MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

05/07/2012

O labirinto do puritanismo e seus minotauros: LUZ EM AGOSTO, de Faulkner

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de abril de 2007)

A CosacNaify lançou nova tradução brasileira (de Celso Mauro Paciornik), após muito tempo (havia uma tradução de Berenice Xavier, que chegou a ser publicada com o título errado de Luz de agosto), de Luz em agosto (Light in August, 1932), no qual William Faulkner teve a ousadia de penetrar no coração do puritanismo norte-americano e que acabou sendo o mais poderoso romance do século XX, junto com A montanha mágica, de Thomas Mann, com sua visão cósmica da questão: parece que o próprio universo é puritano, de uma forma que só resta a Deus, no que ele pode ser associado a amor, benevolência e quaisquer outros atributos generosos, ficar de fora e deixar que os seres humanos se virem.

Joe Christmas fabrica bebida clandestinamente e assassina uma velha solteirona, de quem fora amante por algum tempo. O item que causa horror e que o faz ser perseguido encarniçadamente no coração de Yoknapatawapha (o condado do Mississipi inventado por Faulkner) é a descoberta de que ele, apesar da pele branca, tem sangue negro. Brown, seu desprezível cúmplice, interrogado e pressionado, deixa vazar a informação com o intuito de se safar. A “negritude” encoberta de Christmas mesmeriza a comunidade.

Acontece que na mesma ocasião, está chegando do Alabama (e prestes a dar à luz, daí uma das possibilidades de interpretação do título) a jovem Lena Grove, engravidada por Brown, o assecla-delator de Christmas. Ele, na época, era conhecido como Lucas Burch e prometera mandá-la buscar, o que jamais  pretendera cumprir, não imaginando a tenacidade estúpida, contudo comovente, de Lena, que representa um pouco a teimosia da espécie humana em prosseguir, apesar do absurdo da existência (não é à toa que Albert Camus admirava tanto Faulkner). Por uma confusão fonética, Lena chega a Byron Bunch (talvez o maior personagem faulkneriano), um daqueles impotentes defensores de uma espécie de honra cavalheiresca típica do Sul. Ele apaixona-se por Lena e ao mesmo tempo coloca-a na pista de Brown (mais tarde, rememorando a cena, diz: “Eu achava que se houvesse um lugar onde um homem podia estar a salvo da possibilidade de fazer mal a alguém, seria lá, na serraria, numa tarde de sábado”).

E caso o leitor não tenha achado suficiente, há ainda o interlocutor de Bunch, o reverendo protestante Gail Hightower, abandonado por sua congregação  devido à vida e à morte escandalosas de sua esposa e também por sua insólita obsessão com um episódio da Guerra de Secessão ocorrido com seu avô,  simbolizando o Deep South  paralisado pela derrota, engessado pelo passado.

Acrescente-se a essas situações e personagens, as imagens incríveis engendradas pela prosa de Faulkner, o seu inigualável gênio narrativo (fazendo os fatos emergirem de forma interposta, através de conversas ou pela “voz do povo”), além da sua perturbadora mistura de atavismo, pessimismo eclesiástico quanto à condição humana (uma das muitas formas da ressonância bíblica na linguagem do maior dos escritores de ficção, junto com Thomas Mann), fatalismo, regionalismo, e assim obtém-se  uma obra-prima suprema que logo teria companheira: o igualmente avassalador Absalão! Absalão! (1936), cuja reedição no Brasil, espera-se, é iminente. Neste último, Faulkner coloca-se como “dono e proprietário” do seu universo (Yoknapatawpha), num mapa no final do livro. E ele é tão real e imponente que, se Deus aparecer por lá, reivindicando seus direitos demiúrgicos, terá que fazer o recomendado por Riobaldo em Grande Sertão: veredas: que vá armado!

21/03/2012

O que o diabinho sussurrou em meus ouvidos sobre O SOL TAMBÉM SE LEVANTA ou O romance broxante de Hemingway

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de maio de 2001)

“Há em nós um diabinho a sussurrar sempre em nossos ouvidos:  ´gosto´, ´detesto´, e não podemos silenciá-lo”.

As palavras de Virginia Woolf servem para justificar um pouco este artigo que se dedicará a mostrar como seu autor passou a detestar um romance do qual já gostara muito, O sol também se levanta (The Sun also rises, EUA, 1926, em tradução de Berenice Xavier), que está completando 75 anos e ganhou  reedição pela Bertrand Brasil.

