MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

12/11/2013

A taça de chá-maelstrom: uma homenagem ao centenário de “No caminho de Swann”

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de novembro de 2013)

Novembro de 1913 proporcionou uma fascinante intersecção entre os dois maiores autores da língua francesa do século: no dia 7 nascia Albert Camus e na semana seguinte, Marcel Proust (1871-1922) publicava No Caminho de Swann [Du Côté de Chez Swann], volume inicial de Em Busca do Tempo Perdido [À la recherche du temps perdu], um dos livros fundamentais de todos os tempos[1]. Recentemente, a Globo completou sua aparatosa reedição, iniciada em 2006, do romance (com o lançamento de O Tempo Redescoberto), a qual ganhou o título um tanto pretensioso de Proust Definitivo! Tiveram até o desplante de colocar um resumo do texto! O que será que um verdadeiro leitor faria com ele?!! Borboleteios editoriais à parte, a tradução de Mário Quintana[2] permanece monumental.

No caminho de Swann é dividido em três partes. Na primeira, Combray, o narrador nos conta a agonia de esperar, quando pequeno, o beijo de boa-noite da mãe. Além de ser um dos maiores exercícios psicológicos já realizados por qualquer escritor, esse entrecho serve de mote para as relações amorosas da obra como um todo: mesmo que ela venha afinal dar o beijo (apesar dos compromissos sociais) o desamparo da carência absoluta nunca será preenchido. O título desse primeiro volume justifica-se pelas estadias de Marcel na provinciana Combray, com suas tias (personagens inesquecíveis—Proust rivaliza nesse sentido com Balzac): ali, há dois lados para se passear, o lado Guermantes (representantes do que há de mais chique na aristocracia francesa, e cujo mundo Marcel frequentará mais tarde), e  o lado Swann, amigo da família (de quem as visitas foram em parte a razão do tormento do menino porque impediam que a mãe fosse lhe dar o ansiado boa-noite). É nessa parte que aparece o famosíssimo bolo de madalena molhado em chá, cujo sabor traz a memória involuntária de todo o “tempo perdido”: “(…) comme dans ce jeu où les Japonais s´amusent à tremper dans un bol de porcelaine rempli d´eau, de petits morceaux de papier jusque-là indistincts qui, à peine y sont-ils plongés s´étirant, se contournent, se colorent, se différencient, deviennent des fleurs, des maisons, des personnages consistants et reconnaissables (…) tout Combray et ses environs, tout cela qui prend forme et solidité, est sorti, ville et jardins, de ma tasse de thé”.  Ou ainda: “(…) quand d´um passé ancien rien ne subsiste, après la mort des êtres, après la destruction des choses, seules, plus frèles mais plus vivaces, plus immatérielles, plus persistantes, plus fidèles, l ´odeur et la saveur restent encore longtemps, comme des ames, à se rappeler, à attendre, à esperer, sur la ruine de tout le reste, à Porter sans fléchir, sur leur gouttelete presque impalpable, l´édifice immense du souvenir”.[3]

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O amor torturado e humilhante do refinado Swann (o fato de ele ser judeu terá peso no avançar do romance) pela, digamos recatadamente, “acompanhante” de luxo Odette ocupará a 2ª. parte (Un amour de Swann, às vezes publicada em separado, como fez aqui no Brasil a L&PM[4]– foi também adaptado à parte para o cinema, de forma aliás incrivelmente medíocre, por Volker Schlöndorff, num desperdício de possibilidades, e de elenco, deplorável) e será como que uma engenhosa miniatura dos sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, nos levando a um passeio pelo inferno (e pelos mecanismos) do ciúme, da desconfiança,  ensinando-nos como as paixões nunca são isentas dos signos sociais (classe, cultura, o papel atribuído ao homem etc). Odette se tornará a sra. Swann—e seu salão terá papel-chave no segundo volume, À sombra das moças em flor (o qual, publicado em 1919, foi aquele que chamou a atenção para a genialidade de Proust, pois Swann foi ignorado), ganhando respeitabilidade. Isso não impedirá a conclusão amaríssima de seu apaixonado:   “E dizer que eu estraguei anos inteiros de minha vida, que desejei a morte, que tive o meu maior amor, por uma mulher que não me agradava, que não era meu tipo!”.

A terceira parte, Nomes de terras: o nome[5], prepara os eventos dos próximos volumes (principalmente o primeiro amor de Marcel, a filha de Swann e Odette, Gilberte, uma das moças em flor tão pouco convincentes), que Proust foi reescrevendo até sua morte, em 1922 e cuja publicação final se estendeu a 1927.

Viver acaba sendo, no fundo, apenas uma longa preparação para o livro que ele escreverá, e no qual controlará todos os detalhes: a  paisagem, os lugares, as pessoas, fazendo com que tudo se atrele a um microcosmo que parece ter tanta vida quanto a nossa realidade. Se, desde criança,  não pôde controlar nem o beijo diário de boa-noite da mãe, na sua obra ele vai fazer com que tudo retorne—como literatura—confinado na sua vertiginosa taça de chá.

