MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

17/06/2012

O peso do pai: dois romances de Carlos Herculano Lopes

MÃES CONTRA PAIS

Resenha publicada originalmente em “A Tribuna”, em 24 de janeiro de 1995

       SOMBRAS DE JULHO, que acabou de ganhar uma adaptação cinematográfica de Marcos Altberg, começa e termina com um assassinato: no início, o jovem Fábio Gama é morto por seu amigo de infância, Jaime Maia, com seis tiros, quando ele estava para entrar na propriedade dos Maia a fim de acertar partilha de águas; no final, o próprio Jaime é liquidado pela mãe de Fábio, a qual fugira de um sanatório em Belo Horizonte, para onde fora enviada.

Como se pode ver, a violência permeia o romance de Carlos Herculano Lopes, E num país onde a Reforma Agrária é uma questão fulcral, a questão posse da terra não podia deixar de ter importância numa trama que envolve latifundiários, embora SOMBRAS DE JULHO não se limite a ser apenas um painel social (a ficção brasileira já está cheia desse tipo de livro), preocupando-se sobretudo com os efeitos psicológicos desencadeados pela morte de Fábio e com a montagem narrativa, que alterna primeira e terceira pessoa, perseguindo um efeito caleidoscópico, várias personagens tomando a palavra.

Ao mesmo tempo, há um efeito estático interessante: todos parecem ter ficado “congelados” no momento em que Fábio é morto, cena evocada várias vezes, como se acompanhássemos um eterno retorno que aprisionasse a todos os envolvidos, paralisia que concentra todos os males do patriarcalismo latifundiário e também as mais primitivas pulsões do ser humano: “…e ela, que há muito não me ama, e nem sei se chegou a fazê-lo, ou se casou comigo por interesse, se arrependerá ainda mais de ser a esposa logo de quem… Joel Maia, o desumano que irá roubar-lhe o filho querido e jogá-lo dessa maneira no mundo”. São palavras da grande figura do romance, Joel Maia, que praticamente obriga o filho, naquele instante crucial, a assassinar Fábio, e, depois, faz uma armação para livrá-lo da cadeia, já tendo conseguido seu objetivo maior: destruir a forte ligação entre Jaime e Ione, a mãe.

Pois as duas mães da história, a própria Ione Maia e Helena Gama, parecem ter encontrado um tortuoso meio de se oporem ao mundo patriarcal (recalcado e autoritário de um lado; frágil e pusilânime de outro): uma relação marcadamente edipiana com os filhos que protagonizam a tragédia. Principalmente Ione, que cultivou a delicadeza e a sensibilidade de Jaime como meio de neutralizar a frustração sexual e a brutalidade da vida com o marido Joel.

Escrito num estilo enxuto e claro, com toques de tragédia grega, pois dá voz a todos os principais envolvidos, que interrogam o destino e o leitor sobre seus males e misérias, SOMBRAS DE JULHO talvez não chegue a ser um grande romance, com suas ocasionais puerilidades, e principalmente sua incômoda univocidade, com todos os personagens reiterando sempre os mesmos fatos, da mesma maneira (ao contrário do que faz um Faulkner, em Absalão, Absalão!, onde cada versão modifica um pouco os fatos; aliás, não há fatos, e sim versões, exegeses dos fatos), mas está acima da média da atual ficção brasileira, cumprindo um papel sempre necessário, como já afirmei tantas vezes nesta coluna: a dos bons romances médios.

 

O ROSTO DO PAI

Resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de julho de 1995

Assim como Sombras de Julho (1991), seu romance anterior, O ÚLTIMO CONHAQUE, de Carlos Herculano Lopes, começa e termina com uma morte. De fato, no primeiro capítulo, além do falecimento da mãe do herói, que o motiva a voltar para a cidade natal (Santa Marta), no interior de Minas Gerais, narra-se o assassinato do pai pelo latifundiário local, acontecido cerca de trinta anos antes. E a esse acontecimento o livro voltará obsessivamente, como acontecia igualmente com o assassinato  que assombrava Sombras de Julho.

Duas conclusões surgem, então, a respeito do universo reiterativo do autor mineiro, um dos mais talentosos do cenário literário atual:

a) é um universo de violência extrema e terrível, toda ela calcada nos chamados problemas estruturais do nosso país, que delineiam nosso atraso;

b) é um universo no qual se problematiza a figura do Pai e, portanto, questiona-se a transmissão patriarcal, o peso do dever filial.

Uma situação irreal, pensou: preso dentro de casa, com medo de abrir umas simples gavetas e ameaçado de morte pelas mesmas pessoas que acabaram com seu pai e mudaram os rumos de sua vida”. O ÚLTIMO CONHAQUE é um relato tenso, com seu protagonista bebendo compulsivamente na casa da mãe (que o afastara da cidade, nunca permitindo que ele voltasse, com medo de que repetisse o destino do pai, médico nordestino que se metera na política local) e que pressente haver algo terrível em meio aos pertences dos pais, embora deseje achar um retrato do pai para fixar a sua verdadeira imagem, que o obcecou tantos anos (curiosamente, fundindo-a com a do assassino, o que tem muito a ver com o medo que sente em remexer nos guardados): “Quem sabe ali em alguma daquelas gavetas ele visse, de novo, só que concretamente, o rosto de seu pai. O tão sonhado rosto que, ano após ano, ele buscara nos seus sonhos, nos homens que vira nas ruas, nos bares ou, até mesmo, nas capas de revistas e filmes”. Enquanto isso, tramam sua expulsão da cidade ou, até mesmo, sua execução, com ameaças horripilantes, como a morte de um cão, episódio que as pessoas fascistóides, que reclamam tanto dos dejetos caninos (esquecidos da sujeira maior que as pessoas fazem, física, ética e moralmente) certamente adorarão ler.

Sem chegar a exageros, pode-se afirmar que esse confronto do herói com seu passado mineiro, após viver em São Paulo, é o rosto de um Brasil onde o urbano ainda precisa ajustar contas com o rural;  isso e mais a presença-ausência do pai (também problemática na relação entre o assassino e seu filho) e a brutalidade do mundo patriarcal aproximam muito Herculano Lopes de outro mineiro, Autran Dourado, embora este possua uma exuberância narrativa muito distante do estilo cru e árido do autor de O ÚLTIMO CONHAQUE. Quer dizer, os assuntos são similares, as histórias se passam num tipo parecido de cidade, “todas aquelas outras cidades eram muito pequenas, rodeadas de morros, e ainda tinham em comum as igrejas no meio da praça, as janelas das casas pintadas de azul e, cobrindo tudo, poeira”, mas a técnica é bem diferente.

Ambos são mundos ficcionais da memória, dos rostos resgatados do afogamento do tempo, do olhar lançado para trás, porém o universo de Autran Dourado se tinge de mitos e profundidades, é um mundo de grandeza e decadência;  o de Herculano Lopes é inundado de horror, de pobreza, onde, imprensadas entre o rural e o urbano, as pessoas ficam cara a cara com uma coisa muito simples e básica: a injustiça. A eficácia da sua denúncia é que, mesmo sabendo de tudo isso, até de sobra, o leitor ainda assim fica contristado e envolvido.

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