MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

08/07/2013

O introvertido junguiano na ótica de Saul Bellow

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 07 de setembro de 1999)

Sempre que leio um texto de  Saul Bellow me vem à mente uma frase do monumental Tipos Psicológicos (um livro que poucas pessoas se animam a ler, o que é uma pena, pois é uma experiência extraordinária), de Jung: “…o que tende para fora tem de viver o seu mito,o que tende para dentro sonhará seu meio ambiente, a chamada vida real” (o que tende para fora= extrovertido; o que tende para dentro= introvertido).

A chamada vida real geralmente vem cobrar seu preço aos introvertidos protagonistas do autor de The actual- Presença de mulher (1997)—em tradução de Lia Wyler—,quebrando a auto-complacência deles de encontro aos aspectos mais sórdidos e degradantes da nossa existência, envolvendo-os em adultérios, divórcios, crimes e outros pecados.

No caso do protagonista-narrador de The actual, Harry Trellman esse encontro com a chamada vida real e seus aspectos menos “elegantes”, por assim dizer, acontecerá tardiamente por causa da sua peculiar relação com um milionário, Sigmund Adletsky, que utiliza em seu próprio proveito as observações de Trellman sobre o comportamento do rarefeito círculo de pessoas que eles conhecem.

Trellman, ao longo de sua vida, manteve-se apaixonado por Amy Wustrin (a qual casou com Jay, melhor amigo dele) e, a certa altura dos acontecimentos, ela começou a trabalhar para Adletsky, assessorando-o (como decoradora) na compra de imóveis.

A contraditória “presença” de Amy na vida de Trellman (realçada pelo mal escolhido título brasileiro) pode se constatada no seguinte trecho: “Objeto de amor seria o termo conveniente mais comum para indicar o que Amy se tornou para mim. Mas aonde isto leva? Suponhamos que, em lugar de dizer objeto de amor, disséssemos porta—que tipo de porta? Tem maçaneta, velha ou nova, lisa ou amassada, para onde abre? Investi nela meio século de sentimentos, fantasias, absorção, conversas imaginárias. Depois de quarenta anos de imaginação concentrada, sinto-me capaz de visualizá-la em qualquer momento de um determinado dia… Mas, uma vez, há uns dez anos, encontrei Amy inesperadamente e não a reconheci, a mulher com quem eu virtualmente mantinha um contato mental diário… Ela estava no mundo real. Eu não”.

O eixo do texto é um único dia, um dia gelado em Chicago, aquele em que Amy deve efetuar a transferência dos restos mortais do ex-marido (que comprara, numa brincadeira de mau-gosto, do pai dela, o túmulo ao lado da sogra). Antes, ela tem um compromisso com Adletsky, envolvido na compra de um novo apartamento. É ele quem sugere que Trellman faça companhia a Amy na sua desagradável tarefa no cemitério, possibilitando um dos mais inusitados pedidos de casamento da ficção.

E na narração desse dia de reencontro para Amy e Trellman emerge alguns desagradáveis  elementos que compõem a vida real, da qual ele sempre se sentiu “exilado” (mesmo em aparência: judeu, ele tem no entanto uma aparência “oriental”, lembrando para alguns um chinês e para Adletsky um japonês): Jay  Wustrin, o falecido, gravara as relações sexuais de Amy com um amante ocasional e usara as fitas no tribunal para deixá-la sem nada.

O apartamento cuja mobília Amy e Adletsky vão vistoriar e discutir o preço pertence ao casal Heisinger. Madge Heisinger tem no seu currículo anos de prisão como mandante da frustrada tentativa de homicídio contra o marido e pretende dar o dinheiro da venda para o amante que tentou efetivar o assassinato.

O próprio e finado Wustrin adorava mostrar a Trellman um marido cuja esposa ele já “traçara”. O início da curiosa ligação dangereuse entre Trellman e Adletsky teve como estímulo a discussão das humilhações sofridas por uma mulher distinta, Francis Jellicoe, que ambos admiram, em função da sua paixão por um marido imprestável que engravidara uma esquimó da Groenlândia…

Mesmo mantendo-se num plano quase ascético nessa área sentimental (ao contrário de alguns famosos protagonistas de Bellow, como os de Herzog & O legado de Humboldt), Trellman oculta certas irregularidades nos seus negócios que apenas ficam insinuadas na narrativa.