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TRECHO SELECIONADO:

Escolhi um trecho da 2ª parte, Um amor de Swann

No original, lemos:

Quand sa maîtresse du moment était au contraire une personne mondaine ou du moins une personne qu´une extraction trop humble ou une situation trop irrégulière n´empêchait pas qu´il fît recevoir dans le monde, alors pour elle il y retournait, mais seulement dans l´orbite particulier où elle se mouvait ou bien où il l´avait entrainée. “Inutile de compter sur Swann ce soit”, disait-on, “vous savez bien que c´est le jour d´Opéra de son Américaine”. Il la faisait inviter dans le salons particulièrement fermés où il avait ses habitudes, ses dîners hebdomadaires, son poker; chaque soir, après qu´un léger crépelage ajouté à la brosse de ses cheveux roux avait tempéré de quelque douceur la vivacité de ses yeux verts, il choisissait une fleur pour sa boutonnière et partait pour retrouver sa maîtresse à dîner chez l´une ou l´autre des femmes de sa coterie; et alors, pensant à l´admiration et à l´amitié que les gens à la mode pour qui il faisait la pluie et le beau temps et qu´il allait retrouver là, lui prodigueraient devant la femme qu´il aimait, il retrouvait du charme à cette vie mondaine sur laquelle il s´était blasé, mais don’t la matière, pénétrée et colorée chaudement d´une flame insinuée qui s´y jouait, lui semblait précieuse et belle depuis qu´il y avait incorporé un nouvel amour.

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Na versão de Mário Quintana:

Quando sua amante do momento era pelo contrário uma pessoa da sociedade ou pelo menos uma pessoa cuja origem muito humilde ou cuja situação muito irregular não impedia que ele a fizesse receber em sociedade, então, por ela, Swann voltava àquele ambiente, mas apenas dentro da órbita particular onde ela se movia ou aonde ele a tinha levado. “Inútil contar com Swann esta noite”, diziam, “bem sabem que é o dia de Ópera da sua americana”. Fazia com que a convidassem para salões particularmente fechados onde ele tinha seus hábitos, suas ceias hebdomadárias, seu pôquer; todas as noites, depois que uma leve ondulação aplicada a sua basta cabeleira ruiva temperava de alguma brandura a vivacidade de seus olhos verdes, ele escolhia uma flor para sua botoeira e ia encontrar-se com a amante à mesa de algumas das mulheres de seu círculo; e então, pensando nas provas de admiração e amizade que as pessoas da moda ali presentes, e para as quais ele era o árbitro, lhe prodigalizariam diante da mulher a quem amava, ainda encontrava encanto naquela vida mundana de que se enfadara, mas cuja substância, penetrada e ardentemente colorida por essa luz que nela brincava, parecia preciosa e bela depois que lhe incorporava um novo amor.

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Na tradução de Fernando Py:

Quando, ao contrário, sua amante do momento era uma pessoa da sociedade, ou pelo menos alguém cuja origem muito humilde ou cuja situação bastante irregular não a impedia que fosse recebida em sociedade, então, por causa dela, Swann voltava àquele meio, mas apenas na órbita particular em que ela transitava ou então aonde ele a levara. “Inútil contar com Swann esta noite”, diziam, “sabem muito bem que é o dia de Ópera da sua americana”. Dava um jeito para que a convidassem para salões especialmente fechados e onde ele tinha seus hábitos, seus jantares semanais, o seu pôquer; todas as noites, depois que uma leve ondulação aplicada aos cabelos ruivos havia matizado de alguma doçura a vivacidade de seus olhos verdes, Swann escolhia uma flor para a botoeira e saía para se encontrar com a amante na mesa de alguma das mulheres do seu gripo; e então, pensando na admiração e na amizade que as pessoas da moda, para quem ele era a palavra suprema, lhe devotariam diante da mulher que amava, ainda encontrava charme naquela vida mundana da qual se entediara, mas cuja substância, impregnada e calidamente colorida por uma chama insinuante que nela brincava, lhe parecia bela e preciosa desde que a ela incorporara um novo amor.

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Na versão de Celina Portocarrero:

Quando sua amante do momento, ao contrário, pertencia à sociedade ou era ao menos alguém cuja família humilde ou posição demasiado irregular não impedia que ele pudesse fazer receber pela sociedade, então por ela ele voltava, mas somente na órbita particular onde ela circulava ou na qual ele a havia introduzido. “É inútil esperar por Swann esta noite”, diziam, “sabemos todos que é o dia de ópera com sua americana”. Ele a fazia ser convidada em salões especialmente fechados nos quais tinha seus hábitos, seus jantares semanais, seu pôquer; todas as noites, depois que uma leve ondulação aplicada a seus cabelos vermelhos temperara com alguma doçura a vivacidade de seus olhos verdes, ele escolhia uma flor para a lapela e saía para encontrar sua amante jantando em casa de uma ou outra amiga de seu círculo; então, pensando na admiração e na amizade que as pessoas da moda que lá iria encontrar, para as quais ele era o ar que respiravam, iriam prodigalizar-lhe diante da mulher que amava, reencontrava encanto naquela vida mundana da qual se havia enfastiado, mas cuja matéria, penetrada e calidamente colorida por uma chama insinuada que ali brincava, parecia-lhe  preciosa e bela desde que se lhe incorporara um novo amor.

