MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

08/01/2012

Leitura em espelho: “Swann”, de Carol Shields, e “Os crimes do acordeom”, de Annie Proulx

 

resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de abril de 1999)

Nos últimos anos, duas autoras ganharam prestígio mantendo um pé nos EUA e outro no Canadá: E. Annie Proulx e Carol Shields. Tanto The shipping news (traduzido como Chegadas e partidas), de Proulx, quanto Os diários de pedra, de Shields, obtiveram o Pulitzer e o National Book Award, com protagonistas cujas vidas oscilavam entre os dois países.

Na minha opinião, é visível a superioridade literária de Os diários de pedra com relação à Chegadas e partidas, e, de um modo geral, de Carol Shields como escritora com relação à E. Annie Proulx. O leitor brasileiro pode confirmar o talento da primeira agora que a Record lança um romance anterior, SWANN (1987, em tradução de Luiz Antônio Aguiar & Marisa Sobral), que conta a história de pessoas interessadas na obra da obscura Mary Swann. Rústica, pobre e oprimida pelo marido numa pequena povoação canadense, ela produziu—apesar dessas condições adversas—uma centena de poemas.

No dia da sua morte (é assassinada e esquartejada pelo marido), ela entrega seus poemas para Frederic Cruzzi, dono de uma modesta editora. Impressionados pela sua originalidade e qualidade, Cruzzi e a esposa publicam um livro, A canção de Swann, numa edição limitada. Anos depois, enquanto está escrevendo uma tese enfocando o “prisma feminino” (seja lá o que for isso), Sarah Malonwy descobre A canção de Swann e o divulga para o mundo acadêmico.

Logo, Mary Swann se torna uma pequena celebridade para os entendidos, objeto de culto, alvo de artigos, interpretações, inclusive de um simpósio (que será o ponto de convergência de todos os personagens em SWANN). Como não podia deixar de ser, Morton Jimroy, afamado biógrafo, começa a escrever sobre a sua vida.

Há outras variações recentes quanto ao tema: a investigação sobre a vida e a obra de uma artista pouco conhecida afetando existencialmente quem investiga. É o caso de A verdade sobre Lorin Jones, de Alison Lurie, ou do maravilhoso Homens e anjos, de Mary Gordon, ou ainda da mais recente obra-prima de Doris Lessing, Amor, de novo. Além disso, SWANN tem de enfrentar a comparação, dentro da obra de Carol Shields, com um romance tão especial e marcante quanto Os diários de pedra.

Mesmo assim, é daqueles livros que vão envolvendo cada vez mais o leitor. Construído através de focos narrativos diferentes, com capítulos voltados para cada um dos personagens interessados em Mary Swann, os quais se preparam para participar do simpósio dedicado à autora assassinada, desemboca numa espécie de capítulo-roteiro cinematográfico, onde ao mesmo tempo são contados e comentados os estranhos (e muitas vezes divertidos) acontecimentos do simpósio.

Sim, estranhos. Porque, de uma forma ou de outra, tudo o que se refere a Mary Swann (fotos, um caderno, até mesmo os exemplares dos seus poemas e o que as pessoas escrevem sobre ela) acaba por desaparecer. Nada sobrenatural, ainda que essa possibilidade paire ambiguamente no ar durante certo tempo. Sabemos quem é o responsável, no final. Não se preocupe, leitor, sua identidade não será revelada neste artigo (só posso adiantar que é um dos achados mais felizes de SWANN).

Esse “mistério” em torno da passagem de Mary Swann pela Terra é o trampolim para uma áspera, corrosiva mesma, sátira ao desejo dos acadêmicos e dos biógrafos de tornar-se proprietários de um autor, de cravá-lo na coleção de borboletas que é o mundinho acadêmico , de etiquetá-lo, esclarecê-lo, transformá-lo m moeda de troca no mercado intelectual. Essa avidez evidencia-se mais patética ainda quando a narrativa vai nos mostrando as vicissitudes biográficas dos próprios “investigadores” e como são vistas e deturpadas pelos demais, e como eles próprios se deturpam em seus debates interiores (nesse ponto, o capítulo sobre a bibliotecária Rose é uma pequena obra-prima). Desde os livros de Simone de Beauvoir, como A convidada, Os mandarins & As belas imagens, não tínhamos uma descrição tão arguta dos encontros e desencontros de personagens como as imagens que estabelecem de si para os outros e para eles mesmos.

E há a ironia máxima da fábula: enquanto os participantes do evento angustiam-se com o roubo ou a perda de documentos importantes, o que ocasionaria terríveis “lacunas” na interpretação definitiva da obra de Mary Swann, Frederic Cruzzi (uá um anicão de oitenta anos) guarda um segredo que faria ruir toda a torre de babel erigida em torno da malfadada poeta rural: quando ela entregou os poemas a ele, devido a um acidente doméstico, eles ficaram molhados, com algumas palavras ilegíveis. Ao transcrevê-los para a sua edição pioneira, Cruzzi & eposa “chutaram” palavras e trechos (ou seja, já fizeram uma intervenção interpretativa). Dessa forma, não há nenhum terreno seguro para discutir a verdade sobre os textos de Swann, se ela era um gênio comprometido com a arte moderna, ou se, por razões desconhecidas, intuiu na solidão e desolação da sua vida imagens que a aproximaram da poesia contemporânea.

