MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/04/2013

Aproximações entre Faulkner, Autran Dourado e a ‘falta trágica”

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(o texto abaixo foi escrito em 2008 como parte das minhas anotações de aula de um curso chamado “Três Jovens Parcas: o romance como tragédia nas três Américas”, no qual eu comparava Ópera dos Mortos, Lie down in Darkness & Sobre heróis e tumbas, a partir de dois arquétipos trágicos, Antígona e Ifigênia, e trabalhando conceitos de Northrop Frye e a influência de William Faulkner; na minha tese de doutorado, sobre a obra de Autran Dourado, eu pouco espaço dei a Ópera dos Mortos, e por isso foi um prazer retomar, no curso, esse grande romance).

I-Leitura do primeiro capítulo de Absalão, Absalão!  A figura da srta. Rosa coldfield e a maldição dos sutpen

William Faulkner, como todo romancista norte-americano, é herdeiro de Mark Twain e de As aventuras de Huckleberry Finn (1885). Foi influenciado também, e decisivamente, pelas técnicas de narração indireta, narrador interposto (ou seja, sempre temos a versão de alguém sobre os fatos, nunca os fatos diretamente), que modificaram muito a narrativa realista tradicional, e nesse sentido, seus precursores são Henry James (penso, especialmente, em As asas da pomba de 1902) e Joseph Conrad (e Faulkner tinha especial admiração por este último), em textos como Lord Jim ou O coração das trevas, ambos do começo do século XX também.

Por isso, o primeiro capítulo de Absalão, Absalão (1936) apresenta-se como um emaranhado: é o encontro de uma senhora do “Deep South”, o Velho Sul (Rosa Coldfield), que desapareceu com a Guerra de Secessão, com um rapaz de vinte anos (Quentin Compson, personagem de O som e a fúria) que está prestes a ir para Harvard, mas que carrega consigo o peso do passado. E nas narrativas que estudamos no curso, o peso do passado é essencial, para que as personagens se sintam (e estão mesmo) presas a um círculo fatalístico:

“…Quentin Compson que ainda era muito novo para ser um fantasma, mas que ainda assim era obrigado a ser um deles por tudo aquilo, pois ele nascera e se criara no Velho Sul, como ela (…) vinte anos respirando o mesmo ar e ouvindo sempre o pai falar sobre aquele Sutpen, uma parte da herança da cidade –Jefferson— há oitenta anos respirando o mesmo ar, entre esta tarde de setembro de 1909 e aquela manhã de domingo, em junho de 1833, quando pela primeira vez ele apareceu na cidade, vindo de um passado indiscernível e adquiriu sua terra sem que ninguém soubesse como e construiu sua casa, sua mansão, aparentemente do nada, e casou-se com Ellen Coldfield e gerou seus dois filhos —o filho que enviuvou a filha, que sequer chegara a ser noiva— e assim cumpriu seu quinhão de maldição…Quentin crescera com aquilo… Sua infância fora repleta deles; seu próprio corpo era um corredor vazio ecoando aqueles sonoros nomes derrotados, ele não era um indivíduo, uma pessoa, era uma comunidade inteira, uma caserna povoada de fantasmas obstinados..”.

Sentimos, então, que Quentin é arrastado para esse círculo desde a infância e, como interlocutor da srta. Coldfield, para a maldição dos Sutpen (e todos os personagens cumpriram seu “quinhão” dessa maldição), típica da atmosfera trágica, à qual ficará preso até o fim do romance (e o pai de Quentin ainda tem sua própria teoria, já que é um romance de momentos sobrepostos, uma cena multiplicando-se em outras: “E ela escolheu você porque o seu avô foi a coisa mais próxima de um amigo que Sutpen jamais teve aqui nesta região… Ela pode pensar que, não fosse pela amizade do seu avô, Sutpen nunca se teria firmado aqui, e se ele não tivesse tido esse apoio, não poderia ter casado com Ellen. Por isso, talvez ela considere você, por uma simples questão de hereditariedade, parcialmente responsável pelo que aconteceu a ela e à sua família, por culpa de seu avô).”

Círculo fatalístico, maldição familiar. O rancor (que ela alimentou por quarenta e três anos: ..”.agora existia apenas a carne solitária, velha e contrariada da mulher fortificada pelo rancor antigo, um rancor de quarenta e três anos, o imperdoável ressentimento, a traição da última e completa afronta que foi a morte de Sutpen) de Rosa Coldfield é que coloca em movimento narrativo a engrenagem trágica. E é por isso que, mergulhada nesse rancor, que é sua parte na falta(“…ele, a fonte do mal e que tinha sobrevivido a todas as suas vítimas, que tinha criado dois filhos não apenas para se destruírem um ao outro e destruir sua linhagem, mas também a minha…”) trágica (que Sutpen originou, ao abandonar esposa e filho no Haiti, ao descobrir que eles tinham um quê de sangue negro, e para um sulista um quê qualquer de sangue negro é o suficiente, tanto que Henry Sutpen assassina o próprio meio-irmão, por quem fora apaixonado, e que era o noivo prometido da sua irmã, não pelo horror do incesto, e sim da miscigenação, o medo da donzela sulista ser profanada), Rosa Coldfield toma como certo que a Guerra de Secessão só aconteceu e destruiu o Velho Sul para que essa maldição, que envolveu os Sutpen e os Coldfield (“Que crime teria sido cometido para tornar a nossa família condenada a ser instrumento não apenas da destruição daquele homem, mas da nossa própria?”), se cumprisse. É o que podemos ler em trechos como:

“É porque ela quer que essa história seja contada… e saibam finalmente por que Deus nos deixou perder a Guerra —porque somente pelo sangue dos nossos homens e lágrimas de nossas mulheres Ele pôde deter este Demônio e apagar seu nome e linhagem da face da terra.”

Ou ainda:

“…eu, uma jovem saída de um holocausto que lhe tirou a segurança dos pais e tudo o mais, que viu tudo o que representava a vida para ela acabar em ruínas aos pés de umas poucas personagens com forma de homem, mas com nomes e estatura de heróis; uma jovem, como ia dizendo, atirada ao contato diário e constante com um desses homens que, a despeito do que ele (Thomas Sutpen) pudesse ter sido antes, e a despeito do que ela pudesse ter acreditado ou mesmo sabido a seu respeito, havia lutado durante quatro honrosos anos pelo solo e as tradições da terra onde ela nascera. E o homem que fez isso, embora fosse um canalha confesso, também possuía aos olhos dela a estatura e a forma de um herói e também estava saindo do mesmo holocausto…Oh! Ele foi bravo. Nunca contestei isso. Mas que a nossa causa, nossa própria vida, esperanças de futuro e orgulho do passado, tivessem que ser postas em confronto com um homens dessa laia para defendê-las —homens de valor e força, mas sem piedade ou honra! É de surpreender que os céus tivessem julgado apropriado nos deixar perder a guerra?”

É bom lembrar aqui da virgindade da srta. Coldfield (“há muito tempo entrincheirada na própria virgindade, porém note-se  a descarga erótica que sentimos quando ela diz que fora “atirada ao contato diário e constante” com Thomas Sutpen, o viúvo da sua irmã, e que lhe faz o ultraje de propor casamento, contudo verificando antes de qualquer oficialização, se ela lhe pode dar filhos)e do fato de que ela está meio que enterrada viva em sua casa. Isso, e mais sua fidelidade a esses tempos e seres já mortos, evoca o arquétipo de Antígona, e a fazem uma jovem parca, companheira da Rosalina de Ópera dos Mortos, também emparedada na sua morada e cercada pelos fantasmas do passado.[1]

Thomas Sutpen então é um mito do condado de Yoknapatawpha, com sua chegada misteriosa, seus vinte escravos que trazem um arquiteto francês algemado e acorrentado, para levantar no meio de cem milhas (daí o nome da propriedade, Sutpen´s Hundred, diminuída pela Guerra para Sutpen´s One), vivendo em meio à lama, uma casa imensa e mítica, da qual a família de Ellen, a esposa que ele escolhe para ter a respeitabilidade, é praticamente excluída. E quando voltam a ter um arremedo de convivência, a pequena Rosa (mais nova que os próprios sobrinhos, e habituada, criança que nasceu com índole de velha, a escutar atrás das portas) e o pai percebem que, comprada a respeitabilidade, fixadas as raízes, Sutpen continua com um tipo de vida que se dissocia frontalmente aos costumes puritanos do Velho Sul (“Ele não era um cavalheiro. Nem mesmo um cavalheiro. Chegou aqui com um cavalo, duas pistolas e um nome que ninguém tinha ouvido antes e que nem devia ser dele mesmo, como o cavalo e as pistolas, procurando algum lugar para se esconder, e o Condado de Yoknapatawpha lhe oferecia isto…Não, nem mesmo era um cavalheiro. Não que ele quisesse ser, ou mesmo ser tomado por um cavalheiro. Não. Isso não era necessário, tudo o de que ele precisava era do nome de Ellen e do nosso pai num registro que as pessoas pudessem olhar e ler” e mais adiante: “…desde que papai lhe deu respeitabilidade, concedendo-lhe uma esposa, não havia mais nada que ele pudesse desejar de papai, e nem mesmo a simples gratidão, quanto mais as aparências, poderia forçá-lo a abrir mão do próprio prazer, a ponto de se sacrificar para participar de uma refeição com a família de sua mulher), e ainda “corrompeu” os filhos, particularmente a filha, que se parecem mais com ele do que com a mãe. Dois indícios dessa corrupção: 1)Sutpen, uma vez, leva mulher e filhos à igreja, mas utiliza a rua como se fosse uma pista de corridas; há protestos, e ele nunca mais volta a acompanhá-los, mesmo assim o cocheiro continua a fazer a mesma entrada turbulenta, e ficamos sabendo que Judith, com apenas seis anos, é quem o incitava; um dia, a carruagem é substituída por uma parelha pequena, um faetonte inofensivo, e o cocheiro por um menino tranqüilo, e ela tem um violento chilique; 2) Sutpen mantém o hábito de promover lutas entre seus escravos para divertimento de homens brancos, que ali vão às escondidas; no final, ele mesmo gosta de ser um dos lutadores; Ellen, um dia, invade o local esbaforida, atrás dos filhos, e descobre Henry no meio da chusma, passando mal com a violência da luta; todo mundo sai meio envergonhado, e Ellen tem um confronto com Thomas, dizendo que até tentaria compreender que ele levasse Henry, embora achasse o cúmulo, mas que não permitiria que ele levasse Judith; Thomas replica que não sabe do que ela está falando, que não se importa se ela não acreditar, que nunca pensou em levar Judith para lá; aí então, eles descobrem que Judith (que está com a meia-irmã, Clytie, filha de Sutpen com uma escrava) estava assistindo a tudo pelo alçapão do celeiro. É o final do primeiro capítulo, e todos os elementos da história foram abordados e introduzidos dessa maneira emaranhada, mas tudo está lá. E ainda mais, sentimos aquela solidariedade, aquela ligação, entre os seres de uma linhagem trágica, mesmo que eles se odeiem. Daí a resposta de Rosa para a moribunda Ellen, quando ela lhe pede que proteja pelo menos Judith da voracidade destruidora da sina do pai (sempre a donzela a ser protegida e preservada): “Protegê-la? De quem ou de quê? Ele já lhes deus a vida, não precisa mais lhes fazer mal. É contra si próprios que eles precisam de proteção”. Vale mencionar aqui que, em Sobre heróis e tumbas (1961), que nós ainda vamos estudar, o herói do romance Martín segue sua amada Alejandra Vidal Olmos e a vê se encontrar com um homem que depois descobriremos ser o pai dela (Fernando Vidal Olmos). Há algo que incomoda Martín nesse encontro, pois ele achou desagradável, predatório, o aspecto do tal homem:

“Até que lhe pareceu entender a verdade: aqueles dois seres estavam unidos por uma veemente paixão. Como se duas águias se amassem, pensou. Como duas águias que não obstante isso pudessem ou quisessem destroçar-se e dilacerar-se com seus bicos e garras até a morte (…) Caminhava na madrugada quando teve de repente a revelação: aquele homem se parecia com Alejandra!”

