MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

02/01/2018

LEITURAS QUE MARCARAM 2017: PRIMEIRA PARTE

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 02 de janeiro de 2018)

A minha lista de livros marcantes de 2017 segue o rastro do vácuo da ausência de Elvira Vigna.

Livro do ano: “As três mortes de Che Guevara”, Flávio Tavares, editora L&PM. Cinquenta anos após a morte do “ser mais completo da nossa época”, segundo Sartre, o fascínio de sua figura não esgota.

Além dele, destaco: “Sem Sistema”, de Andrea Catrópa, editora Patuá: de que universo paralelo e sulfúrico, Andréa Catrópa, trouxe suas histórias curtas, muitas vezes cores e tintas berrantes.

As Perguntas”, de Antônio Xerxenesky, editora Companhia das Letras: mistura com inteligência a incursão mística com uma rave, ou seja, o horizonte dos jovens urbanos, cínicos, que não acreditam em nada transcendente a não ser superficialmente.

Febre de Enxofre”, de Bruno Ribeiro, editora Penalux: príncipe da prosa sulfúrica, pornográfica e ultrajante, em seu primeiro romance.

Simpatia pelo Demônio”, de Bernardo Carvalho, editora Companhia das Letras: usando um personagem cobaia, um grande romance.

Como são cativantes os jardins de Berlim”, de Decio Zylbersztjan, editora Reformatório: textos brilhantes. O conto-título é uma obra-prima.

Naufrágio entre amigos”, de Eduardo Sabino, editora Patuá: primorosa coletânea mostrando o ressurgimento do amor à linguagem.

O mergulho”, de Juliana Diniz, editora Megamíni: como a escritora cearense consegue criar uma linguagem diáfana e tão robusta?

Em Conflito com a Lei”, de Lucas Verzola, editora Reformatório: o livro surpresa do ano, contundente e magnífico.

Fragmentos de um exílio voluntário”, de Lucio Autran, editora Bookess: Poesia.

Uma fuga perfeita é quase sem volta”, de Marcia Tiburi, editora Record: finalmente, a autora gaúcha acertou plenamente no romance, mostrando o retrocesso da ordem mundial.

Todo naufrágio é também um lugar de chegada”, de Marco Severo, editora Moinhos: Senti-me como um jurado do “The Voice”, girando a cadeira logo nas primeiras notas, descobrindo um autor para meu time de leituras prediletas.

O Indizível sentido do amor”, de Rosângela Vieira Rocha, editora Patuá: um dizível abalo no coração, um mergulho na dor.

(Continua na próxima semana).

 

12/12/2017

Zonas de Conflito: “Simpatia pelo Demônio”, de Bernardo Carvalho

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 12 de dezembro de 2017)

Como todos sabem, os ratos (para vergonha da humanidade) são as cobaias por excelência. O protagonista de “SIMPATIA PELO DEMÔNIO” é chamado de Rato. Ele é demitido da agência que presta “serviços humanitários” em zonas de conflitos (na verdade, ele já estava “queimado”). Aceita uma missão absurda e quase suicida, pagar a terroristas o resgate de um refém desconhecido, indo para uma cidade em escombros, onde cada quarteirão é dominado por facções, embora a situação política e as coligações mudem a todo momento. Após um atentado, perguntamos: terá a cobaia caído numa armadilha?

O livro de Bernardo Carvalho muda então drasticamente. Misturando várias instâncias temporais, veremos Rato apaixonado pelo mexicano Chihuahua, que o manipula. Discípulo do grande pensador da violência e da inveja, René Girard, faz do Rato uma cobaia de experimentos afetivos, passionais e sexuais, um verdadeiro bode expiatório.

Mas estamos no universo de um mestre da insubstancialidade e das narrativas tortuosas (e repletas de digressões, como a transformação semântico-social de expressões como “perdeu, perdeu”). Mesmo em terceira pessoa, como acreditar que tudo é verdade?

“E ele chorou ainda mais forte, ouvindo aquele oratório de inspiração cristã, destruído pelo entendimento de que estivesse condenado à inveja e à luxúria, e que inveja e luxuria nada mais eram do que solidariedade e compaixão cósmicas reduzidas a pecado pela miséria do lugar onde agora ele se encontrava. Chorava de vergonha. Não tinha coragem de olhar para os lados. O que ele perdera não fora só o chihuahua, mas uma ideia de mundo e uma ilusão. Sem o chihuahua, agora ele sabia, não havia mais ligação cósmica possível, ele estava condenado a pecar”.

“SIMPATIA PELO DEMÔNIO” é o melhor romance de Bernardo Carvalho desde “Nove Noites”, sua obra prima.

29/10/2013

“REPRODUÇÃO”: Bernardo Carvalho e o seu “negócio da China” nos 20 anos de carreira

bernardoreprodução

“Como é que eu não vi antes? Como é que fui me deixar enganar? Como é que uma chinesa do sul da China vai saber se Deus existe? Vai se foder! Não o senhor. Vai se foder, em geral, sem sujeito…”

O protagonista de Reprodução, um homem de meia-idade, é apresentado ao leitor como um “estudante de chinês”. Retido durante o check in para um voo rumo à economia mais pujante da cena atual, logo após ter avistado sua ex-professora do idioma (a qual desaparecera abruptamente -como como ele afirma reiteradas vezes, na “lição 22 do quarto livro do curso intermediário”) com uma menina de cinco anos (ambas são retiradas da fila por um agente federal), suspeito de cumplicidade em tráfico de cocaína, e interrogado ali mesmo no aeroporto por um delegado, acaba revelando que seu interesse em aprender a língua chinesa se baseia na antevisão de quem serão os mandantes do futuro, ele querendo estar preparado para a inevitável “invasão”.