O toque de gênio de The actual, que evoca as maiores realizações do esplêndido autor de O planeta do Sr. Sammler, é que mostrando como o intrrovertido Trellman sonha a “vida real”, quase que a contragosto, ele também consegue mostrar os mitos que iludiram e tornaram teatral e falseada a vida de pessoas mais ajustadas, não-exiladas do jogo da existência social, como o próprio marido de Amy, e até ela mesma, como se pode constatar na cena em que Trellman não a reconhece na rua, apesar de ter pensado nela todos os dias durante décadas: “Para ela foi um golpe terrível… E quis dizer com isso que, se eu não a reconhecia, ela já não era a mesma pessoa. Ela, que anda se apresentava ou, como se diz, vendia a imagem que costumava ter, fora apanhada em uma impostura”.

Ou mais adiante: “Esta manhã Amy usava muita maquiagem, especialmente em torno dos olhos, onde precisava mais. Seu rosto redondo estava calmo, embora sua máquina de calcular interior estivesse funcionando em alta velocidade… era óbvio que ela ainda controlava a aparência; suas peculiaridades e faculdades estavam como reses no curral, sob suas vistas”.

22/03/2013

O LIVRO VERMELHO de Jung: “Assim falou Zaratustra”, “Imitação de Cristo”, “Divina Comédia” e “Interpretação dos sonhos” num mesmo pacote

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(o texto abaixo é uma versão resumida e alternativa à que eu propus à TRIBUNA de Santos e que foi publicada em 07 de junho de 2011; há, portanto, três versões: uma, bastante extensa, e que pode ser encontrada no blog:

https://armonte.wordpress.com/2013/03/22/forever-jung-o-cinquentenario-da-sua-morte-e-o-livro-vermelho/; uma intermediária, a que saiu em página inteira no referido jornal; e esta, no formato de uma resenha usual — preparada, caso A TRIBUNA não topasse minha proposta. Como foi lançada uma versão “light” pela Vozes do volume original, resolvi fazer o mesmo):

Em 6 de junho de 1961, morreu Carl Gustav Jung, o pioneiro que aproximou o tratamento psicanalítico das concepções orientais e abriu caminho no Ocidente para a proliferação das terapias alternativas, às vésperas dos seus 86 anos. Para marcar o evento, a editora Vozes lançou nova edição da sua Obra Completa , mas  o evento memorável desse cinqüentenário é a publicação de O Livro Vermelho, inclassificável e original texto que surgiu do confronto-mergulho de Jung com seu próprio inconsciente. Pena que a Vozes apostou mais no instinto de aquisição do que no instinto de leitura. Teria sido mais sábio lançar todo o luxuoso aparato fac-similar (maravilhoso), com o texto manuscrito, os desenhos, as mandalas, no formato gigante que foi adotado, e o texto traduzido num volume à parte, mais manipulável. Da maneira como ficou, torna-se quase impossível ler O Livro Vermelho sem riscos musculares. Eu me sentia como que saído do Monte Sinai, um Moisés carregando as (pesadíssimas) Tábuas da Lei. Tudo bem que é um mergulho nos mais recônditos arquétipos, mas exagerou-se na dose!

Em 1913, aos 38 anos, o grande pensador suíço estava em crise: rompera com Freud, do qual era o principal discípulo, e apesar de já ter publicado muito, ainda não dera corpo às concepções psíquico-místicas (arquétipos, inconsciente coletivo, princípio de individuação, animus e anima, o si mesmo, a sombra, os tipos psicológicos), que serão o fundamento da Psicologia Analítica junguiana. Por essa época, passou a ter uma série de visões, sonhos acordados, que para ele, posteriormente, se revelariam antevisões da Primeira Guerra. Isso significaria que havia uma conexão entre os símbolos da psique individual e os da coletividade.

Jung, então, desenvolveu um método chamado “imaginação ativa” , no qual deixava “falar” a sua “alma”, o seu eu interior, aceitando todos os seus conteúdos. Registrou o resultado  num caprichado volume, o Liber Novus, cujo formato lembra muito os manuscritos medievais (na reprodução fac-similar é uma festa para os olhos). Esse livro pessoal se tornou mítico, com a alcunha de O Livro Vermelho, e só recentemente os herdeiros permitiram sua publicação.

