MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

05/06/2013

Qual a moral?- A fábula perigosa de Fernando Trías de Bes

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 05 de junho de 2013)

Karl Marx passou muitos anos de sua vida na sala de leitura do Museu Britânico, enquanto sua família se equilibrava a um passo da miséria, para delinear os fundamentos de O Capital. O romance Tinta (Espanha, 2011) é uma fábula extravagante e perigosa sobre a miragem da página impressa. Em última instância, o livro trata das tentações da utopia, quando misturadas aos aspectos mal resolvidos e tortuosos das nossas existências pessoais.

No enxutíssimo relato de Fernando Trías de Bes (cujo currículo inclui a carreira de economista, especializado em “Criatividade, Inovação e Marketing”, o que para mim já faz dele um personagem de O livro dos mandarins, de Ricardo Lísias), a mulher de um livreiro (na cidade alemã de Mongúcia, ao longo do período 1900-1910) é obcecada por um amante, cuja pele guarda resquícios de tinta de impressão. O livreiro se desespera na busca de um meio para quebrar tal feitiço, unindo-se a um matemático que perdera o filho e também tenta encontrar o Motivo, isto é, a origem das fatalidades e circunstâncias; este resolve montar um livro, o Livro, com frases que retira de milhares de outros (mas só dos que pertencem à livraria do marido traído), aí propõe a um impressor (cujo passado também tem um evento traumático ligado ao Motivo) a impressão dessa definitiva obra (que faria inveja no Pierre Menard, de Borges) com uma tinta que se apague no momento mesmo da leitura.

O matemático compõe pessoalmente as chapas tipográficas para a impressão; o dono da gráfica contrata um revisor, escritor desiludido, que desistira da literatura, dedicando-se a capturar nuvens dentro de cápsulas de vidro, e o qual se tranca com as chapas e remistura todas as palavras (pois, se elas pertencem a um livro, elas poderiam ser colocadas em ordem diferente mas ainda seriam as palavras daquela obra e de nenhuma outra); o livro é impresso com tinta diluída em água, de forma que não aparece nada, só que alguns de seus parcos leitores creem que viram palavras, tramas, ideias. E o revisor propõe a publicação a um editor que nunca leu o que publica porque a mãe (numa relação abusiva e incestuosa) só lhe permitia a Bíblia (isso após banhos de imersão em gelo e neve, para mantê-lo “puro”). Seu único contato direto com livros é um exemplar que recebe toda manhã, com tinta ainda fresca,e com a qual ele esfrega o corpo todo…

 

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A crítica a essa perseguição de um livro definitivo, que resolvesse todos os dilemas, improbabilidades e desacertos da vida, esse enfeitiçamento pela tinta, que já está na pedra-de-toque do enredo (com a mulher do livreiro enleada com um amante por quem nem sente atração) parece bastante saudável e lúcida, quando nos damos conta dos horrores que a civilização letrada foi capaz de engendrar (e nesse ponto, não é fortuito que Tinta transcorra na Alemanha da Belle Époque, pouco antes que a economia alemã fosse pulverizada pelo fracasso na Primeira Guerra, com as conseqüências nefastas que conhecemos). Independentemente de qualquer outra consideração, já torna o romance um feito digno de nota, que não faz feio ao lado das experiências de um Gonçalo M. Tavares (na série O Reino, cujo volume mais famoso é Jerusalém, e na qual põe em cena as dicotomias e polaridades da cultura que se cristalizou na Europa); por outro lado, e é aí que me sinto desconfiado e cético quanto ao livro, acredito que na base do projeto de Trías de Bes está uma daquelas liquidações modernosas e neoliberais das Grandes Narrativas.

Por isso, não concordo em nada com a apresentação da Autêntica para esse seu lançamento: lemos que se trata de uma “história que se lê com o coração”, de uma homenagem ao “poder que a literatura e a imaginação têm de transformar vidas”. Ao fim e ao cabo, a moral que se tira é que empreendimentos tais como o de Marx são absurdos, prova da cegueira do homem, que não pode viver com incertezas, que quer capturar nuvens.

Resta o pragmatismo dessacralizante misturador de tintas para impressão. O irmão do seu patrão fizera (um fiasco) uma palestra para colegas cientistas, anunciando a descoberta da verdadeira origem da vida (o Motivo). E era na gráfica da família que os jornais da região eram impressos, e neles haveria matérias ridicularizando o jovem visionário:

“__ Será sua perdição.

__ Não podemos fazer nada. Devemos lealdade à nossa profissão. Nós não escrevemos, apenas imprimimos.

__É meu irmão—insiste Patrik Gensfleisch.

__ Se negarmos , seremos denunciados pelo jornal. Um impressor não pode se negar a editar um diário por conter uma notícia que o prejudica.

__ É meu irmão!

__ É tinta, somente tinta!”

Em todo caso, sempre pode acontecer com Tinta o “efeito Orwell”. Como se sabe, o grande escritor inglês idealizou 1984  como uma crítica contundente ao stalinismo. Hoje, desbotados os laços históricos mais contingentes da sua fábula, ele parece ser muito mais uma crítica ao estágio mais voraz do capitalismo, que inverte todos os sinais e transforma a linguagem numa grande mentira. Ou seja, as famosas ironias da história. E aí, então, qual a moral da fábula?

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21/08/2011

O MÉDICO E O MONGE

(o texto abaixo foi escrito em 2008 como anotação inicial para um novo curso após “Margens Derradeiras; textos do limite”, desta vez enfocando as obras de Tchekhov e Pirandello—curso que acabou não acontecendo; essas anotações tentam fazer uma ponte entre os dois cursos, daí o texto ter parentesco com os que escrevi sobre O horla, O clube dos suicidas, O altar dos mortos, A tumba dos ancestrais, A causa secreta, Os fatos do caso do Sr. Valdemar)

 

 

“…a facilidade com que nosso pensamento se decide a aceitar um absurdo, quando tal aceitação satisfaz pensamentos saturados de afeto…”

         (Sigmund Freud, Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen, 1907)

“O que tende para fora tem de viver o seu mito, o que tende para dentro sonhará seu meio ambiente, a chamada vida real.”