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[1] A intersecção fica mais interessante ainda quando nos damos conta que se trata de dois estilos exemplarmente antípodas: o de Camus, clássico, mais para eloquente, muito “mot juste”; o de Proust, com suas longas frases, seu cacho de analogias e símiles.

[2] Essa versão de Quintana já teve duas outras edições (com inúmeras reimpressões) pela própria Globo, e também fez parte da coleção Obras-Primas da Abril Cultural (foi nessa edição que o li pela primeira vez). Há também a tradução de Fernando Py, nos anos 1990, para a Ediouro.

[3] Na versão publicada em A TRIBUNA, me vali da tradução de Quintana para os dois trechos:

“… como nesse divertimento japonês de mergulhar numa bacia de porcelana cheia d´água pedacinhos de papel, até então indistintos e que, depois de molhados, se estiram , se delineiam, se cobrem, se diferenciam, tornam-se flores, casas, personagens consistentes e reconhecíveis(…) toda Combray e seus arredores, tudo isso que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, de minha taça de chá“.

“…quando mais nada subsiste de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis, porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando sobre a ruína de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação”.

[4] A tradução ficou a cargo de  Celina Portocarrero.

[5] Na versão de Fernando Py, Nome de lugares: o nome

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pleiade

30/01/2013

ORGULHO E PRECONCEITO 200 anos: Traduções Brasileiras

austen

Com a comemoração dos duzentos anos da publicação original de ORGULHO E PRECONCEITO (Pride and Prejudice), de Jane Austen (1775-1817), o leitor comum pode sentir a necessidade de indicações quanto às mais confiáveis entre as numerosas traduções brasileiras desse romance genial. Editoras nunca muito cortejadas pela mídia, uma delas injustamente (a L&PM); a outra, só agora dando mostras de sair do atoleiro de descrédito abissal, contudo lucrativo, em que se afundara (a Martin Claret), apresentam boas traduções, que ombreiam com a tradução paradigmática (e ainda muito útil, a meu ver) de Lúcio Cardoso, a qual desde 1940 vem sendo incessantemente republicada. Não sei nem o que dizer da versão publicada pela Landmark, tão abaixo do nível de uma Jane Austen ou de qualquer autor clássico ela me parece.

Entre as mais recentes, a mais badalada—inclusive pelo aparato que a acompanha—foi certamente a publicada pela Penguin/Companhia. No entanto, houve incríveis falhas sobretudo de revisão, e ela resultou desleixada e discutível. Logo nas primeiras páginas há um erro incrível: são atribuídas QUATRO filhas ao casal Bennet (na verdade, são cinco, e no original lemos: “When a woman has five grown-up daughters…”; traduziu-se assim: “Uma mulher com quatro filhas adultas…”; não seriam “cinco filhas [já] crescidas”?); logo a seguir este trecho incompreensivelmente truncado: “Lizzy não é em nada melhor que as outras; e garanto que sua beleza não chega nem à metade da beleza de Lydia.” (no original: “Lizzy is not a bit better than the others; and I am sure she is not half so handsome as Jane, nor half so good-humoured as Lydia.”). Portanto, acautele-se leitor com relação a essa versão.

Nota- Para maiores informações sobre traduções de Jane Austen, aconselho a leitura de:

http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/2010/01/orgulho-e-preconceito-da-best-seller.html

http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/2010/01/orgulho-e-preconceito-da-lpm.html

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Escolhi um trecho do capítulo 42 para cotejar as cinco traduções de que disponho:

Primeiramente o original:

“Had Elizabeth´s opinion been all drawn from her own family, she could not have formed a very pleasing picture of conjugal felicity or domestic comfort. Her father captivated by youth and beauty, and that appearance of good humour, which youth and beauty generally give, had married a woman whose weak understanding and illiberal mind, have very early in their marriage put an end to all real affection for her. Respect, esteem, and confidence, had vanished for ever; and all his views of domestic happiness were overthrown. But Mr. Bennet was not of a disposition to seek comfort for the disappointment which his own imprudence had brought on, in any of those pleasures which too often console the unfortunate for their folly or their vice. He was fond of the country and of books; and from these tastes had arisen his principal enjoyments. To his wife he was very little otherwise indebted, than as her ignorance and folly had contributed to his amusement (…)

    Elizabeth, however, had never been blind to the impropriety of her father´s behavior as a husband. She had always seen it with pain; but respecting his abilities, and grateful for his affectionate treatment of herself, she endeavoured to forget what she could not overlook, and to banish from her thoughts that continual breach of conjugal obligation and decorum which, in exposing his wife to the contempt of her own children, was so highly reprehensible.”

