MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

29/04/2014

Destaque do Blog: O PRIMEIRO HAMLET IN -QUARTO DE 1603

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente  em A TRIBUNA de Santos, em 29 de abril de 2014)

Escrevendo sobre Hamlet, em Shakespeare: A invenção do humano, Harold Bloom discorreu longamente sobre uma hipotética versão original da peça, nunca encontrada, não obstante objeto de especulação tremenda, e que poderia ser ou não ser de autoria do próprio Shakespeare, cujos 450 anos de nascimento foram celebrados em 23 de abril.

Além desse obscuro Hamlet Zero[1], três versões da tragédia ocupam, nos últimos quatro séculos, especialistas e aficionados. Em geral, as edições que lemos misturam os textos dos chamados Segundo in-quarto (1605) e Primeiro Folio (1623), mais extensos do que o do Primeiro in-quarto (1603), este último só recentemente traduzido no Brasil, por José Roberto O´Shea (em edição da Hedra). Para que se tenha uma ideia da diferença, enquanto os dois outros, mais “autorizados” (mesmo sabendo que é impossível o estabelecimento de um Hamlet final de acordo com o que Shakespeare escreveu, já que não sobreviveram manuscritos), atingem cerca de quatro mil linhas (entre prosa e verso), o Primeiro Hamlet in quarto de 1603 apresenta apenas pouco mais de duas mil.

Ao longo de toda a acidentada formação do cânone shakespeariano, esse Primeiro Hamlet foi relegado ao status de edição espúria (bad quarto[2]), feita a partir da lembrança (supostamente com lacunas) de atores, das primeiras apresentações em 1600 ou 1601. Nas últimas décadas instaurou-se um processo de reabilitação, por ser mais “encenável”, com maior dinamismo da progressão dramática, pois em seu texto não constam “adiposidades retóricas”. Um exemplo: da primeira cena, quando os homens que montam guarda em Elsinore testemunham a aparição do fantasma do pai de Hamlet, não faz parte a fala de Horácio (e só aí são 14 linhas ausentes), comparando esse evento sobrenatural aos agourentos e pressagos acontecimentos que antecederam a morte de César na Roma Antiga.

Apesar dessas supressões, de pequenas mudanças na ordem dramática, dos nomes (Corambis, ao invés de Polônio; Gertred, ao invés de Gertrudes; “Cavalheiro Falastrão”, ao invés de Osric), e até nos famosos solilóquios de Hamlet (o mais famoso deles, nessa versão, começa assim: “Ser ou não ser—sim, eis aí o ponto”, e não o citadíssimo “eis a questão, além de aparecer no 2º. ato, e não no 3º.), a ação geral permanece a mesma, com o fantasma do pai revelando a Hamlet que o tio, agora rei, é seu assassino e usurpara o trono (a condição de herdeiro preterido é bem mais realçada nessa versão que no Segundo in-quarto e no Folio), exigindo uma vingança que será postergada (e, segundo Bloom, o misterioso Hamlet Zero era fruto da moda das “tragédias de vingança” na era elisabetana[3]).

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Mesmo aceitando que o Primeiro Hamlet é mais apropriado para adaptações cinematográficas e para os palcos, penso que a peça sai perdendo sem suas “adiposidades retóricas”. Talvez  causem impaciência e estranheza, mas para o apaixonado por Shakespeare faz falta, por exemplo, a já referida fala de Horácio: “Uma coisa perturba a minha mente/ No altíssimo e feliz torrão de Roma/Antes da queda do possante Júlio/Os túmulos mostraram-se agitados/ E as figuras estranhas dos defuntos/Gritavam e corriam pelas ruas/ Cometas chamejantes suavam fogo/ O Sol ficou convulso e a estrela túmida/Cuja força ergue o império de Netuno/Quase estava em desmaio num eclipse/Como iguais precursores de desgraças/ Como arautos precoces do destino/E prólogos de agouros pressentidos/ Terras e céus unidos advertiram/O nosso clima e os nossos conterrâneos.[4]

Na versão de 1603, temos o drama mais amarradinho e coeso, entretanto sentimos que ele perde boa parte do seu brilho, charme e apelo cognitivo. Um Shakespeare desidratado e desfibrado, inclusive no sangrento final, onde todos morrem com demasiada rapidez, sem impacto, e principalmente sem a belíssima troca de falas entre Hamlet e Horácio, com o já proverbial “o resto é silêncio”.

Nenhum trecho mostra tão significativamente que uma versão enxuta não é exatamente a melhor opção quanto a resposta de Hamlet ao aceitar o desafio (traiçoeiro) de Laertes (o qual, mancomunado com o rei, deseja vingar as morte do pai e da irmã). No Primeiro in-quarto, ela me parece de fato um exercício truncado de memória de algum participante da peça: “… se o perigo for agora, não virá depois. Existe especial providência na queda de um pássaro”;compare-se com a versão usual: “Nós desafiamos o augúrio. Há uma providência especial na queda de um pardal. Se tiver de ser agora, não está para vir; se estiver para vir, não será agora; e se não for agora, mesmo assim virá. O estar pronto é tudo…”[5]

Portanto, a leitura do Primeiro Hamlet sempre será assombrada pelas ausências, pelos recursos poéticos que até podem embaraçar a linearidade cênica, mas que fazem com que a mais famosa obra de Shakespeare seja, nas palavras de mestre Bloom, “a mais selvagem das peças, em que tudo pode acontecer, e onde as expectativas são provocadas, em grande parte a fim de serem frustradas”[6].

Shakespeare Quartos Project

NOTAS

[1] Ou Ur-Hamlet.