Não deixa de ser curioso que Bernardo Carvalho tenha escrito um romance tão intenso e sugestivo sobre um sujeito basicamente movido por preconceitos e recalques de todo tipo, com uma performance reacionária quase atordoante, uma década depois de dar mostras do pior tipo de esnobismo “globalizante”, para não dizer arrogância, com o discutível Mongólia. Em entrevistas e declarações em função do lançamento de Reprodução, ressaltou um “discurso de ódio” que prolifera na internet, esquecendo o tom quase desprezivo de que se valera naquela obra anterior, no entanto tão aplaudida e premiada.

Mongólia era uma nota desagradável numa carreira que, chegando agora em 2013 aos 20 anos, desde a estreia com uma ótima coletânea de contos (Aberração), afirmou-se uma das mais expressivas da ficção brasileira recente, com títulos como Onze, Teatro e o brilhante Nove Noites. É certo que a narração pretensiosa da breve e insubstancial viagem pelo  território mongol arrefeceu a minha admiração pelo autor carioca durante certo período, mas Reprodução é uma bela surpresa.

Com tantos títulos de qualidade inegável, por que a surpresa? Porque Carvalho parece ter, de modo inconscientemente perverso, desejado sabotar a recepção do novo livro com declarações bombásticas que delineavam uma ideia equivocada do que iríamos ler: por exemplo, ele insistiu em que seu livro trataria da burrice endêmica que grassa no espaço da internet, com gente incompetente querendo opinar sobre tudo. Muitos (eu, inclusive) ficaram com a pulga atrás da orelha, achando que vinha uma bomba na linha dos escritos de Luís Felipe Pondé ou Olavo de Carvalho, dois luminares da linha “eu sou inteligente, o resto da humanidade que chafurde na idiotice, oh meu Deus, obrigado pelo privilégio”.

Enfatizando esse ponto, ele amesquinhou o escopo de Reprodução, que vai muito além da mimetização do discurso ressentido de quem acha que os “inferiores” estão tomando aos poucos o comando de um barco à deriva, rumo ao desastre: “Aqui todo mundo faz a mesma coisa. Rico, pobre. A mesma mentalidade. Rico acusa pobre de porco, de construir favela de frente pro mar, de jogar o próprio lixo pela janela, do lado de casa. E rico faz o quê? Constrói shopping e condomínio na beira de esgoto. Ciclovia na beira de esgoto. Puxadinho na cobertura pra pôr piscina, sauna, ar-condicionado, na beira do esgoto. Na laje. Rico pra milhões pra viver com vista do próprio esgoto. Ninguém consegue ficar longe do próprio esgoto. E isso é bom? É ótimo! Porque mostra a integração. No fundo, estamos todos integrados, ricos e pobres, não tem diferença…”

Na verdade, da forma como o texto foi estruturado, o que está em jogo é uma babel em que ninguém se entende, nem os falantes da mesma língua, porque todos estão presos nos seus próprios pressupostos, afogados por informações aleatórias, e não é possível “ouvir” uns aos outros. Nem o “estudante de chinês” nem a investigadora federal que trabalha infiltrada e que termina por sabotar todas as missões (entre elas, como membro de uma igreja evangélica), nenhum deles consegue dar um sentido ao que experimenta ou relata, todo mundo reproduz coisas lidas, ouvidas, sem sequer saber o fundamento ou validade delas: “Não foi o que te disseram? Também não li. Também não sei se existe. Me disseram. Mas, como investigador, você está realmente mal informado. Aliás, você viu que não existe imaginação? É. Não existe. Só memória. Ouvi no rádio, vindo pra cá. Os cientistas. Em alguém centro de excelência bem longe daqui. Se tivessem descoberto aqui, ninguém acreditava…” .

Para dar conta disso, a estratégia de Carvalho se revela incrivelmente criativa, com uma energia e um humor que ele ainda não revelara para o seu leitor: Reprodução apresenta monólogos (do estudante, da investigadora) “reativos”, como se os falantes estivessem continuamente reagindo a gestos e falas de outrem, num debate interminável, verdadeiramente babélico, e sobretudo improdutivo. Essa dinâmica realça a solidão, o isolamento, a perplexidade, o debater-se às cegas num mundo em que nada parece substancial.

Outro feito é a interpenetração dos faits divers da contemporaneidade num mesmo imbróglio, da ambição de aproveitar “oportunidades” (como estudar o idioma que representa o passe mágico para ser bem-sucedido) às estratégias do tráfico (de pessoas, de drogas), das variadas máfias e das subculturas da grande metrópole ao avanço dos cultos evangélicos na sociedade brasileira, com os resistentes estereótipos étnicos, sexuais e pátrios, sem contar os questionamentos sobre paternidade (um tema que lhe é caro). O que prova que, sem sair dos limites dos aeroportos nacionais, Carvalho conseguiu, em seu Reprodução, um “negócio da china” para coroar seus vinte anos de carreira.