                         (Carl Gustav Jung, Tipos Psicológicos: Extrovertido/Introvertido, 1921)

É o tipo introvertido, cuja tendência, a despeito dos seus esforços, é refugiar-se num mundo de lembranças e de afetos… Sucumbe-se à própria fascinação íntima e a pessoa enterra-se com os seus afetos para voltar a renascer de novo, depois de estes terem ido embora. É um tipo, porém, que se arrisca a que o saco onde se encerra rebente um dia…”

    (Carl Gustav Jung, O homem à descoberta da sua alma, 1934)

         É interessante o papel desempenhado pela novela O monge negro na obra tchekhoviana,  sempre vista como um dos pontos de partida da moderna narrativa por prescindir de “grandes tramas”, para se concentrar no quotidiano e nas situações banais [1], uma vez que, de uma maneira bastante peculiar, trabalha com o umheimlich e explora situações vizinhas à, por exemplo, atmosfera de O Horla, de Maupassant.

         Tchekhov nasceu em 17 de janeiro de 1860, em Taganrog; sua família mudou-se para Moscou (arruinada por uma crise financeira) quando ele tinha dezesseis anos, mas ele só foi para lá três anos mais tarde, após terminar seus estudos secundários. Em Moscou, enquanto toda a família repartia um porão miserável, sem dinheiro para comprar lenha no inverno (como a família da Amorinha de  O Relógio, de Turgueniêv), ele estuda medicina. Dr. Jekyll. E ganha dinheiro escrevendo (cinco copeques por linha). Seus contos e novelas falavam de um mundo esmagado pela mediocridade e pelo ridículo. Diga-se de passagem, ele também teorizará sobre a ficção, como Poe e Henry James, elaborando “regras essenciais”: não dar ênfase a problemas políticos, econômicos e sociais; ser sempre que possível objetivo e “verdadeiro”; ser breve, sem ser banal. Foi acusado de excessivo realismo, de mau gosto e de utilizar detalhes “sujos e grosseiros”. Aliás, a acusação de cínico, amoral e repugnante ressurgiria quando estreasse no teatro com Ivanov (1887).

         Tchekhov ficou tuberculoso e com o dinheiro que ganhava comprou uma propriedade rural próxima a Moscou, em 1891, trabalhando como médico contra uma epidemia de cólera.

         Em 1898, um encontro decisivo: conhece Constantin Stanislavski, que vai utilizar suas peças como meio de consagrar seu método de interpretação, agora clássico. É um teatro onde “nada acontece”. O verdadeiro drama é a inação, como já disseram. Gorki: Ninguém compreendeu tão lúcida e finamente como Tchekhov a tragédia da trivialidade da vida; ninguém antes dele mostrou aos homens, com tão impiedosa verdade, o retrato terrível e vergonhoso de suas vidas, no turvo caos da existência quotidiana da burguesia”.

         Sua obra-prima absoluta, a belíssima O jardim das cerejeiras, foi montada no ano da morte de Tchekhov (1904, em 15 de julho), numa viagem à Floresta Negra, na Alemanha, com 44 anos (uma idade comum aos nossos escritores derradeiros, veja-se o caso de Stevenson). Seus últimos anos são passados na Criméia, em Ialta, onde foi obrigado a viver por causa da sua doença pulmonar, mais ou menos como o personagem de O Monge Negro, relato com cerca de 70 páginas, dividido em nove capítulos. Começa sob o signo da medicina, portanto da ciência: “Andrei Vassilievitch Kovrin sofreu um esgotamento que lhe arruinou os nervos. Não se tratou; limitou-se, diante de uma garrafa de vinho, a conversar com um médico amigo, que o aconselhou a passar a primavera e o verão no campo” [2]. Kovrin é um professor, um intelectual, e nesse sentido identifica-se com o urbano; mas ele foi criado no campo, e a princípio temos aquela solução apaziguadora do Jacinto de Civilização e A cidade e as serras, de Eça (também sentimos que foi a solução inicial do narrador de O Horla, mais homem da cidade que do campo, solução que se revela aterrorizante, pois só o urbano o apazigua e adormece o “ser invisível” que convive com ele).

         Primeiro Kovrin passa três semanas sozinho na sua propriedade, e depois se instala na casa do antigo tutor, “segundo pai”, Pessotski, que vive em Borissovka com a filha, Tânia, companheira de juventude de Kovrin. Vemos o retorno a Borissovka com ares do Jacinto de Eça: “Tudo ali parecia convidar o visitante a sentar-se e escrever baladas…a ao redor da casa, os jardins e o pomar inspiravam ânimo e alegria de viver, mesmo com mau tempo. Havia rosas, camélias e lírios maravilhosos, tulipas em todos os tons possíveis, de um branco brilhante ao escuro fuliginoso, uma tal riqueza de cores como jamais Kovrin vira em outro lugar”. Entretanto, há um lado decadentista nas experiências de estufa do velho Pessotski, A parte ornamental do jardim produzia em Kovrin, quando menino, uma impressão  fabulosa. Que caprichos, que refinadas deformações, que escárnios feitos à natureza!. Portanto, temos aqui, uma dicotomia nítida: obras da natureza inspirando ânimo e alegria de viver versus escárnios feitos à natureza inspirando um sentimento de refinamento, caprichoso e deformante.

