MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/05/2014

Leituras em Espelho: “Viagens através do sonho e da imaginação” e “Perto das trevas”

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Em Viagens através do sonho e da imaginação [Färdas i drömmen och föreställningen,1984, na tradução de Ann B. Weismann e Annika Planck] & Perto das trevas (Darkness visible, 1990, na tradução de Aulyde Soares Rodrigues], dois importantes escritores, Artur Lindkvist e William Styron, apresentam testemunhos sobre experiências ao mesmo tempo clínicas e existenciais, que colocam em xeque nossas ligações mais profundas com a vida e a morte.

I

Em 1981, aos 75 anos, o sueco Lundkvist sofreu um infarto que o deixou dois meses em coma. Após se recuperar, ainda sofreu sequelas que o impediam de escrever e de rememorar parte de sua vida (“um alçapão em que caí”, afirma a certa altura). Quando retoma a escrita, refaz o percurso da sua “inconsciência”. Não descreve o “lado de lá”, mas faz algo como uma crônica do limbo, uma espécie de relato de uma viagem que parece tocar as bordas da vida após a morte, a mesma que tantos livros espíritas mal escritos (não obstante a beleza inegável da doutrina) e telenovelas como A viagem acabam por fazer parecer que todos nós participamos de uma vasta breguice cósmica.

Pássaros, trens, barcos, um mundo de metamorfoses e movimento povoa o quarto onde Lundkvist jaz imóvel. Sentimos que ele dá vida (e corpo) a muitas angústias e fantasias pessoais (às vezes, bem narcisistas), contudo o poeta tem esse privilégio de amplificar suas próprias projeções num tom universal. Nada, aqui, de Envolvido pela luz e outras bobagens editoriais. Estamos num território movediço, no plano existencial, mas firme, no que se refere ao literário.

Há belas imagens (que me trouxeram à mente a dicção de um Eugênio Andrade) a do silêncio que “parece ser como o vento que serenou” ou a comparação com Gulliver, viajando entre mundos desproporcionais. Ficamos com a sensação de que a morte é um esvaziamento o qual, paradoxalmente, nos transforma em coisa maleável (fugindo da prisão da “personalidade”, mas volta e meia redescobrindo suas grades onde menos se esperava) de um mundo (nossa “vida interior”?) que transborda e não para de recombinar-se.

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II

Num de seus grandes livros, A escolha de Sofia (1979), Styron escreveu: “Na minha carreira de escritor sempre me senti atraído por temas mórbidos—suicídio, estupro, assassinato, vida militar, casamento, escravidão”.

Ao descrever sua temporada no inferno da depressão suicida, ele afirma: “A depressão, quando me dominou, não era uma estranha, nem mesmo uma visitante inesperada. Há décadas ela batia à minha porta”.

O autor de Deitada na escuridão nos conta, de forma clara e terrível, como teve a súbita percepção de que estava deteriorando-se psiquicamente, ao receber um prêmio em Paris, e os sintomas (baixa autoestima, insônia, pavor); além de nos apresentar alguns “irmãos” depressivos (Camus, Jean Seberg, Romain Gary), ele é incisivo com relação à ineficiência e obtusidade dos métodos psicoterapêuticos, denunciando o perigo latente no uso indiscriminado de certos paliativos ansiolíticos (Halcion, Valium, Ativan), o que é muito oportuno num momento em que se discute intensamente o Prozac e suas contraindicações.

Sem retoques, Styron mostra como foi necessário para ele internar-se, encarando a depressão como doença a ser curada, apesar dos preconceitos e estigmas sociais. Mas o estrago para a sua obra já estava feito: já pouco prolífico, seu veio criativo foi minguando até quase  desaparecer completamente no ralo do pesadelo clínico.

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III

“Herói era o homem que podia ingressar no mundo dos mortos e voltar vivo”. Um compatriota de Styron, Ernest Becker, escreveu sobre a necessidade que temos do heroísmo (em qualquer acepção) como tapume contra o medo da morte.

Os esforços poético-confessionais de Lundkvist & Styron, o “viajante” e o “sobrevivente” que sobressaem em suas páginas, são a comprovação do que Becker afirma no seu fundamental A negação da morte [The denial of death, 1973]: “Tudo de doloroso e sensato que o gênio psicanalítico e o gênio religioso descobriram acerca do homem gira em torno do terror de admitir o que se está fazendo para conquistar a própria estima”. Uma luta que, ao ser contada, abala o leitor, decerto, mas também curiosamente alenta. Todos nós somos viajantes sempre a passos das trevas.

