MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

11/10/2011

Destaque do Blog: CAFÉ TITANIC e o cinqüentenário da premiação de Ivo Ándritch com o Nobel

(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 11 de outubro de 2011)

Há  50 anos o Nobel foi atribuído a Ivo Ándritch (1892-1975; há também a grafia Andric ), o qual, oriundo de uma região geopoliticamente muito complicada (foi domínio turco e também do império austro-húngaro e sempre foi um cadinho de etnias e religiões hostis entre si), estopim das duas guerras mundiais, naquele momento era cidadão de um estado constituído, a Iugoslávia, que décadas depois se pulverizaria numa carnificina chocante que representou um mau augúrio para o novo milênio (há o caso similar da Palestina, ainda na pauta do dia, principalmente por causa do odioso Binyamin  Netanyahu e da covardia do sempre decepcionante Obama).

Abordada por esse ângulo, a escolha do escritor sérvio poderia parecer um daqueles arroubos pitorescos dos responsáveis pelo prêmio e que continuamente irritam os comentaristas. Ledo engano. O lançamento recente de Café Titanic (em tradução esforçada, mas com vários momentos estranhos e truncados por ausência de uma revisão séria, de Aleksandar Jovanovic; é a segunda seleção no Brasil, houve O pátio maldito e quatro contos  na coleção dos Prêmios Nobel da Opera Mundi) revela para o leitor brasileiro atual um ficcionista sensacional.  Fica-se querendo mais (são apenas dez contos) e não se consegue decidir qual é o melhor dos notáveis textos que compõem a coletânea.

Um forte candidato seria O ano intranqüilo, que nos deixa entrever o romancista que Ándritch deve ter sido também, pois as situações quase transbordam da moldura narrativa, em sua riqueza de detalhes e complexidade. E que personagem é o “patrão” Ievrem, o usurário impiedoso que mal se mexe do lugar, mas prevalece (inclusive pelo forte patriarcalismo local) sobre tudo e todos, até que se toma de amores outonais e platônicos por uma vivaz ciganinha que a esposa recolhera de um acampamento, e que quase o induz a uma imprudência fatal: a região é palco do acampamento do exército turco, cujo comandante exige o xodó de Ievrem como presa, e o velho agiota resiste aos pedidos e ameaças, para desespero dos familiares e conterrâneos, que começam a conspirar para desatar o impasse.

Histórias como essa são perpassadas de um sopro imemorial, quase de começo dos tempos, embora estejam mergulhadas na história concretíssima da região. Para mim, lembram a atmosfera do Tolstói de Khadji-Murat ou dos relatos de Isaac Singer, uma localização ao mesmo tempo muito precisa e muito primordial.

É o caso de outro grande (e cruel) momento, Conto sobre o colono Siman, no qual—como a região passa para o domínio austríaco—o colono resolve afrontar o dono das terras muçulmano, recusando-se a pagar o arrendamento, e com isso perde casa, família, respeitabilidade, sem que desista de “lutar pelos seus direitos”. Tem ainda  O matrimônio, onde, ao se tornar próspero, um comerciante repudia a mulher e resolve casar novamente, e a primeira esposa se posta na entrada da festa aos lamentos, admoestando o feliz noivo, que vai agigantando e fomentando cada vez as arruaças, os comes, os bebes, as danças, perturbando a ordem pública para calar aquela mulher abandonada.

Um grupo especial de histórias é aquele que nos permite entrar na pele e na mente de guerreiros e acompanhar suas desordens psíquicas e as (terrificantes) conseqüências delas, como em Mustafá Húngaro e A viagem de Áliya Dyezerlês. Mas seriam menos especiais aqueles em que os protagonistas são abalroados pela eclosão da guerra, como em “O delírio e o sofrimento de Toma Galus” ou então o dono de café judeu Mento Papo no conto-título (apesar de que a narração, extraordinária, dos fatos da vida do homem que será sua nêmese, Stiépan Kóvitch, quase ofusque o seu drama)?

É nesse sentido que acho importante o Nobel, mesmo reconhecendo suas falhas e lacunas. Todo leitor bem-informado conhece Hemingway, Sartre, Camus, Mann, Faulkner, Neruda, Beckett, García Márquez, Saramago ou Vargas Llosa. Não obstante, a não ser por sorte ou acaso, como saberíamos da existência de um escritor tão fantástico como Ivo Ándritch não fora a notoriedade advinda do prêmio? É certo que a tradução de Café Titanic demorou. Mas as histórias só melhoraram com o tempo.

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