         Na chegada de Kovrin (após cinco anos de ausência), há um alvoroço devido à ameaça de geada: No grande pomar chamado comercial, que a cada ano rendia a Iegor Semionovitch milhares de rublos de lucro, já deslizava ao longo do solo a fumaça espessa, negra e ácida que devia proteger as folhas novas e salvar as plantas”. E é nessa atmosfera que caminham, recuperando sua familiaridade e camaradagem, Kovrin e Tânia (esta, “uma figura ereta e esbelta”, “agradável de contemplar” ). Ela o interpela: “Você acha que já não tem muito a ver conosco? Mas por que  estou perguntando? Você é um homem, tem a sua vida própria, tão interessante…Certo afastamento é natural. Mas seja lá o que for, quero que entre nós se sinta em casa. Temos direito a isso… meu pai lhe quer bem…o adora. Você é um intelectual, não é um homem comum; fez uma carreira brilhante, e ele está inteiramente convencido de que você deve esse sucesso todo à educação que lhe deu. Não desfaça essa ilusão dele”. Ela contrapõe a vida dela e do pai à dele: Toda a nossa vida gira em torno do jardim, não sabemos sonhar senão com maçãs e pêras”. A essa altura, Kovrin está dizendo a si mesmo que poderia se apegar a ela, até mesmo se apaixonar, só que permeando essas reflexões estão versos de Puchkin, o que já indica um distanciamento entre a vida real e a vida mental (alimentada de literatura e filosofia) do herói do relato [3].

         Se no final do primeiro capítulo, vemos Kovrin ficar na expectativa de um verão “extenso, claro, alegre”, esse mesmo final nos mostra que sua rotina de verão é ir para o quarto e ler atentamente, tomando notas. Por isso se justifica a afirmação que abre o segundo capítulo: “Continuou a viver no campo a mesma vida nervosa e desordenada que vivera na cidade. Lia e escrevia muito, estudava italiano, e quando ia passear pensava com prazer na volta ao trabalho. Dormia tão pouco que todos de casa se surpreendiam; se acaso cochilava meia hora durante o dia, perdia o sono à noite”. Dr. Jekyll precisa ocupar-se com sua ciência e o uso do tempo demanda eficácia, ocupações úteis e produtivas. Até o homem intelectual bate o cartão de ponto na mente no mundo capitalista e tem de demonstrar produtividade.

         Uma certa noite em que há visita de moças de propriedades vizinhas, que tocam piano e cantam com Tânia. Uma das cantigas fala de uma jovem de imaginação exaltada que ouve certa noite no jardim sons misteriosos, belos e estranhos, “uma sagrada harmonia, inacessível a nós, mortais, e que por isso retornava aos céus. Influenciado por ela, Kovrin se chega a Tânia e lhe confidencia, na varanda que sua mente só se ocupa de uma lenda, a qual não sabe onde leu ou ouviu, uma “lenda muito estranha e incoerente”: “Há uns mil anos, um monge, vestido de negro, errava pelo deserto em algum lugar da Síria ou da Arábia. A poucas milhas dali, pescadores viram outro monge negro caminhando lentamente sobre a superfície de um lago. Esse segundo monge era uma miragem. Agora, esqueça todas as leis da ótica, que a lenda, naturalmente, não reconhece, e ouça mais. Da miragem surgiu outra miragem e dessa uma terceira, de modo que a imagem do Monge Negro se refletia infinitamente de uma a outra camada da atmosfera. Ora era vista na África, ora na Espanha, ora na Índia, ou no Extremo Norte. Afinal, ultrapassou os limites da atmosfera terrestre, e agora vagueia pelo universo, mas nunca em condições que a façam desaparecer. Talvez seja avistada hoje em Marte ou em alguma estrela do Cruzeiro do Sul. Mas, minha querida, toda a questão, a essência mesma da lenda está na predição de que exatamente mil anos depois de o monge ter entrado no deserto a miragem tornará a penetrar na atmosfera terrestre e se tornará visível para o mundo dos homens. Esse prazo de mil anos, ao que parece, está terminando. De acordo com a lenda, devemos esperar o Monge Negro hoje ou amanhã[4].

         Enquanto Tânia volta às visitas como boa anfitriã, Kovrin caminha até o rio. Está escurecendo (hora perfeita para o umheimlich): “Kovrin cruzou a corrente. Diante dele estendia-se agora um vasto campo coberto de centeio novo. Não havia morada nem vivalma visível à distância; era como se o caminho conduzisse às inexploradas e ignotas regiões do Ocidente onde o sol já se pusera,  e onde, vasto e majestoso, flamejava ainda o esplendor do crepúsculo” [por essa época, Conrad começaria também a imaginar a batalha das trevas e da luz no crepúsculo na abertura de Coração das Trevas ].  Ele é a medida do narcisismo do nosso amigo, que imagina, nesta paisagem “ampla, livre e silenciosa” que o mundo todo está espreitando, num esconderijo, “esperando por mim para ser compreendido”.

         Mas ele vê é o assombroso. No horizonte se forma um ciclone (ou uma grande tromba d´água) e uma grande coluna negra se ergue da terra ao céu, movendo-se com incrível velocidade e então “um monge vestido de negro, cabelos grisalhos e sobrancelhas negras, as mãos cruzadas sobre o peito, passou perto dele. Seus pés descalços não tocavam o chão… Seu rosto era pálido e fino…” Ainda bem que não é o Alquimista do Paulo Coelho. Mesmo assim ele fita Kovrin, acena com a cabeça, e sorri, “um sorriso ao mesmo tempo afável e astucioso. Depois ele se mistura novamente ao ciclone, voando através do rio, esvaecendo-se como fumaça. Apesar de ter testemunhado um fenômeno bizarro, a sensação que Kovrin sente, de volta a casa, é trivial: uma agradável excitação, que cresce mais ainda quando percebe que só ele tinha visto o Monge Negro [será que isso não era, pelo contrário, para deixá-lo alerta e cabreiro?]: Riu alto, cantou, dançou uma mazurca, sentindo-se animadíssimo [vejam que ele faz coisas contrárias à sua índole contemplativa e intelectual]. Tanto Tânia como os convidados notaram em seu semblante uma expressão peculiar de êxtase e inspiração, e acharam-no muito interessante”.