(a resenha acima foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de setembro de 1994)

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/04/18/a-escolha-de-sofia-e-a-farpa-de-gelo-no-coracao-do-escritor/

https://armonte.wordpress.com/2011/06/30/ifigenia-no-deep-south-deitada-na-escuridao-de-william-styron/

https://armonte.wordpress.com/2014/05/24/tempo-ganho-para-william-styron-as-narrativas-de-uma-manha-em-tidewater/

https://armonte.wordpress.com/2011/02/24/os-mortos-que-nao-podem-ser-enterrados-duas-resenhas-homenagens/

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04/04/2014

Destaque do Blog: O AMANTE, de Marguerite Duras

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(escrito especialmente  para o blog em novembro de 2009

nota- Uma versão do texto abaixo foi publicada com o título O inverídico verdadeiro em O amante, no site “Letras in.verso e re.verso” por conta do centenário de nascimento de Marguerite Duras, em 04 de abril de 2014:

 

http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/04/o-inveridico-verdadeiro-em-o-amante.html

 

I

“Nas histórias dos meus livros que se referem à minha infância, não sei mais o que evitei dizer, o que disse, acho que falei sobre o amor que dedicamos à nossa mãe, mas não sei se falei do ódio também e do amor que havia entre todos nós, e do ódio também, terrível, nessa história comum de ruína e de morte que era a história daquela família, a história do amor como a história do ódio e que foge ainda à minha compreensão, é ainda inacessível para mim, escondida nas profundezas da minha carne, cega como um recém-nascido de um dia. É o limiar onde começa o silêncio. O que acontece é justamente o silêncio, esse lento trabalho de toda a minha vida. Ainda estou lá, na frente daquelas crianças possessas, à mesma distância do mistério. Jamais escrevi, acreditando escrever, jamais amei, acreditando amar, jamais fiz coisa alguma que não fosse esperar diante da porta fechada.”

Assim, como o nome da cidade natal da amante, Nevers, desperta o apetite de “saber” do homem em HIROSHIMA, MEU AMOR, também uma palavra me despertou o apetite de ler Marguerite Duras (1914-1996). Na capa da edição brasileira (da Francisco Alves, que no começo dos anos 80, publicava uma série magnífica e inesquecível chamada “A prosa do mundo”) de O vice-cônsul  (uma obra-prima) aparecia o nome da autora e, embaixo dele, seu país de origem: Conchinchina (o Vietnã atual). Que palavra pode ser mais poeticamente evocadora do longínquo, do confim do mundo do que Conchinchina? E volto a repisar uma afirmação que já fiz quanto a J.M.G. Le Clézio: há escritores que não só são bons, mas também tiveram sorte. Nascer na Conchinchina já torna M. Duras algo de único.

E ela explorou bem isso: pode-se dizer que há um núcleo forte de experiências ligadas às condições do seu nascimento, da sua infância e da sua família. Essas são concretas, vividamente recordadas, mesmo que alteradas, deformadas… O resto é abstração, é prolongamento desse despertar para o mundo, o resto é como Nevers e Hiroshima no filme de Resnais: o que há de concreto é a intimidade do casal, e seus percursos passionais e memorialísticos, o resto é contorno, é o sombreado que realça o desenho principal. É o que acontece com o mundo das embaixadas e com a própria Índia em O vice-cônsul, meu primeiro contato (feliz primeiro contato, já que se trata de uma de suas melhores obras) com a obra durasiana, mas ainda longe da Conchinchina, que eu experimentaria apenas com a leitura de O AMANTE. Porém, antes, ainda li um outro texto belíssimo, traduzido então por Jorge Bastos, para uma pequena editora, Taurus, numa publicação bilíngüe: A doença da morte.