(extraído de The complete novels of Jane Austen, The Wordsworth Library Collection)

pride and prejudice

“Se as opiniões de Elizabeth se originassem do exemplo dado por sua própria família, sua ideia de felicidade conjugal e de conforto doméstico não poderia ser das mais lisonjeiras. Seu pai, cativado pela mocidade, beleza e aparência de bom humor que a juventude em geral confere às mulheres, casara-se com uma pessoa de compreensão limitada e de ideias estreitas; pouco depois do casamento, esses defeitos haviam extinto toda a afeição sincera que tinha por ela. O respeito, a estima, a confiança, tinham-se desvanecido para sempre. E todos os seus anseios de felicidade doméstica foram destruídos. Mas o senhor Bennet não era desses homens que procuram se consolar das desilusões causadas por suas próprias imprevidências entregando-se a esses prazeres em que os infelizes procuram uma compensação para suas loucuras e vícios. Ele gostava do campo e dos livros, suas principais distrações. Quanto à sua mulher, pouco mais lhe devia do que os divertimentos que o espetáculo de sua ignorância e sua falta de sensibilidade lhe tinham proporcionado (…)

   Elizabeth, no entanto, nunca fora cega aos defeitos de seu pai como marido. Aquilo sempre lhe doera, mas, admirando suas qualidades e grata pela maneira afetuosa com que a tratava, esforçava-se por esquecer o que não podia deixar de  perceber e bania dos seus pensamentos essas contínuas irregularidades de conduta conjugal, que, expondo sua mãe aos desprezo das próprias filhas, era portanto altamente repreensível.”

(tradução de Lúcio Cardoso, utilizada em diversas edições, ao longo das décadas)

orgulho e preconceito abril 1orgulho e preconceito abril 2

“Se a opinião de Elizabeth fosse formada a partir de sua própria família, ela não teria estabelecido uma opinião muito favorável sobre a felicidade conjugal ou o conforto doméstico. Seu pai, cativado pela juventude e pela beleza, e por aquela aparência de bom-humor que a juventude e a beleza geralmente dão, tinha se casado com uma mulher cuja fraca compreensão e mente nada liberal tivesse [sic] colocado um termo, logo no começo do casamento, a toda real afeição por ela. O respeito, a estima e a confiança teriam se esvaído para sempre; e todas as opiniões dele sobre a felicidade no lar seriam reviradas. Mas o Sr. Bennet não tinha o temperamento de buscar conforto, pelo desapontamento que sua própria imprudência tinha causado, em nenhum desses prazeres que muito comumente consolam os desafortunados pela sua fantasia ou pelo seu vício. Ele era apaixonado pelo campo e pelos livros; e desses gostos, se erguiam suas principais diversões. Por outro lado, ele devia muito pouco à sua esposa, do que a ignorância e os desatinos tinham contribuído para seu deleite (…)

    Elizabeth, porém, nunca fora cega à impropriedade do comportamento de seu pai como marido. Ela sempre o vira com dor; mas respeitando suas habilidades e grata pelo tratamento afetuoso que recebia, ela tentava se esquecer do que não conseguia passar despercebido e banir de seus pensamentos aquela contínua quebra de obrigação conjugal e decoro que, ao expor sua esposa ao desprezo de suas próprias crianças, era tão altamente repreensível.”

(tradução editado pela Landmark e realizada por Marcella Furtado que—entre tantas soluções horrendas—parece titubear nos tempos verbais, basta ver o trecho sublinhado)

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“Fossem todas as opiniões de Elizabeth formadas a partir de sua própria família, sua ideia de felicidade conjugal ou conforto doméstico não seria das mais agradáveis. O pai, cativado pela juventude, pela beleza e por aquela aparência de bom-humor que em geral acompanha a juventude e a beleza, casara-se com uma mulher cuja pouca inteligência e espírito intolerante em pouco tempo destruíram todo o afeto que sentira por ela. Respeito, estima e confiança desapareceram para sempre, e toda esperança de felicidade doméstica foi abandonada. Mas o sr. Bennet não tinha propensão para buscar conforto para o desapontamento causado por sua própria imprudência em nenhum daqueles prazeres que tantas vezes consolam os desafortunados por sua loucura ou devassidão. Ele gostava do campo e de livros; e dessas preferências brotaram suas maiores alegrias. À esposa, ao contrário, pouco devia, além da diversão provocada pela ignorância e pela loucura (…)

    Elizabeth, entretanto, nunca fora cega à impropriedade do comportamento do pai enquanto marido. Sempre sofreu com isso, mas, respeitando suas qualidades e grata pelo afetuoso tratamento que ele lhe dispensava, tentava esquecer o que não podia deixar de perceber e afastar do pensamento a contínua transgressão das obrigações conjugais e a falta de decoro que, por expor a mulher ao desprezo de suas próprias filhas, era tão altamente condenável.”

