MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

10/04/2012

Tudo o que é sólido afunda no mar: CADA UM POR SI e a luta de classes no Titanic

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de março de 1998)

O leitor pensa: novamente a mesma triunfalidade na partida do Titanic, em abril de 1912, a mesma arrogância do pessoal da primeira classe, os mesmos avisos persistentes sobre icebergs ignorados pelo comandante, a mesma perplexidade diante da constatação de que o navio afundará, o mesmo atropelo, a mesma falta de escalares suficientes para todos, o mesmo avanço inexorável da água a bordo, a mesma quebra do navio em dois,  o mesmo desaparecimento no oceano gelado que arremata o serviço de mortandade…

Qual é a novidade de  CADA UM POR SI (Every man for himself, Inglaterra-1996, em tradução de Carlos Süssekind), de Beryl Bainbridge, após o disaster love (e, a meu ver, um desastre como obra cinematográfica) de James Cameron?

Dessa vez, a história é contada por Morgan, sobrinho do proprietário da Companhia que construiu o Titanic. Adotado pelo tio, com uma infância obscura e constrangedora, ele divide-se entre os interesses cotidianos da sua classe e uma superficial atração pelo socialismo. Durante os poucos dias da travessia, sofre também uma desilusão romântica: era apaixonado pela estranha Wallis. E ficara fascinado por Scurra, um homem misterioso (que me lembrou aqueles personagens de Orson Welles, como  o Mr. Arkadin, de Grilhões do passado), com o qual discutia com franqueza os mais variados assuntos, e o qual lhe deu dicas sobre a Vida (numa certa altura, chegara a suspeitar que ele fosse seu desaparecido pai).

Morgan descobre que Scurra e Wallis são amantes. Por causa dessa situação, Scurra diz a ele a frase-clichê que dá título ao romance. Cada um se vira por si e procura levar a melhor (a Lei de Gérson, em suma).

CADA UM POR SI concentra-se no universo da primeira classe, para a qual foi construído o Titanic e da qual ele é o símbolo, tanto na triunfalidade quanto na fatalidade.

Nada de rapazes pobres da terceira classe que, como Cinderelas, participam de jantares suntuosos e ainda dão lição de moral  para milionários enfatuados (o que a carinha de franguinho mal desovado de Leonardo di Caprio ajuda a tornar mais risível; mas a sua partner não fica atrás: como alguém pode aceitar o filme de Cameron como “romântico” quando se sai com a memória de uma cena em que ela, andando paquidermicamente, com uma aparência assustadora e um machado na mão nos parece transportar para o hotel mal-assombrado de O iluminado?). O mundo de Morgan é um mundo de domínio: “Foi a sublime termodinâmica de engenharia naval do Titanic que nos cortou a respiração. Deslumbrado, eu estava pensando que se o destino do homem se achava ligado à ordem do universo, e se era possível igualar o funcionamento cientificamente construído das máquinas ao do universo, em perfeita reciprocidade, meu Deus, nada poderia dar errado no meu mundo”.

É um mundo restrito: “Veja em volta. Este lugar está abarrotado de gente que frequentou os mesmos colégios, as mesmas universidades, assistiu às mesmas aulas de esgrima, teve os mesmos professores de dança, de música, de latim, os mesmos instrutores de tênis”.

E é um mundo perigosamente alienado. Enquanto há um persistente incêndio nas caldeiras, Morgan nos fala das preocupações do projetista do navio, que está a bordo: “Andrew planejava vários ajustes e alterações. O calçamento de pedras no passeio exclusivo do convés da primeira classe ficara com um colorido um pouco escuro demais; a aparência das cadeiras de vime no lado de estibordo poderia ganhar se tingidas de verde; havia parafusos demais nos cabides para pendurar chapéus dos camarotes…”. E assim por diante.

Portanto, pode haver a mesma triunfalidade na partida, a mesma arrogância da primeira classe,os mesmos avisos ignorados de icebergs, a mesma perplexidade diante da constatação do afundamento iminente, o mesmo atropelo, a mesma insuficiência de escaleres, o mesmo avanço da água, a mesma quebra em dois, o mesmo desaparecimento no oceano gelado, as mesmas mortes. Nem por isso, CADA UM POR SI se deixa levar para o mundo raso da pieguice industrializada que caracteriza a superprodução de James Cameron, onde o público parece uma claque amestrada: hora de rir, pessoal; hora de chorar…

Que alívio ver os momentos mais fortes da tragédia descritos com sobriedade, sem aquela perversidade de transformar tudo em espetáculo e efeitos de última geração.

O mundo de Morgan e seus parceiros da primeira classe é restrito e alienado, mas é justamente das suas preocupações triviais, das suas irrelevantes questões, tão fortuitas, que o livro da autora inglesa tira a sua força. Ao abalroar preocupações corriqueiras que contam com a existência do futuro com o iceberg da fatalidade, ela cria significados irônicos, inesperados.