         No terceiro capítulo, Tânia, já que Kovrin é um leitor avalizado, pede a ele que leia os artigos que o pai dela escreve sobre horticultura. O velho se finge de constrangido, contudo no fundo está bastante orgulhoso do que escreveu e louco para saber a opinião do antigo tutelado, agora uma autoridade intelectual. Isso acaba levando-o a uma confidência: o medo de morrer e ver todo o seu trabalho destruído. Imagine se Tânia casar, tiver filhos. O que será dos jardins e pomares? “…digo-lhe com toda a franqueza: não quero que Tânia se case. Tenho medo!” Ele só aprovaria um casamento da filha com… Kovrin: “se você e Tânia tiverem um filho, posso fazer dele um horticultor”.

         Ao ler os artigos de Pessotski (cheios de azedume e rancor contra as opiniões e práticas contrárias às dele), nosso amigo faz um diagnóstico perfeito para esse período fin-de-siècle permeado pelo decadentismo: É a mesma coisa por toda parte: em todas as carreiras os homens que têm idéias são nervosos e vítimas desse tipo de sensibilidade exacerbada. Quanto à sua visão do Monge, ele não se preocupa muito. Num trecho que já citei em epígrafe (na 4ª. aula), ele diz a si mesmo: “estou muito bem, e não fiz mal a ninguém. As minhas alucinações não têm nada de perverso, pensou, e sentiu-se de novo tranqüilo”. Só que todas as alucinações têm algo de perverso, meu caro Kovrin. O princípio da realidade está em xeque e o Desejo que aflora normalmente não está a serviço de Eros e sim de Thânatos.

         O final desse capítulo vai indicar uma nova fase emocional do protagonista: “os pensamentos que lia nos livros não mais o satisfaziam. Aspirava a algo mais vasto, infinito, assombroso… tocou a campainha e ordenou ao criado que lhe trouxesse vinho. Tomou com prazer uns copos, depois tapou a cabeça; sua consciência foi-se enevoando, e adormeceu”. O que talvez esteja adormecendo seja o superego.

         O quarto capítulo apresenta um clima tenso entre pai e filha, que na verdade é a constatação de que o “casamento” entre eles já não funciona tão bem, que algo falta. Com relação a isso, e ao desespero de Tânia devido à incompreensão do pai, Kovrin reflete: “Que ninharia bastava para fazer sofrer aquela criaturinha ao longo de todo um dia, o que é um pouco o desdém de Natanael (de O Homem da Areia ) pelo prosaísmo de Clara.  Em contrapartida ele reconhece que aquelas duas pessoas são os seus únicos elos afetivos, “ele, que perdera pai e mãe na primeira infância, teria vivido toda sua vida sem receber uma carícia sincera, sem experimentar sequer esse amor singelo e sem explicação que só dedicamos aos que nos são próximos pelo sangue. E sentia que seus nervos cansados, tensos como magnetos, respondiam aos nervos daquela moça chorosa e fremente”. A visão que fecha o capítulo é do nosso herói vendo a reconciliação entre pai e filha, como se nada houvesse acontecido, ambos comendo pão de centeio com sal, ambos com muito apetite.

         No quinto capítulo, reaparece repentinamente (após ele relembrar a primeira vez) a figura do Monge Negro: “de trás dos pinheiros em sua frente, avançou silencioso, sem o mínimo sussurro, um homem de meia altura. Trazia descoberto o cabelo grisalho, estava vestido de negro e descalço, como um mendigo. Em sua face macilenta, cadavérica, ressaltavam numerosas manchas pretas. Acenando com a cabeça, polidamente, o forasteiro ou mendigo caminhou silenciosamente até o banco e sentou-se”. E os dois (ou um só, desdobrando-se?) iniciam um diálogo, que se encontra justamente no meio da narrativa. O Monge reconhece ser um produto da imaginação excitada de Kovrin: “Eu existo na sua imaginação, e como sua imaginação é parte da natureza, devo existir também na natureza”. Vejam que maravilhosa exposição da realidade psíquica, da qualidade simbólica que a realidade ganha na nossa mente, fazendo duvidar que exista algo como a objetividade. No entanto, o discurso do Monge enveredará pela senda do afago ao narcisismo (justamente na persona de “homem intelectual”, de “servidor da ciência”, que é uma das formas principais do heroísmo oitocentista): “Você serve à verdade eterna. Seus pensamentos, suas intenções, sua ciência admirável, toda a sua vida traz o selo da divindade, um selo celestial [como os sons que a moça da cantiga ouvia]; e é tudo dedicado ao racional e ao belo, isto é, ao eterno… O verdadeiro prazer é o conhecimento… Você está doente porque forçou demais seus poderes, porque sacrificou sua saúde a uma idéia, e está próximo o tempo em que não sacrificará somente a saúde, mas a própria vida. Que mais pode desejar? É tudo a que aspira uma natureza bem dotada e nobre [5]. Kovrin questiona: se ele está fisicamente doente, como pode acreditar em si mesmo (note-se a aproximação nietzschiniana de doença com natureza bem dotada e nobre, o que será ratificado num trecho posterior: “Creia-me, as pessoas saudáveis e normais são vulgares: o rebanho. O medo do esgotamento nervoso, da superexaustão e da degenerescência só pode perturbar seriamente aqueles cujos objetivos na vida se encontram no presente: eis o rebanho… Repito: se quer ser saudável e normal, marche com o rebanho” ). Curiosamente, o Monge apela para o argumento seguinte (em se tratando de um homem racionalista): os gênios sempre tiveram “visões”. Mas a taça do sofismo, uma vez que ele acredita estar tendo uma alucinação (só que é uma alucinação narcísica) vai para o próprio Kovrin, que diz a seguinte pérola: Como é estranho que você esteja repetindo o que eu tenho pensado com tanta freqüência! E ainda: É como se me tivesse vigiado e ouvido os meus mais secretos pensamentos. Mr. Hyde (sintomaticamente, o desdobramento da consciência, o dissociar-se, está ligado a uma figura que, no imaginário medieval, é ligado ao recolhimento e ao saber; mas o adjetivo negro, ligado à batina, tem algo de lúgubre, ou de ameaçador, meio bruxo).