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Então eu tive a sorte (ou foi a sincronicidade junguiana em ação) de que, devido ao sucesso do livro na França, lançassem logo O AMANTE por aqui (na tradução de Aulyde Soares Rodrigues, que usei na citação acima), num momento em que a Nova Fronteira vivia grande fase, com vários livros notáveis que encabeçaram a lista dos mais vendidos (sim, houve esse momento): Memórias de Adriano, A insustentável leveza do ser, O nome da rosa, até mesmo Doutor Fausto. E assim vieram ao mesmo tempo os livros mais recentes de Duras, como A dor, Emily L., como também suas obras-primas dos anos 50 e 60 (Moderato Cantabile, Dez e meia numa noite de verão  e o seu livro supremo, Le ravissement de Lol V. Stein,  que deveria ser “O arrebatamento de Lol V. Stein” e virou por aqui O deslumbramento) e seus livros de uma outra fase, diferentes e no entanto fascinantes (O marinheiro de Gibraltar, Os pequenos cavalos da Tarquínia)…

Uma das coisas mais deslumbrantes de O AMANTE é a lição que Duras dá de como tratar o sexo literariamente. Nada de descrições “eróticas”. A cena em que ela, aos 15 anos e meio, acompanha pela primeira vez seu amante chinês à garçonnière dele, em Saigon, e perde a virgindade, é um primor, um dos momentos mais bem escritos da literatura do século XX:

“O ruído da cidade é intenso, na lembrança é o som de um filme alto demais, ensurdecedor. Lembro-me bem, o quarto está escuro, não falamos., ele está cercado pelo rumor contínuo da cidade, está situado na cidade,  numa rua movimentada da cidade. As janelas não têm vidros, só cortinas e persianas.  Nas cortinas  as sombras das pessoas que passam ao sol na calçada.Multidões sempre enormes.  As sombras regularmente estriadas pelas frestas das persianas. Os tamancos de madeira na calçada martelam minha cabeça, as vozes são estridentes, o chinês é uma língua gritada como sempre imagino serem as línguas dos desertos, é uma língua incrivelmente estrangeira.      

Lá fora o dia chega ao fim, percebe-se pelo ruído das vozes e o aumento das sombras que passam, cada vez mais misturados.  É um bairro de prazer que vive seu auge à noite. E a noite começa agora, com o pôr-do-sol.     

A cama está separada da cidade pelas persianas de treliça, pela cortina de algodão. Nenhum material resistente nos separa das outras pessoas.  Quanto a elas, ignoram nossa existência. Percebemos alguma coisa das suas vidas, o conjunto das suas vozes, dos seus movimentos,  como uma sirene que lançasse um grito entrecortado, triste, sem eco.”     

Chegam até o quarto cheiros de caramelo, de amendoim torrado, sopa chinesa, carne assada, ervas,  jasmim, poeira,  incenso, carvão vegetal, o carvão aqui é transportado em cestos, vendido nas ruas, o cheiro do bairro é o das aldeias do interior, da floresta (…)    

(…) O ruído da cidade está muito próximo, tão perto que o ouvimos ressoar na madeira das persianas. É como se as pessoas atravessassem o quarto.  Acaricio o corpo dele em meio a esse ruído, a essa movimentação. O mar, a imensidão que reflui, se afasta, volta. Eu lhe pedira que fizesse mais uma vez e mais outra. Que me fizesse aquilo. E ele o fizera.  Fizera-o em meio à untuosidade do sangue. E foi mesmo como morrer. Foi como morrer disso (…)    

(…)  Ficamos assim abraçados, gemendo por entre o clamor da cidade lá fora. Ainda o ouvíamos. E depois não o ouvíamos mais (…)    

(…) Pelas persianas a noite chegou. O barulho é maior. Mais estridente, menos surdo. Lampiões avermelhados se acendem.           

Saímos da garçonnière (…) 

Na rua a multidão segue em todas as direções, lenta ou rápida, abre passagem, sarnenta como os cães abandonados, cega como os mendigos, uma multidão da China, vejo-a ainda nas imagens de prosperidade de hoje,  no modo como caminham todos juntos sem jamais demonstrar impaciência, aquele modo de estar só no meio da multidão, sem alegria, sem tristeza, sem curiosidade,  andando sem parecer ir a lugar algum , sem intenção de ir, mas apenas avançando,  por aqui e não por ali, isolados e no meio do povo, jamais sozinhos de verdade, sempre sozinhos no meio da multidão…”

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II

“… todas as coisas confundidas numa única por essência inqualificável…” (M. Duras, O AMANTE)

