MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

17/06/2012

Os encargos do sangue

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de junho de 2002)

 Como se sabe, na sua versão cinematográfica de ABRIL DESPEDAÇADO, Walter Salles Jr. transportou a trama para o nosso Nordeste, porém o romance original [traduzido por Maria Lúcia Machado a partir da versão francesa de  Jusuf Vrion,  Avril brisé, e lançado pela Companhia das Letras] é ambientado nas montanhas da Albânia, na primeira metade do século XX, onde ainda se vive, segundo o escritor Bessian Vorpsi (um dos protagonistas) “como nos tempos homéricos”, isto é, com um sentido profundo do sagrado, do heroísmo e da honra. Vorpsi escreveu sobre a região, glorificando-a, embora viva na longínqua e “desvirilizada” capital (Tirana), entre “homens que só têm de homens o nome”.

      Nas montanhas prevalece a  lei do Kanun, um código de honra extremamente meticuloso, que trabalha basicamente com “dívidas de sangue”. O outro protagonista de ABRIL DESPEDAÇADO, Gjorg Berisha, assassina um membro da família Kryeqyqe, renovando a vendeta de 70 anos entre os dois clãs. Em função do código, Gjorg ganha um mês de trégua (que terminará na metade de abril, daí o título, o qual seria melhor traduzido por “truncado” ou “partido” do que pelo melodramático e desnecessário “despedaçado”); depois, será a sua vez de ser morto por alguém dos Kryeqyqe. A vendeta entre os Berisha e os Kryeqyqe é apenas uma entre as inúmeras que se desenvolvem há séculos.

    Através da trajetória de Gjorg delineia-se um dos temas centrais do livro de Ismail Kadaré e que o aproxima de Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar (os dois foram publicados em tempos próximos, 1978 e 1975, respectivamente), também recentemente adaptado para o cinema: o peso da tradição e do seu atavismo coercitivo sobre o indivíduo, de uma forma que torna impossível moldar uma existência autônoma. O André de Lavoura Arcaica ainda tenta a existência como “filho pródigo”, mas isso é impensável para Gjorg, com toda a aura que assumem noções como honra e o papel do homem numa sociedade patriarcal.

       E é durante o mês de trégua para Gjorg, esse abril dividido, que Bessian Vorpsi viaja pelas montanhas com sua esposa, Diana. O casal entra em crise quando se defronta com a realidade nua e crua do Kanun, longe da sua mitificação literária, principalmente quando Diana vê sua encarnação trágica (e ao mesmo tempo atraente) de Gjorg.

     Por outro lado, eles também se defrontam com o lado kafkiano do Kanun: há toda uma burocracia que registra cada “sangue devido” e cada “sangue resgatado”. Há até um castelo fantasmagórico onde se faz o arquivamento do sangue derramado, e há um intendente encarregado da tarefa. Mais ainda: é uma atividade racionalizada em termos econômicos,  embora instável como uma lavoura (há anos bons e anos ruins): os assassinos pagam um imposto sobre cada “sangue resgatado”.

    O intendente Marik Ukacierre angustia-se ao constatar que administra uma atividade econômica em declínio e sai pela região tentando reativar a colheita de mortes, para não ficar atrás dos outros intendentes, encarregados de lavouras mais lucrativas; “Ele sabia que o mecanismo da morte estava lá, montado desde tempos imemoriais, moinho antigo que girava dia e noite e cujos segredos ele, o intendente do sangue,  conhecia melhor do que qualquer um… Clãs inteiros aceitavam deixar suas terras incultas e sofrer a fome desde que o sangue fosse recuperado e havia famílias que faziam o contrário, que adiavam a retomada do sangue de estação em estação, de maneira a amealhar bastante milho (…) Entre o milho e a vingança, cada um fazia a sua escolha. Alguns, para sua vergonha, escolhiam o milho; outros, ao contrário, a vingança.”

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.