II. PERCURSO PELA ÓPERA DOS MORTOS

Publicado em 1967, foi o livro com o qual Autran Dourado consolidou seu universo peculiar de ficção, Duas Pontes (cidade imaginária do sul de Minas, quase na divisa com São Paulo). Duas Pontes aparece pela primeira vez num conto, “Inventário do Primeiro Dia” publicado na coletânea Nove histórias em grupos de três (atualmente absorvido por Solidão Solitude), em 1957. Depois é o cenário da história da prima Biela, Uma vida em segredo (1964). A partir de Ópera dos Mortos, só um livro importante, Os sinos da agonia, e uma recriação de “Missa do galo” de Machado de Assis, não terão nenhum vínculo com Duas Pontes.

   Ópera dos Mortos alterna duas técnicas narrativas principais:

1) um tom “coral” (um recurso de que Autran será useiro e vezeiro nas obras posteriores), um narrador que absorve o ponto-de-vista da cidade, muito presente nos dois capítulos iniciais, no capítulo do meio (o 5º.) e no capítulo final, que começa de forma típica: “De repente a gente voltava ao sobrado. Atravessamos finalmente a ponte, o sobrado abria as portas para nós”;

2) a alternância de discursos indiretos livres (aquele em que o narrador em terceira pessoa se funde de tal forma ao ponto-de-vista da personagem que não se sabe o que é de um ou de outro, e que sem chegar ao fluxo contínuo que é o stream of consciousness consagrado por James Joyce, é uma imitação do processo associativo que é o nosso pensamento) de vários personagens, principalmente de Quincas Ciríaco, Rosalina, Juca Passarinho e Quiquina.

No primeiro capítulo, o narrador coral, “a gente”, apresenta o sobrado, comentando sua estranha construção: a parte de baixo foi construída por Lucas Procópio Honório Cota (sobre o qual correm “as brumosas histórias de um homem antigo que fazia justiça sozinho, que se metia com os seus escravos por aqueles matos, devassando, negociando, trapaceando, negaceando, povoando, alargando os seus domínios, potentado, senhor rei absoluto”[2]); a parte de cima pelo seu filho, João Capistrano Honório Cota (“homem sem a rudeza do pai, mais civilizado, vamos assim dizer”). Ora, o encarregado da construção pensa em refazer a casa inteira e ouve a seguinte resposta: “Não derrubo obra de meu pai. O que eu quero é juntar o meu com o de meu pai. Eu sou ele agora, no sangue, por dentro. A casa tem de ser assim, eu quero. Eu mais ele, numa argamassa estranha de gente e casa.”

No segundo capítulo, conta-se a história da família Honório Cota, concentrando-se principalmente no episódio que fez João Capistrano “brigar” com a cidade, fechando o sobrado para ela: estamos na República Velha, ele afinal tem uma filha que vingou, Rosalina, após os muitos abortos e filhos natimortos, está em plena prosperidade, com os cafezais, o armazém que mantém em sociedade com Quincas Ciríaco (que tinha uma estranha fixação no pai de João Capistrano, seu melhor amigo; como Lucas Procópio agarrava qualquer mulher e a forçava a ter relações com ele, por muito tempo Quincas Ciríaco suspeitou de que fosse um dos inúmeros filhos dele, dessa prática brutal, e sempre acalentou o sonho de assassiná-lo (“… só depois, muito depois, é que olhando meticuloso os dois retratos, o seu e o do outro, é que via como se parecia com o pai, era ele escrito e escarrado, como se diz. Mas o mal já estava feito, a alma azeda…”. Acalenta sonhos políticos quixotescos. Na política mineira, há dois partidos, os sapos e os periquitos, respectivamente os velhos partidos do Império “modernizados”, o Liberal e o Conservador. Por natureza, João Capistrano era um conservador e apoiaria naturalmente o chefe político da região, dos periquitos, senador Dagoberto. Porém, exaltado e idealista (“Era generoso, tinha grandes idéias para o Brasil. Se encarnava no avô, se via fazendo longos discursos na Assembléia Constituinte do Império[3]), começa a fazer reparos ao governo e é tomado como adepto dos sapos.

O sobrado passa a ser freqüentado quase todas as noites e João Capistrano, candidato, é eleito. Mas há um conchavo entre os dois partidos (e para ambos ele é uma figura incômoda), os votos são recontados e roubados. Alertado por Quincas Ciríaco de que “política é assim mesmo, não tem jeito —mão na bosta”, e colhido de surpresa pela morte da mulher, a sensata e pé-no-chão dona Genú, um ano depois, ele se fecha e a filha lhe faz companhia:

“E ninguém teve mais a coragem de cumprimentar o coronel Honório Cota feito antigamente… O coronel Honório Cota voltou à sua antiga morada para guardar a espada, elmo e couraça, encostou a sua lança. Voltou ao que era, ou melhor —ficou mais triste e ensimesmado do que era… Rosalina, já moça, procurava ampará-lo era assumir o silêncio do pai, aquele mesmo ar casmurro e pesado, de dignidade ofendida, aquele ódio em surdina, duradouro, de quem nunca se esquece.”

Quando as pessoas da cidade vão prestar condolências e homenagem, numa cena muito teatral, ele desce as escadas do sobrado, não diz palavra a ninguém, dirige-se ao relógio-armário do salão e pára o pêndulo.

Quando ele mesmo morre, todo mundo acorre ao sobrado, pensando que finalmente a birra entre o sobrado e Duas Pontes vai terminar, e há uma cena ainda mais teatral, deliberadamente teatral:

“Rosalina descia as escadas, toda a sua figura bem maior do que era, a cabeça erguida, digna, soberba, que nem uma rainha —os olhos postos num fundo muito além da parede, os passos medidos, nenhuma vacilação; trazia alguma coisa brilhante na mão. Rosalina era uma figura recortada de história, desses casos de damas e nobres que contam pra gente, toda inexistente, etérea, luar… Abriu-se caminho para Rosalina…aquilo que ela trazia na mão era o relógio de ouro do falecido João Capistrano Honório Cota, aquele mesmo que a gente babava de ver ele tirando do bolso do colete branco, tão bonito e raro, Pateck Philip dos bons, legítimo. Que ela colocou num prego na parede, junto do relógio comemorativo da Independência. Os relógios da sala estavam todos parados, a gente escutava as batidas do silêncio. Só na capa ouviam a pêndula no seu trabalho de aranha… A gente via tudo em silêncio de igreja: Rosalina subiu de novo as escadas, direitinho como desceu.”

Dados os antecedentes, a narrativa salta mais ou menos uns quatorze ou quinze anos, e vemos Rosalina-Antígona, lá pelos 30 anos, vivendo trancada dentro de casa, enterrada viva, não falando com ninguém na cidade a não ser o seu camarada de infância, candidato a noivo (entretanto, casou-se com outra), Emanuel, filho de Quincas Ciríaco, e administrador dos negócios da família. Rosalina convive apenas com Quiquina, a criada muda, e às tardes esta vai entregar as flores de seda e de pano que Rosalina confecciona (creio que não é preciso insistir muito no simbolismo dessa atividade, que mostra a nossa heroína não só contra os costumes da pólis, como também contra a natureza; trocando em miúdos, Rosalina é uma flor de estufa). Nessas tardes (como à noite, também, quando se entrega à bebida, mas preocupando-se em manter as aparências para Quiquina: poupa o vinho mais caro, para não gerar falatório na cidade caso viesse a fazer encomendas, e se embebeda com o licor adocicado e enjoativo que Quiquina prepara), sempre é meio que tomada por fantasias nupciais, tendo como única referência o sonso Emanuel:

“Se olhava no espelho remedando uma mulher muito elegante e bonita saindo de braço dado com o marido para um festa no Rio de Janeiro. Quiquina não devia ver. Trancava a porta, abria a gaveta da cômoda, tirava as rosas mais bonitas que tinha feito e guardado, sem coragem de vender. Meio envergonhada como se fizesse um pecado escondido, faceirosa…”

Rosalina desespera-se na casa onde se emparedou por orgulho:

“Forçou não pensar, deixar as coisas existirem de manso, sozinhas, sem ela, frias. Mas as coisas naquela casa não era frias e silenciosas, um pulso batia no seu corpo, ecoava estranhos ruídos, como se de noite acordada tivesse sempre uma porta batendo… A casa vivia de noite, ou de dia naquele oco de silêncio que ensombrecia como se fosse de noite, como se ouvisse, como se fosse um coração batendo a sua pêndula. Coração de quem? Da mãe, do pai, de Lucas Procópio? Nunca se sabia. Talvez o coração da casa mesmo… aí estava ela de novo empurrada para as sombras… Mas ela não podia mexer nos relógios, não devia nunca mexer naqueles relógios. Os relógios eram um quebranto, parados eles batiam como de noite aquele coração penado no meio da casa.”

No quarto capítulo, aparece o elemento estranho, aquele cujo destino vai se chocar com o de Rosalina, mas ambos serão triturados pela engrenagem da falta trágica: José Feliciano, o Juca Passarinho, malandro, vadio, errabundo, que deseja um lugar de parada, onde não precise trabalhar muito, de preferência só com mulheres, sem homem para vigiar se faz o serviço ou não. Ao se aproximar de Duas Pontes, só imagens agourentas: o cemitério e as voçorocas, as terríveis goelas expostas da terra, causadas pela erosão (o que há de sexual e freudiano nas voçorocas, não é preciso ressaltar, a própria Rosalina, com toda a sua donzelice, vai arrastar Juca Passarinho para si como se fosse uma das voçorocas).

Para a surpresa de Quiquina, e desagrado também, Rosalina concorda com que Juca Passarinho trabalhe em pequenos serviços e se agregue ao sobrado (ela só não queria alguém que fosse da cidade, não permite a entrada de nenhum nativo na casa).

O 5.o capítulo, postado estrategicamente no meio dos nove, chama-se “Os dentes da engrenagem”. Ele mostra como Juca Passarinho se torna querido na cidade, como as pessoas querem extrair dele notícias da intimidade do sobrado(“Desde os primeiros dias a cidade filhou Juca Passarinho, ele era um dos nossos. De novo tentávamos construir uma ponte para o sobrado, talvez por ali a gente pudesse passar…A gente sabia que Juca Passarinho vivia sempre mentindo, mas achava graça na queimação de campo, ele era muito engraçado…ninguém como ele para contar os casos”), e como ele mesmo tenta forçar uma maior intimidade (não sexual, ainda não, mas tentando sondá-la sobre o passado, “porque certas horas dona Rosalina não parecia a mulher feita de hoje. Era uma menina que contava seus casos, que fantasiava a vida. Era a vida e os seres vistos através dos olhos lumeados, do peito aberto de uma criança… A figura bem composta e cuidada não se casava com a voz e a fala doce e cantante que vinha de um fundo muito além, de uma outra pessoa…dona Rosalina era que nem um guará, ele tentava pegar o guará naquele casarão. [4] Sempre escondida num lugar qualquer do sobrado, perdida no tempo.Não a pessoa de dona Rosalina, que esta era até muito parada e silente, naquele serviço quieto e vagaroso de fazer flor. Ele não sabia ainda que buscava nela a outra pessoa: a sombra, a alma de dona Rosalina” [5])  com sua patroa, sendo sempre, no fim, rechaçado e mandado de volta para o seu devido lugar. Ele, de tanto espiar, acaba conhecedor das noites de bebedeira de Rosalina, principalmente porque volta muito tarde, após ficar pela cidade, ou aproveitando o Curral das Éguas, o bordel dos pobretões de Duas Pontes (o Bordel da Ponte, mais chique, é para os coronéis e mais afortunados).