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Jung produziu uma mistura torva e inclassificável de Assim falou Zaratustra, Imitação de Cristo, A Divina Comédia e A Interpretação dos Sonhos, rompendo as fronteiras do místico, do literário, do filosófico e do alegórico-simbólico. Num processo de introversão, deixando de lado os compromissos da personalidade “exterior”, sua alma  vivencia um descenso (que também é uma ascensão, já que nesse ponto da psique os contrários se anulam), encontrando personagens enigmáticas, que representam partes cindidas do Eu (o profeta Elias e Salomé, por exemplo, “Logos” e “Eros” num mesmo contexto). O cadáver de um herói (Siegfried) aparece boiando já que ele implica um modelo a ser imitado, um ideal de perfeição e acabamento, e é preciso desatravancar o caminho e abolir as divisões: “Devo dizer que o Deus não podia vir a ser antes que o herói tivesse sido assassinado. O herói, como nós o entendemos, tornou-se o inimigo de Deus, pois o herói é perfeição… não haverá mais nenhum herói e ninguém que o possa imitar… O novo Deus ri da imitação e do seguimento de exemplo. Ele força a pessoa através Dele mesmo…” Assim vai nascendo a “função transcendente”, aquela que permite a colaboração dos conteúdos conscientes e inconscientes.

Ao contrário da interpretação dos sonhos freudiana, onde eles—por meio dos deslocamentos e disfarces—revelam de forma latente  o trabalho do inconsciente que seria preciso tornar manifesto e que remontaria a causas pretéritas, escondidas na infância individual, a escavação do onírico feita por Jung se volta mais para a revelação do futuro que se oculta nas dobras do imaginário. Não é á toa que anunciou o trabalho de toda uma vida.

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Serviço: O Livro Vermelho- Liber Novus (2009), de C.G. Jung (1875-1961). Tradução de Edgar Orth, Gentil A. Titton e Gustavo Barcellos, revista por Walter Boechat. Editora Vozes.

 

FOREVER JUNG: o cinqüentenário da sua morte e O LIVRO VERMELHO

“Todo tipo de coisas me desviam para longe de minha ciência à qual eu acreditava estar dedicado firmemente. Através dela, queria servir à humanidade, e agora, minha alma, tu me levas para essas coisas novas. Sim, o mundo do meio, intransitável, multiplamente cintilante. Esqueci que cheguei a um mundo novo, que antes me era estranho. Não vejo caminho nem trilha. Aqui deverá tornar-se verdade o que acreditei sobre a alma, que ela sabia melhor seu próprio caminho e que nenhum desígnio lhe poderia prescrever um caminho melhor. Sinto que é tirado um grande pedaço da ciência. Deve estar certo, por amor à alma e por amor à sua vida. Dolorosa é apenas a idéia de que isto só aconteceu para mim e que talvez ninguém  consiga tirar alguma luz daquilo que eu produzo. Mas minha alma exige esta produção. Devo poder dizê-lo também só para mim sem esperança—por amor a Deus. Deveras um caminho duro. Contudo, aqueles eremitas dos primeiros séculos cristãos—o que faziam de diferente? E eram, por acaso,as piores e mais imprestáveis pessoas que viviam naqueles tempos? De modo nenhum, pois eram aqueles que tiravam a mais inexorável conseqüência da necessidade psicológica de seu tempo. Eles deixavam mulher e filhos, riqueza, fama, ciência—e se dirigiam ao deserto—por amor a Deus. Assim seja.” (Carl Gustav Jung, Livro Negro 3)

(uma versão condensada do texto abaixo foi publicada em A TRIBUNA de Santos, em 07 de junho de 2011)

INTRODUÇÃO

Em O terceiro homem, de Carol Reed, o personagem de Orson Welles diz ao herói (Joseph Cotten) que as intrigas turbulentas e sanguinárias dos Bórgias e dos Médicis foram o pano-de-fundo  da Renascença, enquanto séculos de paz  na Suíça  criaram o quê? O relógio-cuco.

Em 6 de junho de 1961, às vésperas dos seus 86 anos (nasceu em 26 de julho de 1875) morreu Carl Gustav Jung, a maior refutação da pitoresca (embora divertida) hipótese ético-civilizatória do “terceiro homem”. O mais eminente suíço certamente não veio à Terra nem a passeio nem para espanar a poeira do relógio-cuco: foi o pioneiro que aproximou o tratamento psicanalítico das concepções orientais e abriu caminho no Ocidente para a proliferação das terapias alternativas e práticas meditativas como a ioga.