SWANN, portanto, flerta como romance de mistério e suspense enquanto ironiza o universo crítico-ensaístico-biográfico, mostrando que nunca se poderá conhecer de fato e por completo uma vida ou mesmo uma obra, e, ao mesmo tempo, ironia das ironias, nos faz penetrar no mundo de cada personagem como se conhecêssemos cada um deles a vida toda. Contradição que ilumina o livro e faz dele .

Em tempo: não deixe de conhecer Os diários de pedra, leitor,é uma das leituras “obrigatórias” desta década.

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 13 de abril de 1999)

Pois é, leitor, os críticos às vezes pagam a língua, como se diz por aí. Uma semana depois de ter questionado os dotes literários de E. Annie Proulx, venho penitenciar-me, pois acabo de ler um romance empolgante, que ela publicou em 1996: Os crimes do acordeom (Accordion crimes, numa tradução esplêndida de José J. Veiga para a Bertrand Brasil).

São oito capítulos com os mais diversos tipos de imigrantes (ou seus descendentes) nos EUA: italianos, alemães, mexicanos, franceses (via Canadá), negros, poloneses, irlandeses e noruegueses, ao longo do último século. A presença do acordeom verde do título unifica os capítulos. Feito por um siciliano, que o leva para a América ao partir com o filho, passa pelas mãos dos mais variados grupos étnicos e dá azar a todos eles (há até um basco que aparece no capítulo dos irlandeses e que é mordido por uma cobra que se escondia dentro do acordeom).

O maior crime do acordeom verde, no entanto, é marcá-los como “os de fora”, mostrar que apesar de seus esforços e de suas bravatas de que “construíram a América”, que o país foi feito “com o seu suor”, e apesar de seu racismo ou preconceito contra outras etnias e nacionalidades, eles jamais abandonam sua condição de alienígenas numa sociedade que se mostra ao fim e ao cabo muito pouco democrática. É o caso dos alemães que fundam uma cidade (no segundo capítulo, um ponto alto de Os crimes do acordeom junto com o capítulo dos poloneses) e que são vistos como suspeitos quando estoura a guerra.

Tudo isso parece meio batido e E. Annie Proulx poderia ter soçobrado num best seller panorâmico e superficial, como há tantos, ao mostrar várias histórias e diversas etnias, amarradas por um motivo tão tênue. Aconteceu o oposto: ao mergulhar em tantas mentalidades (e é bom ressaltar que ela jamais cai na condescendência pitoresca, muito pelo contrário), em tantos preconceitos, em tantas tradições deturpadas e aculturadas, ela mostrou enfim todos os seus recursos como escritora, como contadora de histórias, como criadora de tipos.

E não são poucos esses recursos, já que não há um único capítulo frouxo, discutível ou amorfo nas quatrocentas páginas de Os crimes do acordeom, embora eu tenha de apontar algumas escorregadas no mau gosto, algumas colocações infelizes e, principalmente, o horroroso prefácio com agradecimentos que torturam o leitor quase tanto quanto o discurso de Gwyneth Paltrow na entrega do Oscar: só faltou agradecer ao cachorro do vizinho, aos pássaros por voarem, ao sol por brilhar e ao mundo por existir…

Curiosamente, Proulx foi aclamada, com seu livro Chegadas e partidas (vencedor do Pulitzer e do National Book), por ter “captado o ritmo da vida real” ou qualquer bobagem do tipo. E é justamente aí que esse romance falhava: tínhamos a trajetória de um bobalhão meio otário que resolve abandonar sua vida fracassada nos EUA e “voltar às origens”, ocupando uma antiga casa de família num ermo canadense. Nessa localidade, nada de muito interessante acontecia com ele: trabalhava, fazia amigos, tinha problemas, conhecia uma mulher, isto é, a vidinha de todo dia e de quase todo mundo ia acontecendo. O que pretensamente daria interesse à narrativa eram as histórias que os habitantes do lugar iam contando para ele. Só que, pelo menos para mim, e para quem não estiver muito interessado na topografia, na geografia, na geologia e nos dialetos do Canadá, essas vinhetas de vida soam chinfrins e, pior, contadas por gente chata, boçal. Em suma, desinteressante. Ao “imitar a vida”, Chegadas e partidas imitou-a no que tem de pior e mais amorfa.

Também em Os crimes do acordeom os personagens contam pequenas histórias uns para os outros. A diferença é que elas são infinitamente mais interessantes e a narrativa infinitamente mais envolvente. O livro revela que Proulx é uma grande narradora tradicional, que funciona melhor mantendo-se nas trilhas de uma intriga bem urdida e bem conduzida. Cada capítulo é quase um romance plenamente resolvido, cada momento é esférico, bem acabado, ardilosamente preparado.

Desistindo de imitar a vida, ela revela-se uma grande autora ao recontá-la como pura ficção, como um legítimo “mar de histórias”. Todos ganham com isso. Os crimes do acordeom restabelece no romance realista o fôlego das grandes miradas.

 

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