MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

04/08/2015

O idílio entre a ficção e história: “Ragtime” e a obra de E.L. Doctorow

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« Três coisas. A primeira, ler. Não precisa ser muito, umas sessenta páginas por dia já resolvem; a segunda, escrever sobre as próprias obsessões porque delas nunca se escapa; e, terceira: nunca, mas nunca mesmo, fale a respeito do que está escrevendo—além de ser uma chatice, falar, fazer pesquisa, pensar a respeito, não é escrever. Escrever é escrever…» (E.L. Doctorow)

[uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 04 de agosto de 2015]

« Os dois amigos saíam todas as manhãs para os trechos desertos da praia, onde as dunas e o capim bloqueavam o hotel. Cavavam túneis e canais para a água do mar, muralhas, bastiões e moradias com degraus. Construíam cidades, rios e canais […] À tarde brincavam à vista dos guarda-sóis de praia, recolhiam gravetos e conchinhas, caminhando devagar com o bebê negro espalhando água atrás deles, na orla das ondas»[1].

A passagem acima, de Ragtime (1975), reúne a ambígua inocência possível do cadinho étnico levantado pelo recém-falecido E.L. Doctorow em seu livro mais famoso: temos um bebê negro, uma menina judia e um rapazote anglo-saxão (os “dois amigos”).

Para se chegar a essa cena idílica (e tão precária), os rumos de três famílias cavaram túneis em meio ao racismo desenfreado, à violência policial à miséria dos imigrantes, à exploração do trabalho, aos avanços tecnológicos do início do século passado (Henry Ford, personagem da narrativa, cria a linha de montagem), ao capitalismo financeiro que sobrepujará a chamada modernidade “pesada” representada pela indústria e pelo estado-nação, tornando-a “líquida”, até mesmo volátil (o americano mais poderoso, J.P. Morgan «atravessava todas as fronteiras e estava à vontade em qualquer parte do mundo,  um monarca do invisível, transnacional reino do capital, dominando recursos que tornavam insignificantes fortunas reais»), à sociedade do espetáculo.

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O bebê negro é enterrado vivo no quintal da casa dos brancos, uma família conhecida por designações genéricas (Papai, Mamãe, Vovô, Irmão Mais Novo de Mamãe, Menino), e salvo por Mamãe[2], que acolherá também Sarah, que tentou matar o próprio filho. O pai aparece: Coalhouse Walker Jr., tocador de ragtime e proprietário de um carro, despertando a truculência invejosa de um grupo de bombeiros voluntários (de origem irlandesa). Vandalizado seu veículo, Coalhouse precipitará seu destino e o de Sarah na tragédia, ao tentar uma reparação, primeiro judicialmente; depois, através do terrorismo (é bom lembrar que a prosperidade de Papai vem da fabricação de artefatos patrióticos, incluindo fogos de artifício).

Nesse ínterim, o pai da menina, Tateh (judeu socialista, contudo arraigado a um férreo chauvinismo machista), após renegar a esposa (que, para ajudar o difícil sustento da família, se entregou a um cliente) e as tentações oferecidas por Evelyn Nesbit, causadora do crime mais escandaloso dessa época pré-1914[3] (seu marido assassina o renomado arquiteto Stanford White por ciúme), atravessa os EUA tentando proteger, em vão, a filha da corrupção do Novo Mundo, e nesse périplo metamorfoseia-se em empreendedor bem-sucedido na nascente indústria cinematográfica.

Doctorow já escrevera belos romances antes (O Livro de Daniel, 1971[4]) e ainda produziria outros depois dessa obra-prima, caso de A Grande Feira (World´s Fair, 1985), A Marcha (2005) e seu outro livro muito querido e premiado, Billy Bathgate (1989)[5]. Em todos, demonstrou ser um poeta-arqueólogo das mentalidades de períodos históricos bem recortados, embaçando as fronteiras entre o visionarismo literário e a exatidão factual com um virtuosismo que faz dele um dos maiores prosadores pós-Segunda Guerra.

No entanto, é preciso admitir que alguma bruxaria genial em ação, em meados dos anos 1970, para que ele encontrasse a fórmula mágica que dá tanta vida a Ragtime: a interpenetração da densidade e mistério de vidas anônimas a um mundo de manchetes e noticiários sobre celebridades (Houdini, o mágico[6], Freud e Jung, a anarquista Emma Goldman, a própria Evelyn Nesbit, primeira “deusa do sexo” da indústria cultural, cujo rastro foi seguido por Rita Hayworth, Marilyn Monroe, entre tantas outras), o panorâmico e o minimalista encontrando-se em estado de idílio ficcional, tanto quanto as crianças do trecho de abertura (e, nesse sentido, nada precário: quarenta anos depois, ainda é um feito. E inimitável.