[2] Na avaliação de Bárbara Heliodora: “(…) já em 1603 foi pirateado, como se diz, por um ator que fazia pequenos papéis, o que resultou na publicação do notório bad quarto, uma aberração muito mais curta do que a obra de Shakespeare, com trechos sem nexo e incluindo não só frases e falas de outros autores como também descrições de algumas piadas posteriormente publicadas como da autoria do ator Talerton…” (cf. “Introdução à 2ª. edição de Hamlet”,  Nova Aguilar, 2009)

[3] “Temos conhecimento da existência de um Hamlet anterior, revisto e superado pela peça de Shakespeare, mas não dispomos da referida obra e tampouco sabemos quem a escreveu.  A maioria dos estudiosos acredita que o autor da referida peça tenha sido Thomas Kyd, que escreveu A tragédia espanhola, arquétipo da ´peça de vingança´. Entretanto, no meu entendimento, Peter Alexander estava certo quando deduziu que o próprio Shakespeare teria escrito Ur-Hamlet, o que teria ocorrido até 1589, início de sua carreira de dramaturgo (…) a hipótese de Alexander sugere a possibilidade de Hamlet (peça que, em sua forma final, oferece ao público um novo Shakespeare) ter passado por uma gestação de mais de uma década.” (cf. A invenção do humano)

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[4] Utilizo a celebrada tradução de Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça (em edição da Objetiva, 2004). – No Teatro Completo- Tragédias e Comédias Sombrias (Nova Aguilar, 2009), aparece creditado também nessa mesma tradução de Hamlet o nome de Bárbara Heliodora (filha de Anna Amélia).

Algumas outras traduções do referido trecho:

– de F. Carlos de Almeida Cunha Medeiros & Oscar Mendes:

“Minúscula partícula que basta para perturbar os olhos do entendimento! Na época mais gloriosa e florescente de Roma, pouco antes da queda do poderosíssimo Júlio,  os túmulos ficaram vazios e os defuntos, envoltos nas mortalhas, vagavam pelas ruas de Roma, fazendo alarido e soltando sons confusos; também foram vistas estrelas com caudas de fogo; orvalhos de sangue, desastres no sol e o astro úmido, a cuja influência está sujeito o império de Netuno, padeceu de um eclipse, como se o dia do Juízo Final tivesse chegado. Estes mesmos sinais precursores de trágicos acontecimentos, anunciadores de catástrofes e mensageiros dos fados, o céu e a terra manifestaram juntos a nossos climas e a nossos compatriotas.” (em edição da Aguilar, 1969)

– de Millôr Fernandes:

“Um grão de pó que perturba a visão do nosso espírito/ No tempo em que Roma era só louros e palmas/ Pouco antes da queda do poderoso Júlio/As tumbas foram abandonas pelos mortos/Que, enrolados em suas mortalhas/ Guinchavam e gemiam pelas ruas romanas/Viram-se estrelas com caudas de fogo/ Orvalhos de sangue, desastres nos astros/ E a lua aquosa, cuja influência domina o mar, império de Netuno/ Definhou num eclipse, como se houvesse soado o Juízo Final/Esses mesmos sinais, mensageiros de fatos sinistros/ Arautos de desgraças que hão de vir/ Prólogo de catástrofes que se formam/Surgiram ao mesmo tempo no céu e na terra/ E foram vistos em várias regiões/Com espanto e terror de nossos compatriotas.” (em edição da Peixoto Neto, 2004)

– de Carlos Alberto Nunes:

“O olho da inteligência um argueiro o turva/ Na época mais gloriosa da alta Roma/pouco antes de cair o grande Júlio/ saíram dos sepulcros os cadáveres/ em seus lençóis, gemendo pelas ruas/ Depois, chuviscou sangue, apareceram/ manchas no Sol, cometas; e o úmido astro/ que tem força no reino de Netuno/do eclipse padeceu no fim das coisas/Idênticos sinais de cruéis eventos/precursores que são sempre dos Fados/e prólogo de agouros iminentes/enviaram juntamente o céu e a terra/por sobre o nosso clima e nosso povo.” (em edição da Agir, 2008)

– de Péricles Eugênio da Silva Ramos:

“Eis um argueiro a incomodar o olho da mente/No Estado glorioso e triunfal de Roma/pouco antes de tombar o poderoso Júlio/ viram-se os mortos, em lençol, deixar as tumbas/ e guinchando engrolar nas ruas da cidade/Estrelas patentearam-se de cauda em fogo/sangrento o orvalho, o sol com aspectos desastrosos/ e o úmido astro, a cuja influência está sujeito/ o império de Netuno, adoeceu de eclipse/ quase que igual ao que há vir no Juízo Extremo/E idênticos precurso de terríveis fatos/tais como mensageiros precedendo os fados/ e prólogo do que, sinistro, se aproxima/o firmamento e a terra juntos revelaram/aqui, ao nosso clima e aos nosso compatrícios.” (em edição do Círculo do Livro, 1982)

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[5] Em outras versões:

“… desafio os augúrios; existe uma providência especial na queda de um pardal. Se for agora, não está para vir; se não está para vir, é esta a hora; e se esta é a hora, virá de qualquer modo. Tudo é estar prevenido…” (F. Carlos de Almeida Cunha Medeiros & Oscar Mendes)

“… desafio os augúrios. Existe uma previdência especial até na queda de um pássaro. Se é agora, não vai ser depois; se não for depois, será agora; se não for agora, será a qualquer hora. Estar preparado é tudo…” (Millôr Fernandes)

“…desafio os presságios. Há uma especial Providência na queda de um pardal. Se tem de ser já, não será depois; se não for depois, é que vai ser agora; se não for agora, é que poderá ser mais tarde. O principal é estarmos preparados…” (Carlos Alberto Nunes)

“…desdenhamos o augúrio. Há uma iniludível providência na queda de um pardal. Se for este o momento, não está para vir; se não está para vir, é este o momento; se não é este o momento, há de vir todavia—estar pronto é tudo…” (Péricles Eugênio da Silva Ramos)

[6] Cf. Hamlet, poema ilimitado (em tradução de Jose Roberto O´Shea), publicado pela Objetiva juntamente com a tradução de Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça.

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12/03/2013

“Bem-vindos, sangue, destruição e morte!”: Ricardo III e a patologia do poder

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“A quem temo? A mim mesmo? Estou sozinho.

Ricardo ama Ricardo. Eu sou eu mesmo.

Há um assassino aqui? Não—sim, sou eu:

Devo fugir? De quem? Fugir de mim?

Qual a razão? Vingança? De mim mesmo?