(uma versão da resenha acima foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 29 de outubro de 2013)

VER NO BLOG

https://armonte.wordpress.com/2013/01/29/onze-de-bernardo-carvalho-o-mestre-de-paul-thomas-anderson-e-os-seis-graus-de-separacao/

https://armonte.wordpress.com/2011/01/14/o-ultimo-ato-de-uma-possivel-trilogia-do-exilio-o-sol-se-poe-em-sao-paulo/

RLlivro dos mandarins

REPRODUÇÃO  e O LIVRO DOS MANDARINS, de Ricardo Lísias

“Pau**, a bem da verdade, ficou um pouco tenso com a notícia de que seu nome já está definido para o Projeto China. Certo, um executivo de porte internacional como ele precisa saber controlar as emoções.

    Não é para qualquer, pensou enquanto retirava da gaveta o mapa que tinha imprimido com o roteiro da viagem que o ex-presidente e sociólogo Fernando Henrique Cardoso fez à China em 1995. O que o mais intrigava era aquela massagem que ele recebera no hotel, em um dia de mau tempo.

    Quando chegasse à China, Pau** imaginou de olhos fechados, na primeira oportunidade iria viajar àquele hotel e procurar o massagista. Não será difícil encontrá-lo: é lógico que  Fernando Henrique Cardoso pediu o melhor profissional da cidade. Ou da região, muito provavelmente (…) Lá em Pequim, Pau** vai descobrir a cama Ceragem, uma invenção magnífica que, com quarenta minutos por dia, coloca a saúde de qualquer um no lugar.

     Enfim, é bom lembrar que ele deve isso à força com que o Paul trabalhou para que seu nome fosse um dos indicados para o projeto China (…) Ninguém chega ao cargo do Paul impunemente: ele sabe reconhecer as pessoas certas. O amigo pode deixar, Pau** falou consigo mesmo, não vou decepcioná-lo.” (trecho de O livro dos mandarins)

“Por que fui estudar chinês? É a língua do futuro. Não tem resposta. Não deixe pra amanhã o que pode fazer hoje. Bu yao ba jin tian de shi tui dão Ming tian qu zuo. Como? Um dia, todo mundo só vai falar e entender chinês. Pode escrever. Até isso aqui entre nós, este interrogatório, vai ter que ser em chinês. E aí quem não falar tá fodido. Já pensou? Eu não quero me foder. Ninguém quer. Claro, claro. Aqui não se fala palavrão. O senhor manda. O.k., não é interrogatório. Não precisa gritar. É uma conversa. Tem um monte de negócio aí nas paradas pra quem fala chinês. Comércio exterior, importação-exportação. O senhor sabe que daqui a uns anos, se for pra seguir as previsões dos economistas, o cenário [ele faz o gesto das aspas com as mãos], não é assim que se fala?, o ´cenário´ vai ser a China, maior economia do mundo? O senhor não leu que eles estão até pensando em instalar uma célula do PCC na estação espacial chinesa, com membros que vão ter no espaço as mesmas atribuições que eles têm aqui na Terra? É! Pode preparar, sim! Burocratas. É! PCC mesmo. Não, não estou de sacanagem. Não leu?  Na rede. Não, burocratas! Nada a ver com traficante, nada a ver. Partido Comunista Chinês. Outro PCC. Burocracia no espaço. E quando eles invadirem o Brasil, quero dar as boas-vindas em chinês, cantando. Sabe como é que se diz? Não quer saber? Pois foi assim que ela me recebeu no primeiro dia de aula, na porta da escola, cantando as boas-vindas em chinês, huang ying, huang ying, que nem fazem lá na China no primeiro dia de aula, no jardim da infância, e quem disse que eu entendi?” (trecho de Reprodução)

Não deixou de causar espécie, quando o romance de Bernardo Carvalho foi lançado, as similaridades que apresentava com o extraordinário O livro dos mandarins (2009), de Ricardo Lísias. Neste, o executivo de uma grande empresa empenha-se no estudo do chinês e da cultura chinesa em geral, imbuído de uma quase veneração por Fernando Henrique Cardoso como arauto de todas as ideias que grassaram na feição mais agressiva do capitalismo pós-Fukuyama e seu “fim da História”.

Além da meticulosa imersão do leitor na mentalidade que norteia seu “estudante de chinês” (Paulo, cujo nome vai sofrendo modificações hilariantes ao longo do livro, como o Pau** do texto em epígrafe exemplifica), Lísias—com enorme virtuosismo—construía uma linguagem que dava conta dessa escamoteação do mundo real em função da ufania propagandística do triunfo das “políticas de gestão”: as informações (e também as suas distorções) iam e voltavam, num processo reiterativo quase hipnótico (aliás, uma característica cada vez mais pronunciada do estilo de Lísias, presente inclusive no seu último romance, Divórcio).

Pois bem, em certa medida (e embora ele o negue enfaticamente), temos a impressão de que Bernardo Carvalho leu atentamente Ricardo Lísias, ou pelo menos o referido O livro dos mandarins. E o que apresenta em Reprodução não é uma imitação ou um pastiche do talentoso (e mais jovem; Carvalho tem 53 e Lísias, 38) autor paulista: não fosse a negação, poderíamos encarar o que ambos os romances apresentam de similaridades, como um vigoroso “diálogo entre textos”, e creio que os dois se beneficiam da comparação. Afinal, ninguém vai dizer que o Faulkner da 2ª. parte de O som e a fúria seja um mero pastiche ou imitação de Ulysses, de Joyce. Com seus acordes que de alguma forma respondem aos de A náusea,  ninguém dirá que O estrangeiro, de Camus, é uma melodia decalcada do livro de Sartre. E assim vai: Os demônios, de Dostoievski, e Pais & Filhos, de Turgueniev, etc etc etc. Ainda que eu não tenha conhecimento de um autor mais velho ter sido “afetado” (na falta de palavra melhor) por um autor mais novo, sabemos o quanto Thomas Mann e André Gide se alimentaram das experiências dos mais jovens, e como isso revitalizou suas obras, sem que elas perdessem a sua fisionomia própria. Mais ainda: uma obra como  O livro dos mandarins, por tudo o que a literatura é (ou deveria ser) é um ponto de inflexão de uma época e suas reverberações atingem, obrigatoriamente, o conjunto de sua produção. É um livro seminal.