(Tradução editada pela L&PM, e realizada com Celina Portocarrero, que nada fica a dever à tradicional e vetusta versão de Lúcio Cardoso)

L&PM

“Se a opinião de Elizabeth se baseasse apenas em sua própria família, não poderia ter feito um julgamento muito favorável da felicidade conjugal ou da paz doméstica. Seu pai, cativado pela juventude e pela beleza e por aquela aparência de bom humor que a juventude e a beleza geralmente provocam, casara-se com uma mulher cuja pouca inteligência e generosidade mental haviam, desde muito cedo no casamento, posto um ponto final em todo real afeto por ela. Respeito, estima e confiança haviam desaparecido para sempre; e todos os seus projetos de felicidade doméstica foram arruinados. Não era da natureza do sr. Bennet, porém, procurar reconforto para a decepção que sua própria imprudência produzira em algum desses prazeres que muitas vezes consolam o infeliz por sua insensatez ou seu vício. Adorava o campo e os livros; e desses gostos vinham suas principais alegrias. Sua dívida para com a mulher era muito pequena, a não ser pela diversão que o espetáculo de sua ignorância e insensatez lhe proporcionava (…)

   Elizabeth, porém, nunca foi cega à impropriedade do comportamento do pai como marido. Sempre a encarava com pesar; mas, respeitando a capacidade dele e grata ao tratamento carinhoso que ele lhe dispensava, tentava esquecer o que não podia superar, e expulsar de seus pensamentos essa violação das obrigações e do decoro conjugais, que, ao expor a mulher ao desdém das próprias filhas, era tão repreensível.”

(Editada pela Martin Claret—num volume onde estão também Razão e Sensibilidade  & Persuasão—e realizada por Roberto Leal Ferreira, também num trabalho de qualidade)

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Se as opiniões de Elizabeth fossem sempre as mesmas de sua família, ela não teria criado um quadro muito agradável  da felicidade conjugal ou dos confortos do lar. Seu pai, cativo da juventude e da beleza, e daquela aparência de bom humor que a juventude e a beleza costumam conferir, casara-se com uma mulher de parcas luzes e mentalidade tacanha, e logo no início do casamento abdicara de qualquer afeto genuíno por ela. Respeito, estima e confiança haviam sumido para sempre; e todas as suas aspirações à felicidade doméstica foram abolidas. Mas o senhor Bennet não parecia disposto a procurar consolo para uma frustração que sua própria imprudência acarretara em nenhum daqueles prazeres que tantas vezes consolam os desafortunados em sua loucura ou seu vício. Ele gostava do campo e de livros; e desses dois prazeres extraía o principal de seus deleites. À esposa, ele era grato simplesmente na medida em que sua ignorância e suas tolices ajudavam a distraí-lo (…)

    Elizabeth, contudo, jamais fora cega às impropriedades do comportamento do pai como marido. Sempre lamentara tal atitude; mas, respeitando suas qualidades e grata pelo tratamento afetuoso que lhe dedicava particularmente, ela procurava esquecer  o que não conseguiria relevar e bania de seus pensamentos a contínua falha dos deveres e do decoro conjugal que, expondo a esposa ao desprezo das próprias filhas, era nele altamente repreensível.”

(Co-editada pela Penguin-Companhia, essa tradução de Alexandre Barbosa de Souza é altamente irregular, como se pode ver pelo início infeliz do trecho, e muito literal por vezes, apresentando no entanto boas soluções aqui e ali)

AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2010/07/30/minha-amiga-elizabeth/

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09/10/2011

SE O SAL SE TORNAR INSÍPIDO… (Gide e o romance modernista)


“Nada é mais difícil de observar do que os seres em formação. Seria preciso observá-los apenas de viés, de perfil”. (Diário de  Édouard, em OS MOEDEIROS FALSOS)


       É preciso levar em conta o conceito clássico de pederastia (e não homoerotismo como se tem hoje em dia) para se entender boa parte da obra de André Gide, e especialmente sua realização mais ambiciosa, OS MOEDEIROS FALSOS, de 1925 -26 (não sei por que insistem em manter a troca de termos do titulo: por que não Os falsos moedeiros para Les faux-monnayeurs?), o único livro seu que considerava de fato um romance, e no qual ele procurou se alinhar à corrente mais ousada da ficção modernista (nessa década, foram publicados os romances póstumos e inacabados de Kafka, como O processo e O castelo; os derradeiros volumes de Em busca do tempo perdido, de Proust; Ulisses, de Joyce; A montanha mágica, de Mann; alguns dos maiores romances de Virginia Woolf, como Mrs. Dalloway e Ao farol; O lobo da estepe, de Hesse, e por aí vai…).