Pensando no sucesso que O AMANTE fez ao ser lançado, em 1984, me pergunto: as pessoas acharam que estavam lendo um “relato baseado numa historia verídica” ?  Seria delicioso saber que sim porque não há nada mais falso do que ler o livro por essa perspectiva. Não que Duras tenha inventado nada (embora também possa haver uma boa dose de invenção, ou pelo menos de ressignificação), é que, apesar do exotismo da situação (moça francesa de quinze anos e meio, pobretona, em 1929 inicia relacionamento de teúda e mantéuda com um chinês doze anos mais velho e rico,no que era então a Conchinchina antes de ser o atual Vietnã), esse aspecto é menos importante do que o desfile de obsessões da autora na sua Macro-Narrativa (isto é, na linha-mestra que percorre várias obras).

O ser-escritora, frisado em diversos pontos do relato, é o que conta, e essa constelação de imagens primordiais (dos parentes próximos paradigmáticos, como a mãe e os irmãos; a travessia iniciática da balsa; a mulher fatal da embaixada; o carrão preto; o amante exótico) são as que povoam, mais do que um universo biográfico, um universo autoral (e por isso é totalmente pertinente, apesar de velha, essa discussão entre romance e depoimento biográfico): “Na balsa, ao lado do ônibus, está uma grande limusine preta, o motorista de libré de algodão branco. Sim, é o grande carro fúnebre dos meus livros. Éo Morris Léon-Bollée. O Lancia preto da embaixada da França em Calcutá ainda não estreou na literatura”.  Isso interessaria a um leitor do ”relato biográfico”? Para ele, uma passagem acidental; para um iniciado nos textos de Duras, a revelação de que o aparentemente simples é uma armadilha. Na edição recente da CosacNaify (com tradução de Denise Bottmann) há um ensaio de Leyla Perrone-Moisés, A imagem absoluta , no qual se faz referência ao trabalho imenso de escrita do texto aparentemente muito ”legível” e “acessível” (em se tratando de Duras, é claro)  de O AMANTE (que, nesse ponto, lembra o sucesso de um outro texto igualmente complexo e desafiante, e no entanto “fácil”: A hora daestrela)“Quero escrever. Já disse a minha mãe: o que eu quero é escrever”… “Respondi que meu maior desejo era escrever, nada mais do que isso, nada. 

E é isso que determina o belo jogo de linguagem, em que uma primeira pessoa (“eu”, a velha escritora, o rosto destruído) relata-se em terceira pessoa (‘ela”, a menina cujas experiências de prazer e dor já estavam inscritas na sina do seu corpo antes de ela vivê-las), de um modo muito mais complexo e caleidoscópico do que simplesmente passar de primeira para terceira pessoa, do que estar na Conchinchina, e depois na França.

“Eu” tenho um filho e desse filho tenho uma fotografia, onde ele aparece com determinada expressão e postura (“Encontrei uma fotografia de meu filho quando ele tinha vinte anos. Está na Califórnia, com suas amigas Erika e Elisabeth Lennard. É tão magro, magro demais, parece também um ugandense branco. Acho seu sorriso arrogante, um pouco zombeteiro. Quis parecer um jovem vagabundo. Agrada-lhe ser assim, pobre, com jeito de pobre, a magreza desajeitada da juventude”). “Ela” está na balsa do rio Mekong, aos 15 anos e meio, e está para atravessar um rito de passagem, é o último momento antes de “entrar” na obra durasiana. Só que a vida não forneceu uma fotografia dessa imagem da moça na balsa (a fotografia do filho é o que há de mais próximo, com as mil associações que podem ser feitas:

Essa fotografia é a que mais se parece com a que não foi tirada da moça da balsa): “Durante essa travessia, a imagem poderia definir-se, destacar-se do conjunto. Ela poderia ter existido, uma fotografia poderia ter sido tirada… Mas não foi… A fotografia só seria tirada se fosse possível prever a importância desse acontecimento em minha vida, aquela travessia do rio… Por isso essa imagem, e nem podia ser de outro modo, não existe. Foi omitida. Foi esquecida. Não foi destacada, não foi registrada. A esse fato de não ter existido ela deve sua virtude, a de representar um absoluto, de ser seu próprio autor”.