Mas vejamos: há alguém que mergulha (ainda que afirme continuar não entendendo quase nada) no idioma chinês, há o problema da visão reacionária, o seu quê de fukuyamesco apocalipse da história como luta das forças sociais, com seus toques triunfalistas (camuflado na sátira de O livro dos mandarins; com toques mais evidentemente sombrios em Reprodução); sobretudo, há os recursos de linguagem, esse discurso círculo vicioso, com afirmações reiterativas (não falta nem um daqueles personagens que descarrilam dos trilhos da razão e do comportamento “adequado”, tão típicos de Lísias, como a mãe do agente federal, que “pirou” e xinga até o filho[1], e a própria investigadora que fica a um passo do desvario, se é que não é um desvario do próprio “estudante de chinês”—impossível acreditar que Carvalho não leu Lísias): “Louco? Meu voo sai às seis, são quatro e meia e eu estou detido numa cela sem janelas e sem ar-condicionado, porque a minha ex-professora de chinês desaparecida, agora sequestrada pelo seu colega, disse que eu sou gay. E o senhor me pergunta se eu estou louco? (…) Eu quero meu advogado! Não digo mais uma palavra antes de falar com um advogado! Não estamos na China! Eu  já disse o que vou fazer na China. Vou repetir: na China não tem gay!”

Sem querer, obviamente, esgotar aqui as implicações dessa feição comum de duas obras tão recentes, o que eu acho que é ao invés de negações (e negaceios), ou de vasculhamentos à cata do que há de Lísias no Carvalho de Reprodução, o leitor da (em ótima forma, inclusive graças a eles) ficção contemporânea brasileira[2] terá um ganho enorme ao ver como dois autores tão diferentes podem aproveitar temas muito próximos, com altos rendimentos de parte a parte.

REPRODUÇÃO

VER NO BLOG

https://armonte.wordpress.com/2012/04/14/o-livro-dos-mandarins-satira-deliciosa-a-linguagem-da-globalizacao/

 TRECHO SELECIONADO DE REPRODUÇÃO

“Ritual, para mim, é isso: sobreviver em sociedade. Tem que se igualar, compartilhar, reproduzir. Não? Agora não é tudo coletivo? Todo mundo não faz a mesma coisa? E se todo mundo é crente… Achei que você já tivesse pensado nisso. Eu penso todos os dias. Ritual serve pra te convencer de que você não está sozinho. Não é melhor acreditar e pertencer? Quem vai ligar pro que eu penso ou você, sozinhos? Pense bem. Quem vai ligar daqui a dez, vinte anos, quando o país inteiro for só um amontoado de igrejas, disputando espaço a tapa umas com as outras?  Daqui a vinte anos, é possível que o que gente pensa nem seja mais pensamento. Então, não é melhor parar de pensar logo e começar a orar para que os psicotrópicos—não é assim que você diz?—continuem fazendo efeito. Pela força da palavra coletiva. Antes de começar a tomar os psicotrópicos, achei que estava ficando louca, e foi só por isso que eu pensei que, nessas horas, o melhor—e é o que os loucos em geral não fazem—é ficar calada. É. Não dizer mais nada. Você acha o quê? Que eu não sei disfarçar? É isso mesmo. É o problema da hipocrisia. Você diz uma coisa aqui e faz o contrário ali. E tem que acreditar que está fazendo a mesma coisa. Não é pra discutir. Tem grupo de apoio pra ajudar. Tem que acreditar no poder da palavra coletiva. Tem que acreditar que o que você diz é o que você faz. Eu te pergunto: que é que toda essa gente vai fazer com Deus se não é pra resolver o problema da hipocrisia? Me diz. Eu olho pros lados, na igreja, na marcha com Jesus, e penso: que é que eles vão fazer com Deus? Posso responder por mim. Sério? Cínica? Sabia que você ia dizer isso. Não disse, mas pensou. Ainda está se perguntando o que vou fazer na igreja se não acredito em nada? É porque não leu o relatório. Se tivesse lido, sabia que vou lá repetir, reproduzir…”


[1] “Basta fazer os cálculos. Ele nasceu cinco meses depois de você ter ido embora. Claro. Por que é que um garoto de dezenove anos ia se lembrar do nascimento do filho da vizinha? Ainda mais de uma vizinha louca? Você é que disse. Não tinha dezenove? Dezoito, então (…) Te incomoda que eu faça as contas? Não incomoda. Melhor. Pra não me perder. E por que é mesmo que o menino seguia a mãe descalça, gritando pela rua? Entendi. Quando ele tinha o quê? Quinze anos? Vou botar quinze só pra me localizar. Não sou burra. Entendi. Ela é que gritava. O menino não gritava. Entendi. Ele não é louco—bom, não era naquela época. Ela é que era louca. Certo. Ele seguia a mãe, enquanto ela gritava. Para ela fazer o quê? Voltar? Não? Vou anotar aqui: ela nunca voltou da viagem de ácido, mas isso foi antes do filho nascer. É isso, não? O.K. Pra ma localizar. Estou anotando…”

[2] E Reprodução faz bonito numa linha de romances recentes que se aproveitam do que chamei de “discursos raivosos”, verdadeiras metralhadoras giratórias, como Manual da destruição, de Alexandre dal Farra, e palavras que devoram lágrimas, de Roberto Menezes.