      A pederastia, apagando ardilosamente os traços de relação sexual, se investe de uma aura de educação sentimental: um jovem é atraído para a esfera de um homem mais velho para realizar mais plenamente suas potencialidades e seu destino. No livro de Gide temos dois adolescentes, Bernard Profitendieu (o qual se descobre bastardo logo no inicio do romance, radicalizando assim sua opção pela disponibilidade, outra palavra-chave no universo gideano) e Olivier, que são atraídos para a órbita de dois escritores, Édouard e Robert de Passavant. Estes últimos representam uma polarização quase maniqueísta: Édouard seria o pederasta benéfico, capaz de fazer um efebo dar (sem trocadilho) o melhor de si, e que conquista para a sua órbita primeiro Bernard (que depois pende mais para o lado heterossexual) e depois Olivier, na verdade o seu grande amor; já Robert de Passavant seria o pederasta mefistotélico, deletério, capaz de envolver Olivier numa teia de enganos e desvios, até que, após uma tentativa de suicídio, o jovem se purgue dessa experiência negativa e esteja pronto para embarcar num relacionamento com o tio (pois Édouard é meio-irmão de sua mãe), depois de vários desencontros (e artifícios romanescos, pois Gide brinca com a fabricação da sua trama)[1].



     Esse aspecto da educação sentimental dos jovens tem ainda a sub-trama dos falsos moedeiros  e a sub-trama dos membros da família Vedel  (na caracterização da qual entram elementos de má fé e auto-engano que logo depois reapareceriam nas obras de Sartre e Simone de Beauvoir, fiéis admiradores de Gide) que mantém um pensionato para jovens estudantes,  pelo qual passaram Édouard e o sobrinho, e no qual está Georges, o amoral e cínico irmão caçula de Olivier, o qual se envolve primeiramente num escândalo onde adolescentes estão ligados a uma rede de prostituição, freqüentando uma casa de encontros, e depois se associam a um falsificador (que é também um terrorista intelectual) que os orienta a “passar” moedas a comerciantes incautos (para realçar o lado charlatenesco, inclusive como literato, de Robert de Passavant, o aliciador e corruptor de jovens é seu amigo e colaborador,  Strouvilhou, cujo nome pela sonoridade lembra os personagens niilistas de Dostoievski como a turma de Os demônios; alias, justo por essa época, Gide, que admirava o autor russo, escreveu muito sobre ele).



     Portanto, a pederastia (que pode ser uma ligação perigosa, no sentido Passavant, convertendo-se numa “ilusão perdida”, ou uma educação sentimental e positiva, no sentido Édouard) e a disponibilidade  ( já trabalhada no engenhoso Os subterrâneos do Vaticano, de 1914), que representa a predisposição para enfrentar uma tradição burguesa hipócrita e esclerosada (embora não no sentido criminoso, como a turma de Georges, e sim mais no sentido “positivo”, ainda que incerto, de Bernard, como vemos no trecho seguinte: “Dentro de um instante, diz a si mesmo, irei de encontro ao meu destino. Que bela palavra: aventura!”).


         Gide admira a “pureza” das soluções artísticas do classicismo francês, especialmente Racine. De fato, a palavra pureza percorre todos os níveis do livro, inclusive os relacionamentos pessoais: é  por ser “impuro” eticamente que se reprova o caso de Olivier com Passavant, e não pela conotação sexual da história (daí a altamente improvável cena em que a mãe de Olivier, em diálogo com Édouard, aprova e dá carta-branca ao relacionamento do filho com o meio-irmão, por ser uma ligação “nobre”, que vai purificar o filho das tentações ruins e dos maus instintos). Por isso, Gide fez a experiência de um romance puro, totalmente artificial, fechado em si mesmo e cujo andamento da trama seria ditado pela própria forma, além de conter seu próprio comentário devido á feição metalingüística (o aspecto pelo qual o romance ficou mais famoso, sendo considerado uma obra paradigmática nesse sentido), já que acompanhando a trama (e talvez circunscrevendo-a) há um Diário de Édouard, no qual ele comenta a escritura de um romance chamado Os moedeiros falsos; não contente com isso, Gide publicou ainda, em 1927, um  Diário dos Moedeiros falsos, em que mostra os bastidores e a carpintaria do seu romance).:


“Purgar o romance de todos os elementos que não pertencem especificamente ao romance. Nada se obtém de bom pela mistura. Sempre tive horror daquilo a que se chamou a ´síntese das artes´, que devia, segundo Wagner, se realizar no teatro (…) A tragédia e a comédia, no século XVII, chegaram a uma grande pureza (a pureza, em arte como por toda parte, é isso que importa) –e, aliás, mais ou menos, todos os gêneros, grandes ou pequenos, fábulas, caracteres, máximas, sermões, memórias, cartas. A poesia lírica, puramente lírica – e o romance não? (não; não aumente excessivamente A princesa de Clèves; é principalmente uma maravilha de tato e de gosto…).