Não, eu me amo. E por quê”  (Shakespeare, Ricardo III)[1]

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(uma versão da resenha abaixo  foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de março de 2013)

No mês passado foi anunciada a descoberta dos restos mortais (embaixo de um estacionamento) de Ricardo III, reacendendo as discussões sobre como seria o caráter “exato” do mal afamado rei (de 1483 a 1485) da Inglaterra, cuja derrocada marcou a liquidação da dinastia Plantageneta, inaugurando a mítica era Tudor. Evidentemente, todo mundo associa-o a Shakespeare, pois Ricardo III é a mais famosa e palatável entre as suas chamadas “peças históricas”, que compõem a porção menos popular do cânone do bardo, ao contrário das tragédias e comédias. Poucos têm ainda a paciência de ler, por exemplo, as três partes de Henrique VI ou Rei João.[2]

Cá entre nós, confesso que me perco um pouco na sucessão de monarcas dessas peças, e não foram poucas as vezes em que confundi Ricardos, Eduardos e Henriques—se fosse pego de supetão, era capaz de pagar o maior mico, misturando alhos com bugalhos; e mesmo apreciando Ricardo III, acho muito difícil deslindar totalmente os eventos históricos ali dramatizados (principalmente no primeiro ato), em razão de haver dezenas de personagens em cena.

O que salva a peça (escrita em 1592 ou 1593) para os dias de hoje é mesmo o protagonista. Imagine-se um Iago com poder. A patologia do futuro governante reflete-se, dentro de uma concepção bastante eficaz no palco, em seu aspecto físico, o que já fica claro na inesquecível fala de abertura: “Eu, que não tenho belas proporções/Errado de feições pela malícia/Da vida; inacabado, vindo ao mundo/Antes do tempo, quase pelo meio/E tão fora de moda, meio coxo/Que os cães ladram, se deles me aproximo (…) Determinei tornar-me um malfeitor/E odiar os prazeres destes tempos./Armei conspirações, graves perigos…” [3]

É como se ele já nascesse com a sina da deformação pelo poder. Há poucos dias, aqui mesmo em A TRIBUNA, o cientista político Alcindo Gonçalves, refletindo a respeito do tema, relembrava alguns princípios do Príncipe de Maquiavel: “É necessário a um príncipe, para ser manter, que aprenda a ser mau (…) É muito mais seguro ser temido que amado.

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Aa maldade de Ricardo opera em surdina, de início: dissimulado, intrigante, ele coloca uns contra os outros (também raras vezes se viu uma constelação de ruthless people, incluindo as crianças[4]), e pouco a pouco vai se aproximando do trono, ao eliminar os herdeiros diretos (embora seu crime mais perverso seja o assassinato do irmão, Clarence[5]). Ele engana, burla, faz promessas vãs, recruta asseclas cada vez mais sórdidos. Praticamente há uma morte brutal em cada página lida[6].

Boa parte do efeito dramático (apesar da confusão com relação aos fatos) se deve à grandiosidade da maldição lançada pela usurpada rainha Margaret, líder dos Lancaster contra os York de Eduardo IV, o qual se encontra no poder no momento em que Ricardo começa a executar seus ambiciosos planos[7]. É a célebre Guerra das Rosas, com 30 anos de duração.  Como há várias facções e alianças (às vezes as mais inusitadas), e pequenos interesses, ela anatematiza a todos, sem exceção, de sorte que, traídos e executados pelo sanguinário rei, cada um se lembra das terríveis pragas da viúva de Henrique VI.

Um dos melhores momentos da peça acontece no quarto ato, quando Ricardo, o “embaixador do inferno, vai enfrentar a sua derradeira batalha contra o que restou de seus inimigos e três das mulheres cujos entes queridos foram mortos por suas armações, se reúnem diante do palácio: Margaret, Elizabeth (esposa de Eduardo IV) e a mãe de Ricardo, a Duquesa de York (que sempre enxergara sua maldade, a despeito da opinião geral), para a qual Shakespeare reservou algumas das falas mais poéticas, lindas e memoráveis dessa peça de juventude: “Eu chorei um marido bom e honrado/E vivi de mirar suas imagens/Mas hoje dois espelhos que o mostravam/Foram quebrados pela morte ignara./E eu, por consolo, tenho um falso espelho/Que fere refletindo-me a vergonha (aqui ela se refere a filho e aos dois irmãos dos quais ele deu cabo); ou ainda: “Ventre maldito o meu, berço da morte/Que trouxe a este mundo o basilisco/Que mata com o veneno do olhar”.[8]

   O desalentador é pensar que a natureza do poder não mudou nada. Não há decerto tanta sanguinolência explícita para que homens do naipe do Ricardo imaginado por Shakespeare, os quais viram as costas para a sociedade e os interesses gerais, possam ascender ao poder (executivo ou legislativo); nem por isso o caos, a desmoralização e os resultados brutais são menores: pois seus efeitos aparecerão nas filas lotadas de hospitais públicos (cujas verbas foram subtraídas em esquemas ominosos), na educação precária (regada à retórica inflada), na infra-estrutura totalmente comprometida[9]. Como não pensar, testemunhando as infinitas vezes em que a governança e a legislação passam a mãos corruptas e desprezíveis, no lamento apocalíptico da viúva de Eduardo IV: “Bem-vindos, sangue, destruição e morte!”?

“Que mundo é o nosso! Quem será tão tolo

Que não veja um palpável artifício?

Mas quem terá coragem pra dizê-lo?

O mundo é mau; e tudo está perdido

Se dizer a verdade é proibido.”[10]

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[1] Utilizo a tradução de Ana Amélia Carneiro de Mendonça, publicada pela Nova Fronteira, em 1993 (num volume reunindo Ricardo III/Henrique V; este última traduzida por Bárbara Heliodora, filha da primeira).

Carlos Alberto Nunes traduz assim o trecho:

“Medo de quê? Não há ninguém por perto.

Ricardo ama Ricardo; eu sou eu mesmo.

Haverá aqui dentro um criminoso?

Não… Sim: eu próprio. Então, foge depressa.

Mas, fugir de mim mesmo? Justifica-se:

Poderia vingar-me. Como! Eu próprio

De mim tomar vingança? Amo-me muito.

Por quê?…”  (tenho em mãos A tragédia do Rei Ricardo III, volume XX da Coleção Shakespeare da Melhoramentos, s/d; mas atualmente essa tradução da peça está num dos três volumes reunindo a mesma coleção, editado pela Agir).

Beatriz Viégas-Faria traduz em prosa:

“Tenho medo do quê? De mim mesmo? Não tem mais ninguém aqui? Não. Sim, sou eu! Então fuja. Mas, o quê, de mim mesmo? É um bom motivo para que eu não me vingue? Mas, o quê, vingar-me eu de mim mesmo? Ai de mim, eu me amo. Mas, por quê?…” (há uma edição em separado dessa tradução, na coleção Pocket da L&PM, mas uso –da mesma editora—o volume William Shakespeare-Obras escolhidas. 2008).

