MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

11/06/2013

QUEM MATOU JAY GATSBY?

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“Mas, de alguns anos para cá, o que acho mais desencorajador não é isso, e sim a covardia cada vez maior dos críticos profissionais. Mal remunerados, sobrecarregados de trabalho, eles já não têm nenhum interesse pelos livros. Que tristeza ver, nos últimos tempos, tantos jovem romancistas morrerem de asfixia por não terem um espaço para se fazer ouvir (…) Para mim é um enigma que um homem assuma a responsabilidade de escrever um romance sem ter uma atitude precisa e resoluta em face da existência. O fato de um crítico pretender analisar em algumas horas uma visão particular que engloba doze pontos de vista diferentes de uma realidade social me faz pensar na horripilante passagem de um dinossauro pela solidão desértica de um jovem escritor.”  (Prefácio de F. Scott Fitzgerald à edição de 1934 de O Grande Gatsby)

“Creio que finalmente escrevi algo inteiramente meu, mas ainda é preciso saber se o que é  ´meu´é bom (…)” (Correspondência com o editor Maxwell Perkins)

(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de junho de 2013, sem notas de rodapé ou trecho selecionado)

De saída, entrego o jogo contando para o meu leitor que o personagem-título de O Grande Gatsby (The Great Gatsby) é assassinado.

Mas em 2013 a lista de suspeitos aumentou consideravelmente: o joão-ninguém que vira um nababo por meios obscuros, entre os quais podemos incluir a michetagem e a contravenção (como fraudar resultados de jogos), oferecendo festas ostensivas e cafonas para impressionar uma antiga amada, pode ser vítima tanto da sanha kitsch e cabotina do diretor Baz Luhrmann, um dos maiores picaretas do cinema atual, cuja carreira é pontuada por abobrinhas do naipe de Romeu + Julieta, Moulin Rouge e Austrália, quanto da ganância editorial.

Pois nada menos do que quatro traduções novas do romance de Scott Fitzgerald (1896-1940) estão sendo lançadas, e três delas (a da Tordesilhas, a da Landmark e a da Geração Editorial) com capas idênticas, calcadas oportunisticamente no cartaz da versão cinematográfica. Exatamente por este motivo, descartei-as todas, embora considere acima da média a da Tordesilhas devido à inclusão do pungente prefácio do próprio autor para uma edição de 1934 (ano da publicação do belo e subestimado Suave é a noite) e da correspondência entre ele e o editor Maxwell Perkins em torno da publicação original de sua obra-prima.

Escolhi, então, uma quarta, a da Leya. Para descobrir que continuam assassinando o pobre Jay Gatz, que se reinventa como Gatsby. A tradução de Alice Klesck quando não peca por destruir a beleza do estilo fitzgeraldiano, pleno de ressonâncias e reminiscências (ainda mais no seu auge), peca por dificultar a compreensão de certos trechos. Por exemplo, no final do capítulo 8 (quando Gatsby espera uma mensagem de sua amada Daisy, de que ela enfim deixaria o marido): “Ninguém telefonou, mas o mordomo ficou sem dormir, esperando uma ligação até as quatro da tarde—até bem depois de haver alguém para quem pudesse transmitir caso ligassem”!!!!????

O que é isso? Será a Maldição de Zelda, a desequilibrada esposa de Fitzgerald que muito contribuiu para o declínio da sua vida após o rápido e prematurao apogeu? “Alguém para quem pudesse transmitir”???!!!!

No original se lê: “No telephone message arrived, but the butler went without his sleep and waited for it until four o´clock—until long after there was any one to give it to if it came”.  E na tradicional tradução de Brenno Silveira: “Não houve qualquer recado telefônico, mas o mordomo ficou sem dormir, até as quatro horas, à espera de algum chamado—até muito depois da hora em que qualquer pessoa poderia transmiti-lo, se alguém telefonasse”.

Long Island Map Gatsby

Na edição da Tordesilhas (com a malfadada capa), lemos o cuidado obsessivo do grande escritor com os mínimos detalhes do seu livro e dá para imaginar seu desânimo com tal desleixo, não bastasse a recepção fria que seu terceiro romance recebeu, quando a “moda Fitzgerald”, inflada pelo sucesso dos contos e principalmente de sua estreia, Este lado do paraíso (1920), arrefeceu tanto quanto as festas de seu mais famoso herói, ao concretizar finalmente o objetivo de se reaproximar de Daisy, casada com o esnobe e truculento Tom Buchanan, graças à vizinhança de Nick Carraway, primo dela e narrador da história.

Depois do desagrado com que a evanescente (e ao mesmo tempo muito calculista)  Daisy encara suas recepções de arromba, Gatsby fecha a casa (que se torna uma espécie de Xanadu fantasmagórica[1]), e depois da sua morte, não tem praticamente ninguém para velá-lo e acompanhar seu funeral. Um dos mais entusiasmados frequentadores das festanças telefona e ao ser convocado por  um compungido Nick para a cerimônia de adeus ao notório anfitrião, resume o mundo ilusório em que se movimenta o “grande” Gatsby: “O motivo da minha ligação é que esqueci aí um par de calçados. Pensei se não seria muito incômodo pedir para o mordomo mandá-los. Sabe, trata-se de um par de tênis, e não sou nada sem eles.”

O Grande Gatsby foi publicado em 1925, mesmo ano em que outra obra notável, Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, também expunha uma anfitriã famosa por suas recepções, enfrentando a realidade do pós-guerra com um mundo de aparências, uma espécie de ilusionismo realçado pela estação do ano (o verão, a mesma em que transcorre o romance fitzgeraldiano[2]) e atenção a detalhes materiais (mas minada por dentro pela noção da passagem do tempo, do desperdício das oportunidades, pelo sem-sentido de toda aquela vida “cerimonial”) e representa a cristalização perfeita do tema maior da ficção dos EUA, a inocência perdida[3] (aliás, antecipa também toda a corrente de best sellers que lida com sexo, poder e dinheirama, e a obsessão pela celebridade hoje onipresente).

