MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

28/05/2013

“Uns tomam éter, outros cocaína”… A humildade como o grande “barato”

“Uns tomam éter, outros cocaína/Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria/Tenho todos os motivos menos um de ser triste/Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria (…) //Sim, já perdi, pai, mãe, irmãos/Perdi a saúde também/É por isso que sinto como ninguém o ritmo do jazz-band…” (Não sei dançar).

À medida que envelheço, vou apreciando cada vez mais a poesia de Manuel Bandeira, que só não é o nosso poeta supremo porque esse lugar pertence a outro pernambucano, João Cabral de Melo Neto.

A Cosac & Naify lança agora 50 poemas escolhidos pelo autor, resgatando uma seleção feita  há 50 anos, e sobre a qual ele escreveu, no prefácio da sua Antologia Poética, onde reaparecem todos eles, à exceção de um: “o critério adotado foi colher entre os meus poemas mais bem realizados os mais acessíveis ao leitor estrangeiro, pois eu desejava com ela retribuir a poetas de outras línguas a gentileza de terem me oferecido os seus livros”.

O presente, no entanto, é para o leitor, que ganhou 50 poemas enxutos e precisos (embora se pudesse acrescentar outros tantos, entre eles o que abre este artigo e não está incluído na seleção), inclusive aquele eliminado da antologia mais abrangente, A sereia de Lenau, bastante característico do primeiro Bandeira, de A cinza das horas e Carnaval e que ainda não é o grande Bandeira de Libertinagem, apesar de escrever versos mais-que-perfeitos: “Quando na grave solidão do Atlântico/Olhavas da amurada do navio/O mar já luminoso e já sombrio/Lenau! teu grande espírito romântico //Suspirava por ver dentro das ondas/Até o álveo profundo das areias/A enxergar alvas formas de sereias/De braços nus e nádegas redondas // Ilusão! que sem cauda aqueles seres/Deixando o ermo monótono das águas/Andam em terra suscitando mágoas/Misturadas às filhas das mulheres// Nikolaus Lenau, poeta da amargura/ Uma te amou, chamava-se Sofia/E te levou pela melancolia/Ao oceano sem fundo da loucura.”

A edição dos 50 poemas escolhidos pelo autor ainda traz um CD onde o próprio Bandeira declama metade deles e que permite ver como é enganosa sua aparente simplicidade (“Quero é a delícia de poder sentir as coisas mais simples” como decreta em Belo Belo) e a rara densidade e concentração de efeito que eles ocultam e que nos escapa às vezes em leituras mais apressadas. Seria temerário eleger os mais bonitos da coletânea, mas aqueles que falam da morte certamente estão entre os que mais permanecem na memória, como o extraordinário Momento num café: “Quando o enterro passou/ Os homens que se achavam no café/Tiraram o chapéu maquinalmente/Saudavam o morto distraídos/ Estavam todos voltados para a vida/Absortos na vida/Confiantes na vida // Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado/Olhando o esquife longamente/ Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade/Que a vida é traição/ E saudava a matéria que passava/ Liberta para sempre da alma extinta”.

Pena que nessa seleção ele não incluiu a fantástica síntese de seu universo poético que é Poema só para Jaime Ovalle: “Quando acordei hoje, ainda fazia escuro/( Embora a manhã já estivesse avançada)/Chovia/ Chovia uma triste chuva de resignação/ Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite/ Então me levantei/bebi o café que eu mesmo preparei/Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando…/–Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei”.

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 23 de dezembro de 2006)

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16/03/2013

Resenhas ROTHarianas (2): FANTASMA SAI DE CENA. Mas não o escritor

philip roth

“Tenho a sensação habitual de que minha vida verdadeira já terminou e que estou vivendo uma existência póstuma”.