Um dos maiores entusiastas shakesperianos, Harold Bloom, detesta essa passagem: para ele é uma tentativa canhestra, com péssimos versos, de introspecção, mostrando como o bardo ainda era imaturo na época em que os escreveu (“Não consigo me lembrar de qualquer outro trecho, nem mesmo no clamor entediante que predomina em Henrique VI, em que Shakespeare seja tão inepto”; no seu entender, Ricardo é mais uma hábil caricatura, com apelo peculiar ao público, daí o fracasso na tentativa de transformá-lo em “personagem dotado de introspecção psicológica”; ao fim e ao cabo, “A grande originalidade de Ricardo III, que resgata essa peça tão pesada e tão longa, não é bem o personagem de Ricardo em si mesmo, mas a surpreendente intimidade que o herói-vilão consegue firmar com o público”; cf. Shakespeare- A invenção do humano, em tradução de José Roberto O´Shea, Objetiva, 2000).

Concordo plenamente que a peça é pesada e longa, e que os personagens chegam a tagarelar demais. Penso, todavia, que há algo de muito intrigante (se levarmos em conta Freud) nesse esboço de introspecção exercitado em Ricardo, que antecipa em séculos as agonias experimentadas pelo William Wilson de Poe, no desdobramento da sua personalidade em consciência e impulso (e todo o narcisismo: “Ricardo ama Ricardo”). Pode ser canhestro. Também é fecundo. São passos da “invenção do humano”

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[2] E mesmo Henrique IV, que Bloom adora, especialmente por causa do personagem Falstaff, é um tanto quanto chata.

[3] “(…) eu, que me acho/falto de proporção, logrado em tudo/ por uma natureza enganadora/ deformado, incompleto, antes do tempo/lançado ao mundo vivo, apenas feito/ pela metade, tão monstruoso e feio/ que os cães me ladram, se por eles passo (…)/determino/conduzir-me qual biltre rematado/e odiar os vãos prazeres de nossa época. Por meio de conjuras, arriscadas/insinuações…” (Carlos Alberto Nunes).

“(…) eu, que fui deserdado de belas proporções, roubado de uma forma exterior por natureza dissimuladora, foi com deformidades, inacabado e antes do tempo que me puseram neste mundo que respira, feito mal-e-mal pela metade, e esta metade tão imperfeita, informe e tosca que os cachorros começam a latir para mim se me paro ao lado deles (…) estou decidido a agir como um canalha e detestar os prazeres fáceis dos dias de hoje. Divisei planos e armei perigosos preparativos…” (Beatriz Viégas-Faria)

De passagem, note-se que, na tradução de Ana Amélia Carneiro de Mendonça, o já proverbial “the winter of our discontent”, na abertura da fala e da peça, tradicionalmente traduzido como “o inverno do nosso descontentamento” ou “o inverno da nossa desesperança”, foi vertido como “inverno de nosso desgosto”.

[4] Como prova, leitor, as falas dos filhos de Clarence—o irmão assassinado de uma forma grotesca a mando de Ricardo—, dirigindo-se à tia, rainha Elizabeth:

FILHO- Minha tia, não chorastes nosso pai.

              Como podemos chorar convosco.

FILHA- Nossa orfandade não vos trouxe prantos.

            Seja vossa viuvez também sem lágrimas.

[5] O personagem menos antipático da peça, e cujo sonho, antes de morrer, é, para Bloom, um ponto alto da peça, no sentido poético. Eu, de minha parte, exaltaria mais o humor negro que envolve a figura dos dois assassinos, cujo diálogo antes do crime é burlesco e sinistro (e em estilo prosaico):

PRIMEIRO ASSASSINO- O que é isso, está com medo?

SEGUNDO ASSASSINO- Não de matá-lo, pois tenho aqui a ordem para fazê-lo; mas de ser condenado aos infernos por fazê-lo, contra o que não há ordem que me defenda.

PRIMEIRO ASSASSINO- Pensei que já estava resolvido

SEGUNDO ASSASSINO- E estou, mas a deixá-lo viver.

PRIMEIRO ASSASSINO- Então eu volto para contar ao duque de Gloster [Ricardo]

SEGUNDO ASSASSINO- Espere um pouco; tenho esperança de que esse acesso de emoção desapareça logo. Em geral só agüenta até eu contar vinte.

PRIMEIRO ASSASSINO- Como é que está se sentindo agora?

SEGUNDO ASSASSINO- Ainda estou sentindo uns restinhos de consciência dentro de mim.

PRIMEIRO ASSASSINO-Lembre-se da recompensa depois do serviço.

SEGUNDO ASSASSINO- Raios! Ele morre. Eu tinha esquecido a recompensa.

PRIMEIRO ASSASSINO- Onde é que está sua consciência?

SEGUNDO ASSASSINO- Na bolsa do duque de Gloucester.”

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[6] Gosto muito da retórica de perfídia de Ricardo (e a sua manipulação da cumplicidade), como no momento em que ele sugere o assassinato dos filhos do rei a Buckingham:

RICARDO- Ai, Buckingham, agora vou pedir-te

                      A prova de que és mesmo ouro de lei;

                       O pequenino Eduardo inda está vivo.

                       Pensa agora o que eu quero te dizer.

BUCKINGHAM-  Diga-o, senhor.

RICARDO- Eu quero ser o rei.

BUCKINGHAM- Mas já o é, meu glorioso amo.

RICARDO- Sou, é verdade. Mas Eduardo vive.

BUCKINGHAM- Certo, meu nobre príncipe.

RICARDO- Ó desgraça

                      Que Eduardo esteja vivo! É a verdade!

                      Meu primo, tu não eras tão opaco:

                      Devo ser claro?—Eu quero que os bastardos

                      Morram; e quero tudo bem depressa.

                      Que dizes tu? Fala depressa e claro.

BUCKINGHAM- Sua Alteza fará o que quiser.

RICARDO- Vejo que está gelado o teu afeto.

                      Diz: tu consentes que eles sejam mortos?

BUCKINGHAM- Um momento, senhor, dê-me uma pausa

                               Antes que eu manifeste a minha ideia:

                               Eu lhe darei depressa uma resposta. (SAI)

CATESBY (à parte, a um outro) O rei está zangado, morde os lábios.

RICARDO- Quero falar com loucos e rapazes

                     De cabeça de ferro: não me agradam

                     Os que me dão olhares ponderados.