E é assim que começa o capítulo seguinte, “O vento após a calmaria”: Juca retorna ao sobrado, onde Rosalina espera a sua volta (sem admitir para si mesma), e bebe, e fantasia. Juca chega sedento, com gosto de cachaça e cerveja na boca, e não aprecia a água da bica, fica tentado pela água da moringadentro da casa, é claro. Só que Quiquina não só fecha a porta da cozinha, por onde ele poderia entrar, como também fica meio que de guarda. Só que nesse dia a porta está entreaberta. Juca penetra no casarão e esse verbo penetrar não é nada inadequado para uma ação, que, se conjugarmos casa e mulher, ambos recintos defesos, se assemelha a uma violação, uma violação longamente esperada (“Agora era ir em frente, não podia mais voltar. Que importava se o mandasse embora, queria ir até o fim, ver o que ia acontecer”). O vento após a calmaria.

Ele encontra Rosalina bebendo, e sonhando, ela permite que ele sente ao seu lado (“Temia que ela voltasse a ser a dona Rosalina diurna, a dona Rosalina de sempre…Nunca estivera tão perto dela…”). Desmancha-lhe o penteado, ela tira uma flor que guarda no peito e entrega a ele (“Desabotoou os primeiros botões da blusa branca. Quê que ela vai fazer? Pensou rápido. Não. Ele viu que ela tirava qualquer coisa escondida nos seios”), e só não há consumação de nada porque ambos vêem, e se assustam com, a figura de Quiquina, consciência vigilante do sobrado, na porta da sala. Rosalina corre para cima.

No capítulo seguinte, “A engrenagem em movimento” ambos estão apavorados com as possíveis reações e decisões de Quiquina. Rosalina acorda numa terrível ressaca e não a encontraem casa. Ficapensando se o que aconteceu aconteceu de fato ou foi fruto da sua imaginação. Só quando olha nos olhos de Quiquina percebe que tudo é fato. E Juca fica vagueando pela cidade, pelo cemitério, pelas voçorocas, até que volta ao sobrado, e confrontando-se com Rosalina diante de Quiquina, esta tem a mesquinha  satisfação de vê-lo sendo humilhado pela dona do sobrado. Nas primeiras noites, ao voltar, não há luz e ninguém parece estar à espera. A porta da cozinha de novo fechada.

“Na terceira noite, ao voltar para casa, viu a sala acesa, as janelas escancaradas. Ela esperava-o, desejava voltar antes do ponto em que Quiquina chegou no vão da porta. O coração em sobressalto (não era alegria, ele esperava tudo de Rosalina) ele veio até a janela, viu-a junto da mesa, o livro aberto diante dos lhos, o cálice pelo meio ao alcance da mão. Tudo como da primeira noite[6], pensou rápido e trêmulo… preso ao chão, ele não se animava a avançar. Não podia perder aquela oportunidade. Sem uma palavra ela o estava chamando…

…Na porta da sala ele parou. Junto da mesa, de pé, ela. Ela sorria para ele, não podia ter mais nenhuma dúvida. Ela está se rindo pra mim, ela quer. O coração se encheu de uma alegria feroz. Os olhos úmidos, quase chorava. O coração estalando. Vem, disse ele sem desgrudar os olhos da porta onde Quiquina podia aparecer a qualquer momento. Como ela fizesse um movimento de apanhar alguma coisa debaixo da mesa, ele mostrou a garrafa na mão.

    E ela veio, os passos incertos, solta no espaço, feito pairasse sobre o abismo.”

Depois desse belíssimo final de capítulo, o seguinte (A semente no corpo, na terra) começa da seguinte forma: “E assim ele conheceu Rosalina.” Estabelece-se um ritual, em que a dualidade dia e noite, austeridade e luxúria, João Capistrano e Lucas Procópio, fica bem marcada (“Se o corpo lhe pertencia… A alma era dos mortos). Até que Rosalina passa a rejeitar Juca Passarinho e lhe nega acesso ao sobrado noturno: ela engravidou e tenta esconder de todos, inclusive de Quiquina, o que impede a esta de realizar um aborto. A gravidez vai impondo uma outra, uma terceira Rosalina, cada vez mais diáfana e desligada da realidade (e o estilo mimetiza esse desdobramento da personalidade desdobrando-se em parênteses). Na noite do parto, Quiquina ajuda-a (ela tem dores lancinantes), congratula-se por ninguém da cidade ter descoberto a situação, e preocupa-se com o bebê, ao qual pretende matar, caso não siga a sina dos filhos de dona Genú e nasça “anjinho”. Como explicar uma criança no sobrado e manter a fachada de orgulho?

No final, Juca ouve um vagido de recém nascido e depois um assustador silêncio. Quiquina lhe traz uma trouxa costurada, sanguinolenta e nauseabunda e manda que jogue nas voçorocas. Ele, apavorado, obedece a ordem de pegar a “coisa”, mas a enterra e depois fica deitado, esperando o amanhecer, para fugir da cidade, que cumpriu seus presságios com o cemitério e as goelas abertas.

E o último capítulo, “Cantiga de Rosalina” traz a cidade de volta para o sobrado, e a última visão de Rosalina reinando sobre todos, na sua escadaria, em meio aos relógios todos parados (Quiquina pára o da copa, o último a funcionar na casa). É um capítulo curto, bem curto, e por isso pretendo fazer sua leitura na próxima aula.

III. Desdobramentos da família honório cota na obra de Autran Dourado

Como autor que gosta de fazer de suas obras uma Macro-narrativa (no que se assemelha a Faulkner[7] e aos trágicos gregos), quase vinte anos depois de concluir a história de Rosalina, em 1985, Autran Dourado mostrou a raiz da maldição dos Honório Cota, a falta que determinou todo o destino narrado em Ópera dos Mortos. No romance Lucas Procópio, ficamos sabendo que o Lucas Procópio do livro anterior é um impostor, o capataz e assassino Pedro Chaves, que usurpou a identidade de seu patrão. Em Monte da Alegria (1990), Pedro Chaves/Lucas Procópio reaparece para assassinar a última pessoa que poderia desmascará-lo. E, por fim, em Um cavalheiro de antigamente (1992), conhecemos melhor João Capistrano, pai de Rosalina, e que herdou as características psicológicas do homem cuja identidade o pai dele usurpou.

O verdadeiro Lucas Procópio e seu amigo Francisco Fernandes Coutinho (o futuro Santinho de Monte da Alegria) são figuras quixotescas e arcaicas, compartilhando da mesma formação, por serem da mesma estirpe, que sofre a decadência (suas famílias eram riquíssimas no tempo do Ouro) com elegância, e que vem justamente a ser a formação de Isaltina, a qual acabará por casar-se com o brutal Pedro Chaves:

“Não havia aquelas riquezas dos tempos dos antigórios. Aquela elegância de homens e mulheres que freqüentavam a casa de José Antônio[8] era mantida a duras penas, com muito cuidado. Os ternos e vestidos eram escovados e passados, alguns com cerzidos que eles disfarçavam com aquela dignidade dos nobres decaídos e dos que conheceram a abastança e agora roem os ossos com a dignidade possível e orgulhosa.”

A inércia inicial de Lucas e Francisco se expandira para ações quixotescas, com resultados desastrosos (como mais tarde, a empreitada política de João Capistrano), não por acaso determinados por Pedro Chaves, que marca o fim do papel social desses herdeiros/deserdados do ouro. Um universo no qual Lucas é uma figura de destaque:

“…de cabelos e barba com alguns fios brancos, era afidalgado, filho de Mateus Romeiro Cota, português que vinha da nobreza hereditária lusitana (aparentado a del-Rei, era o que gostava de dizer Mateus na sua alta e agressiva prosápia), não da nobreza individual e intransmissível do Império do Brasil; tinha os gestos elegantes e as maneiras finas. Era um belo exemplar de homem, achavam mulheres e homens. De voz poderosa e timbrada, ninguém como ele para declamar um poema”.[9]

Saindo de Ouro Preto, o “lucidamente louco” Lucas Procópio (a caminho de uma propriedade no arraial que é por enquanto Duas Pontes, no Império, propriedade que será usurpada por Pedro Chaves) prega a redenção de “antigamente, parte mito, parte fatos acontecidos…Lucas Procópio pregava o seu evangelho das Minas Gerais, o renascimento da velha e brilhante civilização do ouro[10]. Ele surge nas cidadezinhas do interior (acompanhado por Pedro e pelo negro Jerônimo) como uma figura “estúrdia”

“…jamais vista naquelas paragens. Era mesmo coisa de sarapantar, matéria de pura invenção, sonho da gente, figuração saída de gravura de livro antigo. Os moleques, de natural livres e ousados, não se continham, exaltados e atrevidos. Cadê o resto do circo? começaram a gritar no desrespeito comum ao pessoal miúdo. A gente aqui sabia o seu tanto de História. Nunca porém se vira cara, vestimenta, cavalo, arreio, armas iguais, tudo antigório.”

Francisco, por sua vez, torna-se um “iluminado” religioso, na linha de Antonio Conselheiro, após uma experiência incestuosa com a irmã, Conceição.

O assassinato de Lucas é narrado da seguinte forma:

“Pedro Chaves viu o patrão se levantar e ir em direção da canastra. Quando se voltou, gritou espantado vendo a carabina apontada para ele, as mãos no ar. Não faça isso, não faça isso, pedia. A arma apontada bem na cabeça de Lucas Procópio. Um pássaro trincou o silêncio estagnado, de cristal. A figura de Lucas Procópio contra o fundo azulado e luminoso do céu. Uma explosão, o corpo caiu. Está morto o coronel Lucas Procópio Honório Cota, gritou Pedro Chaves para o céu alto, tinindo de azul”.

É o final da primeira parte de Lucas Procópio, intitulada “Pessoa”. Depois, começa a 2ª., que narra o casamento do impostor com Isaltina e o seu apossar-se de Duas Pontes e arredores, intitulada “Persona”.

Já o assassinato do Santinho é assim:

“O irmão Francisco se levantou e abriu a porta. Era um homem forte e troncudo, que usava barba comprida, já grisalho… Qual é a graça de Vossa Senhoria? disse ele. Eu me chamo Lucas Procópio Honório Cota, coronel da Guarda Nacional. Não é possível, disse o irmão Francisco, eu conheci Lucas Procópio Honório Cota, fui amigo dele. Vossa Senhoria é um impostor. Sim, não sou Lucas Procópio Honório Cota, há alguns anos passo por ele. Meu vero nome é Pedro Chaves, mas você vai ser a última pessoa a saber, eu espero. E tirando do coldre um revólver, Pedro Chaves desfechou dois tiros no peito do irmão Francisco.”