Nick, o narrador, vem do provinciano Oeste para descobrir o preço que a sofisticação moderninha do Leste cobra à alma em formação (não é por acaso que na proximidade das propriedades dos ricaços em Long Island há um “vale das cinzas”, uma terra de ninguém, degradada e sombria, o lado B do “sonho americano”). A trágica história do vizinho de Nick também é a consumação de uma frase-chave de Fitzgerald, pelo que ela contém de ilusão e impossibilidade: “Apenas o romantismo preserva as coisas que vale a pena preservar” (de outro de seus romances, Belos e Malditos, 1922). Como se lê na claudicante tradução de que me ocupo: [Gatsby] “talvez tivesse percebido que perdera seu velho mundo terno, pagando caro por viver tanto tempo com um único sonho” (“…he must have felt that the had lost the old warm world, paid a high price for living too long with a single dream”).

É por isso que, num certo sentido, talvez O Grande Gatsby ainda seja o Grande Romance Americano. Ao contrário de seu protagonista, que contemplava a casa de Daisy do outro lado da faixa de oceano na região onde transcorre a narrativa, muito próxima, mas muito mais longe do que ele imaginava, Fitzgerald chegou mais próximo do que qualquer um de realizar esse objetivo ambicionado por tantos escritores do seu país. E é por isso também que, por mais assassinado que seja por visitações oportunistas e efêmeras, seu anfitrião continua mais vivo do que nunca.

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TRECHO SELECIONADO

Escolhi um trecho do quinto capítulo, momento em que Nick conspirando com o vizinho Gatsby consegue atrair para um encontro Daisy Buchanan:

Na tradução de que se ocupa minha resenha (de Alice Klesck):

__ Quero que você e Daisy venham à minha casa—disse ele.—Quero mostrar a ela onde vivo.

__ Tem certeza de que quer que eu vá?

__ Claro que sim, meu velho.

   Daisy subiu para lavar o rosto, e já era tarde demais quando me lembrei, humilhado, das minhas toalhas, enquanto Gatsby e eu esperávamos no gramado.

__Minha casa é bonita, não acha?—ele perguntou.—Veja como bate sol em toda a fachada.

   Concordei que era esplêndida.

__ Sim—os olhos dele estudavam cada porta em arco e a torre quadrada.—Levei três anos até ter o dinheiro para comprá-la.

__ Achei que seu dinheiro tivesse sido herdado.

__ E foi, meu velho—disse ele, maquinal—, mas perdi grande parte com o grande pânico, o pânico da guerra.

   Acho que ele nem sabia direito do que estava falando, pois, quando perguntei qual era seu ramo de negócios, respondeu: “Isso é assunto meu”, antes que notasse não se tratar de uma resposta apropriada.

__ Ah, eu já fiz uma porção de coisas—ele se corrigiu.—Estive no ramo farmacêutico, depois no setor petrolífero. Mas agora não estou em nenhum deles—ele me olhou mais atento.—Isso quer dizer que você andou repensando o que lhe propus na outra noite?

   Antes que pudesse responder, Daisy surgiu à porta e duas fileiras dos botões de seu vestido cintilaram sob a luz do sol.

__ É aquele lugar imenso “ali”—exclamou ela, apontando para a mansão de Gatsby.

__Gostou?

__Adorei, mas não vejo como pode morar ali sozinho.

__ Eu a mantenho repleta de gente interessante, dia e noite. Gente que faz coisas interessantes. Celebridades.

 

Na tradução brasileira “canônica”, por assim dizer, a de Brenno Silveira (transcrita de uma edição do Círculo do Livro, revista por Fernando Nuno Rodrigues):

__ Quero que você e Daisy vão até minha casa. Gostaria que ela a conhecesse.

__ Tem certeza de que quer que eu vá?

__ Certeza absoluta, meu velho.

   Daisy subiu para lavar o rosto (e eu pensei, humilhado, demasiado tarde, em minhas toalhas), enquanto Gatsby e eu ficamos á sua espera no jardim.

__ Minha casa tem bom aspecto, não é?—indagou ele.—Veja como toda a sua fachada recebe luz.

  Concordei em que sua casa era esplêndida.

__ Sim—ajuntou, percorrendo com o olhar toda as suas portas ogivais e todas as suas torres retangulares.—Precisei de exatamente três anos para ganhar o dinheiro com que a comprei.

__ Pensei que você havia herdado o seu dinheiro.

__ Herdei, meu velho—respondeu automaticamente.—Mas perdi grande parte dele no grande pânico… o pânico da guerra.

  Penso que ele mal sabia o que estava dizendo, pois, quando lhe perguntei qual era o seu ramo de negócio, replicou:

__ Eis aí o que faço.

   Imediatamente, porém, percebeu que essa não era uma resposta adequada.

__ Oh, dediquei-me a várias coisas—corrigiu-se.—Estive metido na indústria farmacêutica e depois em negócios de petróleo. Mas não faço nada disso, agora.—Olhou-me mais atentamente.—Quer dizer que você está pensando na proposta que lhe fiz aquela noite?

   Antes que pudesse responder, Daisy saiu da casa e as duas fileiras de botões de metal de seu vestido cintilaram ao sol.

__ Sua casa é aquela “coisa imensa”?—exclamou ela.

__ Ela lhe agrada?

__ Acho-a encantadora, mas não sei como é que você pode morar lá sozinho.

__ Tenho-a sempre, noite e dia, cheia de gente interessante. Pessoas que fazem coisas interessantes. Gente famosa.

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Na tradução de Cristina Cupertino, pela Tordesilhas:

__ Quero que vocês venham até a minha casa—disse ele.—Tenho de mostrá-la para os dois.

__ Você quer mesmo que eu vá?

__ Evidentemente, meu velho.

    Daisy foi até o andar de cima para lavar o rosto—tarde demais, eu me lembrei humilhado das minhas toalhas–, enquanto Gatsby e eu esperávamos no gramado.