Veja-se o trecho abaixo:

“Não perguntou. Certo. Mas se perguntasse, não ofendia. Ofende é chamar de gay. Aí, sim. O que? Boi de piranha é o caralho; uma piranha! É isso que ela é! Uma puta de uma piranha de crente! Ué, não foi ela que me chamou de gay? Foi ou não foi? O senhor é que está dizendo. Ou está querendo me indispor com a minha ex-professora de chinês? Eu até entendo que a igreja expulse a minha ex-professora de chin~es , porque, convenhamos, pra conseguir converter gay em marido—o que já seria milagre em qualquer outra igreja—, é preciso pelo menos ter um pouco de bom senso para identificar primeiro o gay. E eu que fui dizer que ela era boa professora! Mas não vou engolir essa história de direitos iguais pra gay e simpatizantes. Não, não, não. Gay é que nem praga na hora de Deus. Gay não reproduz (…) Por isso é que não pode deixar. E nisso estou com o Vaticano, não pode deixar. E com os milhares de franceses manifestando nas ruas de Paris, capital dos Direitos Humanos. Já pensou o mundo inteiro de batina, um metendo a mão debaixo da batina do outro? Já pensou? E agora ainda deram pra querer ter filho! E são modos? Eu? Mesmo? Há dois minutos, eu era gay, e agora sou homofóbico? O senhor tem que se decidir! Sinceramente. Quem ? O seu amigo? O que fugiu com a minha ex-professora de chinês? (…) Bom, então deixa eu tentar entender. O seu colega, que sequestrou a minha ex-professora de chinês, está dizendo que a minha ex-professora de chinês disse que abandonou o quarto livro do curso intermediário no meio da lição 22 porque eu era… desculpe, sou gay? Como? Ela disse?”

Bernardo-Carvalho-Francesco-Gattoni

29/01/2013

ONZE, de Bernardo Carvalho, “O Mestre”, de Paul Thomas Anderson e os seis graus de separação

carvalho, bernardoonze

“Alguma coisa ali já me parecia falar da verdade, uma estranha manifestação da verdade, numa forma ao mesmo tempo bruta e intrincada”. (de Os bêbados e os sonâmbulos, Bernardo Carvalho)

Provavelmente estarei chovendo no molhado, pois vários espectadores devem ter feito a ligação, e algum porventura até tenha escrito sobre isso; não obstante, não posso deixar de comentar minha perplexidade ao sair agora à noite de uma sessão de O Mestre, filme de Paul Thomas Anderson, onde Philip Seymour Hoffman, na pele de Lancaster Dodd,  obnubila a mente já não muito equilibrada de Joaquim Phoenix com uma seita denominada “A Causa”, pois a terceira parte de ONZE,  primeiro romance de Bernardo Carvalho, lançado em 1995, chama-se justamente “A Causa”. Não chegamos a conhecer o criador da seita do livro, mas seus reflexos radicais em seguidores:

“Eles chamam o professor de cínico e de louco, mas não pode ser um sendo o outro. Eles não sabem o que querem. O professor percebeu isso muito cedo. Resolveu agir. Não é de esperar (…) o que ele não pode potencializar: A causa estava lá, no mundo; ele apenas indicou o caminho. Estávamos esperando alguém indicar o caminho…”

Isto aqui não é uma resenha. Estou saqueando, após algumas cervejas e uma caipirinha de saquê, meu caderno de anotações de leitura (mais de citações, verdade seja dita), pois li ONZE  há muitos anos, logo, terei de me valer da memória e de algumas páginas registrando essa leitura.[1]

À época, sem chegar a uma conclusão definida, eu gostara muito e achava algo que tinha o toque de Thomas Pynchon, em seus aspectos de paranoia, de sentimento de liberdade controlada, extremamente vigiada (e olhe que estávamos ainda distantes do onze de setembro de 2001), e achara bacana os aspectos envolvendo terrorismo, atentados, conspirações, que não caíam na esbórnia do pastiche nem da chanchada. Também achei importante (e isso já vinha da leitura dos contos de Aberração, como Atores[2]) o que eu hoje consideraria uma percepção da AIDS como uma Grande Narrativa do mundo das últimas décadas, no tocante a como interferiu na existência, nas apostas de vida, na percepção individual, no equacionamento da vontade de liberdade e num sentimento difuso, mas muito presente, de opressão. Não sei se é o caso de afirmar tão categoricamente, mas no universo do Carvalho inicial, a AIDS adquire uma potência simbólica à Pynchon (lembrem-se de que ela era, estatisticamente, muito mais mortífera naquela época, com todas as conotações de peste).

o mestre

Na verdade, não estou evocando ONZE aqui neste texto porque Bernardo Carvalho configurou “A Causa” quase duas décadas antes de Paul Thomas Anderson, e sim  porque este romance, do qual quase não se fala mais (ofuscado, como outros dessa fase, pela consagração de livros como Nove Noites & Mongólia) de fato se mostrou “avant la lettre” com relação a uma tendência cada vez mais difundida, e que recentemente chegou aos seriados de televisão, como Touch (em breve, estará nas telenovelas): é o que eu chamo de estilo “seis graus de separação” (talvez fosse mais exato dizer que é um Zeitgeist da indústria cultural), e que não passa da aplicação daquele clichê batidíssimo da Teoria do Caos (se uma borboleta bater asas em São Paulo, choverá em Tóquio, coisas assim) ou da “sincronicidade” junguiana.