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Ora, O AMANTE  se propõe a ser a fotografia em palavras que substitui a imagem que não foi fixada. Mas é uma travessia de rio, lembrem-se, e essas palavras formarão uma imagem fluida, auto-transformadoras, metamorfoseantes: o ódio-amor pela mãe, os irmãos oprimidos e desesperados, mas crianças risonhas, numa ótica que se corrige a todo instante, e que nos instila a cautela com a exatidão desses fatos contados (“Eu me esqueço de tudo, me esqueci de dizer isso, que éramos crianças risonhas, meu irmão mais novo e eu, que ríamos até perder o fôlego, a vida”); o amante que não é amado (no entanto, por que essa dor com o afastamento definitivo?, a viagem de navio, ao mesmo tempo libertadora, para a França):

“Não havia vento e a música espalhou-se por todo o navio escuro, como uma injução do céu, vinda não se sabia de onde, como uma ordem de Deus de teor ignorado. E a jovem levantou-se como se fosse também se matar, jogar-se por sua vez ao mar, e depois ela chorou porque se lembrou daquele homem de Cholen e subitamente não tinha certeza de não tê-lo amado com um amor que não havia percebido porque se perdera na história como a água na areia e que só agora encontrava, no momento em que a música era lançada através do mar.”

Ou só agora, quando o relato está sendo escrito, criando aquela música no mar que ressignifica todo o amor. Pois já não lêramos antes: “Durante a viagem, na travessia desse oceano (portanto, temos duas travessias iniciáticas pelas águas), tarde da noite, alguém morreu. Ela não sabe muito bem se foi essa viagem ou em outra qualquer. Algumas pessoas jogavam cartas no bar da primeira clsse, entre os jogadores estava um jovem e, num dado momento, esse jovem, sem uma palavra, colocou as cartas na mesa, saiu do bar, atravessou correndo o convés e jogou-se ao mar (…) Não, agora escrevendo, ela não vê o navio mas outro lugar, onde ouviu essa história. Foi em Sadec. O filho do administrador de Sadec. Ela o conhecia, ele estudava também no liceu de Saigon. Ela se lembra,muito alto, rosto suave, moreno, óculos com aros de tartaruga. Nada foi encontrado na cabine, nem uma carta. A idade ficou na memória, apavorante, a mesma, dezessete anos. O navio tinha partido afinal ao nascer do sol. Isso era o mais terrível. O nascer do sol, o mar vazio,e a decisão de abandonar a busca…”

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22/10/2013

Destaque do Blog: SHIKASTA, de Doris Lessing

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PREÂMBULO

   Fico sempre bravo quando críticos procuram diminuir o valor literário de Doris Lessing (Harold Bloom, por exemplo). Contraditoriamente, é um dos poucos casos em que admito que a influência sobre mim vai além da admiração por sua ficção, por sua grandeza como ficcionista. Dito isto, não sou afeito a gurus, mestres, mas vejo numa certa parcela de escritores, uma propensão ao “pedagógico”, roçando a Sabedoria (palavra perigosa, mas não fugirei do perigo). E ninguém nesse quesito me afetou tanto quanto Doris Lessing (o único outro caso igual que me vem à mente é o de Tolstói). Seus livros são uma fonte inesgotável para mim de aprendizado e “limpada” na mente asfixiada por informações e doutrinações diversas. Por isso, na proximidade do seu aniversário, em 22 de outubro, resolvi reler completamente—pela quinta vez (fora as leituras parciais)—um dos seus romances mais poderosos, até como homenagem ao impacto da primeira leitura, feita há 30 anos, durante o carnaval de 1983. Uma amiga com quem costumava dividir leituras e experiências na época, Miriam Bezerra, definiu bem: depois de ler o romance, disse que não dava para acreditar que alguém tivesse “pensado” um livro assim, quanto mais escrito.

   Já tinha lido outros (Roteiro para um passeio ao Inferno, O verão antes da queda, Memórias de um Sobrevivente, A tentação de Jack Orkney), mas ESSA leitura foi um rito de passagem. Por isso, sempre digo que, se devo apontar “mestres” na vida, eles são Albert Camus e Doris Lessing. Depois da leitura de seus livros, nada mais foi o mesmo.

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 22 de outubro de 2013, dia do aniversário de Doris Lessing: 94 anos!)