Essas mortes deixam o caminho livre para o falso Lucas Procópio Honório Cota (veja-se a importância do nome, com sua aura de nobreza, realçada pela sua repetição obsessiva nos dois trechos) dominar a cena, mesmo entre os coronéis da região, os quais, eles mesmos, se espantam com sua desfaçatez, pois faz em aberto coisas que eles fazem à socapa, mantendo as aparências.

Nada explicita melhor a hipocrisia dos outros coronéis, principalmente nos tempos republicanos, do que a atitude do delegado Requião, em Um cavalheiro de antigamente:

“…ele mesmo deixava de perseguir os capangas dos coronéis do município, só exigia que eles não permanecessem dentro da cidade, na cidade mesmo só de passagem. Como era pouco o que ele queria, os coronéis que o mantinham na delegacia, do partido da situação, achavam uma exigência de somenos, até elogiavam, caso contrário viver nas Duas Pontes ficava perigoso para as famílias. Cobra e capanga é no mato, dizia seu Requião o chefe político das Duas Pontes, quando lhe contaram o ditado, riu muito, até louvou o zelo de seu Requião.”

Já Pedro Chaves, transformadoem Lucas Procópio(isso é que é self made man), surpreende pelo seu arrivismo, que o coloca bem à vontade na passagem do Império para a República, quando também Duas Pontes deixa de ser mero arraial e transforma-se numa cidadezinha, que conhecerá seu auge durante a economia cafeeira:

“…Lucas Procópio não era o que antigamente se chamava um caráter adamantino, um homem de bem. Seus negócios nunca foram limpos, não se podia confiar na sua palavra. De vontade férrea e imperiosa, mandão e atrevido…mesmo depois de um tanto transformado, Lucas Procópio nunca respeitou muito a lei, ele a burlava com desfaçatez, pelo que jamais foi punido…era senhor-rei-absoluto[11], fazia justiça com as próprias mãos.”

É justamente essa tendência arrivista que o faz adaptar-se às mudanças que se fazem, na melhor tradição “gattopardo”, para tudo continuar como está, como se pode ler em Lucas Procópio:

“O seu poder econômico de agora (na verdade, era a maior fortuna de Duas Pontes e arredores) levara-o fatalmente à política, uma era conseqüência dôo outro. A libertação dos escravos não o atingira tanto, pensando bem até lucrara com ela. Um ano antes, embora conservador por interesse e temperamento, vendera e alforriara os seus escravos e conseguira trazer para a Fazenda do Encantado colonos italianos contratados como assalariados ou pelo regime da meia e da terça… O único problema que passou a ter com os colonos é que muitos deles tinham noção de sua dignidade, preservada a todo custo… Muitos deles tinham idéias avançadas para a época, uma noção muito nítida dos seus direitos e interesses (…) Na política continuou a mesma tradição de mandonismo, própria daqueles tempos, que vinha ao encontro do seu antigo temperamento. Pela sua natural autoridade, pelo manso respeito que passaram a ter por ele na cidade, não lhe foi difícil chegar à chefia do Partido Conservador. Com a mudança do regime, passou a ser o presidente do Partido Republicano. O sistema autoritário dos primeiros anos da república era bem de acordo com o temperamento do seu chefe municipal.”

Portanto, o “temperamento” do falso Lucas Procópio condiz com o que se pede a uma autoridade nos primeiros anos da república. Um pouco mais adiante, há um trecho irônico sobre a “transformação” da figura pública de Pedro Chaves: “…ele se tornou, á sua maneira, um homem até ponderado. Ou seja, quase respeitável, o que Rosa Coldfield sempre negou a Thomas Sutpen, embora ele atinja o mesmo status por causa do seu desempenho na Guerra de Secessão.

Um tanto do trabalho de retoque da imagem pública de Lucas Procópio/Pedro Chaves fica a cargo do seu filho (que enfrentará o mundo com instrumentos mentais e um temperamento bem próximo ao homem que o pai assassinou).

No final de Lucas Procópio, no Ponto (o localem Duas Pontes onde os homens param para bater papo).

“…viu passar por ele um preto, não lhe pareceu estranho. O preto andou alguns passos, se voltou. E sem que ninguém entendesse nada, gritou Pedro Chaves! (…) Armado de uma garrucha, o preto lhe desferiu um tiro no ombro. Mesmo ferido, o coronel ainda foi mais ligeiro. Sacou do revólver e desfechou no preto dois tiros seguidos, certeiros, que o prostraram no chão, morto. Quem era, lhe perguntaram. Não sei, um preto que deve ter me tomado por alguém que não sou, disse. E a si mesmo: Jerônimo, preto filho da puta!”[12]

Ao morrer, tempos depois, há um efeito “retrato de Dorian Gray”:

“…Quando mandaram tirar ao sua máscara mortuária, o que se viu não foi a cara serena do velho Lucas Procópio Honório Cota em que o homem se transformara, nome pelo qual a gente o conhecia, mas a cara enrugada, dura, má, sinistra, que ficara na cera: na verdade as feições do terrível e antigo feitor Pedro Chaves, tanto tempo escondido.”

Esses antecedentes (criados posteriormente) são indispensáveis à fruição da história de Rosalina? Pode ser que não, mas são apaixonantes. E ajudam a compreender o objetivo do curso, de relacionar tragédia e romance. Ao escavar as origens, Autran Dourado dá mais uma demão nas camadas que envolvem o sobrado, argamassa estranha de casa e gente.

IV. Leitura do último capítulo de Ópera dos Mortos, “A canção de Rosalina”, com uma ligeira passagem por Luz em Agosto:

Na minha opinião a obra-prima absoluta de Faulkner é Luz em Agosto[13], de 1932 (Autran Dourado: “Outro escritor cujo conhecimento foi decisivo para mim foi o Faulkner. Não só pela diversidade fantástica da técnica, mas sobretudo por ser ele um escritor do sul do Estados Unidos, que se parece demais com Minas Gerais. O sul de Minas Gerais e o sul dos Estados Unidos tinham a sua economia baseada no trabalho escravo e na monocultura” [14]).

Nesse livro, uma das linhas narrativas é a história de Joe Christmas, um estranho[15] que chega a Jefferson, três anos antes do início do enredo, arranjando emprego na serraria onde trabalha outro personagem importante (Byron Bunch):

“Nenhum deles sabia então onde Christmas morava e o que estava realmente fazendo… Possivelmente ninguém jamais saberia, não fosse por outro estranho, Brown[16]. Mas tão logo Brown contou, surgiu uma dúzia de homens admitindo que vinha comprando uísque[17] de Christmas há mais de dois anos, encontrando-se com ele de noite e a sós na mata atrás da velha casa de fazenda colonial a pouco mais de três quilômetros da cidade, onde vivia solitária uma solteirona de meia-idade chamada Burden” [18].

Quando Lena Grove chega à serraria e faz perguntas sobre o paradeiro do pai do seu filho a Byron Bunch, ao mesmo tempo há sinal de um grande incêndio na propriedade Burden. Bunch explica a Lena:

É uma casa velha bem grande. Está lá faz muito tempo. Ninguém vive lá, só uma senhora, sozinha. Acho que alguns nesta cidade vão dizer que é um castigo para ela, mesmo agora. Ela é ianque. A família veio para cá na Reconstrução, para incitar os negros. Dizem que ela continua metida com eles. Visita-os quando estão doentes, como se fossem brancos. Não tem cozinheira porque teria de ser uma mulher negra. Dizem que ela acha que eles são iguais aos brancos. É por isso que ninguém nunca vai lá. Só um… Ou talvez dois, pelo que ouvi…Dois sujeitos chamados Joe que vivem por lá, de certa maneira. Joe Christmas e Joe Brown…Uns dizem que eles estão vendendo uísque. Guardam escondido lá, onde aquela casa está pegando fogo.”

Então aí temos os dados principais: o fato de se comprar uísque de Christmas, mas sempre o tomar por estranho (ele é o próprio “estrangeiro” camusiano), a quizila entre a cidade e a ianque, que “gosta dos negros”. E o incêndio da casa.

Mais tarde cai a “bomba” (lançada por Brown, que foi preso e quer se safar): Christmas tem sangue negro. E isso faz a perseguição a ele (pois supostamente assassinou a srta. Burden e foi ele quem incendiou a casa) tomar outra feição.

É no capítulo 5 do livro é que começamos a entender o teor das relações entre Christmas e sua vítima:

“A casa estava invisível e escura. Nenhuma luz aparecia e nenhum som saía de seu interior quando ele se aproximou e parou embaixo da janela do quarto onde ela dormia, pensando. Se ela está dormindo também. Se ela está dormindo. As portas nunca ficavam trancadas, e era comum acontecer que a qualquer hora entre o anoitecer e a aurora que o desejo o tomasse, ele entrasse na casa e fosse ao quarto de dormir dela e caminhasse no escuro sem vacilar até a sua cama. Às vezes ela estava acordada esperando e falaria o seu nome. Outras ele a despertava com sua mão dura e brutal e às vezes a possuía dura e brutalmente antes que ela estivesse totalmente desperta.

   Isso fora há dois anos, dois anos já passados, agora, pensando Talvez a afronta esteja aí. Talvez eu ache que fui enganado, ludibriado. Que ela mentiu para mim sobre a sua idade, sobre o que acontece com as mulheres numa certa idade. Ele disse, em voz alta, solitário, na escuridão embaixo da janela escura: Ela não devia começar a rezar por mim. Ela estaria bem se não tivesse começado a rezar por mim. Não é culpa dela ter ficado tão velha a ponto de não prestar mais. Mas devia ter tido o bom senso de não rezar por mim. Ele começou a xingá-la. Ficou embaixo da janela escura, xingando-a com lenta e calculada obscenidade.”

O fio dessa história (na verdade, o relato de como ela se iniciou) é retomado no final do capítulo 10, quando Christmas, perambulando pelos arredores de Jefferson (aonde acabara de chegar), pergunta a um moleque quem mora na “casa grande” e fica sabendo que a “sinhá” Burden vive completamente sozinha.

“Uma velha, imagino.

Não, sinhô. A sinhá Burden não é velha. Também não é moça.”

Ele invade a casa para comer e é surpreendido por ela (estou resumindo muito, porém é basicamente isso):

“Assim estava, parado no centro do recinto, segurando a tigela e mastigando, quando a porta se abriu e a mulher entrou. Ela trajava um roupão desbotado e carregava uma vela, segurando-a no alto de forma que a luz lhe caía sobre o rosto: um rosto calmo, grave, absolutamente tranqüilo. Sob a tênue luz da vela ela não parecia ter muito mais que trinta. Ficou parada na porta. Eles se entreolharam por mais de um minuto, quase na mesma atitude: ele com a tigela, ela com a vela. Ele parara de mastigar agora.

–Se é apenas comida que procura, vai encontrar, disse ela, a voz calma, um pouco profunda, muito fria.”

Os dois próximos capítulos (11 e 12; o livro tem 21 ao todo) centram-se nas “fases” do relacionamento.

“Mais tarde, ela lhe disse que tinha quarenta. O que poderia significar quarenta e um ou quarenta e nove,do jeito que ela disse, pensou…

…Eles se falavam bem pouco, e isso casualmente, mesmo depois que ele se tornou o amante do seu leito de solteirona… Era como se houvesse duas pessoas: a que ele via, de vez em quando, de dia, e para a qual olhava quando conversavam com palavras que não diziam nada, pois não tentavam nem pretendiam dizer; a outra, com quem se deitava à noite e nem mesmo via ou conversava.”