É fato que a peça (depois transformada em filme, que não lembro mais de quem é) de John Guare é do começo dos anos 90, anterior ao romance do autor brasileiro.  Parece-me  que, em ONZE, Carvalho intuiu (com os devidos graus de ironia e ceticismo) não apenas o conceito de que, ao fim e ao cabo, as vidas das pessoas, em todas as partes do planeta, estão muito mais interligadas e conectadas do que se poderia supor, e de que uma ação afeta outros, de forma muito mais efetiva (o que tem a ver com a diminuição das distâncias, através da universalização dos voos aéreos e das mídias eletrônicas, claro) do que a princípio a distância geográfica deixaria entrever ao pensamento “lógico”, linear, conceito que é discutido com elegância e clima de jogo de salão, em Seis graus de separação; acredito que ele entreviu e antecipou, com rara perspicácia, a estrutura dramático-narrativa de uma série cada vez mais frequente de obras.

Primeiro, eram aqueles filmes que entrecruzavam histórias várias (do próprio Paul Thomas Anderson tem o Magnólia, tem o Felicidade, de Todd Solondz—é isso?, o fraquinho e diluído Crash, de Paul Haggis), depois se passou a um patamar mais ambicioso, a narrativa globalizada, e a insistência de que nenhum ato é gratuito, no sentido de ficar sem consequências (aí temos a base de Babel, de Alejandro González Iñárritu—é isso? ,talvez o mais aparatoso exemplo da tendência), e hoje podemos apontar vários trabalhos nessa linha inclusive o livro de Jonathan Safran Foer Extremamente alto e incrivelmente perto, que tem aquela versão cinematográfica lamentável, e o filme de Fernando Meirelles, 360, além da ideia ficar difusa em vários e vários trabalhos menos ambiciosos. E, como disse, ela já figura com destaque em seriados, dos quais o mais evidente é Touch.

Pelo que eu me lembro (e desculpem-me qualquer imprecisão), ONZE reiterava esse número, em pormenores diversos (na quantidade de personagens de cada parte, nos horários e dias mencionados[3]). Na primeira parte, passada num sítio, num ambiente “huis clos”, eram onze personagens que numa brincadeira adulta de esconde-esconde, se revelavam numa ciranda existencial-afetivo claustrofóbica (parecia até aqueles filmes pouco estimados de Woody Allen, muito apreciados por mim, contra o consenso geral: Interiores, Setembro). O detalhe interessante é que algumas informações que apareciam rapidamente nessa primeira parte seriam exploradas nas outras partes, como uma tragédia no aeroporto em Paris, o engravidamento da filha da caseira, que tinha ido morar na Baixada Fluminense, um foragido da ditadura que virara mendigo na Europa (eu já não sei mais de quem ele era filho ou irmão dentro da trama).

Se essa primeira parte era extremamente concentrada em termos espaciais e temporais, além de ser muito individualista (e por que não dizer: burguesa?), depois havia uma parte (“Os gritos do Rio de Janeiro”) que se abria para um estrato social bem mais precário (constato no meu caderno que fiquei muito impressionado com essa parte), quando se contava a história de um grupo de onze garotos (inclusive o filho da filha da caseira da primeira parte), que sofre abusos severos nas mãos de um artista estrangeiro, o qual se instalara na comunidade para criar suas obras (havia uma abertura espacial, já que os meninos participavam de exposições em diversos países, sempre monitorados pelo artista, o que contrastava com as afirmações dele, de que eles estavam condenados ao mundo da Baixada).

Esse alargamento espacial e a estrutura “vidas que se tocam” ficam mais evidentes ainda na terceira parte, aquela mesma chamada “A Causa” e que é o mote deste texto. Novamente, são onze personagens, que vão se encontrar afinal na tragédia do aeroporto evocada na primeira parte (tragédia que é provocada por seguidores da Causa, que desejam assassinar um empresário cuja adesão a ela fizera com que redigisse um testamento legando ao Mestre todos os seus bens, ou seja, selando seu destino).

Entretanto, como disse, isto não é uma resenha, é uma evocação apenas, acarretada por um filme.  Aliás, um dos meus planos sempre acalentados (nunca levados a cabo porque o dia deveria ter mais de 24 horas e a gente deveria ter uma “sombra” que ficasse lendo ou escrevendo  enquanto vivêssemos nosso anedotário pessoal, tal como o escritor de A vida privada, de Henry James) era fazer uma revisão dos livros de Bernardo Carvalho, relendo sequencialmente o que li separadamente e preenchendo duas ou três lacunas que ficaram. Quem sabe agora não fosse o momento. É só ter o ânimo de vasculhar à procura.