      E esse puro romance, ninguém  o produziu, tampouco mais tarde; não, nem mesmo o admirável Stendhal que, de todos os romancistas, é talvez o que mais se aproxima disso. Mas é notável que Balzac, ainda que talvez  o maior de nossos romancistas, seja seguramente o que mesclou ao romance e nele anexou, e nele amalgamou o maior número de elementos heterogêneos, e propriamente inassimiláveis pelo romance, de modo que a massa de um de seus livros permanece ao mesmo tempo uma das coisas mais possantes, mas também das mais turvas, mais imperfeitas e carregada de escórias, de toda nossa literatura”  (Diário dos Moedeiros falsos)[2]


      Talvez eu esteja equivocado e seja vítima de modismos (entre os quais, a superstição de acreditar que o vocabulário envelhece), mas creio que os conceitos com os quais Gide, ainda um homem do século XIX opera, tais como pureza e virtude, desfiguram as análises psicológicas e falseiam principalmente suas personagens femininas (aliás, creio que Gide simplesmente não entendia de mulher, e não apenas no sentido imediato que se pensaria).  Para ele, a mulher que se sacrifica, que se anula, é o supremo modelo de heroína, a mais admirável. Esse é um dos aspectos em que sua obra mais se mostra envelhecida.


      Por outro lado, há uma anotação do Diário dos Moedeiros falsos que me incomoda também: “O que falta a cada um de meus heróis, que talhei em minha própria carne, é aquele pouco de bom senso que me impede de levar tão longe quanto eles as suas loucuras…” Mas: a que loucuras chegam os heróis de OS MOEDEIROS FALSOS? O gesto inicial de Bernard (o qual continua sendo o personagem mais interessante do livro, passadas tantas décadas, junto com o irmão de Olivier, Georges) parece bem radical e transgressor, porém tudo se resolve de modo muito fácil para ele (que logo encontra um protetor em Édouard, e por isso o lastro rimbaudiano nunca é cumprido de forma cabal); o suicídio de Boris, engendrado pelos falsos moedeiros adolescentes, é dramático, decerto, contudo é um lance exigido pela narrativa (além de ser baseado em eventos reais); a tentativa de Olivier é pífia e diz muito do estofo dos heróis gideanos. Pode-se dizer, de um modo geral, que as aventuras são irrisórias. Isso não tira os méritos do livro, mas torna difícil acreditar que a ele, no romance, só interessa o épico (“por que me dissimular isso: o que me tenta é o gênero épico. Só o tom da epopéia me convém e pode satisfazer-me, pode tirar o romance de seu ramerrão realista”[3]). Pois ninguém é menos épico que monsieur Gide.


      No entanto, um dos elementos que não envelheceram no romance é a questão da sinceridade, tal como veiculada pelo Diário de Édouard, que já se inicia com um posicionamento à Fernando Pessoa: “Nada mais diferente de mim do que eu mesmo (…) Se me volto para mim, deixo de compreender o significado da palavra sinceridade. Nunca sou senão aquilo que acredito ser, e isso varia sem cessar, de modo que, frequentemente, se eu não estivesse aqui para aproximá-los,meu ser da manhã não reconheceria o da tarde (…) nunca me sinto viver com mais intensidade do que quando escapo de mim mesmo para me tornar qualquer um”. Mais do que a pureza, a virtude e a disponibilidade, o moderno em Gide é essa noção da descontinuidade do ser,  da agonia em fixá-lo numa forma, e portanto, a tentação que se oferece para o artista de se deixar levar por essa descontinuidade, rumo… a quê?




[1] Diga-se de passagem que é engenhosíssima a maneira de narrar (sem contar o fato de que o que o leitor lê é o que Bernard está lendo, pois se apropriou do Diário) os primeiros encontros com Georges e Olivier. Sem conhecer os sobrinhos, Édouard já conhece Georges numa atitude escusa e ambígua, que será a sua tônica na trama e preparará o clímax (o suicídio de Boris0 e ao mesmo tempo já deixa clara a preferência sexual de Édouard, que se torna manifesta na sua reação a Olivier (pois Laura é a mulher a ser amada  numa atitude de devoçãoe não de outra forma; vamos ser francos: que mulher é realmente amada no sentido de atração sexual em Gide?)