Os Sherban são uma família diferente. Britânicos, apresentam uma mistura étnica peculiar e viajam pelo mundo todo, pois os pais (Simon e Olga) estão sempre trabalhando com populações nativas paupérrimas, em países como Marrocos e Tunísia, enquanto os três filhos (George e Benjamin, gêmeos, e Rachel) têm uma educação heterodoxa, aclimatando-se às culturas mais discrepantes. George é o provável responsável por esse destino familiar tão insólito: desde pequeno, “apareciam” na sua vida pessoas que instruíam, “delicadamente” Simon e Olga a respeito dele.  Ao chegar ao fim da adolescência, ele é um líder nato, pronto a orientar aqueles que sobreviverão à catástrofe global que destruirá a civilização como a conhecemos. E que para o Império extraterrestre—e altamente espiritualizado—de Canopus, representa a barbárie, a degradação do Plano instituído originalmente para o “planeta ferido”, Shikasta, outrora batizado de Rohanda no início da “colonização” canopiana[1].

A metamorfose de Rohanda em Shikasta se deve às mudanças drásticas e imprevistas do alinhamento cósmico e à intervenção predatória de um Império marcado pela pirataria, Shammat, inimigo de Canopus.

Em 1988, Doris Lessing, em  entrevista à Paris Review[2], revelava sua alegre surpresa com a ótima vendagem no Brasil (país que acabara de visitar) dos cinco volumes da série Canopus em Argos: Arquivos, iniciada em 1979, com Shikasta[3], cujo núcleo dramático procurei resumir acima. Ali também afirmava não ter dito ainda a última palavra sobre esse projeto, interrompido em 1983[4].

Até agora, 30 anos depois da frase que deixa em aberto Os agentes sentimentais não tivemos a prometida continuação. Nesse meio-tempo, ela publicou muitos outros títulos em diversas áreas e ganhou o Nobel em 2007. Uma coisa é certa: a série é a maior obra de ficção das últimas décadas e Shikasta uma obra-prima[5].

No início de Os Agentes Sentimentais lemos: “Pedi licença do serviço em Shikasta; encontro-me num planeta cujo traço dominante é o mesmo de Shikasta. Muito bem! Fico por aqui neste período de serviço. Mas por meio desta aviso, FORMALMENTE, que estou entrando com um requerimento para ser enviado, quando eu tiver concluído minha missão aqui, a um planeta—por mais atrasado que seja, por mais desafiador que seja—cuja população não seja permanentemente afligida por demência autodestrutiva[6]. Ao longo de Shikasta, Johor (destinatário dessa declaração), um dos enviados canopianos (assim como Klorathy, o remetente daquelas palavras), têm de enfrentar —por milênios— as emanações maléficas, os miasmas e as forças retrógradas do planeta cujo destino lhe causa imenso pesar[7] (“Exaurido pelo pesar, a mais inútil de todas as emoções”):

“Somos, todos nós, criaturas das estrelas e das suas forças, ela nos fazem, nós as fazemos, somos parte de uma coreografia da qual, de modo nenhum, nunca, podemos pensar em nos separar. Mas, quando os deuses explodem, ou erram, ou se dissolvem em etéreas nuvens de gás, ou se encolhem, se expandem, ou seja lá o que for que seu destino determine, então, os itens minúsculos da sua substância podem, em sua pequenez, expressar não protesto, o que naturalmente não é próprio da sua posição, mas o reconhecimento da existência da ironia; sim, podem se permitir—sempre com respeito—o mais leve sorriso doloroso da ironia.”

   Em outra passagem:

“ (…) tive um sonho, ou uma visão, e agora sabia o segredo da coluna de Shammat. Vi a antiga Rohanda, bela e cintilante, emitindo suas harmonias (…) Entre Rohanda e Canopus distinguia-se o cordão prateado do nosso amor. Mas uma sombra caiu sobre ele, a sombra de um rosto hediondo, pálido e desfigurado, com olhos fixos de um verde acinzentado. Mãos que pareciam bocas estendiam-se para agarrar e ao seu toque o planeta estremeceu e o som mudou. As mãos arrancavam pedaços do planeta e os levavam à boca, que os mastigava e sorvia sem nunca ficar satisfeita. Então essa figura devoradora transformou-se no jato semivisível do transmissor, que retiro todo o bem e toda a força do planeta e depois dissolveu-se. No meu sonho, inclinei-me ansioso para saber o que tudo isso significava… vi que os habitantes de Shikasta tinham mudado, transformados em seres da mesma natureza da coluna voraz: Shammat tinha-se fixado na própria natureza da raça shikastiana e, agora, o povo era o transmissor que alimentava Shammat.”