(escrito na madrugada de 29 de janeiro de 2013)

360six

ANEXO

Abaixo transcrevo do meu caderno o trecho mais longo que copiei de ONZE:

“Quando desapareceu, a única coisa que pensei foi o que faria com a raiva que tinha guardado num canto da cabeça, bem no fundo, para o dia em que pudesse matá-lo. Mal pensei e ela já estava de volta. Tive de me controlar para não matar qualquer um na rua. De certa forma os ensinamentos do artista, ainda que enlouquecedores, foram úteis, me fizeram compreender que ali, na Baixada, que era no nosso destino, como ele sempre dizia, de  onde nunca poderíamos escapar (…) ali qualquer ação seria contra mim mesmo, porque na Baixada a raiva é tão grande que chega uma hora em que você atira em si mesmo, e isso pode ser por descuido ou porque a raiva é tanta, que não pode mais se livrar ela, quer escapar daquele corpo e não pode a não ser matando, não dá para saber mais se é raiva ou descuido. Como a história daquele policial que voltava para casa no trem outro dia. A mulher e o filho de quatro anos o esperavam na estação. Ao vê-lo, o menino veio correndo e pulou em seus braços. O policial beijou o filho, o apertou em seus braços. A mulher veio atrás. Ele a beijou no rosto. Enquanto conversavam distraídos, e o filho sempre nos braços do pai, o menino tirou o revólver do coldre e atirou no peito do policial. Você nunca sabe se é raiva ou descuido…”

aberração


[1] Não me animo a procurar o volume, fininho, no meio de milhares de outros a esta altura da noite, quase madrugada, apesar da tentação de relê-lo.

[2] Dou-me conta de que essa coletânea (que foi, creio eu, a estreia de Carvalho), da qual gosto de vários contos, e ainda acho um dos seus melhores livros, está comemorando 20 anos agora em 2013.

[3] Um pouco como a palavra “aberração” aparecia escrupulosamente em cada um dos 11 (!) contos do livro com esse nome.

seis graus de separação

03/05/2011

Leituras em espelho: JUAN JOSE SAER e MEMPO GIARDIANELLI (ou, em última instância, Bernardo Carvalho e Tabajara Ruas)

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  9 de dezembro de 1997)

Um ponto em comum entre Ninguém Nada Nunca (Nadie Nada Nunca, traduzido por Bernardo Carvalho), de Juan José Saer, e Impossível Equilíbrio (Imposible Equilibrio, traduzido por Tabajara Ruas), de Mempo Giardinelli, além de serem ambos representantes da literatura argentina contemporânea traduzidos este ano no Brasil, é o fato de terem animais como elemento catalisador das suas intrigas.

Em Ninguém Nada Nunca, publicado originalmente em 1980, relata-se uma série de assassinatos cruéis de cavalos numa região meio rural meio litorânea. Por essa razão, Gato Garay, o protagonista, toma conta de um baio amarelo, protegendo-o no quintal de sua casa, à beira-mar.

Já em Impossível Equilíbrio (de 1995), o projeto de importar hipopótamos da África para assegurar o equilíbrio ecológico ameaçado pela proliferação excessiva de certas plantas aquáticas causa tumulto na região do Chaco e, quando a importação se efetiva, um grupo de descontentes seqüestra os hipopótamos.

Ninguém Nada Nunca é uma leitura difícil. Concentra-se num fim de semana, reitera obsessivamente as mesmas informações, alterna narração em primeira e terceira pessoas, e procura amalgamar a realidade social (há a atmosfera muito forte do regime militar) com  a natureza (certos personagens são chamados por nomes de animais, como Gato Garay, seu irmão Pombo e o delegado-torturador Cavalo Leyva, o qual vem a ser assassinado de fato, após sê-lo, digamos, emblematicamente). Juan José Saer dissolve os sentimentos, percepções e relações humanas num processo incessante de descrição dos fenômenos naturais, como raras vezes se viu na literatura, de uma forma mais radical ainda do que Virginia Woolf em obras como As Ondas ou Ao Farol  ou dos autores do noveau Roman francês (penso em Claude Simon).

Numa espécie de constatação fenomenológica do peso de estar no universo, e ser mais uma das “coisas” físicas do reino deste mundo, Saer evoca as investigações primordiais dos pré-socráticos (Heráclito, Parmênides, Zenão) sobre os quatro elementos (fogo, água, terra, ar) e os fenômenos (o movimento, por exemplo), renovando-as através de uma linguagem deslumbrante, como na passagem em que o salva-vidas que trabalha em frente da casa onde se esconde o  baio amarelo lembra das sensações que o tomaram quando procurava bater um recorde de permanência na água: “E, de repente, nesse amanhecer de outubro, seu universo conhecido perdia coesão pulverizando-se, transformando-se num torvelinho de corpúsculos sem forma, e talvez sem fundo, onde já não era tão fácil buscar um ponto que desse pé, como se pode fazer quando se está na água. Sentia menos terror do que estranheza e sobretudo repulsa, de maneira que tentava manter-se o mais rijo possível, para evitar todo o contato com essa substância última e sem significado em que o mundo tinha se convertido (…) o salva-vidas se perguntava com os diabos os como podia avançar nesse meio desconexo, mutante, precário, que flutuava à deriva no vazio”

Se com o romance de Saer o resultado é excelente, apesar das dificuldades que oferece ao leitor, com Impossível Equilíbrio as coisas se complicam. Eu escrevo este artigo sem ter lido os numerosos trabalhos anteriores de Giardianelli, no entanto percebe-se que ele deve ter um estilo e já soube contar uma história, alguma vez (para não falar do inspirado ponto de partida do livro, a importação dos hipopótamos). Ainda assim o livro frustra e decepciona. Após a situação inicial e a apresentação dos personagens principais (feitas pelo narrador, um jornalista-escritor, Cardozo), Impossível Equilíbrio melancolicamente não consegue decolar. Pelo contrário: os seqüestradores embrenham-se nos pântanos, estradas arruinadas e cidadezinhas paupérrimas do Chaco e a narrativa é que afunda.