__ Minha casa é bonita, não é?—indagou ele.—Veja como ela recebe luz em toda a extensão da fachada.

   Concordei que a casa era esplêndida.

__ É.—seus olhos a percorreram inteira, passando por todas as portas arqueadas e todas as torres quadradas.—Levei exatamente três anos para ganhar o dinheiro que ela me custou.

__ Achei que você tinha herdado o dinheiro.

__ Sim, eu herdei, meu velho—disse ele sem hesitação—, mas perdi a maior parte no grande pânico, o pânico da guerra.

   Acho que Gatsby mal sabia do que estava falando, porque quando lhe perguntei em que negócio ele trabalhava, sua resposta foi: “Isso é assunto meu”, e só depois se deu conta de que fora descortês.

__ Ah, andei fazendo muitas coisas—corrigiu-se ele.—Estive nos negócios de remédios e depois passei para o ramo de gasolina. Mas agora não estou em nenhum deles.—Ele me olhou com mais atenção.—Quer dizer que você andou pensando que eu lhe ofereci naquela noite?

  Antes que eu pudesse responder, Daisy saiu da casa, e as duas fileiras de botões de metal do seu vestido brilharam à luz do sol.

__ Aquela casa enorme “ali”?—gritou ela apontando.

__ Você gosta?

__ Adoro, mas não imagino como é que você pode morar lá sozinho.

__ Eu sempre a mantenho cheia de gente interessante, de noite e de dia. Gente que faz coisas interessantes. Pessoas famosas.

 

Na tradução de Vanessa Barbara (pela Penguin/Companhia das Letras):

__ Quero que você e Daisy venham à minha casa—ele disse. –Gostaria de lhe mostrar onde vivo.

__ Tem certeza de que quer que eu vá?

__ Claro que sim, meu velho.

   Daisy subiu para lavar o rosto—e só tarde demais me lembrei, humilhado, das minhas toalhas—, enquanto Gatsby e eu esperávamos no gramado.

__ Minha casa está bonita, não acha?—ele perguntou.—Veja como a fachada inteira reflete a luz do sol.

   Eu concordei, dizendo que era esplêndida.

__ É.—Seus olhos a examinaram em cada porta arqueada e torre retangular.—Levei três anos juntando dinheiro para comprá-la.

__ Pensei que você tinha herdado a sua riqueza.

__ E herdei, meu velho—ele disse mecanicamente—, mas perdi a maior parte no grande pânico: o pânico da guerra.

   Creio que ele mal sabia do que estava falando, pois quando lhe perguntei qual era seu ramo de negócios, ele respondeu: “Isso é assunto meu”, antes de perceber que não era uma resposta apropriada.

__ Ah, já trabalhei em várias áreas—corrigiu-se.—Estive no ramo farmacêutico e depois trabalhei com petróleo. Mas atualmente não estou em nenhum deles.—Ele me olhou com mais atenção.—Quer dizer que você reconsiderou a proposta que lhe fiz aquela noite?

   Antes que eu pudesse responder, Daisy surgiu à porta e as duas fileiras de botões de seu vestido brilharam à luz do sol.

__ É “aquela” coisa enorme ali atrás?—ela exclamou, apontando para a mansão de Gatsby.

__ Gostou?

__ Adorei, mas não entendo como você pode morar ali sozinho.

__ Está sempre cheia de pessoas interessantes, dia e noite. Pessoas que fazem coisas interessantes. Pessoas famosas.

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   E, por fim, o original (extraído de uma edição da Collin Classics):

“I want you and Daisy to come over to my house,” he said, “I´d like to show her around.”

“You´re sure you want me to come?”

“Absolutely, old sport.”

   Daisy went upstairs to wash her face—too late I thought with humiliation of my towels—while Gatby and I waited on the lawn.

“My house looks well, doesn´t it?” he demanded. “See how the whole front of it catches the light.”

   I agreed that it was splendid.

“Yes”. His eyes went over it, every arched door and square tower. “It took me just three years to earn the money  that bought it.”

“I thought you inherited your money.”

“I did, old sport,” he said automatically, “but I lost most of it in the big panic—the panic of the war.”

  I think he hardly knew what he was saying, for when I asked  him what businesses he was in he answered, “That´s my affair”, before he realized that it wasn´t the appropriate reply.

“Oh, I´ve been in several thing,”  he corrected himself, “I was in the drug business and then I was in the oil business. But I´m not in either one now.” He looked  at me with more attention. “Do you mean you´ve been thinking  over what I proposed  the other night?”

   Before I could answer, Daisy come out of the house and two rows of brass bottons on her dress gleamed in the sunlight.

“That huge place ´there´” she cried pointing.

“Do you like it?”

“I love it, but I don´t see how you live there all alone.”

“I keep it always full of interesting people, night and day. People who do interesting things. Celebrated people.”

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[1] Nesse ponto, ele se torna o legítimo antepassado dos protagonistas “misteriosos” de Orson Welles.

[2] Frye: “… o ritmo humano é o oposto do solar: uma libido titânica desperta quando o sol adormece, e a luz do dia é frequentemente a escuridão do desejo”.  Embora transcorram, em sua plano mais aparente,  no verão, que para o autor de Anatomia da Crítica é o mythos da ´estória romanesca” e da aventura, O Grande Gatsby e Mrs. Dalloway, creio que ambos apontam mais para o ponto “outonal” no espectro simbólico da evocação dos grandes ciclos naturais (diga-se de passagem, tanto Fitzgerald quanto Virginia Woolf estão muito atentos à natureza em seus grandes textos)—é obvio que tudo isso precisaria ser melhor fundamentado, com argumentação mais ancorada em uma análise minuciosa dos textos, o que não é meu objetivo aqui, embora uma linha de interpretação desses dois romances maravilhosos, fundamentada nos conceitos e formulações de Northrop Frye, me pareça irresistível.