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NOTAS

[1] Em todas as citações de Ragtime utilizo a tradução de Áurea Weissenberg, editada pela Record, pela Abril Cultural, pelo Círculo do Livro e, mais recentemente, pela Bestbolso.

[2] Na soporífera versão cinematográfica de Milos Forman (a qual, pelo menos, utiliza a esplêndida música evocada pelo livro), muito frustrante, Mamãe e Papai roubam a cena, a meu ver, em maravilhosas interpretações de Mary Steenburgen e James Olson, embora os maiores elogios tenham sido para Mandy  Patinkin (Tateh).

[3] O que sempre me fez pensar no romance de Doctorow como o equivalente americano de A montanha mágica, de Thomas Mann.

[4] Mas sua estreia, Welcome to Hard Times(1960), traduzido—também por Áurea Weissenberg—como Tempos Difíceis, é digna de nota. Aliás, ganhou uma competente versão cinematográfica, estrelada pelo grande Henry Fonda e dirigida por Burt Kennedy, em 1967 (no Brasil, O homem com a morte nos olhos). Diga-se de passagem, Sidney Lumet realizou uma brilhante versão do Livro de Daniel em 1983, com atuações fantásticas, especialmente a de Lindsay Crouse.

[5] E tão mal filmado (em 1991, por Robert Benton, que desperdiçou um maravilhoso roteiro) quanto Ragtime.

Sou obrigado a confessar que, embora goste do romance, achei exagerados os arrulhos em torno dele. Mesmo assim, sempre há o que gostar nos textos de Doctorow, até em suas realizações menos felizes, caso de Loon Lake- O lago da solidão (1980) e City of God- Deus: um fracasso amoroso (2000) —a respeito deste último, VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2013/03/25/a-cidade-de-deus-de-doctorow-um-fracasso-amoroso-de-leitura/

[6] O qual se angustia pela apropriação midiática do conceito de espetáculo (a vida como reality show) e consequente apagamento do triunfo artístico:

«Havia um espetáculo que utilizava o mundo real como palco e a este ele não conseguia alcançar. Apesar de todas as suas realizações, era um vigarista, um ilusionista, um simples mágico. Que sentido teria a sua vida se as pessoas ao saírem do teatro o esquecessem? As manchetes dos jornais diziam que Peary chegara ao Polo. Eram os feitos da vida real que ingressavam nos livros de História… »

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03/06/2014

A porta de entrada para o mundo do comissário Maigret: “Pietr, o letão” (ou “O assassino sem rosto”)

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“A situação era por demais teatral para o gosto dele. Teatral? Pesada, como o perfume que enchia a sala desde a entrada de Else. Acima de tudo, estranha à vida de comum. Ou, talvez, apenas excessivamente estrangeira…” (trecho de A noite da encruzilhada)

   (uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 03 de junho de 2014)

Há autores em cuja obra um determinado título é glorificado a custa dos demais. E há autores em que se verifica o fenômeno oposto: a leitura massiva parece obliterar os méritos próprios de cada realização.

É o que acontece, por exemplo, com Georges Simenon (1903-1989). São frequentes as demonstrações de admiração incontida pela prolífica série com as aventuras do comissário Maigret. Porém, poucas vezes elas são acompanhadas pela citação de títulos específicos ou pela memória da sequência cronológica em que foram publicados, desde o seu aparecimento no início dos anos 1930.

Uma grande chance para retificar essa quase indiferenciação é o lançamento (inaugurando a reedição da série), em tradução realizada por André Telles, dePietr, o letão, tido não só como a estreia do corpulento e de “lendária placidez” (“O comissário, cuja calma era proverbial na Chefatura…”), membro da Policia Judiciária francesa, como também o primeiro romance assinado pelo grande escritor belga, até então useiro e vezeiro de pseudônimos. Patrick Marnhan, na biografia O homem que não era Maigret (1992), mostrou que nada disso é necessariamente verdadeiro: Simenon gostava de embaralhar os fatos da sua existência, deixando pistas falsas em seus depoimentos autobiográficos[1].

O que não arranha em nada a importância do livro (mais conhecido no Brasil como O assassino sem rosto[2]). Mesmo que precedido por experiências anteriores com o personagem, Pietr, o letão é fundamental e inovador, uma das obras-primas de todo o ciclo.

