MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

11/04/2014

O MUNDO… DUAS PONTES : um bosquejo da obra de Autran Dourado

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(uma versão do texto abaixo foi publicada originalmente na revista  METÁFORA 14, em novembro de 2012, com o título  Autran Dourado: uma obra em segredo)

“Veja tudo de vários ângulos e sinta, não sossegue nunca o olho, siga o exemplo do rio que está sempre indo, mesmo parado vai mudando. O senhor veja o efeito, apenas sensação, imagine, veja a ilusão do barroco, mesmo em movimento é como um rio parado, veja o jogo de luz e sombra, de cheios e vazios, de retas e curvas, de retas e curvas, de retas que se partem para continuar mais adiante, de giros e volutas, o senhor vai achando sempre uma novidade. Cada vez que vê, de cada lado, cada hora que vê, é uma figuração, uma vista diferente.”

Desse modo, o narrador-representante da cidadezinha de Duas Pontes fornece ao visitante um modo de olhar esse ambiente provinciano e pacato. O mítico lugarejo no Sul do Minas, ao reaparecer em pelo menos 15 dos livros de Autran Dourado, sempre primará pelas retas e curvas, giros e volutas, sempre representando uma vista diferente.

Ao morrer em 30 de setembro, aos 86 anos, Autran pagava há muitos anos o preço de criar uma obra que parece recôndita, arcaica, “parada”, em suma, vivendo—como escritor—o destino de uma de suas mais inesquecíveis criações, a prima Biela: “uma vida em segredo”.  Pois ele nunca foi de modismos ou de autopromoção. E olhe que sua biografia até permitiria certa margem de sensacionalismo: afinal, acompanhou a ascensão de Juscelino Kubitschek (foi seu assessor), e não falta anedotário na Camelot tropical fundada no planalto central pelo presidente bossa-nova.

No entanto, apesar de contar (parcimoniosamente, como que de má vontade) essa experiência num livro tardio, e de certa forma muito insatisfatório, Gaiola Aberta (2000, ano em que ganhou o prêmio Camões), o confessional evidente nunca foi o forte de Autran—a prova é de que seu mais fraco romance da maturidade é autobiográfico: Um artista aprendiz (1989). Na sua ficção, preferiu transformar o período jusceliano numa paródia mítica e bizarra, meio Teogonia/ meio anatomia do modo mineiro de fazer política, em A serviço del-Rei, publicado nos fatídicos anos 1980, que trouxeram a obscuridade, a plena vida em segredo, para um escritor que nas duas décadas anteriores gozara de enorme prestígio crítico, e uma repercussão segura de suas realizações: de A barca dos homens (1961)  até As imaginações pecaminosas (1981, prêmio Goethe), Duas Pontes foi surgindo em giros e volutas cada vez mais ousados e criativos, com duas exceções importantes: justamente, o primeiro título citado, o salto de qualidade do escritor mineiro para um realismo amplo e simbólico, uma história toda passada em um dia, numa ilha; e Os sinos da agonia (1974), romance que transporta a tragédia de Fedra e Hipólito para a Vila Rica setecentista, numa trama alusiva ao período da ditadura e com uma linguagem extraordinária.

Lembrando o gosto de um dos habitantes de Duas Pontes, o dr. Viriato, pelo alexandrino de Cesário Verde, “Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!”, o mundo era… Duas Pontes; e nela está o melhor dessa obra: a história da prima Biela (Uma vida em segredo), a formação de João da Fonseca Nogueira, uma educação sentimental tipicamente mineira em O risco do bordado (1970), cuja feitura em blocos narrativos deu azo a um ensaio fascinante, cuja forma final intitula-se Uma poética de romance: matéria de carpintaria, publicado em 1976, mesmo ano de Novelário de Donga Novais, suma poética do modo de contar uma história que nos é apresentado na passagem que abre este meu texto e que pertence ao romance mais famoso e emblemático de Autran Dourado; Ópera dos Mortos. Como ali encontramos uma Antígona perdida na “vida besta” imortalizada pelo verso drummondiano, podemos dizer que Autran Dourado concordaria com Milton Nascimento quando este canta: “Sou o mundo, sou Minas Gerais.