Outro paralelo que pode ser feito é entre o Gatsby e O Coração das Trevas. Nick Carraway, como Marlow, percorre uma jornada infernal até o centro da loucura e do mundo “oco” de um personagem que adquiriu ressonância mitológica monstruosa, Kurtz e Gatsby. Depois que estes são mortos, são os narradores que têm de arcar com o fardo, o ônus, das revelações e lampejos perturbadores proporcionados por tal convivência derrisória, com relação ao que é uma “civilização”. “Mr. Gatsby´s dead”, ao escrever essa frase Fitzgerald provavelmente evocava o “Mistah Kurtz—he dead” conradiano.

Em outra resenha já apontei para esse caminho comparativo. Ver aqui no blog:

https://armonte.wordpress.com/2011/07/22/o-vale-das-cinzas/

E na sua correspondência com Maxwell Perkins, Fitzgerald comenta, a respeito da rejeição sofrida por Gertrude Stein: “Pensei que fosse um objetivo dos críticos e dos editores educar o público para apreciar uma obra original. Os primeiros que se aventuraram a publicar Conrad certamente não o encaravam como um empreendimento comercial. A evolução de uma obra surpreendente para uma obra aceita terminou vinte anos atrás?”

[3] E aqui cabe lembrar novamente de Charles F. Kane e seu “rosebud”, a palavra que representa a inocência e estado virginal que se perdeu irremediavelmente, com toda a sua aura.

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22/07/2011

Em busca do “eu” russo perdido: Um divisor de águas na obra de Nabokov

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/07/22/arrebatamento-e-exasperacao-em-dois-movimentos/

https://armonte.wordpress.com/2011/07/22/lolita-e-a-moralidade-saudavel/

https://armonte.wordpress.com/2011/07/22/o-professor-aloprado/

https://armonte.wordpress.com/2011/07/22/alcapoes-invisiveis-de-onde-surge-a-borboleta-esquecida-da-revelacao/

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 28 de junho de 2011)

Jorge Semprun,  morto no início deste mês, representava um determinado e notável segmento de autores que—em alguns poucos casos deliberadamente, porém o mais das vezes compelidos por circunstâncias adversas, como o autor espanhol—tiveram de escrever em outra língua que não a natal. Além de Semprun, podemos citar Joseph Conrad, Samuel Beckett, Milan Kundera, sem contar a terrível situação de Isaac Bashevis Singer, que se resignou a publicar “em tradução” seus originais em iídiche  (na verdade, o próprio Kundera era um escritor basicamente “traduzido”, já que proibido no seu país e escrevendo numa língua minoritária, caso de uma boa parte dos dissidentes do bloco “socialista”).

Apesar de ter uma parte da sua produção em russo, esse foi o caso de Vladimir Nabokov (1899-1977): sua fama é fundamentalmente como escritor da língua inglesa, na qual escreveu suas obras mais admiradas (Lolita, Fogo Pálido, Ada) e para a qual verteu seus primeiros textos em novas versões.

A estréia nabokoviana oficial em inglês se deu em 1941, com A verdadeira vida de Sebastian Knight (The real life of Sebastian Knight),  que de uma forma belíssima retrata a situação dramática configurada acima.

Vinte anos depois, em 1961, saiu uma tradução brasileira (Sebastian virou Sebastião) pela Civilização Brasileira, realizada pelo grande Brenno Silveira.

Vinte anos depois, em 1981, essa mesma tradução (com Sebastian ainda Sebastião) foi relançada pela Francisco Alves, numa coleção que fez história na minha vida pessoal, “A prosa do Mundo”.

E agora, decorridos mais vinte anos, é lançada, pela Alfaguara, nova tradução, realizada por outro craque: José Rubens Siqueira. Já era hora. As duas são tão eficientes que me dei ao luxo de misturá-las nas citações desta minha resenha.

O narrador do romance, V., logo após a morte do escritor Sebastian Knight, revoltado com a biografia grotesca e oportunista do ex-secretário do meio-irmão (as diatribes contra o espúrio biógrafo e os trechos citados estão entre os pontos altos da prosa nabokoviana; após arrasá-lo, ele nos diz: “acho que seria melhor pararmos por aqui. Do contrário, talvez o Sr. Goodman corresse o risco de converter-se numa centopéia. Deixemos que continue quadrúpede”), lança-se numa investigação pessoal para traçar um retrato mais acurado, embora eles—após a fuga da Rússia tornada bolchevista—tenham se afastado (Sebastian foi viver na Inglaterra, tornando-se um requintado e original escritor inglês e V. viveu obscuramente—temos poucos e sombrios relances da sua existência cotidiana—em Paris). São fiapos de informações, indícios, pistas falsas e fugidias: “O que eu sabia de fato sobre Sebastian? Posso dedicar alguns capítulos ao pouco que me lembro de sua infância e juventude—mas e depois? Enquanto planejava meu livro, ficou evidente que eu teria de fazer uma quantidade imensa de pesquisa, encontrando sua vida pedaço por pedaço e soldando os fragmentos com meu conhecimento íntimo de sua personalidade…”

Esse proclamado e suspeito “conhecimento íntimo de sua personalidade”, tendo em vista as reiteradas confissões de distanciamento entre os dois e as lacunas abissais nas relações entre ambos, poderia nos levar à hipótese de que estamos diante de um exercício brilhante da “narrativa não-confiável”, à la Dom Casmurro, em que precisamos desconfiar do que nos é contado. Sem descartar essa interpretação, acho que ganharemos mais vendo na relação entre os irmãos uma alegoria da situação de Nabokov como escritor, tendo de cindir sua bagagem pessoal do exercício da linguagem: ao tornar-se um escritor da língua inglesa, como Sebastian, ele teve de “deixar para trás”, por assim dizer, a sua sombra, seu “eu” russo, o que foi a fonte dos fascinantes exercícios de duplicidade e despistamento da sua obra posterior (na verdade, já presentes–a julgar pelas versões inglesas–na sua primeira fase).