Quando eu era bem novo, algumas obras-primas foram norteadoras de um gosto para a alta literatura: o já referido O sol também se levanta; A morte em Veneza (Thomas Mann); Gargalhada na escuridão (Vladimir Nabokov, atualmente mais conhecido como Riso no escuro); O estrangeiro (Albert Camus); A metamorfose (Franz Kafka). Com exceção do romance de Ernest Hemingway, todos permaneceram como objeto de admiração cada vez mais intensa.

Como se sabe, com esse romance e com seus contos, Hemingway “renovou” a literatura: estilo despojado, diálogos diretos, narração calcada em sensações e ações dos personagens. Renovação que, a meu ver, ficou irremediavelmente datada: tudo parece velho e desbotado. Causa espanto um crítico da perspicácia de Harold Bloom, no seu Como e Por que Ler afirmar que é o seu “único romance que permanece atual” !!!!??? Hoje em dia, quando se constata a vitalidade e força da ficção de Faulkner e Fitzgerald, como Hemingway parece defasado. E até na área do conto, sua praça-forte, por assim dizer, como perde longe para uma Dorothy Parker ou um John Cheever, por exemplo.

O sol também se levanta é narrado por Jake Barnes, um americano da “geração perdida”, isto é, aquela que participou da Primeira Guerra Mundial, e que se tornou um expatriado boêmio em Paris. Ele ama Brett, ela o ama, mas tem que traí-lo com vários homens, incluindo um judeu candidato a escritor e um jovem toureiro, porque Barnes ficou impotente em função de um ferimento de guerra. O leitor não pode imaginar como é chata, banal e piegas a lengalenga sentimental que envolve Barnes & Brett, sem contar a constrangedora comicidade que decorre da relação entre o “problema” do narrador e um título onde se coloca a expressão “também se levanta”!!!??? Do jeito que as coisas se passam, é apenas o sol que o consegue.

Mas Hemingway é assim mesmo: cafona, com uma inclinação para o sentimentalismo patético e um pé no ridículo. Eu já deveria ter percebido isso na época em que li o romance pela primeira vez, numa edição da Abril Cultural, que apresentava Jake Barnes com uma pérola kitsch: “touro ferido, incapaz de viver a sua própria fiesta.

E por falar em fiesta, Barnes e um grupo de amigos vão para Pamplona para assistir a touradas. E O sol também se levanta deixa de ser apenas um livro vazio e meio piegas, apoiado num estilo que já cumpriu o seu papel histórico. Torna-se detestável e desprezível.

Tirando o fato de que só pessoas estúpidas podem se interessar (e ainda mais, serem aficionadas), como Barnes,  por eventos como touradas ou farras-do-boi, ou rodeios, enfim, qualquer espetáculo onde se maltrata gratuitamente um animal, o repugnante no livro de Hemingway é que elas e Pedro Romero (o toureiro) são descritos como os únicos momentos de autenticisade e força vitl que a inútil “geração perdida” é capaz de experimentar. Tanto que  o forçado relacionamento amoroso entre Brett e o judeu Cohn é logo desmascarado em sua artificialidade; a amada debiloide do narrador logo, logo se aproxima do belo e jovem toureiro e inicia outra ligação que nos obriga a aturar  parvoíces do tipo: “Pedro Romero, porém, possuía grandeza. Gostava de tourear e creio que amava os touros e que também amava Brett”!!!??? (que bom pra ela, não?); ou ainda (depois que o galã mata o seu touro): “Romero recebeu do irmão a orelha do animal e ergueu-a para o presidente. Este se inclinou e o toureiro… aproximou-se de nós, inclinou-se sobre a barreira e entregou a orelha a Brett. Sorria. A multidão o rodeava e Brett deu a sua capa. Gostou, perguntou-lhe Romero. Brett não disse nada. Olhavam um para o outro e sorriam. Brett conservava na mão a orelha do touro”!!!!!????

O sol também se levanta está saindo mais ou menos em conjunto com Verdade ao amanhecer, um manuscrito inédito de Hemingway (que morreu, deixando em suas gavetas, inomináveis baboseiras do tipo As ilhas da  Corrente, que quase veio a ser a causa do óbito de quem aqui escreve, vitimado por um tédio mortal) que foi “trabalhado” pelo seu filho!

Além das muitas razões para se repudiar esse “trabalho” póstumo, eu não lerei o  livro por tudo o que se escreveu acima. Se um trabalho no auge da juventude e da força literária revela-se intragável, quase ilegível, imagine-se um produto da decrepitude e da esterilidade criativa. A cruel verdade ao amanhecer: o sol já não mais se levantava para um touro ferido, incapaz de viver sua fiesta como escritor.

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