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ANEXO (que não consta da versão da revista)

“MADRID, PARIS, BERLIM. S.PETERSBURGO, O MUNDO”: DUAS PONTES

  1. A TRILOGIA DOS HONÓRIO COTA

Publicado em 1967, Ópera dos Mortos representa um tour-de-force dentro daquele foco narrativo chamado “discurso indireto livre” pelos manuais, no qual há um narrador em 3ª. pessoa que se “cola” à consciência de um personagem que nos faz ver tudo pelos seus olhos. É assim que conhecemos Rosalina, a derradeira representante do clã mais ilustre de Duas Pontes, os Honório Cota,. Brigada com a cidade, ela se tranca no sobrado familiar e vive apenas com os “mortos”.

Numa prova de que suas histórias nunca ficam “paradas”, que tudo pode ganhar nova figuração, importantíssimas revelações (“o senhor vai achando sempre uma novidade”) enriquecem a trama de Ópera dos Mortos em dois romances posteriores, Lucas Procópio (1985) e Um Cavalheiro de Antigamente (1992).

2. EDUCAÇÃO SENTIMENTAL E FORMAÇÃO DO ESCRITOR

Em blocos narrativos de cronologia misturada, O risco do bordado (1973) é o melhor romance de Autran. É a educação sentimental de um personagem através de ritos de passagem e de traumas familiares (quase que ao nível bíblico), mas sem a segurança de um fio linear. É como uma nebulosa de onde vão surgindo os mitos da infância e da adolescência de João da Fonseca Nogueira (alter ego contumaz do autor).

E de encontros com leitores e estudantes, surgiu o relato de como esse romance foi feito, Uma poética de romance. E depois, o relato da formação de Autran Dourado como escritor, como foi tateando até encontrar suas soluções estéticas, o seu universo, a sua linguagem. E o quadro completou-se: Uma poética de romance: matéria de carpintaria. A oficina aberta para todos, Devia fazer parte do currículo dos cursos de Letras.

3. OS SINOS DA AGONIA

Apesar de não ser ambientado em Duas Pontes, é como se aqui tivéssemos a matriz arcaica, o visgo que prendeu toda aquela gente nesse universo imobilista e avesso ao estranho.

Quanto ao exercício narrativo, é puro Autran Dourado, sua quintessência. Cada parte é uma volta do parafuso da tragédia de rivalidade entre pai e filho em torno de Malvina, a Fedra que é um pouco Madame Bovary sufocando na vida besta mineira, sem possibilidade de engrandecer seu destino.

Curiosidade: o título era para ser A morte em efígie, prática jurídica em que o fugitivo era dado como morto, mesmo sem a apresentação do corpo. Era como se ele tivesse deixado de existir.

4. NOVELÁRIO DE DONGA NOVAIS & A EXTRAORDINÁRIA SENHORITA DO PAÍS DOS SONHOS

Esses dois pequenos textos, um de 1976, e outro publicado em Armas e Corações  (1978),, nos dão Duas Pontes no seu nível mais poético e original. No primeiro, um ancião que não dorme nunca e pode ser o sonhador que dá vida àquele universo. Como sempre se expressou em ditados, provérbios e rifões, é como se sua fala estivesse viva, mesmo ele tendo morrido há muito tempo. No segundo, um truculento e gigantesco fazendeiro (pois os coronéis do sutil universo de Autran nada ficam a dever aos de Jorge Amado em violência e desfaçatez) se amasia com uma anã de circo, isolando-se em sua propriedade, e ativando o “moinho de fantasia”, as imaginações pecaminosas, do povoado—por   causa da disparidade anatômica.

Em ambos, uma voz coletiva, “a gente”, fala por Duas Pontes, mostra o avesso da respeitabilidade, a libido aflorando, os germes do desassossego numa estrutura social que parecia destinada a durar eternamente…

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14/04/2013

O cantinho do mundo de prima Biela: “Uma vida em segredo”

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I

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 03 de setembro de 1996)

O relançamento de UMA VIDA EM SEGREDO, na série Mestres da Literatura Contemporânea (Record/Altaya) é muito oportuno, pois além de trazer de volta um dos nossos melhores textos de ficção neste século (publicado originalmente em 1964), serve também como homenagem aos 70 anos que o autor está comemorando em 1996.

