MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

06/02/2018

BIDET OU PESSACH: EIS A QUESTÃO

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 06 de fevereiro de 2018)

Às vésperas do fatídico AI 5 (completa 50 anos), que aumentou a repressão da ditadura militar, Carlos Heitor Cony publicou um belo romance, “PESSACH: A TRAVESSIA”. O narrador, Paulo Simões, sente vergonha de suas raízes judaicas (pessach é um evento do fim da escravidão dos hebreus no Egito). Escritor desprezado pela esquerda, no seu aniversário de quarenta anos, recebe (seu amigo Silvio o chama para participar da luta armada) e faz várias visitas. Numa delas, o pai revela o temor de que o Brasil siga a Alemanha Nazista e lhe dá uma capsula com veneno.

No dia seguinte devido a uma cadeia de acontecimentos inesperados, Paulo acaba se juntando a um grupo guerrilheiro e inicia uma nova travessia.

Paulo é o típico herói do Existencialismo, para o qual a existência é gratuita e o indivíduo é livre e “disponível”. Mas, como somos seres contingentes estamos sempre “em situação”. Esse herói pode se engajar politicamente, gerando o absurdo (Albert Camus lastimava que o revolucionário amava “uma humanidade que ainda não existia”).

Paulo me lembrou de um extraordinário romance de Paul Auster, “A Música do Acaso”. Ambos se deixam levar pelos acontecimentos aleatórios e o acaso transforma-se em destino (Paulo se queixa de ser um prisioneiro e um guerrilheiro retruca que ele teve diversas chances de fugir).

“Olho a máquina: não foi para escrever sobre bidês que amealhei sofrimentos e espantos, tréguas e esperanças. Vontade de mandar um bilhete ao editor comunicando simplesmente: não escrevo mais sobre bidês. Vou para a luta. Minha luta não é a mesma de Vera, de Sílvio, de Macedo. Meu pai tem medo, medo milenar e carnal que acompanha os homens de sua raça. Esperou o fim da vida para sentir esse medo e esse compromisso. Lembro dele tocando violino na churrascaria, não parecia sentir o estigma que sobre ele pesava. É melhor escrever sobre os judeus que sobre os bidês. Enquanto Macedo hesita, sem saber se adere ou não às guerrilhas, eu tenho outra hesitação, mais estúpida e amarga: bidê ou Pessach”.

Esta é uma das grandes passagens do livro, que faz um uso notável do diálogo, que o torna muito atual e jovem, e tem um final estupendo, quando o acaso vira realmente destino.

 

 

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16/01/2018

A MORTE DE CARLOS HEITOR CONY

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 16 de janeiro de 2018)

Sempre digo que não dá para ler tudo nem gostar de tudo. Mesmo assim, com a morte de Carlos Heitor Cony, fiquei perplexo ao constatar quão pouco li de sua obra, apenas dois livros: “ROMANCE SEM PALAVRAS” e “Matéria de memória”.

Acho genial o título “ROMANCE SEM PALAVRAS”. Queria saber como ele solucionou o paradoxo. O narrador relata a estória aparente, ligada à ditadura: ele dividiu a cela com um padre, Jorge Marcos, barbaramente torturado. Com a ajuda de Iracema, sua grande paixão consegue libertá-lo. Jorge Marcos desiste de seus votos religiosos e casa com a Iracema. Beto, o narrador, acompanha ao longo dos anos o aburguesamento do casal.

Mas há sempre a sombra do triângulo amoroso, pois Iracema é sempre esquiva, além de ambiciosa, Jorge Marcos se aproxima novamente da religião: “Iracema foi promovida. Diziam que fora rebaixada para cima, perdera fatias de poder na empresa mas fora compensada com um cargo mais alto e de melhor remuneração. Quando soube disso, desconfiei que ela própria manobrara no sentido de obter essa queda para cima”. Mais adiante: “—E o seu romance? Falta muito para terminar? – Não vou terminar nunca. Falta muita coisa para acontecer na minha vida… coisas sem palavras…”.

ROMANCE SEM PALAVRAS” se torna digno de Machado de Assis e Nabokov: “Foi uma visita apressada, nem tive tempo de avisá-la. Bati em seu apartamento, em Higienópolis, um prédio dos mais antigos do bairro. Ela veio abrir, ficou espantada quando me viu. Falou meu nome nem alto: — Beto! Que surpresa! Ouvi um barulho na sala ao lado, de alguém que se retirava às pressas. Enquanto beijava Iracema no rosto, vi o vulto desaparecer”.

De quem é o vulto? Aqui permanece o mistério tanto quanto o de eu ter lido tão pouco Carlos Heitor Cony.

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