E conforme V. vai perseguindo os passos do irmão, A verdadeira vida de Sebastian Knight vai se tornando mais e mais o livro que Fernando Pessoa escreveria se fosse romancista. Após um momento extraordinário (quando o narrador nos conta sua desesperada tentativa de alcançar Sebastian antes que morresse, uma viagem angustiante, que termina com ele num quarto às escuras velando o meio-irmão e fazendo um pacto unilateral de comunhão fraterna, para depois constatar que foi ludibriado por um destino irônico), lemos aquele que talvez seja o parágrafo mais bonito da ficção contemporânea: “Qualquer que fosse o segredo dele, eu descobri um segredo também, a saber: que qualquer alma pode ser a nossa, se descobrirmos e seguirmos suas ondulações. O Além pode ser a plena habilidade de viver conscientemente em qualquer alma escolhida, em qualquer número de almas, todas elas inconscientes de seu fardo intercambiável. Assim—eu sou Sebastian Knight. Sinto como se estivesse representando seu papel num palco iluminado, com as pessoas que ele conheceu a entrar e a sair de cena… E então a mascarada se encerra…Fim, fim.Eles todos voltam a suas vidas cotidianas (e Clare volta para seu túmulo)—mas o herói permanece, pois, por mais que eu tente, não consigo sair do meu papel: a máscara de Sebastian cola-se ao meu rosto, a semelhança não se dissipa. Sou Sebastian, ou Sebastian não é outro senão eu, ou talvez nós dois sejamos alguém que nenhum de nós conhece”

Lolita e a moralidade saudável

I

Lô. Lola. Dolly. Dolores. Lolita. Variações de um nome obsedante. A portadora do nome deve ser fascinante. Qual o quê! Uma vulgar pré-adolescente norte-americana de cidade interiorana dos anos 40.

Acontece, porém, que o refinado europeu Humbert Humbert se desgraça porque descobre em Dolores Haze a encarnação perfeita da ninfeta, ou seja, como ele nos explica, um demônio sedutor “entre os limites de idade de 9 a 14 anos”. Casa-se com a mãe dela, que providencialmente morre atropelada, e inicia uma louca viagem com a enteada (a partir de certo ponto, amante) “através da colcha de retalhos de 48 estados”. Depois, para manter as aparências (e finanças) fixam-se em outra cidade interiorana, Beardsley, onde Humbert Humbert encontrará num autor teatral, Clare Quilty, seu grande rival.

Lô. Lola. Dolly. Dolores. Lolita. Há livros que, além de geniais, têm uma linguagem tão peculiar, tão própria, tão exuberantemente única (no Brasil, o exemplo óbvio é Grande sertão: veredas) que deixam qualquer empreendimento similar com cara de pastiche, e imitação barata. É o caso de LOLITA, de Vladimir Nabokov, o russo que passou a escrever em inglês e que nessa língua fez coisas que até Deus duvida.

Seus livros são todos inconfundíveis (além da história de Humbert Humbert, vale destacar, entre os traduzidos no Brasil, Fogo pálido, A verdadeira vida de Sebastian Knight, Gargalhada na escuridão, Pnin,  Somos todos arlequins, A defesa), mas ele se superou em Lolita, sua criação mais poderosa.  Bem antes de ter virado um clichê (o livro foi publicado em 1955), como um Hopper das palavras, descortinou o mundo kitsch e desabonador dos motéis, lanchonetes, postos de gasolina e drugstores, entre pequenas cidades e diversões programadas, que caracterizam a vida e a paisagem norte-americanas: “Grande usuária dos banheiros de beira da estrada, minha pouco exigente Lô se encantava com os letreiros que ia encontrando: Eles-Elas, João-Maria, Cavalheiros-Damas e até papai-mamãe; absorto num sonho de artista, eu ficava contemplando o brilho honesto do equpamento dos postos de gasolina contra o pano-de-fundo do verde esplêndido dos carvalhos ou de alguma longínqua colina…resistindo ao oceano agrícola que tentava tragá-la”.

Não se pense com isso que Lolita limita-se a caricaturizar a América. Nabokov não poupa ridículo ou patético para o europeu Humbert (produto de uma miscelânea de nacionalidades, como é comum na sua obra). De fato, em Lolita (ô nome obsedante), nada tem mão única. A narrativa do homem de 38 anos enfeitiçado sexualmente pela garota de 12 atravessa maisque os 48 estados: atravessa o coração da promiscuidade da nossa época, que se contrapõe ironicamente ao delírio maníaco do narrador, impregnado pelo próprio “veneno retórico”, como Nabokov caracterizou no prefácio de um romance da sua primeira fase como escritor, Desespero.

Há, pois, uma miraculosa encruzilhada artística nessas estradas, juntando observação satírica, verve e veneno que torna Humbert Humbert, que não consegue dominar Lô, um mestre das palavras, que usa e abusa para poetizar e racionalizar sua obsessão.

Os leitores brasileiros já puderam se apaixonar há muitos anos por Lolita através da inspirada tradução de Brenno Silveira. Bem-vinda, contudo, a nova e esplêndida versão de Jorio Dauster (tradutor do também extraordinário Fogo Pálido, o único título na obra nabokoviana que pode rivalizar com a história da ninfeta paradigmática). Pena que a Companhia das Letras tenha colocado uma capa pouco feliz, como fizeram sempre com o livro aqui no Brasil, à exceção de uma edição da Abril Cultural que reproduzia o quadro O velho jardim, de Graham Ovenden. Também a orelha do superestimado Ivan Lessa não é boa, saiu fútil em demasia.

O tempo confirmou que a doença, fonte da pedofilia, encontra eco na permissividade de um mundo onde todos se oferecem como objetos e acabam marionetes de um teatro de sombras, os nomes sendo mera palavras-fetiche desdobrando-se incessantemente (Lô.Lola. Dolly. Dolores. Lolita) no vácuo da nossa cultura.

(resenha publicada originalmente, em A TRIBUNA de Santos,  em 23 de agosto de 1994)

II

Vladimir Nabokov afirmava, a respeito de sua obra prima LOLITA (1955), que um livro só tem valor se nos oferecer “volúpia estética”: não procuremos extrair lições morais de uma obra literária. Mesmo concordando com o autor russo, é impossível deixar de apreciar a ironia do tempo, pois LOLITA prefigurou o grande pesadelo moral do fim do século: o culto da pedofilia.