UMA VIDA EM SEGREDO conta a história da roceira (e ronceira) prima Biela que, após a morte do pai, vai morar com seu primo Conrado e a família dele. Embora eles morem no interior de Minas Gerais (nas primeiras décadas do século), ainda assim são demasiado civilizados e refinados para essa prima bisonha, mocoronga, que só se sente bem na cozinha, com os criados, e que tem medo até de sair na rua. Ao longo dos anos, a cidade e a família vão se acostumando ao jeito de Biela, sempre “tão boazinha”, mas vivendo no seu mundinho particular, irredutível a qualquer tentativa de mudança, principalmente depois de um frustrado noivado, arranjado por Constança, esposa do primo Conrado.

É admirável a maneira como a narrativa vai se acercando de Biela, como se fosse a “voz geral” da cidade que estivesse comentando seu jeito ao chegar, como tornou-se para agradar aos primos, e como retraiu-se depois do abortado noivado, recapturando sua autêntica maneira de ser e sua solidão essencial, alimentada apenas pelas lembranças da roça e por alguns parcos investimentos afetivas na sua existência de “agregada”: “Todo mundo achava prima Biela uma boa moça. Pena que seja assim tão mais sem jeito, diziam as mulheres. No parecer, moça roceira, sotrancona. Porque por dentro ela era boa, via-se logo. A gente vê logo quando uma pessoa é boa. Tão prestativa, tão simplezinha, tão alma boa. Num instante esqueceram o espanto da aparição domingueira de Biela (…) Com a aprovação da cidade, Constança foi se conformando com a ideia de ter prima Biela por companhia.”

Esse recurso de utilizar na narrativa um tom coletivo, valendo-se de ditados e provérbios, é muito comum em Autran Dourado e faz com que o leitor veja Biela quase sempre de viés, através de dissimulações narrativas, de lances que parecem se encaminhar para o dramático, para o patético pelo menos, mas que são blefes que lembram o jogo de truco (um típico jogo de dissimulações), também presença constante nas suas obras. E esse é o grande mérito de UMA VIDA EM SEGREDO: não há nada excessivamente dramático, piegas, patético ou trágico no destino de Biela; ela simboliza um tipo de pessoa que foi sendo apagado pela História, pelo progresso, pela urbanização.

Nesse pequeno romance foi utilizado o chamado “modo irônico” que, segundo o brilhante crítico canadense Northrop Frye, caracterizaria a ficção moderna. Se nas narrativas épicas os autores contavam histórias de homens (líderes, reis) superiores a nós, nas narrativas contemporâneas mais radicais, sucessoras do Realismo-Naturalismo, há uma degradação e os heróis (e heroínas) muitas vezes são inferiores a nós, leitores, em condição social (como Frye coloca em Anatomia da Crítica, temos a “sensação de olhar de cima uma cena de servidão, malogro ou absurdo”).

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Como já disse, não há lances dramáticos ou trágicos na vida de Biela, mas a “ironia” que decorre da sua trajetória é que oferece a amplidão dramática, a sensação do desperdício de uma vida num ambiente tão hostil (mesmo que aparentemente benigno) a ela, que a degrada e a transforma num ser absurdo.

Conforme se encaminha para o final, o livro atinge uma excelência rara na ficção brasileira. É o ponto em que Biela adota um cachorro, ao qual dá o nome de Vismundo, e em quem investe toda a afeição autêntica de que é capaz em meio ao mundo cheio de estranhos que lhe coube viver.

No relato da maneira como ela vai conquistando o cachorro está o ponto alto do livro, pois temos aquele egoísmo humano bem característico no trato com os animais, de eles serem esteios das nossas carências, porém ao mesmo tempo há uma identificação dela com Vismundo, uma genuína empatia entre dois seres “tolerados”, aos quais é permitido um “cantinho” no mundo. E é verdadeiramente emocionante o final, quando, ao morrer, a última visão de Biela é a do cachorro, como síntese do que a sua vida teve de boa e realmente vivida.