Eu, que sou um freudiano convicto, nunca tive prevenção contra Jung porque, depois de alguns livros que hoje sei serem “duvidosos” (porque na verdade não são de sua autoria), O homem e seus símbolos e Memórias, Sonhos, Reflexões[1], ainda muito novo “descobri” um precioso volume que, se formos rigorosos, também é uma contrafação, mas que conquista qualquer um para o universo das idéias junguianas. Para mim, durante um bom tempo, Jung foi O homem à descoberta de sua alma (com o subtítulo Estrutura e Funcionamento do Inconsciente). Por que se pode dizer que é uma contrafação como os outros dois? Trata-se de uma tradução portuguesa (da Tavares Martins, Porto, 1975)  de uma edição francesa organizada por Roland Cahen. Portanto, é café coado duas vezes. Mesmo assim, desafio qualquer um a dizer que não se trata de um livro fundamental para se descobrir por que Jung não se limitou a aperfeiçoar o relógio-cuco e a “paz” suíça. A leitura de James Hillman (que anda fora de moda ultimamente) também ajudou a estabelecer uma certa cristalização das idéias de Jung (hoje sei que Hillman representa apenas uma das inúmeras vertentes que foram adotadas a partir dessas idéias, mas quem tem noção dessas coisas quando se é um leitor onívoro de 20 anos?).

Também tive sorte no rol de obras de fato escritas por Jung. Comecei com o maravilhoso e apaixonante Tipos Psicológicos [2]. Eu não sou a pessoa mais sistemática do mundo e decerto o modo junguiano de expor suas idéias é uma loucura, mas acho que o leitor ganha muito com isso e o livro não é menos sólido por causa desse enviesamento teórico: por exemplo, ao invés de definir de vez não só os tipos psicológicos, como as funções a ele relacionadas (o pensar, o sentir, o intuir e o perceber), ele analisa vários personagens históricos e obras filosóficas e literárias (Jung seria um esplêndido teórico literário). Perde-se a clareza didática, mas é um ganho ao fim e ao cabo. E dali saiu um dos motes da minha vida:”…o que tende para fora tem de viver o seu mito, o que tende para dentro sonhará o seu meio ambiente, a chamada vida real”[3]

O LIVRO VERMELHO

Neste ano do cinqüentenário da morte de Jung, a editora Vozes lançou nova edição da sua Obra Completa (18 volumes subdivididos em 35[4]) Mas o evento memorável, de fato, é a publicação de O Livro Vermelho, o inclassificável e original texto que surgiu do confronto-mergulho de Jung com seu próprio inconsciente[5].

Pena que a Vozes apostou mais no instinto de aquisição do que no instinto de leitura. Teria sido mais sábio lançar todo o luxuoso aparato fac-similar (maravilhoso), com  o texto manuscrito, os desenhos, as mandalas, no formato gigantesco que foi adotado, e o texto traduzido num volume à parte, mais manipulável. Da maneira como ficou, torna-se quase impossível ler O Livro Vermelho sem sérios riscos musculares. Eu me sentia como que saído do Monte Sinai, um Moisés carregando as (pesadíssimas) Tábuas da Lei. Tudo bem que é um mergulho iniciático nos mais recônditos arquétipos, mas exagerou-se na dose!

Em 1913, aos 38 anos, apesar do prestígio e da estabilidade financeira (casara-se com uma mulher rica), o grande pensador suíço estava em crise: rompera com Freud, do qual era o principal discípulo, e apesar de já ter publicado muito, ainda não dera corpo às concepções psíquico-místicas (arquétipos, inconsciente coletivo, princípio de individuação, animus e anima, o si-mesmo, a sombra, os tipos psicológicos, a função transcendente, a sincronicidade), que serão o fundamento da Psicologia Analítica junguiana e representarão na prática clínica o mesmo que a Reforma significou para o cristianismo (todo mundo conhece a cisão entre psicanálise freudiana e psicanálise junguiana)[6].

Jung sempre tivera obsessão por fenômenos ocultistas e por manifestações do sobrenatural, e por essa época passou a ter uma série de visões, sonhos acordados, que para ele, posteriormente, se revelariam antevisões da Primeira Guerra. Isso significaria que havia uma conexão entre os símbolos da psique individual e os da coletividade.