Portanto, um relacionamento ritual, que separa, ao invés de unir, criando um dualismo do dia e da noite, tal como o de Juca Passarinho e Rosalina (“Um dia deu-se conta de que ela nunca o convidara a entrar propriamente na casa…E quando entrava na casa à noite, era como havia entrado naquela primeira noite; sentia-se como um ladrão, inclusive quando subia até o quarto onde ela o esperava. Mesmo um ano depois, era como se entrasse furtivamente para roubar sua virgindade de novo a cada vez.”).

Não é de se estranhar que perpasse um matiz de ressentimento, que se traduz na brutalidade das imagens a respeito da relação: “Era como se ele lutasse fisicamente com outro homem por um objeto sem nenhum valor para nenhum deles, e pelo qual lutassem apenas por uma questão de princípio; e se traduz também pela atitude de Christmas (“Vou mostrar a ela”) que o faz subir até o quarto dela na primeira vez:

“Começou a rasgar-lhe as roupas. Falava-lhe numa voz baixa, dura, tensa: Vou te mostrar! Vou te mostrar, sua puta! Ela não esboçou nenhuma resistência…”

“…No começo, aquilo o chocou: a fúria abjeta da geleira da Nova Inglaterra subitamente exposta ao fogo do inverno bíblico da Nova Inglaterra…a imperiosa e feroz urgência que ocultava um real desespero pelos anos frustrados e irrevogáveis que ela parecia tentar compensar a cada noite como se aquela pudesse ser sua última noite na terra, condenando-se para sempre ao inferno dos antepassados por viver não só em pecado mas também na depravação.”

Eu estou condensando em poucas citações muitas e muitas páginas, e é bom insistir que essa é apenas uma das muitas linhas narrativas do romance, aquela que se aproxima mais de Ópera dos Mortos: Durante essa fase (não se poderia chamar de lua-de-mel)Christmas a viu percorrer cada avatar de uma mulher apaixonada.”

Christmas quer fugir, como Juca Passarinho, mas um estranho quebranto o retém (como se ela o “corrompesse”, chega a pensar, “como um homem sendo sugado por um pântano sem fundo, eis aí um dos disfarces das voçorocas). E, é claro, ela engravida. Tenta discutir o assunto com Christmas, que fica horrorizado com a possibilidade. Mas não vai embora. Ela se propõe, então, a “salvar” Christmas, a tornar sua vida produtiva e cristã. Ele tenta se manter afastado o maior tempo possível (entretanto, “ela vinha à sua mente tão amiúde que era quase como se a visse lá na casa, paciente, esperando, inevitável, louca”). Além disso, há a presença do sócio/comparsa, Brown, falastrão e tolo (Começou a ter medo , ele que até então sentira apenas desconcerto e, talvez, pressentimento e fatalidade).

O “crime”:

“… viu os braços dela se descruzarem e a mão direita sair de baixo do xale. Ela segurava um velho revólver de ação simples quase tão comprido quanto um pequeno rifle. Mas a sombra da arma e do braço e da mão da mulher na parede não tremia, a sombra monstruosa, o monstruoso percussor armado, curvado para trás e perigosamente suspenso como a cabeça arqueada de uma cobra; não tremia  de jeito nenhum. Os olhos da mulher também não tremiam de jeito nenhum. Imóveis como a mira circular escura da boca da pistola. Mas não havia calor neles, nem fúria. Calmos e parados como toda piedade e todo desespero e toda convicção. Ele não olhava para eles, porém. Olhava a sombra da pistola na parede; estava olhando quando a sombra armada do percussor disparou.”

   Bem, o resto… só lendo o livro todo. Voltemos a Duas Pontes.

“A Cantiga de Rosalina, último capítulo de Ópera dos Mortos, se inicia com a triunfante afirmação do narrador-coro:

“De repente a gente voltava ao sobrado. Atravessávamos finalmente a ponte, o sobrado abria as portas para nós. Era como das outras vezes, quando dona Genú morreu, quando o coronel João Capistrano Honório Cota se foi para sempre. Naquela casa tudo tendia a se repetir.”

O filho de Rosalina com Juca Passarinho nasceu, foi morto por Quiquina, que o deu ao pai para que se livrasse do corpo (e ele o fez, enterrando-o nas voçorocas). Juca se escafede de Duas Pontes, e ninguém ficaria sabendo desses acontecimentos se Rosalina não desandasse a andar pelo cemitério, entoando uma incompreensível cantiga. Pois ela perdeu a virgindade, desonrou a casa e a memória dos mortos, por isso permitiu que a cidade invadisse o sobrado, devassasse a sua intimidade.

Já se aludi nas aulas anteriores ao conceito de imitativo elevado,

“modo da literatura no qual, como na maior parte das epopéias e tragédias, as personagens fundamentais estão acima do nosso plano e autoridade, embora dentro da ordem da natureza e sujeitas à crítica social”.

A entrada do povo de Duas Pontes para ver o que as autoridades decidem sobre o destino de Rosalina (e toda a comédia de poder e de costumes decorrente da caracterização dessas autoridades) ganha um caráter de profanação, no sentido do carnavalesco aventado por Mikhail Bakhtin[19], na sua famosa obra sobre Dostoiévski.

“Agora a gente estava de novo no sobrado, esperando. De uma certa maneira todo mundo ficava de dono da casa…A confusão, a promiscuidade era geral. Já mexiam nos armários, nas panelas, tinha gente que fazia café. Se a coisa demorasse mais, se Seu Emanuel não desse logo a ordem do cortejo, iam acabar limpando a casa, já tinha gente mirando o patecão de ouro.”

É aí que Rosalina faz sua aparição final, teatral ao extremo, meio noiva, meio rainha. E todos se sentindo “como se estivessem numa cerimônia”.

É curioso que nessa “cerimônia” se fale do juiz, do promotor, do delegado, até do coronel Sigismundo, como autoridades locais que são, e não haja nenhuma menção a um padre, como não há, aliás, no livro inteiro. E se há uma figura recorrente nas histórias interioranas (e inclusive em outras histórias de Autran Dourado) é o padre católico. Se ele não aparece nas páginas de Ópera dos Mortos com certeza foi intencional. Era desejo do autor manter o livro no âmbito trágico, da hybris, e a presença mais que natural de um padre (que com certeza visitaria Rosalina, seria seu confessor, mesmo com o isolamento dela com relação ao resto da cidade) teve de ser suprimida para a coerência interna da história e o efeito pretendido, que é sintetizado assim em Uma poética de romance: matéria de carpintaria:

“Pense-se no livro como tragédia, mais do que como romance, e se terá uma melhor leitura”.

Consciente de um realismo mítico, ou simbólico, Dourado utilizou clara e inequivocamente, ainda que da forma literariamente mais moderna possível, o arquétipo de Antígona (“um livro mítico, ritual).

————————

[1] Rosalina é vigiada pelos retratos do pai e do avô. Na casa de Thomas Sutpen, há uma pedra tumular (encomendada por ele e carregada pelos seus soldados durante a guerra) encostada na parede de um corredor (é para o túmulo dele, que ele desejava suntuoso). A srta. Coldfield, que vive ali nos anos de guerra (e até a ultrajante proposta de casamento),  “olhava-a todo dia como se fosse o retrato dele. É mole? Olhar a pedra tumular de alguém como se fosse o retrato da pessoa, acho que é o ponto alto do tipo de pessoa que estamos estudando. Outra coisa que aproxima Rosa e Rosalina: a soberba com relação à cidade. Não que Rosalina passe as mesmas necessidades, já que é rica (ainda que Quiquina venda suas flores de pano e de seda para os habitantes de Duas Pontes), mas o que as aproxima é o distanciamento voluntário. Rosa Coldfield é ultrajada por Thomas Sutpen, vai embora da propriedade dele, e volta para sua casa, arruinada pela guerra, numa cidade empobrecida, esfomeada, na qual ela é uma mulher sozinha, pobre e sem homem que lhe valha. Veja-se sua atitude com seus conterrâneos:

“Eram os mesmos vizinhos que, à noite, deixavam cestas com pratos de comida sobre os degraus, bandejas (os pratos cobertos com guardanapos) que ela nunca lavava, devolvendo-os sujos para as cestas vazias e colocando as cestas de volta no mesmo degrau onde as encontrara. Ela fazia isso, talvez, para apagar completamente a ilusão de ter aceitado a comida, de tê-la tocado, esvaziado os pratos, como se não tivesse saído e apanhado a cesta com um ar sem desafio ou dissimulação, ela que, sem dúvida, experimentava a comida e criticava a qualidade ou ponto do cozimento, mastigava e engolia, sentindo a sua ingestão, mas que ainda se prendia àquela ilusão, àquela tranqüila e incorrigível insistência em fazer de conta que toda aquela evidência não existia, como só as mulheres conseguem; a mesma auto-ilusão que se negou a admitir que nada sobrara da loja, que ele era qualquer coisa, menos completamente pobre.”

Uma atitude similar é a de Rosalina, não querendo tomar conhecimento da evidência da sua gravidez, agindo como se ela não existisse, não estivesse acontecendo.

[2] Ou seja, muito parecido com Thomas Sutpen

[3] Esse avô é o pai de Isaltina, a mãe de João Capistrano, de uma família de Diamantina, com muito prestígio na época do Ouro e no Império, apesar de empobrecidos.

[4] Juca Passarinho é caracterizado como caçador,  um caçador “sem munição”, no início da história.

[5] Aqui já fica insinuado o “dualismo” (ou mesmo multiplicidade) de Rosalina, “um ajuntamento de muitas Rosalinas numa só Rosalina” ; para Juca, “ela nunca parecia ser uma, a mesma pessoa… procurava botar em ordem as idéias, compor com os fiapos que pegava no ar uma só figura de dona Rosalina, uma dona Rosalina impossível de ser, que são similares à construção do sobrado; na verdade, ela é o sobrado.

[6] Ópera dos mortos é uma narrativa onde a repetição é muito importante. Tanto que o livro, a princípio, ia se chamar Relógios de repetição.

[7] Este fez uma afirmação muito bonita (e célebre) sobre seus livros:

“Descobri que o meu pedacinho de terra natal também servia de tema e que eu nunca poderia esperar viver o tempo suficiente para esgotar este assunto. Substituindo a realidade pelo apócrifo teria eu possibilidade de utilizar ao máximo o talento existente. Essa descoberta abriu uma mina de ouro em forma de pessoas e assim criei um cosmo próprio. Posso movimentar essa gente como se fosse Deus, não apenas no espaço, como também no tempo… Gosto de pensar que o mundo que criei é uma pedra fundamental no universo, a qual, embora pequena, causaria o colapso do universo se fosse removida.”

[8] Pai de Francisco Fernandes Coutinho (o trecho acima é de Monte da Alegria)

[9] Ainda um trecho de Monte da Alegria. De Lucas Procópio é a máxima:” Depois do Século do Ouro, nada de bom surgiu nas Minas Gerais.”

[10] Já esse trecho é de Lucas Procópio.

[11] Nesse trecho, que é de Um cavalheiro de antigamente, utiliza-se uma formulação bem parecida com a usada em Ópera dos mortos. Autran Dourado gosta de manter a unidade da sua obra, quer o leitor perceba ou não.