É possível que a história da prima Biela seja, junto com O risco do bordado & Novelário de Donga Novais, o que de melhor Autran Dourado escreveu. E é inexplicável que ele se encontra hoje em dia tão ignorado pela mídia, quando tem uma das obras sólidas, indiscutíveis e de alto nível da literatura brasileira das últimas décadas, como o também ótimo Osman Lins (autor de Retábulo de Santa Joana Carolina). Seria muito bom que prima Biela conseguisse atravessar essa indiferença e fazer o mesmo sucesso de 30 anos atrás. E que ela trouxesse atrás de si Donga Novais, Lucas Procópio e outras criaturas do novelário sem fim do grande ficcionista mineiro…

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II

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 22 de outubro de 2002)

É inexplicável: na Baixada Santista  há tantas salas de exibição e, no entanto, se quiser assistir a filmes nacionais recentes, importantes e premiados, o público daqui tem que contar com a saletinha que é o Cinearte-Posto 4, onde eles passam com considerável atraso e por pouquíssimos dias (mas passam, pelo menos). Foi o caso de Lavoura arcaica; é o caso agora de UMA VIDA EM SEGREDO.

Não deixa de ser curiosa e reveladora a escolha do belíssimo texto de Autran Dourado por Suzana Amaral para o seu segundo filme, uma vez que o primeiro era uma (linda) adaptação de A hora da estrela, de Clarice Lispector. O próprio autor de UMA VIDA EM SEGREDO já declarou, no depoimento que está num livro que o homenageia (Autran Dourado, Coleção Encontros com Escritores Mineiros, Editora da UFMG): “Não há como negar que Macabéa e prima Biela são muito parecidas. Aquele desamparo diante da vida, diante do mundo, das coisas, das convenções, aquela pureza e ingenuidade, o lado franciscano das duas. Acho que Biela e Macabéa são irmãs.”

Biela vai morar na casa do primo, após a morte do pai. Ao longo dos anos, a cidade e a família dele vão se acostumando ao jeito ronceiro da estranha parenta, sempre tão “boazinha”, em contrapartida, e sempre vivenciando o seu mundinho recôndito, isto é, “em segredo”, irredutível até mesmo às desastradas tentativas casamenteiras de Constança, esposa do primo Conrado, após as quais ela recaptura por assim dizer sua radical solidão, alimentada apenas pelas lembranças da roça e por alguns parcos investimentos afetivos, o maior deles o cachorro Vismundo, também um ser “tolerado”, com que ela compartilha um cantinho minúsculo do vasto mundo.

Sempre me emociona o final, quando—ao morrer—a última visão da prima Biela é a do seu cachorro, símbolo irrisório mas profundo do que sua vida teve de boa e vivida de fato, embora “franciscana” em seu despojamento, em seu “coeur simple”.

E outro fenômeno inexplicável como a  indiferença dos cinemas regionais a qualquer filme que não seja para grande público, é como—apesar da reedição da sua obra completa pela Rocco—a mídia atual ignora quase que ostensivamente o grande escritor mineiro. Parece que ele mimetizou o destino de sua maravilhosa personagem e criou uma obra em segredo. E é uma lástima porque nossos três maiores ficcionistas vivos são Dalton Trevisan, Lygia Fagundes Telles e Autran Dourado, os únicos que, no panorama atual, e se algum dia o Nobel descobrisse que o Brasil existe, mereciam incontestavelmente o prêmio.

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O meio da história: “Um cavalheiro de antigamente”

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SOBRE O MESMO ASSUNTO VER TAMBÉM:

https://armonte.wordpress.com/2013/04/14/aproximacoes-entre-faulkner-autran-dourado-e-a-falta-tragica/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/30/antigona-perdida-na-%E2%80%9Ccidadezinha-qualquer%E2%80%9D/

I

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de setembro de 1993)

  Autran Dourado  é o nosso maior romancista vivo. Por isso, leitor, não se intimide com o título pouco atraente nem com a capa medíocre (edição da Siciliano) de UM CAVALHEIRO DE ANTIGAMENTE, um título que merece toda a atenção.