                      O duque está ficando ponderado…”

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[7] E aqui,como mais adiante, mais uma vez minha percepção da peça contrasta sensivelmente com a de Harold Bloom:

“Outro ponto fraco de Ricardo III é Margaret, viúva de Henrique VI, para quem Shakespeare foi incapaz de escrever um único verso decente. Uma vez que Ricardo III é exageradamente longa, Shakespeare teria se saído bem melhor caso dispensasse a tagarela Margaret, que só faz praguejar.”

   Como explico na minha resenha, acho o “praguejar” de Margaret um princípio estruturador e coesivo de uma trama que, sem ele, seria muito mais dispersa e inextricável.

[8]DUQUESA DE YORK- O embuste pode usar formas amáveis

                           E a face da virtude esconde o vício!

                           É meu filho, aí ´stá minha vergonha,

                           Embora de meu peito não herdasse

                           Tanta maldade.

Meu ilustre companheiro de travessia por Ricardo III, Harold Bloom acha as falas, o carpir todo dessa mulherada, algo sentencioso e reprovável do ponto de vista poético e dramático: “Na verdade, a peça é um pesadelo para qualquer atriz, pois nenhum dos papéis femininos é encenável, seja o da pobre Anne, seduzida por Ricardo através do terror; o de Elizabeth, viúva de Eduardo IV, ou o da Duquesa de York, mãe de Ricardo. O máximo que Shakespeare permite a tais personagens é declamar versos, como se as falas bombásticas de Margaret houvessem estabelecido um novo estilo dramático…” A meu ver, sem essa participação das mulheres, a peça seria muito mais desinteressante (como bem diz a Duquesa de York: “Por que é que a dor é rica de palavras?”), embora seja difícil realmente imaginar o “tom” a ser adotado no palco, sem cair no histrionismo excessivo ou no ridículo.

[9] Incidentalmente, também creio que seja útil apontar que as cenas dos cidadãos, comentando os acontecimentos “palacianos” evocam o topos do “mundo virado do avesso”, que parece ser uma sensação do senso comum, em qualquer época:

SEGUNDO CIDADÃO- Más notícias, por Deus nunca vêm boas:

                                           Tenho medo que o mundo esteja louco.

E mesmo em seu carpir, as personagens nobres ampliam essa perspectiva, como na seguinte fala da Duquesa de York: “E depois de seguros, superadas/ As domésticas rixas, eles mesmos/ Conquistadores, se guerrearam todos/ Irmão co´o próprio irmão, sangue com sangue/ Um contra o outro; ó coisa indigna e horrível:/ Cessa de vez com isso, ultraje absurdo/ Ou deixa-me morrer, fugindo à morte!”

[10] “Belo mundo, realmente! Quem seria

tão bronco que não visse tal embuste?

Mas quem tão corajoso que o declare?

Péssimo é o mundo, e acabará em nada

porque tamanha infâmia é tolerada.” (Carlos Alberto Nunes)

“Belo mundo, este em que vivemos! Quem pode ser tão obtuso a ponto de não ver artimanha assim palpável? Mas, por outro lado, quem seria peitudo a ponto de dizer que está vendo? Porcaria de mundo, e tudo vai dar em nada, já que uma falcatrua dessas somos forçados a reconhecer apenas em pensamento.” (Beatriz Viégas-Faria)

VER TAMBÉM NO NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2010/12/03/a-mulher-negra-o-homem-dourado-e-o-malabarista-de-palavras/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/02/tres-comentarios-sobre-rei-lear/

https://armonte.wordpress.com/2010/12/04/hamlet-generico/

https://armonte.wordpress.com/2010/08/10/o-bloomshakespeare/

https://armonte.wordpress.com/2010/12/05/o-contexto-de-shakespeare-sob-o-signo-da-peste/

https://armonte.wordpress.com/2011/04/17/os-personagens-de-shakespeare-em-quatro-atos-longos-e-um-quinto-ato-curto/

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Ricardo III

10/03/2013

NOITE DE REIS: Os “humores” humanos (sangue, bílis, linfa, fleuma) na comédia maluca de Shakespeare

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 09 de abril de 2005)

Depois de fazer justiça ao trabalho de fôlego de Barbara Heliodora  no sábado passado, convém lembrar que outra tradutora de Shakespeare, Beatriz Viégas-Faria, já tem uma respeitável lista de títulos nos últimos anos: entre outros, Macbeth, Otelo, Romeu e Julieta, Sonho de uma noite de verão, Muito barulho por nada,  Júlio César; sendo  Noite de Reis um dos mais recentes. A versão de Heliodora, por sua vez, acaba de ser lançada pela Lacerda.

Embora um Bobo, Feste, tenha grande importância em Noite de Reis, e paire “loucura” no ar, estamos longe de Rei Lear. Trata-se de uma mascarada, de uma fantasia brincando com o amor e a identidade sexual. A Corte (de Elizabeth I e Jaime I)  tinha por hábito usar o teatro como diversão no período subseqüente ao Natal, culminando com a 12ª noite, daí o título original.

Na comédia maluca de Noite de Reis o casal de gêmeos, Sebastian e Viola, é vítima de um naufrágio e os dois chegam, separados dessa forma, à Ilíria, na qual Orsino, o Duque, corteja em vão a Condessa Olívia.  Viola disfarça-se de homem e passa a servir Orsino (por quem se apaixona), inclusive como intermediário entre ele e a esquiva Olívia (que se apaixona por Viola enquanto rapaz). Quando Sebastian aparece, uma série de confusões se estabelece porque todos o tomam pela irmã. Um dos momentos mais engraçados acontece quando  Sir Andrew Aguecheek, ridículo pretendente de Olívia, o encontra na rua e o esbofeteia. Ao revidar, Sebastian pensa: “Serão todos loucos ?”, pergunta nada exagerada, pois logo a seguir ele é levado para a Igreja por Olívia, a quem nunca vira  a fim de celebrar o noivado.