Humbert, o “mártir da combustão interna” (como ele mesmo se define), é o intelectual europeu tarado por ninfetas que passa a residir nos EUA. Na pequena Ramsdale hospeda-se na casa de Charlotte Haze e apaixona-se pela filha dela (de 12 anos). Casa-se com Charlotte, que morre atropelada, e inicia com a enteada uma viagem sem fim pelo país. Após um ano, eles fixam-se noutra cidadezinha, Beardsley, onde o ciumento Humbert tenta controlar a vida de Lolita, embora ela acabe sempre driblando a vigilância (o suficiente para conhecer Clare Quilty, que será assassinado pelo padrasto da ninfeta).

Humbert leva-a para outra viagem, na qual ela desaparece. Só irá reencontrá-la anos depois, quando ela já estiver casada com um providencial panacão. E então ela revela a Humbert a identidade do seu rival (Quilty).

Nabokov escreveu uma demolidora comédia sobre o modo de vida americano e também nesse aspecto mostrou-se um gênio profético, ao intuir  a grande mistura que caracteriza nossa época: vulgaridade e uniformidade.

Professores, donas de casa, adolescentes ginasianos, artistas, tarados, ninguém escapa do crivo venenoso de LOLITA, um livro sobre a perversidade, onde a linguagem também é perversa, porque a monstruosidade do ninfetômano Humbert é lúcida: “no curso de um só dia eu passava de um pólo de insanidade a outro –do pensamento de que por volta de 1950 teria de livrar-me sabe-se lá como de uma adolescente difícil, cuja mágica ninfescência se teria evaporado, ao pensamento de que, com sorte e paciência, eu poderia fazer com que ela eventualmente gerasse uma ninfeta que teria o meu sangue correndo em suas delicadas veias, a Lolita II, que teria uns oito ou nove anos em 1960; na verdade, a faculdade telescópica de minha mente, ou de minha demência, era tão forte que me permitia divisar, no horizonte do tempo, o excêntrico Dr. Humbert, carinhoso e salivante Dr. Humbert, praticando com a soberbamente adorável Lolita III a arte de ser avô”.

E a própria musa do poeta Humbert, a personagem-título? Pelo viés da narrativa, se é que não temos uma visão distorcida, como acontecia com Capitu, em Dom Casmurro, vemos como ela representa a permissividade pura, onde o sexo é negociado, é uma transação, que envolve um cinismo talvez pior do que a deformidade moral de Humbert.

Ele é um tarado; ela, o resultado de uma cultura toda permissiva e imoral, que se recobre de uma pseudomoral e permite que tudo seja possível. Por isso, nada mais escarninho, sarcástico e zombeteiro do que a cena em que a diretora “avançadinha” da escola onde Lolita estuda dá um sermão para o severo pai Humbert,o qual impede que sua filha mantenha relacionamentos “saudáveis” com rapazes, para o bem do seu desenvolvimento sexual.

Aliás, não faltam em LOLITA  cenas inesquecíveis. Basta lembrar da noite em claro que Humbert passa ao lado da enteada na cama, antes de eles se tornarem amantes. Poucas vezes a expectativa amorosa e sexual foi tão bem descrita.

É por isso que adotarei a atitude “não vi e não gostei” com relação ao filme realizado pelas temerárias mãos de Adrian Lyne. Depois de uma versão mais-que-perfeita de Kubrick, com James Mason irretocável (além da estupenda Shelley Winters como a mãe; só não gosto mesmo no filme do excessivamente histriônico Peter Sellers como Clare Quilty, acho que ele está over demais para o tamanho do seu personagem) por que ver Jeremy Irons em mais um papel de fissurado sexualmente (após Perdas & Danos, M.Butterfly e Beleza roubada)? Alguém ainda aguenta, apesar do grande ator que ele é, vê-lo babando por um objeto de desejo transgressor? LOLITA traduzido em imagens por Adrian Lyne é realmente o triunfo de tudo o que Nabokov satirizou num dos melhores romances do século XX.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de setembro de 1998)

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https://armonte.wordpress.com/2011/07/22/o-professor-aloprado/

https://armonte.wordpress.com/2011/07/22/alcapoes-invisiveis-de-onde-surge-a-borboleta-esquecida-da-revelacao/

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O VALE DAS CINZAS

 

Azar Nafisi tentou manter a literatura como atividade lúcida e lúdica em meio ao furor fundamentalista que lhe tirou a possibilidade de trabalhar como professora no Irã. Os leitores brasileiros não vivem sob nenhum regime antidemocrático. Nem por isso têm acesso a várias das obras mencionadas no livro de Nafisi, Lendo Lolita em Teerã.

Felizmente, O Grande Gatsby, cujo “julgamento” encenado pelos alunos da autora iraniana (quando lhe era permitido dar aulas) ocupa a segunda parte do livro, ganhou recentemente duas novas traduções: a de Roberto Mugiatti para a Record e a de William Lagos para a L&PM (há uma tradicional versão de Brenno Silveira, já publicada por várias editoras). Ainda bem, pois esse notável romance de 1925 transformou-se no paradigma da visão que os norte-americanos têm de si mesmos e que temos deles.

E isso com a banal história do pobretão que enriquece contrabandeando bebidas, tornando-se famoso por suas festas, embora na verdade só queira reconquistar seu amor do passado, a nebulosa Daisy Buchanan, a qual não consegue se desligar da vida acomodada e esnobe que leva com o marido (enquanto este a engana descaradamente com a mulher de um mecânico).

O narrador é Nick Carraway (que na sofrível versão de Jack Clayton era vivido pelo grande Sam Waterston, a melhor coisa do filme, eclipsando totalmente o casal de astros, Robert Redford e Mia Farrow), cujo envolvimento com o sonho romântico de Gatsby em torno de Daisy nos permite ver como os famosos valores americanos, sempre fortemente arraigados no provincianismo e no puritanismo, são dissolvidos na passagem do Oeste (origem dos personagens do livro) para o Leste.