O personagem que lhe dá o título é um chantagista e falsificador de alto nível, acompanhado de perto pelas autoridades internacionais. A Suretê francesa recebe o aviso de que ele está num trem rumo a Paris. Só que, no seu destino, ele é encontrado assassinado. Entretanto, Maigret, que fora à estação para vigiá-lo, pouco antes de se deparar com o cadáver havia visto Pietr desembarcando e sendo encaminhado para um cinco estrelas, o hotel Majestic. Então, quem seria o morto? Aquele sobre o qual recebera o aviso da Interpol ou um sósia?

No Majestic, aquele-que-pode-ser-ou-não Pietr priva da amizade de um casal norte-americano podre de rico, como se diz, e ele e o marido vão ter o estranho hábito de desaparecer por algum tempo. Na investigação dos seus movimentos, um auxiliar de Maigret, Torrence, é assassinado também e Maigret —que guiado por descobertas científicas pré-CSI, nem por isso menos eficientes, viaja até a Normandia, descobrindo uma outra vida do letão, se é que ele é mesmo— sofre um atentado, ficando gravemente ferido.

Talvez seja difícil para o leitor de hoje (bombardeado com tantas séries policiais) avaliar a originalidade do enredo e da narrativa. Mas mesmo com a distância temporal e a saturação com tramas do tipo, ainda assim é possível perceber a sua densidade e seus meandros surpreendentes: trata-se do (cada vez mais) raro caso de um relato de mistério no qual é muito difícil prever o que virá a seguir.

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E além do mais há Maigret! Nas primeiras páginas, ele é caracterizado da forma como se cristalizaria sua reputação: “O olhar que se abateu sobre ela era puro Maigret! Que calma! Como se não escutasse nada além do zumbido de uma mosca! Como se tivesse à sua frente um simples e banal objeto”.

Só que, por efeito do choque da morte de Torrence (além de levar um tiro), em boa parte do entrecho ele se mostrará exatamente o oposto, mais frenético e ansioso: “Deixara de ser o monobloco granítico, formidável, que gostava de afrontar os adversários com sua presença”. E essa reviravolta íntima terá forte efeito sobre a forma: Pietr, o letão, é um romance progressivamente febril porque parece que, a certa altura, Maigret não conseguirá nunca mais parar e descansar, mesmo que fisicamente exausto, mesmo que quase desfalecendo, até chegar ao fim dos fatos e a uma resolução do crime. Poucas vezes, “ir até o fim” teve um sentido tão físico e palpável na ficção, o que é bem diferente da mera ação contínua e ininterrupta (que sempre resulta um tanto cansativa) de um romance “noir” mais superficial, pois adere completamente ao personagem (nem por isso, o mundo exterior, a burocracia policial e as diferenças de classe—como vemos no Majestic—deixam de ser realçadas, veja-se a reação de uma hóspede a um derruído Maigret: “Deixou-se cair na cadeira de vime onde sentara pela manhã. Um casal, formado por uma senhora já madura e um homem mais jovem com ares de dândi, se levantou na mesma hora e, enquanto manipulava nervosamente o lornhão, a mulher comentou, de maneira a ser ouvida: Esses hotéis estão ficando impossíveis…Olhe só para isso…”).

Simenon conseguiu já de saída uma alquimia que parecia impossível: juntar uma das matrizes do romance policial, desde Poe e Conan Doyle, o jogo gato-rato entre um investigador e um criminoso (vistos como adversários e pares intelectuais), aquela via cerebral  que fundamenta muito do fascínio detetivesco , a uma via expressionista, com um vertiginoso aprofundamento dos vilões, de uma forma que eles vão se tornando figuras quase dostoievskianas (e bem menos vilões do que a princípio), que relativizam a “autoridade” dos seus perseguidores, no sentido moral e metafísico, ainda que não no plano jurídico. O que já está inscrito no desdobramento incessante da figura de Pietr, como sintetizado num trecho digno de A morte e a bússola (Borges):

“Maigret pedira um vermute. Naquele bar minúsculo, ele parecia maior e mais corpulento do que em outros lugares. Não desgrudava os olhos do letão.

    De certa forma, vivia duas cenas ao mesmo tempo. Tal como antes, as imagens se superpunham. A sórdida birosca de Fécamp esgueirava-se por trás do cenário atual. Pietr se duplicava. Maigret o via ao mesmo tempo no terno pêssego e na gabardine surrada (…) Ambos confrontavam um espelho, e era em sua água embaciada que se estudavam…”

Não por acaso, os “malfeitores” são oriundos do Leste Europeu[3] (e suas fronteiras móveis ou ambíguas), fazendo o diabo na pátria cartesiana. E muito menos por acaso ainda um juiz deixará escapar um desabafo bem significativa: “Que diabos esses estrangeiros vêm fazer na nossa casa?”.