                              (Keats)

“Isso que o senhor está fazendo não é uma descrição, é uma caricatura, senhor Zuckerman (…) O senhor é um pessoa mais velha que andou afastada de tudo, e o senhor não sabe o que é ser jovem agora. O senhor é dos anos 50 e ele é de agora. O senhor é Nathan Zuckerman. Imagino que há muito tempo o senhor não tem contato com pessoas que ainda não se estabeleceram na vida profissional”.

fantasma sai de cena

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/07/11/o-leite-derramado-nada-e-desperdicado-em-o-teatro-de-sabbath/

 https://armonte.wordpress.com/2011/07/11/destaque-do-blog-adeus-columbus-de-philip-roth

ENQUANTO AGONIZO ( Parte Final) 

Não deixa de ser engraçado eu ter comentado na semana passada (ver https://armonte.wordpress.com/2013/03/16/resenhas-rotharianas-1-o-animal-agonizante-e-o-escritor-tambem/)  meu mal estar diante de uma certa desconexão de Philip Roth com a atualidade e a rarefação da sua ficção decorrente disso, e logo na seqüência da leitura de O Animal Agonizante, que motivou meu comentário (que espero não ser entendido como uma depreciação total dessa novela), dar de cara com   Fantasma Sai de Cena, romance no qual outro personagem constante na obra de Roth (já aparecera, por exemplo, nos maravilhosos The Ghost Writer-Diário de uma Ilusão & O Avesso da Vida), Nathan Zuckerman, tematiza essa desconexão e rarefação. Escritor famoso e polêmico, ele isolou por onze anos no interior, devido a ameaças de morte e à impotência sexual causada pelo tratamento de câncer na próstata (e, levando-se em conta o imaginário rothiano, imagine-se o efeito dessa condição).

Na semana em que Bush obtém sua reeleição (em 2004), ele retorna a Nova Iorque para tentar uma intervenção cirúrgica que minimizaria a incontinência urinária que o obriga a usar cuecas de plástico e absorventes. Entra em contato com três jovens candidatos a escritor: um casal, Billy e Jamie, e um amigo (só isto?) deles, Richard Kliman, o qual pretende escrever a biografia do ídolo literário da juventude de Zuckerman, E. I. Lonoff, meio esquecido atualmente e que supostamente seria resgatado pelo trabalho de Kliman. O que revolta o narrador é que parece interessar mais a Kliman construir uma carreira literária através de revelações escandalosas (um suposto incesto cometido por Lonoff) do que resgatar uma obra de valor (além disso, apesar de ser um “fantasma” de si mesmo, Zuckerman deseja Jamie e tem ciúme de Kliman, seu possível amante). O que revolta o leitor é que os “jovens” de Fantasma Sai de Cena não saem do nível da caricatura, e é bem justa a censura de Jamie que serve de epígrafe a este artigo.

Outra personagem importante do romance é Amy Bellette, judia sobrevivente da Segunda Guerra (poderia faltar?), um “fantasma” que se recusa a sair de cena: amante de Lonoff, enquanto ele escrevia seu último livro (nunca publicado), ela é assediada por Kliman, que extorquiu (ou roubou) os originais, e nunca tem certeza do que acontece ou não devido a um tumor no cérebro. Para ela, sua vida se resume aos anos que viveu com o escritor-guru. Zuckerman pergunta a ela: “Como é que uma pessoa vive tanto tempo só de lembranças?” Mas, segundo a própria Amy, Lonoff fala com ela o tempo todo: “Nós conseguimos resolver muito bem o problema dele ter morrido. Agora somos diferentes de todo mundo e muito parecidos um com o outro.