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A personagem mais famosa da peça é Malvólio, um puritano afetado, vítima de uma  trama de serviçais e parentes de Olívia: ele fica convencido de que sua patroa  está apaixonada por ele e é tido como lunático. Como bem observou Harold Bloom, o que torna interessante Malvólio (e define a atmosfera de Noite de Reis) é que ele sonha “a ponto de distorcer a sua própria noção de realidade, permitindo, assim, que Maria lhe perceba a natureza e contra ele arme uma cilada”. O mesmo Bloom  mostra que Feste, o Bobo, é o único personagem sensato nessa comédia desvairada. Todos, tocados pelo amor, ou confundindo o amor com outra coisa (mania de grandeza, interesse material) piram, saem dos eixos, traem suas naturezas e suas vontades racionais. Shakespeare também se vale comicamente de uma teoria predominante em sua época: de que o homem é escravo dos seus “humores” (sangue, bílis, linfa, fleuma) e que eles definem seu temperamento.

Apesar da sua agora já extensa intimidade com Shakespeare, Beatriz Viéga-Faria ainda se contenta em nos dar paráfrases das falas, sem arriscar vôos poéticos ou cômicos. Acostumado durante anos com as  traduções de Carlos Alberto Nunes (e  olhe que elas já foram muito criticadas), é difícil ver uma passagem como esta, por exemplo (em que Orsino se declara à Viola), “Vosso dono vos deixa, e em pagamento / dos serviços de prol que lhe prestastes / contra a disposição de vosso sexo / e a ternura que em tudo vos é própria / já que tanto tempo me chamastes / de Senhor, minha mão ora aqui tendes / de ora avante és a dona de teu dono, virar isso: “O seu amo não precisará de seus serviços. E, pelo trabalho prestado, tão contrário às aptidões de seu sexo, tão abaixo de sua criação nobre e delicada,  e dado que você me chamou de mestre por tanto tempo, eis aqui a minha mão: a partir de agora, você é a dona de seu mestre, senhora de seu senhor”. É tudo igual, mas como tudo muda! Se para melhor ou pior, depende do leitor.

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05/08/2011

A BALANÇA ALEATÓRIA DO DESTINO (e o nosso pesar, partidário, por Heitor de Tróia)

PRIMEIRA PARTE (resenha publicada originalmente em A TRIBUNA  de Santos, em 25 de maio de 2004)

“…A sangueira encharca o solo. Desde

o amanhecer, até que cresça o dia sagrado

lanças golpeiam, de uma e de outra parte. Tomba

a gente . Quando o sol ascende a meio-céu,

o Croníade, soerguendo a balança dourada,

coloca em cada prato uma das torvas Queres

longa-lutuosa morte, a dos Troianos, doma-

corcéis; a dos Aqueus, vestes-brônzeas. Librou-a

segura bem no centro; cai, aziago, o dia

dos Aqueus, cuja Moira pousou na fertílima

terra, a dos Tróicos sobe aos céus…” (CANTO VIII, vv. 65-75)

Além de Tróia, a redução hollywoodiana da ILÍADA, o brasileiro tem à sua disposição nova versão do épico de Homero, composto provavelmente entre os séculos IX e VIII a.C. Depois das traduções importantíssimas de Odorico Mendes e Carlos Alberto Nunes, a de Haroldo de Campos (lançada em dois volumes pela ARX, e da qual tivéramos amostras em A ira de Aquiles e Os nomes e os navios) mostra qualidades de concisão e precisão que faltam às vezes na de Nunes (a qual, no entanto, é fantástica), e uma clareza e legibilidade que faltam na de Mendes (que é um desafio de leitura, quase como se estivéssemos lendo outra língua). O único senão é que, na capa, o nome do tradutor  aparece com mais destaque do que o do autor!

O primeiro volume traz 12 dos 24 cantos. Em 7.589 versos, mostra-se como, no nono ano do cerco a Ílion (Tróia), Aquiles e o chefe das tropas gregas,Agamêmnon, desentendem-se por causa de uma presa de guerra (Briseida), o que causa a célebre ira de Aquiles e sua retirada da guerra.

Sua mãe imortal, Tétis, pede a Zeus que os gregos sejam prejudicados até que se honre o filho como devido. Palas Atena e Hera, todavia, são favoráveis aos gregos e várias celeumas e picuinhas ocorrem no Olimpo até que Zeus, o Croníade, decreta que nenhum imortal deve participar das batalhas e ele mesmo passa a manipular o destino do combate, fazendo com que Héctor (assim aparece na tradução de Campos, contrariando a tradição, que sempre o nomeou como Heitor), o chefe dos troianos (e irmão de Páris, que raptou Helena de Menelau, começando a guerra), quase consiga destruir o exército grego, acercando-se dos navios invasores, os quais ele pretende incendiar.

Ler a ILÍADA é uma experiência cultural estranha a princípio, até incômoda, e que depois se mostra cada vez mais apaixonante (ainda mais se somos servidos por traduções como as de Nunes & Campos).

Por que a estranheza? É difícil nos acostumarmos com uma narrativa sobre o embate de dois lados e nenhum deles ser colocado como o certo, como aquele com o qual devemos nos identificar.

Troianos e gregos, cada lado tem razão, cada exército tem seus heróis valorosos e honrados. Héctor e Enéias equivalem-se a Aquiles, Odisseu (Ulisses), Diomedes ou Ájax. O rei Príamo tem tanta dignidade quanto Néstor, o conselheiro dos gregos. O que importa é ser favorecido pelos Deuses. Pode ser Diomedes, quando Palas Atenas o protege em combate, pode ser o próprio Zeus, influenciando as ações de Héctor. Nenhuma outra obra conseguiu captar tão bem a arbitrariedade do destino, encarnando-a em potências transcendentes. A guerra de Tróia é o palco do jogo do fado, da música do acaso, representada muito bem pela balança de Zeus, que aparece na passagem de abertura deste meu texto. Não é por acaso (sem trocadilho) que os heróis evidenciam um sentimento tão profundo da precariedade da vida (Agamêmnon diz, no canto IX, de Hades, que representa a morte: “para os mortais, é o mais odioso Deus”); não é por acaso que eles se agarram tanto aos prazeres mais sensoriais, seja comer e beber, e aos mais violentos, como matar e despojar os inimigos das suas posses valiosas. A única coisa que conta é viver, prevalecer e, se possível, perdurar após a morte, através da Fama (mesmo por um “sinistro fado”, como Helena  diz a Héctor, sabendo que ela e Páris causaram tantas desgraças, “para que, ambos, sejamos tema dos vates vindouros”).