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Nós acompanhamos essa triste trajetória da humanidade a partir da sua última missão (quando ele “encarnará” como George Sherban). De forma genial, Doris Lessing mostra tanto esses dolorosos preparativos para uma intervenção no Apocalipse quanto os eventos pregressos (“Shikasta estava sempre presente, está constantemente na nossa agenda”), por meio de uma alternância de relatórios do próprio Johor, de outros enviados, de informes administrativos, de verbetes enciclopédicos, de “especialistas” na raça shikastiana (como Marcel Proust), de pequenas anedotas sobre indivíduos e gatos (algumas delas, momentos extraordinários da ficção ocidental[8]), aproveitando grandes mitos religiosos (o Dilúvio, as Tábuas da Lei), até as formulações espíritas (a reencarnação, as zonas “espirituais” que circundam o nosso “plano” de realidade). Como Tolstoi, a grande escritora inglesa é o que de mais alto a literatura e o dom de fabulação podem oferecer mas, paradoxalmente, ultrapassando a literatura como um fim em si mesmo, ao não recuar nas fronteiras da autoridade moral, da reflexão , do tom profético e da pregação impregnada de urgência[9]. Saramago propôs mais tarde, e é o que ela exige dos seus leitores, uma “insurreição ética” radical, abalando-nos profundamente nas nossas certezas, nas nossas grades de referências e até na nossa percepção da realidade.

Em nenhum outro livro, nem mesmo no ciclo Os Filhos da Violência (1952-1969) e em Roteiro para Um Passeio ao Inferno (1971), nos quais já diagnosticava em profundidade os males da nossa doutrinação mental, ela fora tão longe. Não dá para ler Shikasta impunemente, apenas pelo fascínio e beleza da sua fábula (apesar de apaixonante, em especial depois da “encarnação” de Johor como Sherban) e da polifonia narrativa (temos na 2ª. metade, diários, correspondências e informes dos “humanos” para complementar a visão canopiana dos eventos)[10].

Doris Lessing exige[11] que nos defrontemos com questões e posturas morais, ideológicas, religiosas, com rumos civilizatórios. Seus impérios galácticos são a alegoria perfeita das superestruturas que nos enredam e emparedam nossos horizontes: “Não podemos passar anos e anos mergulhados em uma propaganda falsa e mentirosa sem que as nossas faculdade mentais sejam prejudicadas”. Os 30 anos que transcorreram só confirmaram mais e mais o que está em jogo em Canopus em Argos: Arquivos[12] (veja-se esta passagem—lembrando que o romance é de 1979: “Nessa época começou a haver manifestações contínuas. O povo estava sempre nas ruas, gritando as exigências do momento”). São os livros da Sabedoria da modernidade líquida. E um chamado para o qual sempre serei fiel e pontual, como leitor e indivíduo.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/11/18/a-filha-da-primeira-guerra-alfred-e-emily-de-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/multipla-doris-lessing/

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TRECHOS SELECIONADOS

I

Escolhi um dos segmentos sobre “indivíduos” de Shikasta; aqui, um casal não-nomeado e quase assumem estatura arquetípica, o Homem e a Mulher comuns de todos os tempos:

“Por toda parte ideias, mentalidades, crenças, que foram os alicerces dos povos durante séculos, esgarçam-se, dissolvem-se, desaparecem.

    O que resta?

    É verdade que a capacidade dos shikastianos para fechar as brechas abertas nos muros das suas certezas é imensa (…)

    Ele pensa, quando a solidão o perturba, ali de pé, girando entre as estrelas, uma espécie entre miríades—como só recentemente veio a saber—que esses pensamentos são grandiosos demais para ele, precisa abraçar sua mulher, sentir os braços dela ao redor do seu corpo, mas, quando seus olhos se encontram, veem tensão e medo, pois esse abraço pode gerar monstros.