E um deles se refere ao próprio título (que, a princípio, parecia ser uma provocante negação do heroísmo e da bravura diante da morte iminente, sempre associados a certos atos na tragédia do Titanic). Morgan, com suas ínfimas desilusões sentimentais, poderia dar crédito à afirmação de Scurra, de que na vida é “cada um por si”. Porém, o destino e a fatalidade, que mostram a ele que tudo pode dar errado em seu mundo, ao contrário do que acreditava, acabam por ensiná-lo que todos estão no mesmo barco.

04/03/2010

PRECIOSA

“Ela conhecia ligeiramente a estação da estrada de ferro. Era um lugar que ela gostava de visitar, pois lembrava-lhe a velha África,  os dias de desconforto nos trens apinhados, as viagens vagarosas de travessia das grandes planícies, ou a cana-de-açúcar que se costumava chupar para o tempo passar mais rápido, ou o bagaço da cana que se costumava cuspir para fora das amplas janelas. Aqui ainda era possível ver essa velha África, ou uma parte dela, aqui, onde os trens que vinham do Cabo passavam devagar diante da plataforma em sua viagem via Botsuana para Bulawayo; aqui, onde as lojas indians ao lado dos prédios da estação continuavam a vender cobertores baratos e chapéus para homens com uma pena espalhafatosa enfiada na fita.

     Mma. Ramotswe não queria que a África mudasse. Não queria que seu povo se tornasse igual a qualquer outro, desalmado, egoísta, esquecido do que significa ser africano, ou, pior ainda, envergonhado da África…”

“Tudo aquilo era útil, da primeira à última linha, quer tratasse dos previsíveis discursos dos políticos, quer das notícias da igreja. Nunca se podia saber quando algum conhecimento local se tornaria útil.”

Além das suas qualidades como tramas policiais e como ficção pura e simplesmente, os livros de Agatha Christie enfocando Miss Marple têm, sobretudo, charme (os de Poirot também, evidentemente). Esse foi um dos fatores que me irritaram na leitura de O clube filosófico dominical: tudo era prosaico, sem graça, não havia charme. No entanto, que diferença encontramos em outro livro de Alexander McCall Smith, Agência número 1 de mulheres detetives (1998). Não sei como qualificá-lo dentro da ficção ou do gênero policial, não sei se ele é um ótimo livro, porém ele tem charme, assim como sua heroína, a deliciosa Preciosa Ramotswe, uma africana da gema que, aos 34 anos, resolve ser a primeira mulher-detetive de Botsuana, após cuidar do pai durante 14 anos, até sua morte (ela havia sido abandonada pelo marido, que a espancava, e seu filho só vivera por alguns dias). A descrição dos detalhes concretos, de como ela usa sua herança para montar a agência e a casa onde mora, a contratação da secretária, as reflexões de Mma. Ramotswe, os casos que ela investiga, tudo é muito revelador de uma curiosa característica de McCall Smith que é muito presente também no livro de Edimburgo (ver post abaixo), mas que ali desandava: ele tem uma visão muito prosaica da vida, da sociedade e das relações. Sua detetive chega a ser simplória e singela. E isso cai como uma luva. Mesmo porque o livro é muito discreto com relação ao que poderíamos chamar de “investigações”. Já notara (embora ele seja posterior) a falta de fôlego evidente em O clube filosófico dominical. Não se tinha um romance ali, de jeito nenhum. E também não temos um romance, no sentido convencional, em Agênica número 1 de mulheres detetives. O que temos é um livro de contos disfarçado numa narrativa mais geral, uma série de anedotas meio que frouxamente reunidas, porém tão saborosas em si mesma, e com o mesmo denominador comum, que é Mma. Preciosa Ramotswe, que não consigo ver a falta de fôlego como uma falha, e sim um elemento da visão de mundo de McCall, que não sei porque se perdeu na passagem de Botsuana para Edimburgo.

Há um caso que atravessa uma boa parte do livro (o menino que é sequestrado,  e que parecia ter sido vítima de feiticeiros–há até a descoberta de um dedo que poderia ser dele, porém ele não foi sacrificado em nenhum ritual:era utilizado como um escravo, sendo resgatado por Preciosa Ramotswe). De resto, temos a história de como a agência foi criada, a história do pai dela, do seu casamento com o marido que não vale nada (que a tornará refratária às propostas de casamento, até o final inesperado), e a investigação de 7 casos prosaicos (é preciso dizer que são deliciosas as referências ao manual de detetive que nossa heroína estuda atentamente): há o caso do impostor que se passa por pai de uma sub-contadora bem-sucedida; há um marido que mergulhara num culto religioso e desaparece (na verdade, ele foi devorado por um crocodilo); há o caso da filha adolescente do retrógrado senhor Patel, que é um momento muito movimentado e divertido do livro, pois mma. Ramotswe tem de segui-la pela cidade, e comete muitos erros que não constam do manual; há o caso da mulher que se preocupa porque o marido roubou um carro . há o caso impagável do marido mulherengo, com quem a própria Preciosa sai para provar sua infidelidade (quando mostra as fotos que tirou com ele para a esposa, é destratada e xingada), há o caso do empregado que forja um acidente, alegando ter perdido um dedo, para conseguir uma indenização, e, finalmente, temos o caso do médico que uma hora é competente, na outra é inepto, outro que faz com que a detetive se desloque para cá e para lá com sua pequena van branca.

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