Na ILÍADA vemos a tão falada natureza humana sem disfarces. Por isso, o incômodo nas primeiras abordagens do texto. Ájax repreende Aquiles por não aceitar ofertas de Agamêmnon com uma visão bem pragmática:

“…No entanto a morte do filho

ou do irmão, o ofensor pode pagar o resgate

condigno  e ficar na pátria, apaziguando

o coração e o orgulho do ofendido. A ti

porém, os deuses infundiram mal-volente

fereza de ânimo em razão de uma, uma única moça

e nós te oferecemos sete,entre as mais

belas e muitos outros dons…”

E é essa consciência da instabilidade da existência que dá azo a uma passagem reveladora, maravilhosa e até engraçada do canto X: na véspera de serem possivelmente massacrados por Héctor, e sabendo disso, os chefes gregos compartilham um repasto magnífico (e os emissários que procuram Aquiles ainda usufruem outro). A seguir, vão dormir! No meio da noite, Agamêmnon, Menelau e o sábio Néstor decidem acordá-los e Odisseu diz a este último, que o tira do “doce sono”: “Que grande afã vos move?” Isto é o que se pode chamar de despreocupação!

SEGUNDA PARTE (resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em primeiro de junho de 2004)

“… Zeus tomou da áurea balança

em cada prato pôs uma Quere mortífera

esta para o Aquileu, aquela para o doma-

corcéis; librando-a pelo meio ela declina

soa, para Héctor, o dia aziago: ruma para o Hades…”

(CANTO XXII, vv. 210-214)

Como na seção anterior, o assunto é a memorável tradução de Haroldo de Campos para a ILÍADA, mas agora tratando dos 12 cantos do segundo volume: 8.104 versos.

Pela citação de abertura, vê-se que a sorte da guerra mudou: entre os triunfos de Héctor está a morte de Pátroclo (a luta pelo cadáver do amante de Aquiles é um momento incrível, que só encontra paralelo numa disputa macabra similar pelo corpo de Sarpédon, filho de Zeus; este, favorável aos troianos).

Desta forma, urde-se o destino previsto no canto XV:

“Que Héctor afugente uma vez mais os Aqueus

desfibrados de medo, e que a fuga os arraste

às naves multirremes de Aquiles Peleide

que instigará o amigo Pátroclo, a quem Héctor

faiscante, de um lançaço abaterá defronte

a Ílion, tendo antes morto a muitos mais (Sarpédon

meu florescente filho, incluso). Irado, Aquiles

vingando o  amigo, acabará com Héctor…” (vv. 62-69)

Os acontecimentos humanos continuam provocando controvérsias entre os deuses, tanto que Hera (favorável aos gregos) chega a seduzir Zeus e adormecê-lo para que ele não impeça a intervenção de Posêidon. Ela não é a única a se valer de táticas insidiosas e desprezíveis (Apolo prejudica Pátroclo e Palas Atena cria o estratagema  que levará Héctor a uma morte solitária).

No canto XX, depois de um tempo de interdição, Zeus permite que os imortais desçam a Ílion:

“Ficarei no alto Olimpo, apreciando o espetáculo

de um píncaro. Vós outros, porém, misturai-vos

a Gregos e Troianos, a estes ou àqueles

a gosto, socorrendo (…)

Retumba a terra. O céu troveja

Zeus no alto ouvia. E pôs-se a rir, de coração

gozando ao ver os deuses que travavam luta.”

O momento mais impressionante dessa interferência sobrenatural talvez seja aquele em que o rio Xanto-Escamandro, ressentido com Aquiles por conspurcá-lo com cadáveres troianos, tenta afogá-lo por meio de uma inundação, sendo detido por Hefesto, filho de Hera (o qual, em outro momento extraordinário, confecciona a pedido de Tétis, mãe de Aquiles, uma armadura de guerra indestrutível para o “funesto herói”).

Ao contrário do que se costuma pensar, o ardil do cavalo de madeira não faz parte da ILÍADA. O poema tem seu clímax no Canto XXII, com a morte de Héctor (nele, também, começa a crescer a figura tragicamente imponente de seu pai, o rei Príamo). É Héctor quem detém o pathos trágico em meio às peripécias épicas.

Pátroclo é uma vítima do jogo do destino (é preciso que ele morra para Aquiles voltar ao conflito e seja, enfim, honrado pelos gregos como devido, após a ofensa de Agamêmnon); o arrogante Peleide tem consciência de que, mesmo gerado por uma deusa, seu destino é morrer prematuramente, sem voltar ao seu cantão natal, e essa é a pedra-de-toque para que ele insista na manutenção da sua imagem heróica, cuidando de sua Fama e Glória. Héctor, em contrapartida, carrega consigo o fardo de ser o baluarte de uma cidade condenada. Desde o início, cerca-o uma atmosfera de “morto que ainda habita os vivos”. Já no canto VI (n primeiro volume) lê-se: “…Na mansão de Héctor-ainda vivo—choram por Héctor…” (na versão de Carlos Alberto Nunes: “…Na própria casa de Heitor, ainda vivo, por morto o choravam…”; na de Odorico Mendes: “… o pranteiam vivo”).

No meio da batalha, o poeta nos antecipa:

“Restava-lhe de vida apenas um lapso mínimo

Palas Atena já o empurrava para a Moira

mortal, pelo vigor de Aquiles subjugado…”

Toda a parte final (à exceção dos jogos fúnebres como preito a Pátroclo) centraliza-se no resgate do seu corpo, que Aquiles insiste em ultrajar (após admirar a sua beleza, caído no chão, como também o fazem os demais combatentes gregos), até que contraria os próprios deuses, o que dá ensejo ao surpreendente canto final, no qual Príamo vai à sua tenda implorar pelos despojos do filho, e que tem uma grandeza que só seria vista novamente em Shakespeare. O próprio Aquiles cresce como figura humana. Príamo diz a ele:

“Lembra teu pai: mais piedade mereço

por fazer o que não fez outro homem nenhum

beijar, levando-a à boca, a mão que assassinou-me

o filho…” (CANTO XXIV, vv. 504-507)

Hera chega a reclamar da preocupação geral com Héctor:

“… Justa será tua palavra

se os Numes atribuíssem honra igual a Aquiles

e a Héctor ? Mortal, em peito de mulher mamou

Héctor. Mas o Aquileu é filho de uma deusa…”

Zeus replica:

“…Honras

maiores, sim, merece Aquiles; porém, Héctor

era, entre os mortais de Ílion, o mais caro aos céus…”

Após 15.693 versos, ele se tornou o mais caro ao leitor também.