O enredo se concentra em Nova York e arredores, no contraste entre o brilho da cidade grande e o vale de cinzas (uma região degradada e deprimente que todos têm de atravessar para alcançá-la de Long Island), o qual, em última instância, é sempre onde tudo ganha sua medida final.

Azar Nafisi, em sua defesa do livro no “julgamento”, diz¨”A cidade, como Daisy, tem nela mesma uma promessa, uma miragem que quando é atingida se torna degradada e corrompida. A cidade é o elo entre o sonho de Gatsby e o sonho americano. O sonho não diz respeito apenas ao dinheiro, não se trata de uma análise sobre a América como  um país materialista, mas como um país idealista, que transformou o dinheiro num meio de recuperar o sonho. Não existe nada grosseiro aqui, ou o grosseiro é tão misturado ao sonho que se torna muito difícil diferenciar os dois. No final, todos os melhores ideais e todas as mais sórdidas realidades acabam juntos.”

E, lógico, há a beleza incomparável do estilo de Fitzgerald (além do soberbo e inaparente exercício narrativo) que faz uma história de desilusão romântica terminar como visão de um sonho civilizatório ambíguo (quando Nick observa o Estreito de Long Island, após o melancólico funeral de Gatsby, assistido por quase ninguém, ele que era anfitrião de festas nababescas e com incontáveis convidados), de uma forma quase tão poderosa quanto o que Conrad mostrou ao descrever o Tamisa no início de O coração das trevas.

O grande Gatsby é uma obra-prima desesperada e pungente. Nick fica contente de ter feitor a Gatsby um único elogio (“você vale mais do que eles todos juntos”) porque o “reprovava do começo ao fim”. É essa a empatia que todo grande romance cria e que é tão bem descrita por Azar Nafisi, ecoando Harold Bloom: “Não podemos experimentar tudo o que os outros vivenciaram,mas podemos compreender mesmo os indivíduos mais monstruosos. Um bom romance é aquele que mostra a complexidade dos indivíduos e que cria espaço suficiente para que todos eles tenham uma voz; desse modo, um romance é chamado de democrático, não porque defenda a democracia, mas porque ele é assim, por sua natureza. A empatia está no âmago da questão, no âmago de Gatsby, como no de tantos outros romances; o maior pecado é ficar cego diante dos problemas e sofrimentos de outras pessoas. Não enxergar esses problemas e sofrimentos significa negar sua existência.”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de dezembro de 2004)

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https://armonte.wordpress.com/2011/07/22/lendo-azar-nafisi-na-baixada-santista/

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Uma espécie de grandeza épica

“Apenas o romantismo preserva as coisas que vale a pena preservar”. Esse trecho de Belos e Malditos (1922) ajuda a compreender a atmosfera de um dos contos mais emblemáticos de Scott Fitzgerald, O boa vida. O seu protagonista, Jim Powell, descende de uma família importante, mas arruinada. E ele não é capaz de diz adeus ao passado e desvencilhar-se de um tipo de vida que não é mais o dele e, embora tente, não consegue incorporar-se aos jovens endinheirados e irresponsáveis da pequena cidade de 40 mil habitantes, ao sul da Georgia, onde vive.

Sua “boa vida” é um limbo, um simulacro de uma inadaptação existencial básica: “Uma parede erguera-se subitamente em torno dele, encarcerando-o, uma parede tão palpável e definida como a branca parede de seu pobre quarto. E, com a percepção dessa parede, tudo o que tinha constituído o romance de sua existência—a sua inteligência, a sua despreocupada imprevidência, a miraculosa liberalidade da vida—se dissipou”.

Powell é, em suma, o homem emparedado que o ensaísta francês Michel Mohrt identifica na obra do autor de O grande Gatsby (1925), um dos romances-chave do século XX: “Seu herói está emparedado dentro da sua vida sentimental; sua vontade de poder manifesta-se por um desejo de dominar os outros. Para ele, não há conquista que se diferencie—quer seja uma cidade ou um meio social—da conquista de uma mulher”.

E como fica então o romantismo “que preserva as coisas que vale a pena preservar”?

Em O boa vida, Powell vislumbra uma chance de mudança ao contemplar Nancy Lamar numa festa. Nancy, assim como a Gloria de Belos e Malditos, a Alicia de Feiticeira ruiva e outras tantas mulheres do universo fitzgeraldiano, emociona o seu apaixonado por ser tremendamente viva. E há um momento em que tudo parece incrivelmente romântico, charmoso, perfeito, em que a vida parece não ter limites, porque o homem tem acesso a uma mulher dessas.

A desilusão que decorre dos textos de Fitzgerald e sobre a qual assenta a estrutura de algumas das suas melhores realizações é que esse momento, esse auge do romântico, só dura um instante, e o resto é apenas a nostalgia desse romantismo. É o caso de Jim e Nancy. Há uma festa, há essa sensação, e Jim passa a desejar uma outra existência. No dia seguinte, ele descobre que sua eleita casou-se e foi embora da cidade devido a um escândalo na madrugada.

O paradoxo maior do mundo ficcional desse grande e pungente escritor norte-americano (e talvez sua maior fraqueza) é que por mais cínico, cáustico e sofisticado que ele pretenda ser (geralmente no início dos textos), sua visão de mundo invariavelmente conduz a história para esse momento de puro romantismo, que é também um momento de pura fragilidade. Por isso, e apesar dos resultados muitas vezes imperfeitos (caso de Belos e Malditos, que mesmo assim é lindo, ainda mais considerando-se que foi escrito por alguém com vinte e poucos anos), Fitzgerald alinha-se com honra no time simplesmente excepcional de ficcionistas das primeiras décadas do século nos EUA. Só para citar alguns nomes: William Faulkner (o maior de todos), Edith Wharton, Jack London, Willa Cather, Sherwood Anderson, Theodore Dreiser, John dos Passos, Thomas Wolfe, Katharine Anne Porter, Ernest Hemingway, Dorothy Parker, Sinclair Lewis, John Steinbeck…

     Sobre si, Fitzgerald escreveu: “Não sou um grande homem, mas às vezes penso que a qualidade impessoal e objetiva do meu talento, e o sacrifício dele, aos pedacinhos, para preservar-lhe o valor essencial, têm uma espécie de grandeza épica”. Palavras famosas, parodiadas por Woody Allen numa cena de A rosa púrpura do Cairo.