Em 1967, o autor mineiro publicou Ópera dos Mortos, que contava a história de Rosalina, última remanescente do clã Honório Cota. Os dois primeiros capítulos, no entanto, eram sobre o pai dela, João Capistrano, e o avô, Lucas Procópio (que foi personagem-título de um livro de 1985). Havia o começo e o havia o fim, faltava o meio.

UM CAVALHEIRO DE ANTIGAMENTE explora a personalidade de João Capistrano, considerado um “homem das antigas” por seu comportamento distinto, nobre. É o orgulho da cidade. Sua lembrança mais antiga, porém, é a do pai espancando a mãe. A esse fato junta-se uma carta anônima denunciando um caso que teria acontecido entre a mãe e Agostinho, o padre da cidade (aliás, escorraçado pelo pai). Verdade ou mentira?

Obsedado, tendo se criado no horrível código de honra mineiro (que “se lava com sangue”), João procura as pessoas que podem esclarecer o assunto. As conversas com essas pessoas, o que elas têm a dizer, o que elas têm a mentir, o que elas têm a lembrar, e o que sucede quando João descobre o autor das cartas anônimas fazem o tecido narrativo desse romance da maturidade autraniana.

Uma das chaves do livro é o fato de que a mãe de João construiu um falso retrato de Lucas para a cidade, e após sua morte fez do filho (sobre quem tem forte influência) um homem oposto. A dúvida sobre o comportamento passado da mãe confronta João com as suas diferenças e semelhanças de caráter com relação ao pai. Ele é ao mesmo tempo oposição e complemento (como figurado na construção do sobrado da família), permitindo ao grande escritor mineiro não apenas fazer um romance de introspecção como também um retrato dos valores do Segundo Reinado e da Primeira República, quando o café sustentava a nossa economia.

Outro ponto essencial é a do antepassado quase mítico, primevo, bruto, de passado obscuro, que chega de longe, instala-se numa terra e torna-se poderoso, e cuja pujança os descendentes (embora mais respeitáveis)  não têm, estabelecendo-se a decadência da gens. Essa fábula, remanescente dos “mitos de fundação”, já foi muito contada, nenhuma tão bem como no inexcedível Absalão!Absalão (1936), infinitamente mais complexo em termos narrativos, pois nas mãos de William Faulkner os fatos se transformam, contados sob um ou outro ponto de vista.

Os vários focos de UM CAVALHEIRO DE ANTIGAMENTE ratificam sempre a mesma coisa, os mesmos fatos.  Utiliza-se uma técnica parecida com a da pedra jogada na água, que ativa círculos concêntricos, habilmente encadeados por alguém que entende muito do seu riscado, do seu ofício, com um final que é um verdadeiro achado de mestre, contudo a excessiva univocidade dos diversos testemunhos limita um tanto o romance.

Mesmo assim, é um bom primeiro passo para o leitor que não conhece Autran Dourado e que pode depois se arriscar nas águas mais profundas da culpa familiar de O risco do bordado (1970), a obra-prima de um escritor de antigamente, isto é, dos bons.

Nota de 2013– Ainda que, a essa altura já tivesse lido alguns livros de Autran, nem imaginava em 1993 que me dedicaria anos ao estudo de sua obra e que escreveria uma tese de doutorado sobre ela. Não lera Lucas Procópio e, portanto, não sabia do segredo importante que muda toda a visão da história dos Honório Cota.

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II

(Em 14 de maio de 2002, a TRIBUNA publicou outra resenha minha sobre UM CAVALHEIRO DE ANTIGAMENTE)

Agora que está para estrear a versão cinematográfica de Uma vida em segredo  (a qual, com Lavoura arcaica & Abril despedaçado poderá compor uma belo painel do Brasil rural), aumenta o interesse pela reedição que a Rocco está fazendo dos livros de Autran Dourado. Um deles, UM CAVALHEIRO DE ANTIGAMENTE (que só tivera uma edição anterior, bastante fuleira, pela Siciliano), faz parte de uma trilogia composta ainda por Ópera dos mortos (1967) & Lucas Procópio (1985).