[12] Esse episódio é retomado da seguinte forma em Um cavalheiro de antigamente:

“Foi no Ponto que um dia a gente viu uma coisa espantosa. Quando, ao sair do banco, o coronel Lucas Procópio se deteve para falar com alguém sobre um negócio qualquer, de repente apareceu um preto retinto, gritou Pedro Chaves, e deu um tiro no ombro dele. Mesmo ferido, o coronel sacou o revólver o matou com dois tiros. Quem era, perguntaram. Não sei, um preto qualquer que deve ter me tomado por alguém que não sou, ele falou. O coronel não chegou nem ao menos a ser indiciado, nem inquérito o delegado abriu..”.

E ao longo do livro não há explicação para o episódio. É preciso juntar o quebra-cabeça lendo todos os livros, como muita coisa em Faulkner. EUm cavalheiro de antigamente é sobre João Capistrano. E começa assim:

“A mais recuada e brumosa visão que João Capistrano tinha da sua infância (ele fez tudo para esquecê-la e até certo ponto conseguiu era a de um homem grande, forte e espadaúdo, de sobrancelhas grossas espetadas feito taturana, a barba comprida, as botas sujas de barro, vibrando um chicote no ar, descendo-o sobre sua mãe. Esse homem era seu pai, Lucas Procópio Honório Cota.”

Depois que fica sabendo, ao longo do livro, do adultério da mãe, lemos:

Daquele dia em diante João Capistrano começou, com a paciência com que uma aranha tece a sua teia, a reconstruir o ídolo quebrado, a imagem partida que a mãe e ele fizeram de Lucas Procópio Honório Cota. E todos viam premonição e simbolismo em tudo. Assim foi quando João Capistrano resolveu dar um novo túmulo ao pai, condigno com a sua importância e posição, grande e homem e senhor que a mãe e ele inventaram. Mandou vir de São Paulo dois túmulos e demais complementos em mármore Carrara. Um para o pai, simples, apenas uma cruz e uma lápide com a inscrição “Lucas Procópio Honório Cota, coronel da Guarda Nacional, homem de bem”, seguida da data de nascimento e da sua morte. O segundo era mais difícil de explicar; o de Isaltina Honório Cota: ela ainda estava viva.. Quando lhe perguntaram a razão do segundo, ele disse, seco e perempto, foi pra economizar carreto. Do que todos duvidaram muito. Era um belo túmulo de mármore branco, com um grande anjo de asas abertas. Na lápide ele tinha mandado gravar o nome Isaltina Sales Honório Cota, a data do seu nascimento, deixando para mais tarde o dia da sua morte. Abaixo do nome da mãe e da data de nascimento, em letras graúdas: ANJO DE BONDADE E PUREZA.”

[13] Esse título vem do fato de Lena Grove, a personagem que coloca em movimento a engrenagem do enredo, estar grávida de nove meses e prestes a dar à luz.

[14] É um depoimento que se encontra num livro dedicado a ele, Autran, organizado por Eneida Maria de Souza e publicado pela UFMG em 1996 na Coleção Encontro com Escritores Mineiros.

[15] Como Juca Passarinho chegando a Duas Pontes.

[16] O cara que engravidou Lena, mas que para ela era Lucas Burch.

[17] É bom lembrar que estamos na Lei Seca e é uma atividade ilegal.

[18] Que está para a cidade de Jefferson como Rosalina para Duas Pontes, de certa forma.

[19] No conceito de carnavalização, que representa a base conceitual de alguns livros de Bakhtin, como Problemas da Poética de Dostoiévski ou Rabelais e a Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento, por exemplo, ou mais teoricamente, em Questões de Estética e de Literatura (livros esses altamente recomendáveis), aplica-se ao literário quatro elementos constituintes do carnaval enquanto fenômeno social:

1)  o livre contato familiar entre os homens (ou seja, a provisória queda das barreiras hierárquicas);

2)  a excentricidade;

3)  as combinações;

4)  a profanação

O espaço vira “praça pública” (que é o que acontece, de certa forma, ao sobrado dos Honório Cota)e no qual são esquecidos os afazeres e obrigações cotidianas. Mais tarde, em Novelário de Donga Novais, entre as várias caracterizações da personagem-título (que em Ópera dos Mortos, por nunca dormir, é quem revela aos cidadãos de Duas Pontes, mas primeiro a Seu Emanuel, por questões de hierarquia social, ser Rosalina a aparição no cemitério), lemos que ele é “ao mesmo tempo elefante e dono do circo, comandante da pantomima”. Podemos ser diretores,mas sempre somos participantes do Grande Teatro do Mundo.

12/05/2012

DEFOE-CRUSOE

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(25.08.09)

Estou me ocupando novamente de ROBINSON CRUSOE (ou mais precisamente, A vida e as estranhas e surpreendentes aventuras de Robinson Crusoe), motivado pela estréia da série Crusoe, na quinta-feira, dia 27. Não sei, é claro, o que vai restar do clássico de Daniel Defoe (1660? ou 1659? ou 1661?-1731), publicado em 1719, nessa adaptação modernosa.

A tradução que uso no momento é a de Domingos Demasi, relançada este ano pela Bestbolso (saiu pela Record em 2004). Tenho algumas implicâncias com ela, acho que ela empobrece diversas passagens, mas é só implicância mesmo, já que ela é muito satisfatória para o leitor moderno. É que quando a comparo com as outras que tenho, é a que me deixa mais insatisfeito. Pois finalmente consegui reencontrar, após muitos e muitos anos, a da Companhia Editora Nacional, que foi a que eu li quando mais jovem.

Sempre achei, não sei por que, que ela tinha sido realizada por Monteiro Lobato (a versão dele de fato existe, numa edição da Brasiliense). Na reedição de 2002 (que parece ter mantido a mesma capa da minha pré-adolescência ou é impressão minha, falsa memória?), entretanto, vem o seguinte: “tradução anônima”. Embora tenha persistido na minha cabeça que se trata do verdadeiro Robinson Crusoe brasileiro, há poucos anos tive a oportunidade de ler a maravilhosa tradução (publicada pela antiga editora Jackson) de Flávio Poppe de Figueiredo & Costa Neves. Eu a li em contraposição a uma tradução fraudulenta da Martin Claret de que me ocupei numa resenha. E pouco tempo depois adquiri a charmosa edição da Iluminuras, traduzida por Celso M. Paciornik, cheia de soluções brilhantes, porém com uma estranha e arbitrária divisão em capítulos.

Devo dizer que essa última releitura que fiz, motivado pelas pilantragens editoriais da Martin Claret, me deixou um saldo de antipatia pelo romance que é considerado fundador da moderna narrativa burguesa (e cujo protagonista virou uma figura arquetípica, maior que o livro ao qual pertence), pelos animais que ele mata por diversão e sobretudo pelo cabritinho a quem ele quebra uma perna para domesticá-lo (também tem o episódio dos gatos: Robinson salva duas gatas do navio, e uma delas some e depois aparece prenha; nascem três filhotes e o número de gatos começa a se multiplicar: ‘passei a ser importunado por tantos gatos que fui forçado a matá-os como uma praga…”). O que foi suficiente para jogar um balde de água fria na minha paixão juvenil pelas aventuras do mais famoso dos náufragos.

Agora a balança está mais equilibrada. Não é possível ler esses clássicos sem aceitar a mentalidade do homem da época. Como tive de fazer esse exercício recentemente, com O cavaleiro de Sainte-Hermine, de Alexandre Dumas, ficou mais fácil aceitar o flagelo ecológico e ambiental, o ser predatório que é Robinson Crusoe (na nossa visão anacrônica e retrospectiva). Ele, na verdade, é o homem ocidental, para o bem e para o mal.

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26.08.09 –

ROBINSON CRUSOE debate muito a questão da Providência. Robinson sente-se azarado, perseguido pelas pragas moralistas do pai, no entanto não aprofunda muito o sentido religioso ou providencial do seu destino. Na ilha, essa indiferença ou superficialidade se mantém por certo tempo. Há um trecho significativo a respeito. Ele precisava, para algum uso importante, de uma saca do navio encalhado e destroçado (no qual ele fez várias excursões para retirar aquilo de que precisasse, pois Crusoe não é um náufrago totalmente desvalido, muito pelo contrário), e como os grãos que ali estavam foram comidos ou conspurcados pelos ratos durante a travessia malograda, ele joga tudo fora na parte de fora da habitação que vai construindo na ilha. Pouco tempo depois, vê alguns talos brotando do chão. E depois espigas:

“É impossível expressar a surpresa e a confusão dos meus pensamentos, na ocasião. Até então eu vinha agindo sem qualquer princípio religioso; aliás, em minha cabeça havia muito pouca noção religiosa, nem eu nutria algum senso sobre o que acontecia comigo, além do acaso,ou como dizemos frivolamente, da vontade de Deus; como também não questionava as intenções da Providência Divina nem os desígnios Dele em governar os destinos do mundo. Depois, porém, de ver a cevada crescer ali, num clima que sabia não ser apropriado para cereais, e, principalmente, por não saber como aquilo fora parar ali, essa coisa me abalou de um modo tão estranho que passei a considerar que Deus, miraculosamente, fizera a cevada crescer sem qualquer ajuda de semeadura, e que aquilo fora enviado apenas para o meu sustento naquele lugar agreste e miserável. Isso me comoveu um pouco, levando-me lágrimas aos olhos, e passei a me bendizer por aquele prodígio da natureza ter ocorrido em meu benefício; e foi mais estranho ainda, pois vi ali perto, ainda ao longo da encosta do rochedo, outros talos dispersos, que verifiquei depois serem hastes de arroz, que eu conhecia, porque tinha visto essa planta crescer na África, quando estive por lá.

Não apenas achei que isso fosse pura obra da Providência Divina para o meu sustento, como não duvidei de que mais daquilo por ali, e percorri a parte da ilha onde já estivera antes, vasculhando cada canto e debaixo de cada pedra, para ver se encontrava mais; porém, nada encontrei; finalmente ocorreu-me que havia sacudido o saco de ração…naquele local, e o espanto começou a cessar; e devo confessar que a minha religiosa gratidão à providência de Deus também foi minguando, ao descobrir que tudo aquilo não passou de algo normal, embora me sentisse grato por um acontecimento tão estranho e imprevisível, quase como um milagre, pois, para mim, fora realmente obra da Providência Divina, que ordenara que dez ou doze grãos do saco não sofressem dano … como se tivessem caído do céu; e também que eu os tivesse jogado fora justamente naquele lugar, onde, por ficarem à sombra de um alto rochedo, brotaram imediatamente, ao passo que, se na ocasião eu os tivesse jogado em qualquer outro lugar, os grãos teriam ressecado e sido destruídos”.

Mais adiante, no entanto, após tornar sua “fortaleza da solidão” um lar burguês, ordenado, após ter criado uma “rotina de trabalho”, Robinson cai muito doente. O resultado é uma preocupação com a salvação que transcende o âmbito da situação em que se encontra e remete a um exame de consciência com relação à sua vida “pecaminosa” de antes (não temos os detalhes do que consistia exatamente essa vida de que ele tantos se recrimina). Assim, ele começa a estudar a Bíblia (também resgatada do navio encalhado):”Passei a interpretar as palavras já mencionadas, Invoca-me e eu te salvarei, de um modo diferente do que havia feito antes, porquanto, naquela ocasião, não fazia idéia do que significava salvação, a não ser o desejo de ser salvo do cativeiro em que me encontrava, pois embora estivesse livre, naquele lugar, a ilha, para mim, não passava de uma prisão, e no pior sentido da palavra; mas, agora, aprendera a concebê-la em outro sentido. Olhei para trás, para o meu passado, com tal horror, e os meus pecados pareceram tão medonhos que a minha alma não pedia nada mais a Deus a não ser a libertação do fardo de culpa que me privava de todo o consolo; quanto à minha vida solitária, nada significava; nem mesmo rezava para me livrar dela ou sequer pensava nela, nem era objeto de reflexão, se comparada a isso. E acrescento isto aqui, como uma indicação às pessoas que o lerem, pois, quando atingirem o verdadeiro sentido da vida, descobrirão que a remissão de um pecado é uma bênção bem maior do que a libertação de uma aflição”.