O boa vida faz parte de Seis contos da Era do Jazz & outras histórias, livro organizado postumamente pela filha de Fitzgerald  (e traduzido pelo grande Brenno Silveira), e que sai em nova edição pela José Olympio (a anterior foi pela Civilização Brasileira nos anos 60), nestes dias em que  se comemora o centenário de nascimento do autor de Suave é a noite (1934), outro monumento do romantismo fitzgeraldiano.

Além da história de Jim Powell (a minha favorita), há a fascinação  do livreiro Merlin pela irrequieta Alicia em Feiticeira ruiva, há o marido  que rouba um dia inteiro da existência da esposa no divertido  A soneca de Gretchen, há o noivo que, despeitado com a indecisão da amada, gaiatamente se fantasia de camelo e se vê envolvido numa esdrúxula cerimônia de casamento, em As costas do camelo; e, por fim, um dos melhores textos  de Fitzgerald, O curioso caso de Benjamin Button, cujo protagonista nasce idoso e vai rejuvenescendo, sempre em descompasso com as pessoas que o cercam.

Seis contos da Era do Jazz & outras histórias é um bom princípio para conhecer Scott Fitzgerald e, para os aficionados, uma visão em miniatura do brilhante (e também árido) mundo em que se passam as tramas dos seus grandes romances, que bem poderiam entrar em circulação novamente aqui no Brasil.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em primeiro de setembro de 1996)

07/04/2010

A MORTE DO CAIXEIRO VIAJANTE: “A METAMORFOSE”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 14 de outubro de 1997)

A Companhia das Letras iniciou uma nova edição das obras de Franz Kafka no Brasil, começando com A METAMORFOSE, certamente um dos textos mais traduzidos por aqui. Eu, por exemplo, tenho em casa quatro  traduções brasileiras (além de uma portuguesa). A Ediouro publica atualmente tanto a tradução pioneira de Torrieri Guimarães (que está na coletânea A Colônia Penal) quanto uma versão de Marques Rebelo. Há a tradução de Brenno Silveira, relançada pela Civilização Brasileira.  E a mesma tradução de Modesto Carone que inicia o empreendimento da Companhia das Letras já havia sido lançada pela Brasiliense. Como se vê, é metamorfose que não acaba mais, quase tanto quanto as metamorfoses partidárias de certos políticos em época pré-eleitoral.

Como se sabe, A METAMORFOSE conta a história de um caixeiro-viajante, Gregor Samsa, o qual desperta uma manhã transformado numa “espécie monstruosa de inseto”. Como se sabe também, o texto (que  Kafka escreveu em 1912, numa grande fase criativa) é uma espécie de vingança simbólica do genial escritor tcheco contra sua família: ao mostrar Samsa reduzido à condição de um inseto inválido e incapaz para o trabalho, ele estaria dando vazão a um ressentimento que faz dos familiares de Gregor os verdadeiros monstros da narrativa (mesmo a irmã, Grete, bondosa com ele a princípio, vai metamorfoseando-se numa tirana).

O principal alvo é o pai. Não é à toa que os capítulos de A METAMORFOSE acabam convergindo para confrontos onde o pai de Gregor praticamente o esmaga. Inicialmente, com uma bengalada, relegando o filho à condição de prisioneiro no seu quarto, e, meses mais tarde, ao acertá-lo com uma maçã que apodrecerá no seu corpo, apressando seu fim.

O pai, dentro da ótica do narrador, parece revitalizar-se com a desgraça do filho e parece ressentir-se, ao mesmo tempo, pela atenção dispensada a ele na sua “condição monstruosa”, a qual nada mais é do que a inatividade, a incapacidade de ganhar a vida, o sustento da família, ou seja, de manter-se no mercado de trabalho, essa expressão odiosa que parece ter se metamorfoseado no nosso único horizonte.

Mas, com se sabe também, A METAMORFOSE é uma demonstração do progressivo esvaziamento das pessoas pelo capitalismo, isto é, sua crescente desumanização e alienação da própria ideia do “humano”.  É por isso que não se limita a ser apenas uma mera vingança de um filho oprimido e recalcado, para ganhar a dimensão de grande alegoria da nossa época.

O que, porém, só uma leitura, um contato efetivo, transcendendo o mundo de informações biográficas e interpretativas que se pode ter de A METAMORFOSE, mesmo sem ter lido o texto, dessa que é a novela (aquela forma intermediária e imprecisamente caracterizada entre o romance e o conto) mais importante, o texto paradigmático deste século, pode mostrar verdadeiramente o impacto que é acompanhar Gregor Samsa rumo à sua morte decretada pela família e pela esfera de produção, em cenas que conseguem o milagre de ser engraçadas (quem pode esquecer a fuga do chefe de Samsa após sua aparição? Ou o espanto dos inquilinos? Ou a empregada jocosa?) e macabras, a um só tempo.

E, pouco antes da terrível sentença familiar contra ele, o inútil, o inválido, o sem-vida no mundo em que todos precisam ser úteis, produtivos e capazes, o texto  atinge o ápice da beleza quando Gregor rasteja, inconsciente dos danos que pode trazer (ele que se transformou num monstro rancoroso, rabugento e faminto), rumo à irmã que toca violino:

“Gregor rastejou um pouco mais… a fim de que os seus olhares se encontrassem. Será que ele não passava de um animal, embora a música o emocionasse tanto? Parecia que ela lhe abria um caminho rumo a um alimento desconhecido pelo qual ele tanto ansiava.”

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