No primeiro, era contada a história de Rosalina, última remanescente da principal família de Duas Pontes (cidade imaginária em Minas Gerais), os Honório Cota; no segundo, descobria-se que o avô de Rosalina foi sempre um impostor: seu nome era Pedro Chaves, um feitor que usurpara a identidade do verdadeiro Lucas Procópio Honório Cota, verdade que jamais foi descoberta.

Faltava a vida de João Capistrano, filho do falso Lucas Procópio e pai de Rosalina, criado no código de honra mineiro, e que precisa manter as rédeas do seu prestígio e autoridade numa terra de coronéis, em “tempos de política braba, de protetores e protegidos, de vinganças prometidas, das mortes contadas, das favas do medo” (como se lê em outro romance autraniano, o magnífico O risco do bordado), tempos que ficam bem ilustrados pela atitude hipócrita do delegado Requião:

“Mesmo deixava de perseguir os capangas dos coronéis do município, só exigia que eles não permanecessem dentro da cidade, só de passagem. Como era pouco o que ele queria, os coronéis que o mantinham na delegacia, do partido da situação, achavam uma exigência de somenos, até elogiavam, caso contrário viver nas Duas Pontes ficava perigoso para as famílias. Cobra e capanga é no mato, dizia seu Requião e o chefe político das Duas Pontes, quando lhe contaram o ditado riu muito, até louvou o zelo de seu Requião.”

   João procura as pessoas que podem esclarecer o assunto (por exemplo, o dr. Maciel Gouveia, um daqueles intelectuais provincianos típicos do grande escritor mineiro) e a tessitura narrativa de UM CAVALHEIRO DE ANTIGAMENTE se compõe dos diversos focos através dos quais os incidentes são interpretados. A dúvida sobre o comportamento passado da mãe, a quem venera, serve para João Capistrano confrontar-se com suas diferenças e semelhanças com o pai, do qual ele é ao mesmo tempo oposição e complemento (curiosamente, sua personalidade evoca a do “verdadeiro” Lucas Procópio, com o seu quê de quixotesco): o sobrado onde vive a família traz, na sua construção em dois andares, a marca das duas personalidades (e isso mais tarde influenciará o comportamento esquizofrênico de Rosalina).

Isso permite a Autran fazer um belo painel, introspectivo, crítico e político, dos valores do final do Segundo Reinado e começo da República Velha, os tempos de política braba (que nunca acabam), quando o café sustentava nossa economia e as alianças políticas entre Minas e São Paulo comandavam os destinos do atraso nacional.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/04/14/o-cantinho-do-mundo-de-prima-biela-uma-vida-em-segredo/

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30/09/2012

Autran Dourado capitula diante do “Senhor das Horas”

 

VER TAMBÉM NO BLOG:

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Autran Dourado (1926-2012) começou a publicar, ainda em Minas, em Belo Horizonte, muito cedo, lá pelo final dos anos 1940 e começo dos anos 1950. Seus dois primeiros livros, Teia (muito devedor a uma tradição narrativa que vinha de Godofredo Rangel) e Sombra e Exílio (este, mais afim do universo de Lúcio Cardoso) são ainda bem fraquinhos. Ele os reuniu depois num volume chamado Novelas de aprendizado, mas seu primeiro livro “real”, por assim dizer, é Tempo de amar (1952), cujos personagens foram retomados depois num belo livro de maturidade, Ópera dos fantoches (1995), talvez o melhor dos seus textos derradeiros. Mas se eu tivesse de datar o nascimento do verdadeiro Autran Dourado, o que nos interessa mesmo, a data seria 1957 (quando ele já estava enredado com Juscelino, sendo seu assessor de imprensa), quando lançou Nove histórias em grupos de três,  título inspirado que infelizmente foi modificado em 1972, para Solidão Solitude, devido à inclusão de mais um grupo. No “inventário do Primeiro Dia”, nascia o alter ego de Dourado, João da Fonseca Nogueira e o ambiente que se tornaria depois a mítica Duas Pontes, palco da maioria das suas narrativas. Autran Dourado é um autor em espiral, cujo universo dá voltas e mais voltas sobre o mesmo eixo, o mesmo grupo de eventos e histórias, e cujos personagens retornam.

