obras que geraram versões cinematográficas que se tornaram clássicos do noir: Pacto de sangue (na verdade, Indenização em dobro), um dos melhores filmes de Billy Wilder & O destino bate à sua porta (a versão com John Garfileld e Lana Turner é paradigmática como a de Wilder, mas não se pode esquecer das versões de Visconti e Bob Rafelson). E a história de Mildred Pierce ficou famosa mesmo quando Joan Crawford estrelou Alma em suplício (o delicioso título nacional), de Michael Curtiz, em 1946, ganhando o Oscar (as posteriores revelações de sua filha adotiva sobre a suposta crueldade da “mamãezinha querida” Joan Crawford acrescentaram uma camada a mais à mítica do filme).

No entanto, A história de Mildred Pierce (o rebarbativo título que o livro recebeu por aqui, na tradução de Celso Nogueira) transcende qualquer uma de suas adaptações. Trata-se de um texto extraordinário, o qual equivocadamente foi lançado na (ótima, deve-se ressaltar) coleção de livros policiais da Companhia das Letras. Pois ainda que seja um mestre do gênero, Cain não o exercitou aqui. Não há crime passível de punição da lei, embora haja transgressões reiteradas da chamada moral convencional, do senso comum de ética e decência. É uma radicalização surpreendente e melodramática no bom sentido) de uma linha de histórias que mostram conflitos entre mãe e filha, tais como consagradas por Hollywood, em filmes como Imitação da vida (em suas duas versões) ou Stella Dallas  (que tem um subtítulo nacional emblemático: Mãe redentora) e que foi reaproveitada tanto em telenovelas (a Maria de Fátima de Vale Tudo, de Gilberto Braga, é um similar de Veda Pierce, a filha malvada e ingrata) quanto na releitura paródica de um Almodóvar num de seus melhores filmes, De salto alto[2], que enfatiza o aspecto patológico da relação, aspecto muito presente em Mildred Pierce, e que vemos, por exemplo, numa passagem logo depois da inesperada morte de Ray, a filha caçula da protagonista: “…os relâmpagos pipocaram uma vez, iluminando agora sua dor com luz ofuscante. Veio a torrente de soluços convulsos, e finalmente ela cedeu ao sentimento ao qual vinha resistindo: o regozijo culpado e irreprimível por sua outra filha ter sido levada, e não Veda” e logo a seguir: “Havia algo de desnaturado e doentio no modo como inalava o cheiro de Veda ao decidir dedicar o resto da vida á filha que fora poupada…”

Há duas leituras  “gerais”  que podem ser feitas da obra-prima de Cain: na primeira delas, vemos que ele realizou um tour-de-force do romance realista, aproveitando as lições de Flaubert e Theodore Dreiser, ao contar a história de uma mulher classe média e suburbana que indignada pelo fracasso do marido como provedor (diga-se de passagem, ela se sente inferior a ele, a quem a filha puxou, a não ser pela moleza), o enxota de casa e se vê em dificuldades financeiras, principalmente porque não quer envergonhar a filha esnobe. Como é uma cozinheira de mão cheia, atrai para si muitos fregueses (após se tornar garçonete, uma degradação social), porque faz tortas irresistíveis, e abrindo seu próprio restaurante, ao qual se agregarão três filiais. Envolve-se com Monty, outrora ricaço, mas decadente playboy de Pasadena (o mundo social que Veda cobiça), e para reconquistar a filha, que se afastou após um “golpe da barriga”, decide-se casar com ele e comprando e reformando sua mansão. Veda realmente volta, mas o padrão de vida a que obriga a mãe (o padrão “colunas sociais”) leva Mildred à ruína (ela rouba da própria firma), e a perversa moça ainda por cima se revela a amante do padrasto (uma cena antológica)… Tudo é narrado de uma maneira flaubertiana, precisa, admirável: vemos “cenas” perfeitas desdobrando-se diante de nós.

Mas a outra leitura que se pode fazer é ainda mais interessante: muito além do a feliz fusão entre o dramalhão folhetinesco e o painel realista, A história de Mildred Pierce se parece com aquelas histórias de Nélson Rodrigues sobre Engraçadinha, contadas epicamente em Asfalto selvagem, ou aquelas historietas de A vida como ela é, em que tudo é tão exagerado e extremo que cruzamos um umbral e entramos numa espécie de mundo arquetípico, onde as fantasias, as pulsões, os recalques, os anseios de ascensão social da classe média se tornam puros símbolos. Nesse ponto, o filme de Michael Curtiz banalizou a história ao torná-la um melodrama policial convencional, para que a filha não deixe de punida no final[3]. O livro está muito mais próximo da maneira como Antunes Filho caracteriza o teatro de Nélson Rodrigues: “Claro que há aspectos do cotidiano, do prosaico. Mas isso é aparência… Por baixo, fervem os mitos”.


[1] A concepção e direção é de Todd Haynes, que realizou o melodrama programático Longe o Paraíso, que não me convenceu muito, na sua atualização conceitual da atmosfera dos filmes de Douglas Sirk, que  eu vejo enquadrados naquela categoria de fruição perversa do ridículo.

[2] Os Almodovar nessa linha (e penso como auge de sua produção, tanto em De salto alto quanto em A flor do meu segredo, meus favoritos entre seus filmes me parecem muito mais eficientes do que as tentativas de Todd Haynes de ressuscitar o espírito do melodrama com grandiosidade.

[3] Apesar dessa ressalva e do fato de que Joan Crawford com sua cara impávida ser totalmente inverossímil como a Mildred Pierce idealizada por Cain, o filme (cujo roteiro tem como um dos colaboradores William Faulkner é exemplar na sua estrutura dramática de melodrama criminal: a história toda é contada num depoimento na delegacia, quando Mildred quer assumir a culpa pela morte de Monty (assassinado por Veda, o que não acontece no romance,). A mudança mais significativa da história está no quilate de Veda. Enquanto no livro ela se transforma numa soprano de voz rara, e que só permanece na órbita da mãe por motivos patológicos (o que vai redundar no filme sumamente irônico do livro), no filme Ann Blyth após o golpe da barriga (frustrado por Mildred, outra discrepância com relação ao livro, no qual ela consegue um capital considerável) “cai na vida” como cantora  chinfrim de uma espelunca. Sua dependência da mãe e seu apego a Monty é que precipitam a tragédia final. O filme atenua muito o lado monstruoso e doentio do amor de Mildred (mesmo porque há aqueles clichês consolidados sobre o amor materno na mente do público médio, o qual não aceitaria decerto  toda a parte final do romance, caso se mantivessem fiel a ela), embora ele continue excessivo, ao ponto do sacrifício e da renúncia, “alma em suplício”.

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