         E aí, mais uma vez, os traços do Monge enevoaram-se e ele se desfaz “no crepúsculo”, sumindo completamente. E Kovrin volta feliz, lisonjeado não no seu amor-próprio, pensa ele, mas na sua “alma”, em “todo o seu ser: “estar entre os eleitos, ministrar a verdade eterna, figurar entre aqueles que se empenham no curso de milênios para tornar a humanidade digna do reino de Cristo, libertar os homens de milhares de anos de luta, pecado e sofrimento, dar tudo a uma idéia (juventude, força, saúde, morrer pelo bem de todos), que idéia exaltante, gloriosa! E quando através da memória fluía sua vida passada, uma vida pura, sem mácula e cheia de trabalho, quando recordava o que aprendera e o que ensinara, era levado a concluir que não havia nenhum exagero nas palavras do monge. Hyde afagou o “ego ideal” de Jekyll, procurando o ponto certo onde minar suas defesas.

         Logo a seguir, quase sem transição, ele se declara à Tânia e pede sua mão.

         No capítulo seguinte, conta-se a novidade ao pai dela e segue-se o ritmo “os trabalhos e os dias”, como no poema de Hesíodo: “Com o calor do verão, as árvores tinham que ser regadas uma por uma; o processo custava tempo e mão-de-obra. Apareceram muitas largas, que os trabalhadores, e até Iegor Semionovitch e Tânia, esmagavam com os dedos, para grande nojo de Kovrin. As encomendas do outono, de frutas e árvores, deviam ser atendidas”. Nesses “trabalhos e dias” incluem-se os preparativos para o enxoval de Tânia: “com o permanente retinir das tesouras, o ruído das máquinas de costura, o cheiro dos ferros de engomar e os caprichos do nervoso e delicado costureiro, toda a casa parecia rodopiar. E, para piorar a situação, tinham visitas todos os dias, e havia que diverti-las, alimentá-las e dar-lhes pousada”.

         Enquanto Tânia e o pai vivem os esplendores e misérias desses dias de preparativos, muito preocupados também com as colheitas e coletas, Kovrin entusiasticamente trabalha, num diapasão diferente, e “mal percebe a confusão em torno”: “voltava a seu quarto enlevado e feliz, e se entregava ao trabalho com seus livros e manuscritos possuído da mesma paixão com que beijara Tânia e lhe declarara amor [esse nivelamento de entusiasmo não vaticina bom futuro à pobre noiva]. O que o Monge Negro lhe dissera sobre ser ele eleito de Deus, sobre a verdade eterna e o glorioso futuro da humanidade, dava a todo o seu trabalho uma significação peculiar, extraordinária. Uma ou duas vezes por semana, no parque ou em casa, encontrava o monge e conversava com ele horas a fio; isso, porém, não o assustava, ao contrário, deliciava-o, pois agora tinha a certeza de que essas aparições eram privilégio dos seres eleitos e excepcionais, que se dedicam à propagação das idéias. Kovrin representa um passo à frente do tipo de homem que já vimos nas histórias de Henry James, como aquele de O Altar dos Mortos; dessa vez, com o autocentramento projetando-se numa ideologia: a propagação de idéias. Quanto sectários e ideólogos o século seguinte não fabricará?

         Chega afinal o dia do casório, celebrado com pompa, com festividades que duraram dois dias: “apesar de toda a música de mau gosto, dos brindes ruidosos, dos criados atarantados, do barulho, do ambiente abafado” , apesar de todos esses aspectos grosseiros, e do gasto de três mil rublos, nem valorizou ou deu importância aos “vinhos caros nem aos maravilhosos hors d´oeuvres especialmente encomendados em Moscou”.

         E no sétimo capítulo já estamos em pleno casamento de Kovrin e Tânia, a qual vive com dor de cabeça por causa da vida urbana. E uma das noites em que acometida pelo incômodo, vai dormir mais cedo, seu marido recebe a aparição do Monge Negro, numa cadeira, ao lado da cama. Conversam sobre a glória e a fama, o Monge afirmando que elas nada são para um espírito como Kovrin e este modestamente confirmando. Depois, passam para o tema da felicidade. Kovrin diz: “estou um pouco assustado com minha própria felicidade. Da manhã à noite, só sinto alegria, a alegria me absorve e afasta todos os outros sentimentos. Não sei o que é dor, aflição, ou preocupação”. Freudianamente, diríamos que isso não é alegria ou felicidade, e sim sintomas de uma profunda dissociação da realidade. Tanto é que Tânia, acordando, olha espantada e aterrorizada para o marido que, voltado para a cadeira ao lado da cama, gesticula e ri para o vazio, com os olhos brilhando. Ela pergunta com quem ele pensa estar falando e ele diz que é com o Monge Negro: “Não há ninguém ali… Ninguém, Andriucha, você está doente… Perdoe-me, querido, mas há muito tempo eu venho achando que você não está bem dos nervos”. O engraçado é que o marido reaproximou-se dela e do pai justamente por estar sofrendo um esgotamento nervoso, que se diluíra em meio aos incidentes da estadia dele. Ou, como é mais provável, ele nunca tocou no assunto com eles? Afinal, ele é o homem intelectual, o magister, o guiado pelas Luzes da Razão: “Foi somente ao olhá-la que Kovrin compreendeu o perigo de sua posição e entendeu o sentido do que o Monge queria dizer, de suas conversas. Tornou-se claro para ele que estava louco. É interessante essa situação de uma pessoa tomando consciência da própria loucura, diagnosticando-se: “Parece que não estou regulando da cabeça!” Então, levam-no ao médico e inicia-se um tratamento. Palavra mágica: tratamento. A solução para os males burgueses. Porém, com Ivan Ilitch não deu muito certo. E com Hyde ou Mr. Kurtz, daria?