Banal, excessivamente patética, com personagens sem graça, ela se arrasta m discursos envelhecidos (que muitas vezes são uma tosca transposição para um plano supostamente literário de posturas éticas), como o trecho seguinte, no qual se expõe o ponto de vista de Rafa, um apaixonado por literatura, sobre o seqüestro: “Eles sabem perfeitamente que não têm nenhuma possibilidade de triunfar, que o aparelho repressor do Estado é um máquina de moer carne que inexoravelmente nos alcançará a todos; e que neste país a popularidade de qualquer casa não depende dos desejos e sentimentos das pessoas, mas do que a televisão diz”.

Ou então, mais adiante, no discurso do próprio narrador: “de repente entendi que esse protopovoado que nunca existira, esse projeto que não fora mais do que um sonho despropositado e que demandara tanto dinheiro e tanto esforço inútil, era uma verdadeira metáfora do Chaco. Uma representação trágica dessa terra em que sempre tem alguém promovendo um empreendimento faraônico que acabará em fracasso”.

São posturas éticas pelas quais se tem a maior simpatia, por sua revolta contra a realidade, mas é muito pouco em matéria de literatura, essa entidade tão louvada, porém tão maltratada, ao longo do romance. E é pouco principalmente para criar um clima que sustente o final ousado, em que o casal formado durante a fuga (Vitório, ex-militante contra a ditadura, e a jovem burguesa Clélia) deixa a realidade “desequilibrada” para ingressar na “utopia” da literatura, levados por um cortejo do qual participam Dostoievski, Kafka, Melville, seus personagens e um vasto etc.

Infelizmente, ao contrário de Ninguém Nada Nunca, um dos melhores lançamentos de ficção deste ano, a linguagem nunca é convocada para dar corpo à utopia literária de Giardinelli. O que a torna duplamente insustentável e impossível.

14/01/2011

O último ato de uma possível “trilogia do exílio”: O sol se põe em São Paulo

Bernardo Carvalhoosolsepoe

Nos dois últimos romances de Bernardo Carvalho, Nove noites (2002) e Mongólia (2003), os narradores se viam, em sua obsessão investigativa, às voltas com fiapos de informação, fatos mínimos, desencontrados, prenhes de pistas falsas, e relato adquiria uma conotação incômoda, uma vez que se esboroava, se esgarçava, fazia-se fantasmático. Que havia o desejo de contar histórias (Carvalho é um pouco irmão de armas de Paul Auster), isso havia, todavia elas (com resultados qualitativos bem diversos,  pois considero Nove Noites infinitamente superior a  Mongólia)   furtavam-se, desrealizavam-se nas “convenções da realidade”.

Até certa altura de O sol se põe em São Paulo, tem-se a impressão de que finalmente haverá um encontro entre o desejo do narrador e o relato, que este não será mais uma ilha do dia anterior. É inegável que se trata de um desencontrado: descendente de japoneses, não se sente em casa no Brasil (mais adiante, sentirá o mesmo no Japão, que não conhecia ainda), frustrado em sua ambição como escritor; desempregado, sem mulher, nunca escreveu nada. Um dia, a macróbia dona de um restaurante na Liberdade pergunta se é escritor, ele diz que sim, ela se dispõe a lhe contar uma história. O leitor habitual de Bernardo Carvalho espanta-se com sua  linearidade e coesão, ainda que narrada em meio aos ataques promovidos pelo crime organizado e tendo como palco a caricatura de um jardim japonês escondido pela fachada de um sobrado.

Mas é uma trama (no após-guerra japonês) que envolve um gênero teatral, o kyogen (farsa, artimanha, simulação). Setsuko, a dona do restaurante (ela mesma, uma simuladora), desaparecerá e encontraremos, então, uma afirmação que poderia estar nos livros anteriores: “Não conseguia juntar as peças, embora tudo estivesse diante de mim”.

A partir daí, querer saber o seu final e relatá-la se confundem na mente do narrador e também com esqueletos escondidos no armário da imigração, e mais o paradeiro de um criminoso de guerra e de um herdeiro afastado do front pelo pai, que mandou outro em seu lugar, um burakumin, pária na sociedade japonesa (o próprio narrador se vê como um burakumin existencial)…

Em algum ponto de O sol se põe em São Paulo alguém diz: “Leia isto, essa coisa urgente que é a leitura de algo empolgante, e quanto mais o relato inicial, tão certinho, se esfacela, mais a evidência de que Bernardo Carvalho é um dos melhores escritores atuais vai se impondo. Não é mais possível parar de ler. Um momento culminante é o reencontro entre o narrador e sua irmã (que foi para o Japão como operária, nessa inversão sarcástica da imigração que estamos vivendo), em Osaka, por apenas uma árida noite, num monstruoso (em todos os sentidos) cybercafé, onde se pode navegar, comer, tomar banho e dormir.

Carvalho só erra a mão no capítulo no qual se revela o teor da carta da falsa Setsuko que o narrador carregava. Veja-se um trecho, onde se comenta a recepção de Yukio Mishima, em visita ao Brasil, por um grupo de compatriotas: “Da parte de Mishima, só a loucura podia explicar a convivência pacífica de um escritor homossexual de talento extraordinário com um grupo de fascistas iletrados a justificar uma pretensa coesão de classe”. Isso não é Setsuko, falsa ou não, escrevendo, e sim o Bernardo Carvalho das suas colunas na “Folha de São Paulo”. A não ser que já seja o romance que o narrador por fim escreve… Vamos dar o benefício da dúvida.

Resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em dois de junho de 2007

novenoitesmongólia

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