ANEXO

Como fiz com Antígona (VER https://armonte.wordpress.com/2011/08/05/tudo-o-que-exorbita/), colocarei para os interessados uma mostra de cada uma das três grandes traduções da ILÍADA. Entre parênteses, a editora que as publicou por último: escolhi a passagem do CANTO I em que Tétis vai se queixar a Zeus:

1)    ODORICO MENDES(Ateliê Editorial, Editora Unicamp), tradução de 1874:

“Sempre enfadado nos baixeis, o ardente

Generoso Pelides na assembléia

De heróis não comparece ou nas batalhas;

Do ócio porém seu coração ralado,

Almeja o alarma e pela guerra brame.

Ao duodécimo dia, à casa etérea,

Em testa Jove, os numes se encaminham.

Dos mares Tétis, sem que olvide o filho,

Surgindo matutina, ali se alteia;

Semoto encontra o providente Padre

No fastígio do Olimpo cumioso;

Pára, da sestra prende-lhe os joelhos,

Da destra o mento afaga, e assim lhe implora:

Se entre os imortais, senhor, te fui profícua

Por dito e ação, preenche-me este voto:

Orna o meu filho a vida, já que é breve;

Que o rei possante o assoberbou de insultos

E retém-lhe o só prêmio. Glorifica-o,

Ó pai celeste; aos Frígios dá vitória,

Té que de honras os Dânaos o acumulem.

O anuviador calou-se, e ela mais insta:

Pois que receias? ou concede ou nega;

Que a deusa ínfima sou prove-te agora.

Do imo geme o Tonante: É mau que incites

A com seus ralhos molestar-me Juno,

Que, assídua em me aturdir perante os numes,

Desses Troianos parcial me acusa.

Vai-te, ela não te enxergue. A mim o tomo:

Do certíssimo aceno entre as deidades,

Selo à minha promessa irrevogável.”

2)    A de Carlos Alberto Nunes (Ediouro):

“Junto da nave ligeira, entretanto, se achava agastado

o divo Aquiles, de céleres pés, de Peleu descendente,

sem freqüentar a assembléia, onde os homens de glória se cobrem,

nem tomar parte nas lutas. Ralado de fundo despeito,

só pelos gritos de guerra e sangrentos combates ansiava.

Quando a dozena manhã prometida raiou matutina,

para o Olimpo voltaram os deuses de vida perene,

todos, com Zeus grande à frente. Não pôde do filho esquecer-se

Tetis, do que lhe pedira; emergindo das ondas marinhas,

em névoa envolta, ao céu subiu e ao Olimpo altanado,

onde foi dar com o filho de Crono, que ao longe discerne,

dos demais deuses à parte,  no pico mais alto do monte.

Ao lado dele assentando-se, passa-lhe em torno dos joelhos

o braço esquerdo, e, tomando-lhe o queixo na destra, afagando-o,

desta maneira a Zeus grande, nascido de Crono, suplica:

Se já algum dia, Zeus, pai, te fui grata entre os deuses eternos,

seja por meio de ações ou palavras, atende-me agora:

honra concede ao meu filho, fadado a tão curta existência,

a quem o Atrida Agamémnone, rei poderoso, de ultraje

inominável cobriu: de seu prêmio, ora, ufano, se goza.

Compensação lhe concede por isso, Zeus, sábio e  potente;

presta aos Troianos o máximo  apoio, até quando os Acaios

a distingui-lo retornem e de honras condignas o cerquem.

Nada lhe disse, em resposta, Zeus grande, que as nuvens cumula.

Quedo e silente ficou. Tétis, logo, lhe os joelhos abraça

mais firmemente, insistindo outra vez no primeiro pedido:

Abertamente concede, ou recusa o que venho pedir-te,

pois desconheces o medo. Que obtenha, desta arte, a certeza

de que, em verdade, entre os deuses eu sou a que menos distingues.

Muito abalado lhe diz Zeus potente que as nuvens cumula:

Coisa mui grave me pedes, que vai contra mim chamar o ódio

de Hera, que tem por costume irritar-me com ditos molestos,

té sem motivo lhe apraz, entre os numes eternos, lançar-me

acusações, com dizer-me parcial, nesta guerra, aos Troianos.

Trata de ir logo daqui: não suceda que sejas por ela

reconhecida, que tomo ao meu cargo fazer o que pedes.”

3) HAROLDO DE CAMPOS (editora ARX):

“… A ira o roendo à beira de suas naves rápidas,

sentava-se o Peleio Aquiles, pés-velozes,

nem a glória da ágora o atraía agora,

nem a guerra. Ficava ali, o coração

pisado, ansiando pelos gritos de combate.

Mas assim que surgiu a aurora duodécima,

Os deuses sempiternos voltam para o Olimpo,

à frente deles, Zeus. E Tétis não esquece

o pedido do filho. Sai da onda marinha.

Qual bruma da manhã se eleva ao grande céu.

O Satúrneo, voz forte, encontra-o, separado

dos outros, no mais alto píncaro do Olimpo.

senta-se ao lado dele; abraça-lhe os joelhos

pela esquerda, e afaga-lhe o queixo à mão direita.

Suplica então a Zeus, soberano Satúrneo:

Zeus, pai, se alguma vez a ti, entre imortais,

com palavras e obras te ajudei, atende

o que te peço. Aquiles, o que-a-Moira-espreita,

meu filho, honra-o. Fez-lhe duro insulto o rei,

Agamêmnon: tomou-lhe o prêmio e goza o roubo.

Vinga-o, senhor do Olimpo, Zeus prudente, dá

força aos troianos contra os Aqueus, até que

as honras, que a meu filho devem, restituam.

Assim falou. E Zeus, cumulado de nuvens,

nada lhe respondeu. Assentado, calava-se.

Tétis, colado a seus joelhos, insistiu:

Promete-me, Infalível, ou recusa-me algo.

Não conheces o medo. Sim ou não, acena-me

que eu saiba quanto sou desonrada entre os deuses.

Cumulado de nuvens, Zeus responde aflito:

Funesto assunto!Vai-me inimizar com Hdera,

quando me irrite e afronte com palavras duras.

Ela, entre os imortais, sempre me acusa, injusta,

de ajudar no combate aos guerreiros troianos.

Afasta-te, daqui, agora. Que Hera nada

perceba. Cabe a mim dar às coisas seu rumo…”

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