         E temos um início cíclico no oitavo e penúltimo capítulo: mais uma vez chega o verão e mais uma vez se recomenda a Kovrin uma temporada campestre. Ele recuperara a saúde e já não via mais o Monge Negro. Portanto, a sanidade é fechar-se à sua voz mais íntima, que reflete seus desejos mais pulsantes (e utilizo esse termo “pulsantes” na esteira das pulsões freudianas, mesmo). Não é confrontá-la, reconhecer que ela existe em si e poder harmonizá-la; é acreditar que a neutralizou e procurar o “vigor físico”, índice de saúde: Estava na casa do sogro, bebia muito leite, trabalhava apenas duas horas por dia, não tocava em vinho e tinha deixado de fumar”.

         Num passeio, após uma missa, Kovrin dá um passeio e vemos a mudança de um ano para outro tornada sensível pela sua percepção da natureza: “Os grandes pinheiros, com suas raízes nuas, que um ano antes lhe haviam parecido tão novos, tão alegres, tão cheios de vida, já não sussurravam, estavam silenciosos e imóveis, como se não o reconhecessem… E de fato, com o seu cabelo cortado curto, seu passo trôpego, sua fisionomia alterada, tão sombria, pálida e diferente do que era no ano anterior, seria mesmo difícil reconhecê-lo”. Ele, o ser narcísico envolvido numa fantasia megalomaníaca, foi domesticado pelo casamento e pelo tratamento médico. A saúde, quando se tenta neutralizar o Hyde dentro de nós: um passo trôpego, uma fisionomia alterada, sombria e pálida. A hora do crepúsculo já não permite mais a dissociação gloriosa, é uma hora mágica só no exterior: “O sol se pusera, e no horizonte flamejava um vasto arrebol vermelho… tudo era imóvel; e, olhando para um ponto onde um ano antes avistara pela primeira vez o Monge Negro, Kovrin ficou uns vinte minutos contemplando aquele esplendor rubro. Quando voltou para casa, fatigado e inquieto, Iegor Semionovitch e Tânia estavam sentados nos degraus da varanda, tomando chá. Conversavam, mas, ao vê-lo se aproximar, calaram-se”[6] . Apesar da docilidade com que se submeteu ao tratamento e ao casamento, isto é, à normalidade, a grande corrente de intimidade é ainda entre pai e filha, e isso o exclui, como também ficou excluído da magia do crepúsculo.

         E Tânia passa a cumprir um papel prescritivo: “Está na hora de tomar o seu leite”. Kovrin ainda resiste: “Não, ainda não…eu não quero”. Taxativa: “Você sabe que o leite lhe faz bem. E avaliamos o sentimento de perda que o crepúsculo transmitiu a Kovrin na sua resposta, após informar que ganhou mais meio-quilo com o “regime do leite”: “Por que vocês me curaram? Poções de brometo, ociosidade, banhos quentes, vigilância, um terror idiota a cada garfada, a cada passo, tudo isso vai fazendo de mim um idiota. Fiquei transtornado da cabeça, deu-me a mania de grandeza, mas com isso tudo eu era jovial, ativo e até mesmo feliz, era interessante e original… Agora me tornei reacional e sólido, mas igual a todo mundo: sou uma mediocridade… Eu tinha alucinações, mas a quem isso fazia mal?”. Mais adiante ele dirá: “Como eram felizes Buda, Maomé e Shakespeare, a quem seus bondosos parentes e médicos não curaram do êxtase e da inspiraçãoSe Maomé tivesse tomado brometo de potássio [foi o mesmo tratamento do narrador de O Horla] para os nervos, trabalhado só duas horas por dia e bebido leite, esse homem assombroso não teria deixado atrás de si mais que seu cachorro. Médicos e parentes bondosos se esfalfam só para tornar cretina a humanidade, e tempo virá em que a mediocridade passará a ser considerado gênio, e a humanidade perecerá… Se vocês tivessem idéia de como eu estou agradecido!”  Parece-me que nosso amigo Tchekhov leu Nietzsche. E devo acrescentar que há uma atmosfera similar num outro texto dele, bem mais famoso (e igualmente longo), Enfermaria número seis, no qual vemos um médico entediado com a tolice e mediocridade do mundo “normal” e que faz amizade com um “louco interessante”, um maluco beleza.

         É evidente que o sogro e as esposa não podem entender essa declaração de princípio. E agora a presença deles passa a irritar Kovrin, principalmente o sogro, a quem passa a olhar com desprezo e ódio, e tratá-lo com rudeza. Para Tânia, o marido se tornara “irritadiço, caprichoso, excitável e desinteressante” e isso a atormenta e estressa. O capítulo termina com uma discussão do casal sobre o pai. Kovrin explode, dizendo que o mais odioso em Iegor Semionovitch é o seu “otimismo estomacal, bovino, ou mesmo suíno: “O rosto dele parecia a Tânia feio e desagradável: não lhe assentava bem a expressão de ódio e desprezo. Ela observou mesmo que alguma coisa estava faltando no rosto dele, que parecia mudado desde que cortara o cabelo. Veio-lhe um desejo irresistível de dizer algo insultuoso, mas se conteve a tempo, e tomada de terror saiu do quarto”. Tomada de terror pelo que ouvia do marido ou tomada de terror pelo desejo irresistível de dizer algo insultuoso? De assim estabelecer a falsidade desse casamento? De também impor o seu “otimismo estomacal”, de porta-voz do rebanho medíocre e disciplinado?