Desenvolveu, então, um método chamado imaginação ativa (embora tenha chamado essa fase de sua vida de “doença criativa”), no qual deixava “falar” a sua “alma”, o seu eu interior, aceitando todos os seus conteúdos. Registrou o resultado em cadernos denominados Livros Negros e depois fez uma destilação, incluindo sua interpretação pessoal do que vivera, num caprichado volume, o Liber Novus,  cujo formato lembra muito os manuscritos medievais (na reprodução fac-similar é uma festa para os olhos), que foi muito trabalhado durante os anos seguintes, até que o interesse pela alquimia  o levou para outras direções. Esse livro pessoal se tornou mítico (tido como o manancial de onde brotaram os principais conceitos junguianos), com a alcunha de O Livro Vermelho, e só recentemente os herdeiros permitiram sua publicação.

Muitos consideram Jung um mistificador. Que imagem sai desse exercício de “imaginação ativa”?  Jung produziu uma mistura de Assim falou Zaratustra, Imitação de Cristo (no final, porém, ele condena a imitação porque ela anula a idéia de renovação, e o texto é basicamente anti-cristão), A Divina Comédia e A Interpretação dos Sonhos  e ópera wagneriana, rompendo as fronteiras do místico, do literário, do filosófico e do alegórico-simbólico, e também do bom e do mau gosto[7].

Nesse processo de introversão, deixando de lado os compromissos da personalidade “exterior”, a alma de Jung vivencia um descenso (que também é uma ascensão, já que nesse ponto da psique os contrários se anulam), encontrando personagens enigmáticas, que representam partes cindidas do Eu (o profeta Elias e Salomé, por exemplo, “Logos” e “Eros” num mesmo contexto). O cadáver de um herói (Siegfried) aparece boiando já que ele implica um modelo a ser imitado, um ideal de perfeição e acabamento, e é preciso desatravancar o caminho e abolir as divisões: “Devo dizer que o Deus não podia vir a ser antes que o herói tivesse sido assassinado. O herói, como nós o entendemos, tornou-se o inimigo de Deus, pois o herói é perfeição… não haverá mais nenhum herói e ninguém que o possa imitar. .. O novo Deus ri da imitação e do seguimento de exemplo. Ele força a pessoa através dele mesmo…O heróico em  ti é que és comandado pelo pensamento de que isso ou aquilo seja o bem, que esta ou aquela obra seja indispensável, que esta ou aquela coisa seja rejeitável, que este ou aquele objetivo deve ser alcançado pelo trabalho ambicionado lá adiante, que este ou aquele prazer deva ser reprimido por todos os meios e inexoravelmente.  Com isso pecas contra o não-poder…”

E assim vai nascendo a “função transcendente”, aquela que permite a colaboração dos conteúdos conscientes e inconscientes. E também vai se aclarando o “processo de individuação”, tão caro à psicologia junguiana. Devo dizer, contudo, que os embates da alma de Jung e o imaginário que daí emerge em O Livro Vermelho fornecem munição à visão crítica de Richard Noll, cujo O Culto de Jung é uma abordagem negativa do mestre suíço como liderança carismática e representante da mentalidade völkisch (culto aos antepassados teutônicos, insistência na supremacia germânica, fornecida pelas noções de geografia e raça)[8], que foi um componente psíquico que estimulou o desenvolvimento de uma mentalidade nazista.

Ao contrário da interpretação dos sonhos freudiana, onde eles—por  meio dos deslocamentos e disfarces—revelam de forma latente  o trabalho do inconsciente que seria preciso tornar manifesto e que remontaria a causas pretéritas, escondidas na infância individual, a escavação do onírico feita por Jung se volta mais para a revelação do futuro que se oculta nas dobras do imaginário. Não é á toa que anunciou o trabalho de toda uma vida.

Contudo, para encerrar esse meu breve passeio pelos bosques junguianos, escolho citar—até para provocar o escândalo do eu freudiano—uma reveladora passagem de O homem à descoberta de sua alma:

“Seria lastimável considerar como ilusório esse sistema imenso de experiências da psique inconsciente. O nosso corpo visível e tangível é também um sistema de experiências inteiramente comparável, que encerra ainda os traços dos desenvolvimentos das primeiras idades e forma, incontestavelmente, um conjunto sujeito a um fim: a vida, que, de outro modo, seria impossível.