[2] Note-se que Gide se desvincula, desse modo, de uma tendência dominante e crescente, do romantismo (senão em Cervantes mesmo) ao pós-modernismo: a mistura, a heterogeneidade enciclopédica, que fizeram do gênero a mais vital entre as formas literárias pós-clássicas. Ele ratifica essas observações no Diário de Édouard: “Despojar o romance de todos os elementos que não pertencem especificamente ao romance (…) Os acontecimentos exteriores, os acidentes, os traumatismos, pertencem ao cinema; convém ao romance deixá-los para ele. Mesmo a descrição das personagens não me parece pertencer propriamente ao gênero. Sim, realmente, não me parece que o romance PURO (e em arte, como por toda parte, só a PUREZA me importa) tenha de ocupar-me com isso (..) O romancista, em geral, não dá crédito suficiente à imaginação do leitor” (OS MOEDEIROS FALSOS). Dentro da linha de raciocínio de Gide, que não me parece muito acertada,  talvez os romances mais “puros” já escritos sejam os admiráveis As asas da pomba, 1902, e A taça de ouro, 1904, de Henry James, que são o mais próximo das tragédias racinianas que a modernidade pôde produzir. Será que Gide os conhecia? Agora: tirando o feitio muito peculiar, e inimitável, de James, como se pode purgar o romance de todos os elementos que não pertencem especificamente ao romance? Que elementos pertencem especificamente ao romance? É a essa discussão que Gide se furta, e da qual faz  Édouard se furtar em seu diário, no romance.


[3] Acho mais pertinente a seguinte observação de Édouard: “A tragédia moral –que, por exemplo, torna tão formidável a frase evangélica: Se o sal se tornar insípido, com que se há de restaurar-lhe o sabor? –É essa tragédia que me importa.”


ANEXO:


    Já tinha lido há muitos anos o romance de André Gide, na tradução de Celina Portocarero (que saiu pela Francisco Alves, pelo Círculo do Livro e pela Abril Cultural). Nos últimos tempos, tanto o romance quanto o seu complemento-espelho saíram pela Estação Liberdade, em tradução de Mário Laranjeira. Abaixo vai a minha resenha da nova versão, em “A Tribuna”:


UM MARCO NA HISTÓRIA DO ROMANCE


     Uma das características marcantes do Alto Modernismo foi a metalinguagem, a reflexão, dentro da própria criação, do fazer artístico.  Uma das obras-primas no que se refere a essa vertente ganhou nova tradução: Os moedeiros falsos, um romance tão imitado que atualmente fica difícil discernir o que contém de transgressor e inovador.


     André Gide conta uma história e também apresenta o diário de um dos personagens, Édouard, refletindo a respeito do romance  escreve com o mesmo título. Não contente, ele desdobrou ainda mais seu texto, lançando um Diário dos Moedeiros falsos, onde escancara os bastidores da sua criação.


    Esse foi decerto o aspecto que mais chamou atenção à época, pois era um momento de vanguarda, de transformação (Ulisses, de Joyce,  A Montanha Mágica, de Mann, os livros de Proust, Kafka, Virginia Woolf..).


     Há um ingrediente que isola Gide de todos os seus parceiros revolucionários: enquanto boa parte deles procurava fundir elementos heterogêneos para a criação de um romance “total”, enciclopédico, o grande escritor francês foi em direção contrária: admirador das formas artísticas do século XVII, especialmente as tragédias de Racine, quis criar um romance “puro” (muitos consideraram artificial e estilizado demais), em que a lógica da narrativa fecha-se sobre si mesma, correspondendo apenas aos entrechoques dos personagens e ao andamento da trama, sem compromissos com qualquer realismo chão.


    Dois escritores rivais, na faixa dos 30 anos, Édouard e  Robert de Passavant, se apaixonam pelo filho da meia-irmã do primeiro,  Olivier, que é muito ligado a outro efebo, Bernard Profitendieu, o qual se descobre bastardo e abandona a família.


     Bernard é o representante de uma linha cara à obra gideana, o ser “disponível” a todas as experiências, que se recusa a se moldar numa forma. Por uma série de incidentes rocambolescos, acaba se tornando “secretário” de Édouard, o que desperta o ciúme de Olivier, que,em razão disso, é facilmente seduzido e corrompido pelo pérfido e cínico Passavant. Boa parte dos meandros da trama de se baseia nos desencontros entre Édouard e Olivier.


     O título, por sua vez, se refere tanto ao charlatanismo na arte, representado por Passavant, quanto a adolescentes (aliciados por um assecla de Passavant, Strouvilhou) que  fazem circular moedas falsas no comércio, entre eles o irmão mais novo de Olivier, Georges, pirralho completamente desajustado, já envolvido anteriormente numa confusão em que moçoilos de “boa família” estavam envolvidos com uma rede de prostituição.


     As tramas se entrecruzam graças à ligação da maior parte dos personagens com um pensionato para estudantes, pelo qual passaram Édouard, Olivier, e no qual Georges estuda nesse momento. Em meio a uma aula, instigado pelos falsos moedeiros, e vítima de um sorteio, um dos alunos estourará os miolos com uma pistola…


     Pois, como deixa bem claro Os moedeiros falsos, na forma e no conteúdo, a transgressão não só pode ser instigada pela necessidade de romper convenções falsas e sufocantes, mas também pelo “demônio”, assuma ele a aparência que for. E sempre tem seu preço.


(resenha publicada em 27 de abril de 2010)


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