         Vejamos como as coisas se resolvem ou se acomodam no último capítulo. Kovrin deve dar a aula inaugural da importante cátedra universitária que conquistou, mas começa a cuspir sangue, “que por duas vezes num mês escorreu em fluxo”. Começa a se sentir muito fraco, tomado de sonolência. Sua mãe vivera dez anos assim, e os médicos declaram não haver perigo, apenas é preciso regrar a vida. Mais ainda? A essa altura, Kovrin separou-se de Tânia e está vivendo com outra mulher, e notem bem, “mais velha, que cuidava dele como se fosse uma criança”. A  mulher-mãe (ele antes tivera uma mulher-filha, e nada de bom resultara[7] ), Varvara Nicolaievna, convence-o (apesar do seu ceticismo) a uma mudança de ares. Vão para a Criméia.

         No hotel em que estão hospedados, enquanto Varvara dorme, ele, acossado pela angústia, procura se tranqüilizar, trabalhando numa compilação que está organizando, “E com isso teve a impressão de recuperar seu antigo estado de espírito tranqüilo, resignado, impessoal. No entanto, isso o leva a pensamentos acabrunhantes: “Para obter uma cátedra de filosofia aos quarenta anos, para ser um professor igual aos outros, para expor pensamentos que eram lugares-comuns, além do mais, pensamentos alheios, numa linguagem inexpressiva, cansativa e pesada; numa palavra, para alcançar a posição de uma mediocridade erudita, ele estudara quinze anos, trabalhara dia e noite, passara por um grave distúrbio psíquico, sobrevivera a um casamento infeliz, fora culpado de desatinos e injustiças que era doloroso lembrar”. Ou seja, esse é o verdadeiro horror com que o personagem de Tchekhov tem de lidar, como alguns personagens de Henry James também acabam fazendo (lembro, por exemplo, de A fera na selva ).

         Ele vai à sacada, e no andar de baixo vem o som de um violino e algumas vozes femininas, numa cantiga que já ouvira, aquela da moça de imaginação exaltada que ouve à noite, no seu jardim, uns sons misteriosos e sagrados: “Kovrin reteve a respiração, seu coração parou de bater e o mágico, extático transporte que há muito esquecera, voltou a palpitar em seu coração”. E aí toda a repressão não pode mais, o casamento (mulher-mãe que seja) e o tratamento não podem mais: “Uma coluna negra, semelhante a um ciclone ou uma tromba d´água, apareceu no litoral em frente. Moveu-se com incrível velocidade através da baía até o hotel; foi diminuindo, diminuindo, e Kovrin chegou-se a um lado para lhe dar passagem… O monge, com a cabeça grisalha descoberta, as sobrancelhas negras, descalço, os braços cruzados sobre o peito, passou voando por ele e se deteve no meio do quarto: Por que não acreditou em mim, perguntou em tom de censura”.

         Na exaltação causada pelo reaparecimento da sua sensação de ser um gênio, um eleito de deus, Kovrin sente o sangue jorrando de sua garganta sobre o peito e até “seus punhos se tingiram de vermelho (como a hora do crepúsculo, e é como se ele estivesse saindo de dentro para fora de si mesmo). Pensando em chamar Varvara, quando grita, o nome que sai (duas vezes) é “Tânia”. O que é a culpa! Mas o nome e a figura também estão associadas às promessas da juventude, a um esplendor de verão: “Gritava para Tânia, gritava para o grande jardim com suas flores miraculosas, gritava para o parque, para os pinheiros som suas raízes nuas, para o campo de centeio, gritava para sua maravilhosa ciência, para sua juventude, sua coragem, sua alegria, gritava para a vida que tinha sido tão bela. Viu no chão, diante dele, uma grande poça de sangue e, de tão debilitado que estava, não pôde pronunciar  uma só palavra. Mas uma inexprimível, infinita alegria invadiu todo o seu ser. Embaixo da sacada a serenata continuava, e o Monge Negro murmurava que ele era um gênio e que só morria porque seu corpo débil e mortal tinha perdido o equilíbrio e já não servia mais como invólucro do gênio… Quando Varvara Nicolaievna despertou e veio de trás do biombo, Kovrin estava morto. Mas sua face se congelara num sorriso de felicidade”.  Quantos de narrativas que intitulei “margens derradeiras” não acabaram assim com uma morte em que dois lados do aparelho psíquico estão em confronto, dissociados, num desequilíbrio intenso: William Wilson, Jekyll e Hyde, Griffin, o Homem Invisível (também lembremos de Dorian Gray), o pobre Miles nos braços de sua preceptora; e Bartleby, deitado à beira de uma parede, e Simão Bacamarte trancafiado no seu sonho de ciência, Teodoro, insaciado de tão rico, e a civilização européia e o Império Britânico engolidos pelas trevas em pleno Tâmisa? E se não é no fim, a agonia de um Kurtz se espraia por todas as últimas páginas do relato de Marlow: “O horror! O Horror!” E Mr. Valdemar apodrecendo diante de nossos olhos, e o anfitrião do Horla concluindo que o suicídio é a única escapatória. E Natanael precipitando-se da torre para não encarar os o olhar do Homem da Areia. Nenhum deles, no entanto, perecendo com a face congelada num sorriso de felicidade, porque nenhum deles teve o alento da sua ilusão, o consolo narcísico, transfigurando o último momento como uma apoteose que faz da vida toda algo belo. Nesse sentido, Kovrin é o anti-Ivan Ilitch, que encontra na luz da morte a passagem que lhe permite fugir da existência mentirosa que é a vida “comme il faut”. A morte de Ivan Ilitch despoja a vida de seus enfeites e truques, deixa o palco vazio; a morte de Kovrin ressignifica a vida e mostra que só faltou um invólucro melhor.