   A ninguém ocorreria negar o grande valor da anatomia comparada ou da fisiologia. O estudo do inconsciente coletivo e a sua utilização como fonte de conhecimento não pode ser visto como ilusão. Sob um ponto de vista superficial, a alma parece-nos ser essencialmente o reflexo de processos exteriores, que dela seriam não somente as causas ocasionais, como sua origem primária. Do mesmo modo, o inconsciente, de início, não parece explicável senão do exterior, a partir do consciente. Sabemos que Freud, na sua psicologia, fez essa tentativa. Mas ela só poderia ter triunfado se o inconsciente fosse, de fato, um produto da existência individual e do consciente.  Todavia, o inconsciente preexiste sempre, sendo a disposição funcional herdada de idade em idade. A consciência é um rebento tardio da alma inconsciente… A velha psicologia, presciente do inestimável tesouro de experiências obscuras ocultas sob o limiar da consciência individual e efêmera, não considerou a alma do indivíduo senão na dependência de um sistema cósmico espiritual. Para ela, não era apenas uma hipótese, mas uma evidência manifesta que esse sistema representava uma entidade dotada de vontade e de consciência, até mesmo um ser, um ser a que chamou Deus e que se tornou a quintessência de toda a realidade. Deus era o ser mais real, a prima causa, graças à qual somente a alma podia ser explicada. Essa hipótese tem a sua razão de ser psicológica: qualificar de divino, em relação ao homem, um ser imortal, dotado de uma experiência eterna, não é totalmente injustificado. Assim se esboça a problemática de uma psicologia fundada não sobre a ordem física, como princípio explicativo, mas sobre um sistema espiritual, cujo primus movens não é nem ma matéria e as suas qualidades, nem um estado energético, mas Deus…

  …O estudo desse dilema e o desejo de o resolver conduziram-me à seguinte conclusão: o conflito entre a natureza e o espírito nada mais é do que a tradução da essência paradoxal da alma, a qual possui um aspecto físico e um aspecto espiritual que não parecem contradizer-se porque, em última análise, não lhe apreendemos a essência. Sempre que o entendimento humano quer apreender qualquer coisa que no fim das contas não compreende e não pode compreender, para captar alguns aspectos, submete-a a uma contradição e cinde-a em suas aparências opostas.

   O conflito entre o aspecto físico e o aspecto espiritual apenas prova que o psíquico é, na essência, qualquer coisa de inapreensível, e essa é a única experiência imediata. Tudo aquilo de faço experiência é psíquico, até a dor física, de que apenas experimento o reflexo psíquico. Todas as percepções dos meus sentidos, que me impõem um mundo de objetos espaciais e impenetráveis, são imagens psíquicas que representam a minha única experiência imediata, sendo essas imagens os únicos dados imediatos da minha consciência. A minha psique transforma e falsifica a realidade em proporções tais que é preciso recorrer a expedientes para verificar o que as coisas são fora de mim… Achamo-nos de tal modo envolvidos nas nossas imagens psíquicas que não podemos penetrar a natureza das coisas exteriores. Tudo aquilo de que adquirimos conhecimento é feito de materiais psíquicos. A psique é a entidade real no supremo grau…”


[1] O homem e seus símbolos apresenta uma série de ensaios e apenas o introdutório é de autoria de Jung, que o escreveu pouco antes de morrer; é hoje indiscutível que Jung está por trás do projeto mi(s)tificatório de Memórias, Sonhos, Reflexões, porém o texto final, afora a colher que editores e herdeiros meteram, é de responsabilidade da discípula Aniela Jaffé.

Ainda assim, os dois livros provavelmente vendem mais do que a obra junguiana propriamente dita.

Estabelecido esse ponto,  não dá para descartar nenhum dos dois. O ensaio de Jung em O homem e seus símbolos é uma ótima introdução às suas idéias, e quem negará o fascínio de Memórias, Sonhos, Reflexões, apesar dos seus aspectos irritantes e da sua dubiedade autoral?

[2]  Não na tradução publicada nas Obras Completas: eu trabalhei durante um ano, de 1984 a 1985, numa contabilidade, e ali, por sorte, havia uma biblioteca excelente, onde encontrei a tradução de Álvaro Cabral, editada pela Zahar. Li há pouco tempo a tradução das Obras Completas e a de Cabral ganha longe em expressividade e ao mesmo tempo clareza, apesar dos inúmeros erros de impressão. Mas isso é assunto para outro post.

[3] O leitor encontrará essa citação na pág. 207 da edição da Zahar, de 1974, e está no extraordinário capítulo em que ele analisa o Prometeu e Epimeteu  do nobelizado Carl Spitteler, comparando-o com os fragmentos do Prometeu goethiano. Antes, ele estudara as Cartas de Schiller onde este propugnava uma educação estética do homem, e também A Origem da Tragédia e os tipos apolíneo e dionisíaco de Nietzsche, sem contar as inúmeras referências às doutrinas e textos sagrados hindus e chineses.