Fundada Duas Pontes (em Tempo de amar, houve o protótipo: Cercado Velho),  e com o interregno de A barca dos homens (1961), romance poderoso, exercitando o “realismo simbólico” que ele aprendeu com James e Mann, a madeleine começaria a trazer, ao ser mergulhada na taça de chá, a prima Biela e seu destino de solidão em Uma vida em segredo (1964), a família Honório Cota, o “gens” trágico de Duas Pontes, como se viu em Ópera dos Mortos  (1967) e se veria, décadas depois, no excelente Lucas Procópio (1985) e em Um cavalheiro de antigamente (1992; gosto muito desse livro,  reconhecendo, é claro,  não ser tão bom quanto os outros dois);  em Ópera dos Mortos (ainda o livro-referência do autor) também nasceu o maior personagem  criado por Autran Dourado, seu Donga Novais, ainda sem sua estatura oracular ,de “tecelão da insônia” , “ancião janeleiro” e “máquina de provérbios”. depois João da Fonseca Nogueira teve sua formação sentimental narrada no extraordinário O risco do bordado (1970)– e se eu tivesse de listar 10 romances essenciais da nossa ficção no século XX ele lá estaria.

Começavam os anos 1970 e Autran Dourado gozava de um prestígio imenso. Ele, então, publicou um livro  sobre a feitura de O risco do bordado e suas reflexões sobre o exercício narrativo,  Uma poética de romance (1973). Após outro interregno muito especial, o grande romance Os sinos da agonia (1974), ambientado na Vila Rica do século XVIII , em 1976 ele chegava ao ápice: ampliou o ensaio anterior num livro que eu adoro, Poética de romance matéria de carpintaria e lançou um livro que até hoje, infelizmente, é pouquíssimo conhecido, mas que não só dava vida às suas reflexões sobre a narrativa, como também é o meu favorito entre as suas obras (junto com O risco do bordado), tanto que foi o núcleo da minha tese, defendida na USP em 2002: Novelário de Donga Novais. Pode-se dizer que a partir desse livro, Dourado se apossou totalmente da sua Yoknapatawpha, e ao mesmo tempo, de maneira lamentável, se tornou um escritor para aficionados.

Nunca mais teve a repercussão anterior, a não ser por alguns prêmios importantes (o Goethe, o Camões). Anda, aliás, escandalosamente subestimado e esquecido. Quase não se fala mais dele e de sua obra, que ganhou uma pátina de recôndita e  antiga antes do tempo.  Não deu certo nem o timing da sua morte: como competir com Hebe ou mesmo com Ted Boy Marino?

Nessa fase mais obscura, alguns livros de mestre, mas muito voltados para a construção desse universo em espiral (caso de Armas e Corações, As imaginações Pecaminosas, Violetas & Caracóis, três coletâneas de contos que são simplesmente fantásticas, especialmente a primeira,; e Imaginações Pecaminosas,  num certo sentido  foi o último suspiro de maior notoriedade do grande escritor mineiro em termos de publicação de seus livros, pois nem a republicação de sua obra inteira pela Rocco conseguiu maior repercussão); já falei de Lucas Procópio e Ópera dos fantoches), e outros livros não tão felizes. Talvez o mais ousado entre os que não deram certo (na minha opinião, pelo menos) seja A serviço del-rei (1984), onde ele enfrenta a figura de Juscelino num relato meio mítico, tentando escapar do factual.  Não gosto muito, mas pelo menos é um vôo ambicioso. Em compensação, Um artista aprendiz (1989), uma espécie de Retrato do artista quando jovem “do doce”, Monte da Alegria, uma espécie de Os sertões “do doce” e Confissões de Narciso (1997), uma espécie de passeio stendhaliano sobre o amor, que é quase intragável de ruim, não deram certo.

O último Autran Dourado , salvo engano, me encheu de melancolia: O senhor das horas. O rescaldo de uma obra maravilhosa, de um demiurgo que não soube deixar seu universo em paz, na plenitude. Cronos realmente é um deus cruel.

(30 de setembro de 2012)

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