 

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28.o8.09

“a tinta começou a escassear. e contentei-me em usá-la moderadamente, e anotar apenas os eventos mais notáveis de minha vida, sem continuar a fazer um relato diário dos demais acontecimentos…”

“… embora não queira importunar o leitor com um relato pormenorizado dos meus trabalhos nesse ano… devo observar que, de um modo geral, raramente ficava ocioso; ao contrário, dividia regularmente o meu tempo de acordo com as várias tarefas diárias que se apresentavam… em primeiro lugar, a minha obrigação com Deus e a leitura das Escrituras, para a qual separava um tempo três vezes ao dia; em segundo, a saída com a espingarda à procura de alimento, o que,quando não chovia, geralmente me tomava três horas de todas as manhãs; em terceiro, arrumar, preparar, conservar e cozinhar o que havia abatido ou capturado… isso me tomava grande parte do dia; deve-se também levar em consideração que, na metade do dia, quando o sol estava no zênite, a intensidade do calor era grande demais para sair; portanto, cerca de quatro horas da tarde era todo o tempo de que dispnha para trabalhar… A esse curto de período de tempo disponível para o trabalho, é bom que se acrescente o excessivo esforço exigido por cada tarefa; eu gastava muitas horas, por causa da falta de ferramentas, de ajuda e de habilidade, e tudo o que eu fazia tomava muito do meu tempo.”

Algumas observações sobre ROBINSON CRUSOE:

1) Quando era garoto, achei chatíssimas as descrições detalhadas da maneira como Robinso “aburguesa” a sua existência de náufrago, com suas casas em diversos pontos da ilha, a descrição de cada profissão imemorial (oleiro, padeiro, carpinteiro, etc), cujo percurso ele teve de retraçar para se cercar de conforto. Pois agora acho fascinante esse aspecto de materialidade que constitui boa parte da narrativa, em detrimento da aventura. A genialidade de Defoe está na configuração dessa mentalidade ordeira e burguesa, que necessita de casa, cercadinhos, artefatos, etc, para, mais do que sobreviver, se sentir dono e proprietário da natureza: “Desci um pouco pelo lado desse vale magnífico, inspecionando-o com um prazer secreto (embora misturado a pensamentos aflitivos), ao imaginar que tudo aquilo era meu, que era rei e senhor incontestável daquela terra, com direito de posse, e, se conseguisse legitimar a propriedade, poderia transmiti-la por herança, do mesmo modo que qualquer lorde uma herdade inglesa”.

2) A essa materialidade toda (que está na base do romance realista orientado para a verossimilhança, do qual Defoe é o pai fundador) vem se chocar um aspecto oposto, porém complementar, uma aura de insubstancialidade, de fantasmagoria, pois é o medo que move Robinson, medo do que é invisível (animais selvagens, seres humanos selvagens, corsários), do que é remoto, do que é improvável, e por isso sua engenhosidade e todas as profissões que recapitula são para a proteção, para a salvaguarda, orientadas pelo medo tanto quanto pelo fator utilitário… Além disso, temos os repetidos “exames de consciência” diante do Senhor e da Providência Divina, que mostram como realmente o homem é um animal simbólico. A condenação do passado ímpio, o arrependimento, o estudo da bíblia, o tipo de vida “regrada” e moral que Robinson se propõe é um feito simbólico tanto quanto material. Basta lembrar de como ele acha impossível andar nu fora da sua habitação, mesmo com o calor que faz e o tipo de vida que leva, e após tantos anos sozinho.

E vejam como Robinson trapaceia com a providência:“Mencionei antes que tinha grande desejo de conhecer toda a ilha, e que segui enseada acima até onde construí o meu caramanchão e onde havia uma passagem para o mar do outro lado da ilha. Resolvi, portanto, atravessá-la e ir até a praia daquele lado… Depois de passar o vale onde ficava o meu caramanchão, avistei o mar, a oeste, e como o dia estava muito claro, enxerguei terra nitidamente ao longe, mas se era uma ilha ou continente, não consegui identificar; era, porém, muito elevada e estendia-se a grande distância… o meu palpite era de que não podia estar a menos de 48 ou 64 milhas. Não sabia dizer que parte do mundo era aquela, a não ser que devia ser parte da América, e, como concluí por todas as minhas observações, devia estar próxima do domínio espanhol, talvez habitada por selvagens, onde, se eu lá tivesse ido parar, estaria em pior condição do que me encontrava agora; conformei-me, portanto, com os desígnios da Providência Divina, passando a admitir e acreditar que fazia o que era melhor”. Nem por isso, ele vai deixar de investir anos na confecção de barcos, mesmo “conformando-se” com tais desígnios. E não sendo bem sucedido com um barco mais elaborado que o levaria a alto-mar, ele confecciona um barco que lhe permite dar a volta à sua própria ilha…

Ainda no quesito “construção de barco” há um trecho sensacionalmente revelador: comentando a construção do seu primeiro barco (que se mostrou impossível de transportar até o mar), ele diz: “Trabalhei nesse bote tão ingenuamente como nenhum homem minimamente ajuizado teria feito. O projetar agradou-me tanto, sem que eu tivesse idéia se seria capaz de realizá-lo; não que a dificuldade de lançar a canoa no mar não me tenha passado pela cabeça, mas suspendi as minhas próprias indagações por causa desta estúpida resposta que dei a mim mesmo: Vamos primeiro fazer a canoa, e garanto que, de um modo ou de outro, darei um jeito de prosseguir com isso, quando ela estiver pronta.

Foi o método mais absurdo de se fazer algo, mas a ânsia da minha fantasia prevaleceu, e segui com o trabalho. Derrubei um cedro, e duvido muito de que Salomão tenha tido um igual para a construção de seu templo em Jerusalém… Não foi sem um infinito esforço que derrubei essa árvore; levei vinte dias cortando sua base… mais quatorze retirando galhos e ramos e a imensa e volumosa copa… custou-me mais um mês para lhe dar forma e dimensão… mais três meses para escavar a parte de dentro do tronco… até conseguir uma bela piroga… Fiquei extremamente feliz ao terminar o trabalho… Podem estar certo de que me custou uma labuta fatigante; nada mais restava a não ser levá-lo para a água, e se tivesse conseguido, não tenho dúvida de que iniciaria a viagem mais louca e a mais improvável jamais empreendida”

Por esses dois pontos, o fazer material e o guiar por uma insubstancialidade que no entanto é uma realidade simbólica é que vemos como Robinson sempre aparece como figura complementar a outro fundador do romance como entendemos, Dom Quixote, tanto na visão de Marthe Robert (Origens do romance, romance das origens) quanto na de Ian Watt (Mitos do individualismo moderno). Quixote e Robinson têm em comum, inclusive, como resultado dos seus destinos, a aparência estúridia e carnavalesca. Veja-se a auto-descrição de Robinson: “…se um outro inglês tivesse encontrado o homem que eu era na ocasião, morreria de medo, ou morreria de tanto rir; pois eu mesmo às vezes parava para me olhar, e não podia deixar de rir ao me imaginar passeando por Yorkshire com aquelas roupas e aqueles objetos. Divirtam-se com a seguinte descrição da minha aparência: Eu usava um chapelão, alto e disforme, feito de pele de cabra, com uma aba pendente na parte de trás para me proteger do sol… vestia também um casaco curto de pele de cabra, com as fraldas chegando até o meio das coxas, e um par de calções abertos nos joelhos… não possuía meias ou sapatos, mas eu havia feito um par de coisas, que mal sei do que chamar, parecidas com coturnos… eu usava um cinturaão de couro cru de cabras… em vez de espada e adaga, pendiam um serrote e uma machadinha. Eu tinha outro cinturão… que ia pendurado no ombro… Certa vez eu deixara a barba crescer até chegar ao cumprimento de quase vinte centímetros… agora eu a cortava rente, exceto o que crescia acima do lábio superior, que eu aparara e transformara em um comprido bigode maometano… não diria que o bigode era comprido o bastante para nele pendurar o meu chapéu, mas era monstruosamente longo e espesso, e alguém como um inglês morreria de medo ao vê-lo.”robinson_crusoe

3) Também é um capítulo à parte o texto enquanto performance de um narrador. Do aspecto material (a necessidade de economizar tinta, e por isso ter que se limitar aos aspectos mais relevantes, e escolher é narrar de fato) ao aspecto insubstancial e simbólico (criar suspense com certas antecipações, exortar moralmente, deter-se nos aspectos interessantes e surpreendentes), tudo configura uma consciência narrativa muito presente, uma teoria dentro da prática.

4) E como o romance é legível, como não cria dificuldades para qualquer leitor moderno medianamente informado.

5) Quanto a série “Crusoe”, que lástima, que ilha cenográfica, que luxo de cenário improvável para um náufrago. Que bobagem moderninha.

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defoe

record

01.09.09

“Mas a minha vida tomaria outro rumo, e talvez não seja inoportuno, para os que vão ler esta história, fazer uma simples observação, qual seja: quão frequentemente, no curso de nossas vidas, o mal que mais procuramos evitar, e o mais terrível de todos que poderiam se abater sobre nós, é repetidamente a única saída ou porta por meio da qual conseguimos emerigir da aflição em que estivemos mergulhados”.

ROBINSON CRUSOE tem todo aquele miolo (dos trabalhos e dos dias, ou seja, todo o esforço empreendedor de Robinson para ter lar, sustento e proteção na ilha) que pode desanimar o leitor que deseja aventura e ações (e que foi, entretanto, o aspecto que mais me chamou a atenção nessa releitura), e fazer com que ele desista do livro, só que sua etapa final, após o surgimento de Sexta-Feira é notavelmente movimentada e folhetinesca: começa com a famosíssima descoberta de uma pegada solitária, que infunde terrores em Robinson, de que sua ilha é menos deserta do que pensava. Ele descobre então que vários locais da ilha são usados para cerimônias de canibalismo. Após examinar os vestígios que os canibais deixam (eles vêm em canoas daquela porção de terra que nosso heroi supõe ser um continente, domínio dos espanhóis), acomete-o uma fúria homicida, querendo na proxima vez dar cabo de todos aqueles que praticam tais horrores. Mas o exame de consciência que se segue, de que ele não pode se arrogar um juiz, é todo muito interessante, principalmente pelo contraditório movimento da mente de Crusoe, debatendo-se com a “Providência Divina, em sua grande ordenação do mundo”: “que autoridade ou direito tinha eu para fazer as vezes de juiz e carrasco desses homens, tachando-os de criminosos?…Quanto essas pessoas me ofenderam, e que direito tinha eu de me envolver em suas promísculas disputas sangrentas?… portanto não se justificaria eu atacá-los. Isso apenas legitimaria a conduta dos espanhóis, em todas as atrocidades que cometeram na América, onde aniquilaram milhões dessas pessoas, as quais, mesmo sendo idólatras e selvagens, com vários rituais sangrentos e bárbaros em seus costumes, como o sacrifício de corpos humanos a seus ídolos, ainda assim, em relação aos espanhóis, eram completamente inocentes; e esse extermínio é comentado com enorme repulsa e abominação pelos próprios espanhóis de hoje em dia e por todas as demais nações cristãs da Europa, tido como uma mera carnificina, um desumano e sanguinário ato de crueldade, injustificável perante Deus ou o homem; de tal modo que o simples nome de um espanhol é presumido como medonho e terrível para todas as pessoas de humanidade ou de piedade cristã.”