[4] Na verdade, o correto seria Obras Reunidas, pois apesar de sua pretensão elas estão longe de ser “completas”.

[5] A edição original é de 2009. Os textos do volume foram traduzidos por Edgar Orth, Gentil A. Titton e Gustavo Barcellos. A revisão da tradução é de Walter Boechat.

O editor de O livro vermelho, Sonu Shamdasani, escreveu uma ótima, objetiva e nada partidária introdução.

O preço é salgado: o valor pode chegar a mais de quinhentos reais, é preciso pesquisar em vários lugares, pois há muitas ofertas.

[6] Meu texto simplifica muito as coisas, evidentemente: esses conceitos tenham sido elaborados em épocas diversas e sofrido ajustes. Além  desse fato cronológico básico, vertentes diversas privilegiaram certos aspectos e deixaram à parte outros. E para ser franco eu nem sei como seria a prática clínica de um analista ou psiquiatra junguiano, uma vez que jamais escolheria essa linha para ser analisado ou diagnosticado. Se fizesse análise, teria o maior cuidado de escolher um analista da linha freudiana. O que não invalida Jung como pensador da cultura.

Para entender as vertentes pós-junguianas, uma boa opção, apesar de já meio antiga (é de 1985, e a edição brasileira é de 1989) é Jung e os pós-junguianos, de Andrew Samuels. Foi nele que descobri que James Hillman era representante da “escola arquetípica”.

[7] Há até elementos metalingüísticos auto-críticos e bem-humorados. Jung, numa dessas visões, chega a um castelo onde há um velho com seus livros, que não lhe dá pelota. Passando a noite ali, ele sofre de insônia. Veja-se o divertido relato:

“Parece que não havia mais ninguém casa, a não ser o servo, que morava acolá na torre. Um modo de vida ideal, mas solitário o desse velho com seus livros, pensei eu.  E nisso se demoraram por longo tempo meus pensamentos, até que percebi que um outro pensamento não me abandonava, isto é, que o velho mantinha escondida aqui sua bela filha—idéia romântica absurda—um tema sem graça e já explorado—mas o romântico está em todas as juntas de cada pessoa. Uma idéia genuinamente romântica: um castelo  na floresta—solitário, crepuscular—um velho mumificado em seus livros, que guarda um tesouro valioso e o esconde ciosamente de todo o mundo—que idéias ridículas me chegam! É inferno ou purgatório que preciso conceber em minha viagem errada à semelhança dos sonhos infantis? Mas sinto-me incapaz  de elevar meus pensamentos a algo mais forte ou mais bonito. Devo consentir nesses pensamentos. O que adiantaria repeli-los? Eles voltam… Como será que ela se parece, essa heroína aborrecida? Certamente loura, pálida—olhos azuis—ansiosamente esperando de cada caminhante extraviado o salvador de sua prisão paterna. Ah, eu  conheço este absurdo trivial—prefiro dormir—por que, diabos, deixo atormentar-me com essas fantasias ocas?

    O sono não quer nada. Viro-de de um lado para outro, o sono não vem, devo eu ter em mim mesmo afinal esta alma não resgatada? Será que é ela que não me deixa dormir? Terei eu uma alma tão romântica? Só faltava isto—seria dolorosamente ridículoÉ simplesmente macabro para onde a insônia pode levar uma pessoa, inclusive para as teorias mais disparatadas e mais supersticiosas. Parece fazer frio, eu estou com frio, talvez não durma por causa disso, aqui é realmente sinistro. Deus sabe o que acontece aqui, não escutei passos há pouco? … A porta está se abrindo? Meu Deus, alguém está aí? Estou vendo bem? Uma moça esguia, pálida como a morte, está à porta? Céus, o que é isto? Ela se aproxima!

   Chegaste finalmente, perguntou baixinho. Impossível, é um engano pavoroso, o  romance quer tornar-se real, quer transformar-se em história estúpida de fantasmas? A que disparate estou condenado?  È minha alma que alberga tais glórias românticas? Isto também deve acontecer comigo? Estou realmente no inferno—o pior despertar do leitor de romances de biblioteca pública! Desprezei as pessoas de minha época e seu gosto, tanto assim que devo viver e escrever no inferno os romances sobre os quais cuspi há muito tempo? Será que a metade inferior do gosto médio da humanidade também tem direito à santidade e inviolabilidade, de modo que não possamos dizer nenhuma palavra desairosa sobre isso sem termos de pagar o pecado no inferno?