Se pegarmos outros romances dessa primeira leva de aventuras maigretianas (como A noite da encruzilhada) veremos que estrangeiros instáveis sempre estão na raiz da trama. E, por outro lado, há o mergulho na França “profunda”, como acontece em Pietr, o letão na investigação pela Normandia (onde ocorrerá inclusive o clímax) e, logo a seguir, em O cavalariço da Providence (ou A barcaça da morte), com sua alucinante ambientação numa terra remota de canais navegáveis, onde indivíduos regulam suas vidas ao ritmo das aberturas e fechamentos de eclusas em meio a uma paisagem rústica e provinciana. E nos dois vetores do universo de Simenon o “fio vermelho do crime entremeando-se na meada cinzenta da existência”[4].

Em tempo: apesar da competência habitual de André Telles, houve alguns cochilos na revisão, entre eles: na pág. 36, lemos “A sra. Swaan não mora em Fécamp” (na verdade, é o sr. Swaan[5]); na pág. 55, lemos: “Saberia que era inatacável?”, mas julgo ser melhor, e mais compreensível no contexto,  a solução encontrada em O assassino sem rosto: “Por acaso se julgaria inatacável?”; na pág. 109, lê-se: “O comissário sentia ser o momento para palavras ociosas”; não, não, não, é o contrário, como bem entendeu Áurea Weissenberg, que assim traduziu: “O comissário sabia que não era hora de falar sem refletir” (e lembrando de como se dava a alquimia da relação entre Maigret e seu auxiliar Torrence: “Haviam participado de inúmeras  missões, sem pronunciar uma única palavra em vão”).

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TRECHO SELECIONADO

Em todo malfeitor, em todo bandido, há não só um homem, como acima de tudo, um jogador, um adversário, e é para este que a polícia volta preferencialmente os olhos, é a ele que, em geral, ela ataca.

    Um crime é cometido, um delito qualquer? A luta é travada em bases mais ou menos objetivas. Problema com uma ou várias incógnitas, que a razão busca elucidar.

   Maigret fazia como os outros. Como os outros, recorria às extraordinárias ferramentas de que Bertillon, Reiss e Locard dotaram a polícia e as quais constituem uma verdadeira ciência.

    No entanto, o que procurava, esperava, espreitava acima de tudo era a “brecha”. Em outras palavras, o momento em que, por trás do jogador, surge o homem.

   No Majestic, era o jogador que ele tinha a sua frente.

   Ali, pressentia outra coisa. A vila pacata e confortável não fazia parte dos acessórios da luta travada por Pietr, o letão. Aquela mulher e, principalmente, aquelas crianças que ele vira ou ouvira pertenciam a outra ordem material e moral.

   Era por isso que aguardava, mal humorado, vale dizer, pois apreciava demais sua grande estufa de ferro e seu gabinete com cervejas espumantes sobre a mesa para não se sentir infeliz sob aquele aguaceiro hostil…

(na tradução de André Telles)

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Em todo malfeitor, em todo bandido, existe um homem. Mas existe também, e especialmente, um jogador, um adversário. É este que a polícia se sente tentada a descobrir e é a ele que em geral ataca.

   É cometido um crime ou delito qualquer? A luta trava-se com base em dados mais ou menos objetivos. Problema de uma ou várias incógnitas, que a razão tenta decifrar.

   Maigret agia como os outros. E como os outros utilizava-se dos extraordinários instrumentos que os Bertillon, os Reiss, os Locard haviam colocado nas mãos da polícia e que constituíam uma verdadeira ciência.

   Mas procurava, aguardava, espreitava principalmente a “brecha”, ou o momento em que, por trás do jogador, surgiria o homem.

   No Majestic, estivera diante do jogador.

    Aqui, pressentia outra coisa. A residência tranquila e ordeira não fazia parte dos acessórios da luta travada por Pietr, o Letão. A  mulher e as crianças entrevistas e ouvidas pertenciam a outra ordem material e moral.