A pegada e as descobertas subsequentes fazem com que ele viva em apreensão, veja-se por exemplo: “durante dois anos depois do ocorrido, creio que não disparei a espingarda uma só vez, apesar de nunca sair com ela”, com medo de fazer barulho e chamar atenção sobre sua presença na ilha. Essa obsessão com a possibilidade de ser capturado e ser canibalizado, se reflete até no seu trabalho: “creio firmemente que, se não tivesse havido a intervenção daqueles fatos, ou seja, o temor e o pavor aos selvagens, eu teria empreendido essa tarefa, e talvez a tivesse levado a cabo, pois raramente desistia de uma coisa sem tê-la exectuado, desde que estivesse suficientemente clara em minha cabeça para dar-lhe inicio.” Em outro trecho: “Minha pertrubação mental, durante esse intervalo de quinze ou dezesseis meses, era muito grande; dormia intranquilo, tinha sempre sonhos medonhos e costumava acordar no meio da noite, sobressaltado”.

Um outro navio encalha perto da ilha, mas da tripulação nenhum sinal (salvou-se indo para o possível continente em botes? pereceu? Crusoe vasculha o navio e só encontra cadáveres e um cachorro, e depois o corpo de um grumete vem dar à praia). Fantasiando esses náufragos, ele fica cada vez mais resolvido a aventurar-se naquelas terras distantes, não obstante os perigos inevitáveis.: “a minha malfadada mente, que sempre me deixava claro que nasci para desgraçar o meu corpo, passou esses dois anos inteiros repleta de projetose tramando um modo, se possível, de me tirar daquela ilha (…) sou um bom exemplo para aqueles que sofrem de um mal característico dos homens, ormeio do qual se dão quase todas as suas desgraças; eu me refiro àqueles que não se satisfazem com o lugar em que Deus e a natureza os colocaram; não refletir sobre a minha situação inicial e os excelentes conselhos do meu pai, e opor-me a isso foi, por assim dizer, o meu pecado original” (quer dizer,o pecado original do empreendedorismo burguês).

Robinson tem um sonho premonitário, no qual salva um selvagem dos rituais canibalescos,este lhe é grato eternamente, tornando-se seu criado fiel e um companheiro na solidão da ilha (depois ele multiplica, na sua fantasia, o número de selvagens que lhe devem a vida e lhe prestam vassalagem). E o sonho se concretiza: ele salva Sexta-Feira, o qual, após 20 e tantos anos na ilha se torna sua primeira companhia humana, “sujeitomuito vistoso, membros fortes, alto, bem-proporcionado, e, segundo avaliei, com cerca de 26 anos [Robinson já é um cinquentão a essa altura] de idade. Tinha a fisionomia bastante agradável e não parecia feroz ou rude, apesar de o rosto ter uma aparência viril, mesmo assim apresentava toda a doçura e suavidade de um europeu [ops], principalmente quando sorria… e os olhos reluzentes de grande vivacidade e inteligência. A cor da pele não era exatamente preta, mas castanho-amarelada, porém sem o feio e desagradável tom amarelado do bronze, como a dos nativos do Brasil e da Virgínia e outros da América; mas de uma especie reluzente de um oliva pardacento, que possuía algo de agradável, porem não muito fácil de se descrever.”

Os colóquios sobre Deus e a salvação cristã entre ambos estao entre os melhores momentos do livro (“com suas sérias indagações e questinamentos, tornou-me um conhecedor mais profundo das Escrituras do que teria sido por minha simples leitura particular”), só que em termos de folhetim o que mais interessa é que Sexta-Feira revela que os náufragos daquele outro navio (em número de 16) estão vivendo com o seu povo, o que torna Crusoe ainda mais determinado a se aventurar no continente. Contudo, antes que isso se efetive, ele tem a oportunidade de salvar um dos espanhóis náufragos, que é trazido à ilha para ser devorado. Há uma escaramuça, Robinson e Sexta-Feira acabam libertando não só o europeu como também o pai do comapnheiro de Crusoe, que também fora capturado: “Minha ilha agora estava povoada. Eu me via repleto de súditos e frequentemente fazia esta feliz reflexão: como eu era parecido com um rei. Antes de mais nada, toda a terra era de minha única propriedade, portanto tinha o indiscutível direito de autoridade soberana. Em segundo lugar, a população era totalmente subjugada: eu era senhor e legislador absoluto; todos deviam a vida a mim e estaam dispostos a abrir mão dela em meu benefício, se fosse necessário. Igualmente notavel era o fato de eu ter três súditos de três religiões diferentes. Meu criado Sexta-Feira era protestante, seu pai era pagão e canibal, e o espanhol, papista; contudo eu permitia a liberdade de pensamento em meus domínios.” Não preciso fazer nenhum comentário sobre esta incrível passagem.

Robinson então resolve trazer os outros espanhóis para sua ilha, preparando antes provisões suficientes para não haver penúria ou fome. Manda o espanhol e o pai de Sexta-Feira levar uma proposta: se eles estiverem dispostos a obedecê-lo, ele os proverá e assim construirão um navio e todos ficarão livres, desde que o levem não para as inquisitorias terras espanholas e sim para nações menos ameaçadoras para um protestante.

Na ausência dos dois, surge um inesperado novo navio…

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02.09,09

“tudo o que acontecera parecia ser uma sucessão de milagres…acontecimentos assim ram provas de que havia a mão secreta da Providência Diina governando o mundo…”

“Que ninguém despreze as secretas indicações e os avisos de perigo que às vezes recebemos, imaginano que não haja possibilidade de serem verdadeiros. Acredito que poucos observadores possam negar que tais indicações e avisos nos sejam dados; não podemos duvidar de que são, certamente, revelações de um mundo invisível, uma inegável conversa de espíritos e se sua intenção parece ser a de nos alertar de um perigo, por que não supor que se trata de agentes amistosos, sejam eles supremos, inferiores ou subordinados? Isso não importa, já que pretendem o nosso bem”.

Resta saber, a respeito de um trecho como o citado acima, se essa preocupação dos “agentes amistosos” se estende á humanidade em geral ou apenas ao empreendedor inglês.

Na reta final, Robinson deixa de lado os espanhóis e o pai de Sexta-Feira e após salvar o capitão do navio inglês que apareceu na ilha (páginas muito movimentadas), deixa um grupo de amotinados na ilha (após lhes explicar os mecanismos de sobrevivência que pôs a funcionar durante 28 anos) e parte com Sexta-Feira.

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Devo dizer que em todas essas páginas senti um tom tão esquisito que beirava a auto-paródia, embora não seja o caso, um tom que lembra Cervantes ao mostrar os ridículos do seu personagem, ou das comédias de Shakespeare. A pose de Robinson de “governador da ilha” (“após algum tempo, apareci, vestido coma minha roupa nova e sendo chamado novamente de governador“), Sua Excelência, sem contar generalíssimo movimentando suas tropas contra os amotinados, é mais para ser acompanhada de forma jocosa e cômica do que a sério. Ou será que foi o tempo que trouxe esse tom ao relato?: “avancei imediatamente com todo o meu exército, agora composto de oito homens: eu mesmo, o generalíssimo, Sexta-Feira, o meu lugar-tenente, o capitão e seus dois companheiros e os três prisioneiros de guerra, a quem foram confiadas armas”.

A despedida da ilha (ele voltará anos depois para reivindicá-la como propriedade sua e organizar seu povoamento): “Ao deixar a ilha, levei no navio, como lembrança, o grande chapéu de cabra que fizera, o guarda-sol e o papagaio; também não me esqueci do dinheiro mencionado anteriormente, que, por permanecer longo tempo comigo sem qualquer utilidade, ficara enferrujado ou embaçado…. E assim, deixei a ilha no dia 19 de dezembro, como vim a saber pelo registro do navio, do ano de 1686, depois de ter estado nela 28 anos, dois meses e 19 dias… Ao fim de uma longa viagem de navio, cheguei à Inglaterra nodia 11 de junho do ano de 1687, depois de 325 anos ausente”.

O resto do relato, pelo menos nessa edição da Bestbolso a qual venho comentando (há discrepãncias em todas as edições consultadas) é muito antipático, porém revelador: Robinson se preocupa com sua situação financeira, vai a Lisboa para saber em que pé andam seus bens e sua propriedade no Brasil, e entramos em pormenores delirantes a respeito de todas essas questões comerciais. O traço mais interessante dessas negociações é o desejo perene de voltar a se estabelecer no Brasil freado por escrúpulos religiosos, pela má vontade de viver (e principalmente morrer como papista): “Mas outros escrúpulos, os de motivação religiosa, se colocavam em meu caminho, pois alimentava dúvidas sobre a religião católica romana,mesmo quando estava no exterior e, principalmente, na minha temporada de solidão; portanto, sabia que não adiantaria voltar ao Brasil, muito menos me estabelecer por lá, a não ser que resolvesse abraçar sem qualquer reserva a religião católica romana; ou, por outro lado, resolvesse me sacrificar pelos meus princípios, tornar-me um mártir religioso e morrer na Inquisição; por isso decidi ficar em casa…”

O que há exatamente de antipático nessa parte final do relato? O que me incomoda é a falta de sabedoria de Robinson. Ele,que viveu tanto tempo solitário e extraiu do seu trabalho a sua sobrevivência, fica muito à vontade como “grande senhor”, não ha nunca um momento de dúvida, de auto-questionamento. A viagem que ele relata, por terra (ficou cismado com as viagens marítimas, que ele só vai retomar anos depois, com um sobrinho), de Lisboa até Calais (onde atravessaria o canal da Mancha) esfumaça os 28 anos de experiência da solidão, do despojamento e do desnudamento psicológico (isso sou eu que estou afirmando, eu, indivíduo do século XXI, que pouco tenho a ver com essa mentalidade pragmática e utilitarista do século XVII, embora eu tenha a suspeita de que Robinson seria muito bem compreendido em nossa época de consumo e percepção descartável):“Como estava predisposto contra uma viagem por mar, exceto entre Calais e Dover, decidi fazer toda a viagem por terra, já que seria muito mais agradável, pois não tinha pressa e não me importava com o custo… no todo, éramos seis, e mais cincocriados… consegui um marinheiro inglês para vijar como meu criado, além de Sexta-Feira,que era inexperiente demais para pder suprir o posto de um criado em uma viagem por terra. Dessa maneira, parti de Lisboa e, como nosso grupo estava muito bem preparado e guarnecido, formávamos um pequeno exército, do qual fizeram a honra de chamar de capitão, já que era o mais velho e tinha dois criados além de ter motivado aquela viagem”. Nem quero entrar em detalhes sobre a grotesca brincadeira de um apalhaçado Sexta-Feira, para divertir os europeus, atormentando e matando um urso. O que fica evidente no final de ROBINSON CRUSOE não é mais a engenhosidade humana, suas misérias e grandezas, físicas e simbólicas, numa situação-limite, e sim o perfil do homem do imperialismo inglês movimentando-se pelo mundo com toda sua empáfia e mentalidade utilitarista e predatória. Isso não diminui em nada o escopo do romance de Defoe, uma das releituras mais proveitosas e interessantes que já fiz, mas que dá o que pensar, isso dá.

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