   Ela fala: Ah, tu também pensas o trivial de mim? Também tu te deixas seduzir pela malfadada ilusão de que eu pertenço a um romance? Também tu, de quem esperava que tivesse abandonado as aparências e se esforçasse para atingir a essência das coisas?

   Eu: Perdão, mas existes realmente? É uma semelhança por demais infeliz com aquelas cenas de romances, desgastadas até a parvoíce, que eu pudesse aceitar que não fosses apenas um produto de meu cérebro insone. Minha dúvida não está realmente justificada, quando uma situação coincide de tal forma com o tipo de romance sentimental?

  Ela: Infeliz, como podes duvidar da minha realidade? (…)

  Eu: Mas, dize-me, por amor de Deus, tu és real? Devo levar-te a sério como realidade?

    Ela chorava e nada respondia.

    Eu: Quem és então?

    Ela: Eu sou a filha do velho. Ele me mantém aqui numa prisão insuportável, não por ciúme ou ódio, pois sou sua única filha e o retrato vivo de minha mãe, falecida muito jovem.

  Recorri à minha razão: isto não é uma estupidez infernal? Palavra por palavra, o romance de uma biblioteca pública! Ó Deuses, para onde me levastes? É para rir, para chorar, é duro ser um belo sofredor, um destroçado tragicamente, mas tornar-se um macaco, vós belos e grandes? O banal e eternamente ridículo, o indizivelmente gasto e usado nunca vos foi depositado nas mãos

   Ela continuava sentada ali chorando—e se fosse real?… Se for uma moça decente, o que não lhe deve ter custado  entrar no quarto de dormir de um homem desconhecido!”

(os grifos na cena são todos meus).    

[8] Mais uma vez, sou obrigado a simplificar em demasia, no caso, o rico, complexo e ambíguo panorama traçado por Noll em seu livro. Mas acompanhemos alguns trechos: “Muitos grupos völkisch transformaram as noções de pureza racial em ideais quase de ciência e religião… O historiador Ekkehard Hieronimus fez um levantamento do fascínio pela religião germânica… No século XIX, grupos neopagãos dedicados a reviver os mistérios germânicos  assumiram a pesquisa sobre o passado alemão. E, de fato, o retorno à Idade de Ouro e à vida ´natural´ dos teutos foi freqüentemente invocado por grupos alemães em busca de renovação ou renascimento… À secularização de conceitos burgueses/protestantes como a família, a comunidade e a idéia de morte sacrificial, correspondia nesses grupos um patriotismo cada vez maior, que traçava paralelos entre o martírio de Cristo e o martírio de heróis nacionais como Siegfried… A morte sacrificial e a identificação do deus cristão com o deus teutônico eram temas que em 1912 reapareceriam com destaque numa obra extraordinária, Metamorfoses e símbolos da libido, de Jung”  [esse é provavelmente o primeiro livro importante do ex-discípulo de Freud, e atualmente é editado com o titulo da sua ampla revisão posterior, Símbolos da Transformação, volume 5 das Obras Completas). Noll fala de um importante editor de obras de tendência völkisch, Eugen Diederichs: várias de suas edições foram encontradas na biblioteca de Jung, o qual “citava essas obras, sobretudo em Metamorfoses e símbolos da libido, um livro que repudiava a ortodoxia cristã e promovia o misticismo völkisch do culto ao sol. Na década de 1890, muitos indivíduos völkisch acreditavam que o sol era  o único Deus dos verdadeiros alemães… A suástica, um antigo símbolo indiano para a contínua regeneração da vida foi colocada  num círculo que representava o sol… A suástica nesse disco branco  simbolizava as energias ressurgentes da vida… Graças à influência de figuras destacas como Diederichs e os autores que publicava, o interesse no simbolismo das mandalas dos antigos arianos começou a se espalhar pela Europa germânica. Jung, por exemplo, traçou sua primeira mandala em 1916 e mais tarde comentou sua importância como símbolo do ´self´ou do ´deus-imagem interior´   (todo esse imaginário pode ser encontrado nas páginas de O livro vermelho e a edição reproduz as mandalas criadas por Jung).

O livro de Noll (que é de 1994) foi traduzido no Brasil (por Mário Vilela) e lançado pela Ática em 1996.

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