   E era por isso que aguardava de mau-humor, aliás, pois apreciava demais a sua grande estufas de ferro fundido, o seu gabinete, com cervejas espumantes sobre a escrivaninha, para não se sentir infeliz sob aquela pegajosa tempestade…

(na tradução de Áurea Weissenberg)

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NOTAS

[1] Marnhan cita extensamente dois depoimentos de Simenon (um de 1966; outro, de 1979) sobre como surgiu a figura de Maigret e as circunstâncias (local, época do ano, etc) da escrita do romance em que teriam começado suas aventuras. Mas, segundo o biógrafo:

“Na verdade, Pietr-le-letton não foi o primeiro Maigret; não foi o primeiro livro publicado sob o nome de Simenon; não foi escrito em Delfzijl; e não foi o primeiro livro em que apareceu o comissário Maigret (…) embora Pietr-le-letton fosse o  primeiro Maigret propriamente dito a ser escrito, provavelmente em Paris no verão de 1930, e o primeiro a ser aceito, um detetive corpulento com um cachimbo aparece pela primeira vez em L´amant sans nom… escrito em 1929 e publicado por Arthème Fayard… No ano seguinte, Fayard publicou Train de nuit (também escrito em 1929), em que aparece um ´comissário Maigret´, pertencente à brigade mobile de Marselha, um homem calmo e que mostra compreensão com os criminosos. Foi este o livro na verdade escrito em Delfzijl, em setembro de 1929, quando o Ostrogoth [barco de Simenon, a bordo do qual ele afirmava ter criado Maigret e Pietr, o letão] estava em doca seca para recalafetagem. Mas não foi escrito nas profundezas do inverno, e nem mesmo no Ostrogoth, e sim numa barcaça vizinha, abandonada, onde Sim [enon] instalara uma grande caixa para a máquina de escrever, uma menor para sentar-se, e duas menores ainda para os pés. Maigret apareceu em seguida em La femme rousse, escrito pouco depois de Train de nuit, quando o Ostrogoth já chegara a Wilhelmshaven; mas neste, Maigret tinha um papel menor em relação ao inspetor seu subordinado, Torrence, que também estivera em Train de nuit; contudo, La femme rousse…foi recusado pela Fayard e só saiu em 1933, pela Tallandier.

   Em seguida veio o primeiro livro de Maigret, onde o comissário era o personagem central, e Torrence seu auxiliar. Maigret era enorme, tinha um cachimbo, um chapéu-coco, um caporão pesado e uma estufa… era casado, morava no Boulevard Richard-Lenoir,  e simpatizava com uma jovem envolvida com o crime. Esse livro, intitulado La Maison de l´inquietude, também foi escrito no frio de um inverno do Norte, mas em Stavoren, na Friesia, não em Delfzijl, e foi de fato mandado para a Fayard, que mais uma vez o recusou. Por isso, Simenon enviou-o para a revista L´oeuvre, que o publicou em série a partir de primeiro de março de 1930, antes de Train de nuit e La femme rousse.

   Todos esses romances foram recusados inicialmente. Todos eram mais experimentais e populares do que verdadeiros ´Maigrets´ , mas em qualidade era melhores que qualquer outro que Sim tinha escrito antes (…) Pietr-le-letton foi o primeiro Maigret no sentido completo, não apenas com o personagem, mas no estilo. Nessas circunstâncias, dificilmente surpreende que Simenon sempre afirmasse ser esse o primeiro Maigret. Na verdade, ao contar como inventou Maigret, ele embelezou a história como sempre fazia, lembrando parte das divertidas circunstâncias da viagem do Ostrogoth , quando escrevia ´pré-Maigrets´, e atribuindo tais incidentes a um livro que só escreveu ao retornar a Paris…” (utilizo, com ligeiras adaptações, a tradução de Marcos Santarrita, publicada pela Companhia das Letras em 1993).

[2] Cuja publicação mais recente fora a co-edição Nova Fronteira/L&PM Pocket, em tradução de Áurea Weissenberg.

[3] Há o vilão norte-americano, mas seu papel não é tão crucial.

Em um país tão antissemita quanto a França, é de se notar a presença de judeus em todas as tramas (e sempre com a enfatização pejorativa de traços étnicos e psicológicos).  Em Pietr, o letão, por exemplo, entre vários outros trechos: “Todos os olhares convergiam para a judia prostrada no corredor, as mãos unidas pelas algemas, a boca rancorosa, dirigindo palavrões e ameaças aos curiosos”; em A barcaça da morte: “Espanhol? O coronel deu de ombros. Maigret olhava firme os traços manifestamente judaicos do rapaz: Grego por parte do pai. Húngaro por parte de mãe…” (tradução de Raul de Sá Barbosa); em A noite da encruzilhada: “O senhor viu o corpo no necrotério, em Étampes? Não? Era um homem de seus 45 anos, com forte aparência de judeu. Um sujeito atarracado, de mandíbulas fortes, testa proeminente, cabelo ondulado…” (idem).

[4] Frase-chave de Um estudo em vermelho, de Conan Doyle.

[5] Em O assassino sem rosto grafada como sra. Swann.

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