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Fica claro então nessas “sobrevidas” patéticas e erráticas, o que Fantasma Sai de Cena está colocando em cena mais uma vez: o animal agonizante: O fato de eu haver permitido que esse encontro ocorresse me fazia sentir tão desprotegido quanto Amy, poroso, diluído, mentalmente enfraquecido a um ponto que me parecia inimaginável (…) Eu não estava à altura das exigências daquele conflito, não queria vivenciar a perplexidade que ele causava…”

Assim como os setores mais avançados e liberais foram incapazes de deter Bush (derrota ainda mais amarga dessa segunda vez), a impotência derivativa da condição clínica estendeu-se a todos os aspectos da vida de Zuckerman: nessa semana de retorno, se vê incapaz de transformar o rumo dos acontecimentos, nem que seja em escala ínfima e pessoal. Sua própria memória começa a apresentar falhas e lacunas, ameaçando seu único vínculo forte aos 71 anos: com sua própria escrita. E soma-se a isso o sentimento de alienação geral quanto ao mundo que reencontra: “No momento em que levantei a vista, todos estavam falando em seus celulares. Por que motivo aqueles telefones eram para mim a encarnação de tudo de que eu precisava fugir? Eles representavam um progresso tecnológico inevitável, e no entanto, em sua abundância, eu via o quanto eu me afastara da comunidade de meus contemporâneos. Isto aqui não é mais o meu lugar, pensei. Minha carteira de sócio havia expirado. Vá embora (…) Toda aquela confusão em Nova Iorque havia tomado pouco mais de uma semana. Não há lugar mais mundano, mais aqui e agora, do que Nova Iorque, cheia de gente falando ao celular e indo a restaurantes, tendo casos amorosos, procurando emprego, lendo as notícias, sendo consumida por emoções políticas, e eu havia pensado em voltar do lugar onde me refugiara para retornar a vida urbana reencarnado, reassumindo todas as coisas de que havia decidido abrir mão —amor, desejo, brigas, conflitos profissionais, todo o confuso legado do passado— e, em vez disso, como num filme mudo em ritmo acelerado, passei pela cidade por um rápido momento e mais que depressa voltei para casa. Tudo que acontecera fora que algumas coisas quase haviam acontecido, e no entanto retornei como se coisas imensas tivessem acontecido. Na verdade, eu não havia tentado fazer nada, apenas permaneci imobilizado por alguns dias, cheio de frustração, como um joguete num conflito implacável entre os já-era e os ainda-não [isto é, entre os velhos e os novos].

Aniquilado em seu “papel de macho”, assombrado pela ameaça de perder o último reduto (já seu último romance fora uma luta contra a deterioração mental), Zuckerman opta por uma estratégia pungente: reduz sua escrita a cenas esquemáticas, um diálogo entre um Ele e uma Ela (Jamie, mas também a Mulher em geral), em que diz tudo o que está interdito nos compromissos sociais. Um verdadeiro grito de agonia que deixa o leitor perplexo diante da ruindade das cenas, em contraste com o cuidado e apuro com que o resto do texto é construído (sempre um dos encantos da leitura de Roth). Antes, ele discutira a guinada de Lonoff de contos exatos e burilados para o romance que acabara com sua existência: “Ele começou a escrever de uma maneira totalmente diferente da habitual. Antes ele tentava omitir o máximo possível. Agora ele queria incluir o máximo. Achava que o estilo lacônico era uma barreira e no entanto odiava a nova maneira de escrever que adotara. Dizia: é chato, não acaba mais, não tem forma, não tem plano. O triste recurso do diálogo esquemático e interminável, chato, não acabando nunca, sem forma e sem plano, é como se Zuckerman/Roth estivesse nos dizendo que está amarrado à roda de suplício da literatura. Assim como os últimos filmes de Scorsese se retiraram da vida real e se reduziram ao culto do cinema, a literatura se tornou o único referencial em Roth. A carne é triste, e li todos os livros, já se disse. A carne é triste na impotência, nos diz Zuckerman, e só tenho os livros para escrever, mesmo que se tenha perdido  a “mala de truques de escritor” (roubei esta expressão de outro grande judeu americano, E. L. Doctorow), mesmo que as palavras  se reduzam a um monólogo disfarçado em diálogo, a um balbucio, a um estertor.

(resenha publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos, 15 de novembro de 2008 com o título “O escritor agonizante?”)

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