[1] Harold Bloom afirma que a ficção curta moderna pode ser separada em duas vertentes distintas e opostas, a tchekhoviana e a borgiana: “os textos curtos de Tchekhov têm início repentino, final elíptico, e não denotam qualquer preocupação com o preenchimento de vazios [o que aconteceria no realismo oitocentista, por exemplo]… Ainda assim, Tchekhov espera que o leitor aceite realismo e a fidelidade com que seus contos retratam a vida. Borges, no encalço de Kafka, mergulha em fantasmagoria. Ele, assim como seu precursor, não nos oferece réquiens por uma vida não vivida  (Como e por que ler, Objetiva).

[2] Utilizo a tradução de Moacir Werneck de Castro, para a Rocco (naquela coleção que tem O clube dos suicidas, O Homem da Areia, A fera na selva, Um coração singelo, Sylvie).

[3] O pai de Tânia lhe diz, mais adiante: Não se pode saber tudo. Nem a maior das inteligências pode compreender tudo. Você continua afundado na filosofia?” Resposta: “Sim, estou lendo psicologia e estudando filosofia em geral” Pergunta: “E não o aborrece?” Resposta: “Ao contrário, é o que me faz viver”. De certa forma, Kovrin lembra os ideólogos que abundaram na ficção russa oitocentista, nas obras de Dostoiévski e Turgueniêv, e ao mesmo tempo os heróis de Henry James que já estudamos, homens que estão cegos para a realidade à sua volta, que vivem a existência como “cosa mentale”.

[4] Tchekhov deixa vagar na incerteza onde ou quando Kovrin “ouviu” ou “leu” a história, mas a reveste do clima de coisa que nos impressionou na infância e continuou na nossa mente (embora não com as características aterradoras do Homem da Areia, de Hoffmann) ou daquelas lendas de maldições ou  errâncias imemoriais e cíclicas, como a do Judeu Errante, o Holandês Voador, o Golem. Mas sempre há o elemento inquietante, ameaçador, nessa junção lenda + imemorialidade (e isso influencia o clima de O Horla, que trata de um ser que pode ter coexistido com o homem desde o início, sem ser percebido, e que se alimenta dele, o que será explorado também nas histórias de vampiros etc): “…o mais espantoso é que não posso lembrar como essa lenda me entrou na cabeça. Será que a li? Ou a escutei? Ou quem sabe sonhei com o Monge Negro? Não consigo me lembrar. Mas a lenda me fascina”. Na descrição da lenda, entra o aspecto do desdobramento (o monge se reduplica), que tem a ver com o fracionamento psíquico, o aspecto ilusório da identidade (da miragem surgiu outra miragem e dessa uma terceira) e a possibilidade de retorno (e Freud já nos ensinou o que geralmente retorna: o reprimido). O ego de Kovrin está dominado pelo superego. O esgotamento nervoso é uma fratura e um indício: seu inconsciente já esperou por demais (os mil anos) e as comportas se abrirão.

[5] O Monge lisonjeia aquela idéia de que o homem civilizado do século XIX é o “apogeu” da história da humanidade: “Sem vocês, servidores dos mais altos princípios, vivendo livre e conscientemente, a humanidade não seria nada; desenvolvendo-se na ordem natural, só lhe cabe esperar o fim de sua história terrena. Mas vocês, por cerca de mil anos, se empenham em chegar ao reino da verdade eterna, e este é o seu alto mérito. Vocês encarnam em si mesmos as bênçãos de Deus que ficaram entre os homens”. Vocês podem ver que Tchekhov parece parodiar esse discurso, principalmente porque o Monge cita o Evangelho de São João: “Na casa de meu Pai há muitas moradas”.

[6] Mais tarde, na mesma noite, ele procura as sensações do verão anterior e fracassa: Kovrin recordou os arrebatamentos do verão passado, quando o ar, como agora, estava impregnado do cheiro de jalapa e o luar se filtrava através das vidraças. Para tentar voltar ao estado de espírito do ano anterior, foi até o quarto, acendeu um charuto forte e mandou que o criado trouxesse vinho. Mas agora o charuto lhe era amargo e desagradável, e ao vinho faltava o sabor de antes.”

[7] Kovrin sempre mantém uma percepção totalmente autocentrada e egoísta com relação à Tânia e ao casamento. Uma carta dela consegue penetrar um pouco essa couraça, e também permite que a narrativa faça um retrospecto de acontecimentos sobre os quais saltou, o que mostra a perícia técnica de Tchekhov: “sabia que o casamento com Tânia fora um erro. Estava contente de ter-se afinal separado dela, mas a lembrança daquela mulher, que nos últimos tempos parecia haver-se transformado numa múmia ambulante, na qual tudo morrera… só lhe despertava piedade e irritação contra si mesmo… Vingara-se em gente que nenhuma culpa tinha de seu vazio espiritual, de sua solidão, de seu desencanto com a vida”.  Lembra, então, da sua revolta com a vida, a ponto de rasgar em pedaços sua tese, seus ensaios e seus artigos: “quando o último caderno acabara de ser rasgado e jogado pela janela, experimentou amargura e raiva, e foi cruel ao falar com sua esposa. Deus, como a destruíra! Lembrou-se de que um dia, desejando fazê-la sofrer, lhe dissera que o pai tinha desempenhado no romance deles um papel inusitado, chegando a lhe pedir que se casasse com ela”. Na carta que escreve a ele, Tânia o informa da morte do pai e de que os jardins e pomares estão passando para estranhos, justamente o que ele mais temia.

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