    Ela faz o que tem feito durante milênios, parte o pão, coloca vegetais cortados em um prato, ao lado de uma garrafa de vinho, e pensa que nada nessa refeição é seguro, que os venenos da civilização estão em cada garfada, e que estão se preparando para levar à boca todo tipo de morte. Com um gesto instintivo de salvaguarda, de renovação, estende uma fatia de pão para o filho, mas o geste perdeu a força da fé porque sabe o que pode estar dando a ele.

     Quando ele está trabalhando—nas épocas em que consegue trabalho, pois pode ser um dos que apenas se mantêm vivos, sem utilidade, sem se expandirem, se desenvolverem através do trabalho—ele, quando está trabalhando, muitas e muitas vezes, porque a necessidade é tão antiga quanto o tempo, renova-se com o pensamento de que o que faz é em benefício de outros, que seu trabalho o une aos outros, faz parte de uma teia criativa e pulsa ao ritmo de todos os trabalhadores da terra, mas o pensamento é interrompido, não pode viver nele, pois há amargura e cólera, e depois cansaço e descrença; ele não sabe por que, ela não sabe por que, mas é como se estivessem vertendo no vazio o que há de melhor em seus íntimos.

    Ele e ela, pondo em ordem o lugar onde vivem, limpando e arrumando seu lar, param juntos entre pilhas de vidros, materiais sintéticos, papel, latas, recipientes—o lixo da sua civilização que, eles sabem,é o cultivo da terra e é alimento, o trabalho de homens e mulheres, lixo, lixo, para ser levado e despejado em grandes montanhas que cobrem a terra, que sujam a água (…) Nada do que podem tocar ou ver ou segurar os ampara, em nenhum lugar podem se refugiar no simples bom senso da natureza (…)

      Em toda a sua história, o homem sempre foi capaz de se refazer com a visão das folhas que no outono retornam à terra, ou com a imagem de um muro iluminado de sol, que se desfaz, ou a lembrança de ossos brancos na beira de um riacho.

    E os dois ficam juntos, vendo a cidade do alto, olhando para o lugar em que as máquinas que os destroem, giram e amassam, no ar, na terra, sob a terra… ficam juntos, respirando, mas o ritmo de sua respiração fica mais curto, altera-se, quando pensam que o ar está cheio de corrosão e destruição.

     Eles abrem torneiras e a água corre facilmente, vinda do interior das paredes, mas quando se inclinam para beber ou para se lavar, seus instintos os impedem e têm de lutar contra eles. A água tem gosto de água parada, de corrupção, e por dez vezes já passou pelos seus estômagos e pelos seus rins e sabem que chegará o tempo em que não mais poderão tomá-la  e quando tentarem colher a água da chuva, descobrirão que também está inutilizada, por causa das substâncias químicas espalhadas no ar.

    Olham o voo dos pássaros, os dois juntos na janela, e é como se estivessem despedindo pesarosamente, com um pedido de desculpas silencioso, doloroso, desculpando-se pela espécie a que pertencem: tudo o que levaram àquelas criaturas foi destruição e veneno, e o voo suave e gracioso da ave não lhes traz alegria; é apenas outra coisa da qual devem desviar os olhos, com sofrimento.

     Essa mulher, esse homem inquietos, irritados, magoados, que dormem demais para esquecer, ou que não conseguem dormir, lembrando, procuram por toda parte algo que lhes sirva de amparo, algo que não se desfaça em repulsa no vazio—um deles apanha uma folha no chão, leva-a para casa, fita-a demoradamente (…) Já está sendo devolvida ao solo, mesmo enquanto permanece ali cativa, com sua forma tão perfeita quanto a vela de um barco enfunada pelo vento ou a concha de um molusco. Mas o que está sendo observado não é essa exatidão de linhas perfeitas, pois com um ligeiro desvio dos olhos pode-se ver a forma da matéria adelgaçando-se, esgarçando-se, sob os milhares de forças do crescimento e da morte. E é isso o que os olhos veem através da janela, na árvore de onde a filha caiu, pois é outono e a energia necessária à árvore para sobreviver durante o inverno já se concentra dentro dela—não, não é uma árvore, mas um conjunto de matéria que luta e estremece nos extremos da tensão (…)

    O homem e a mulher, humildemente sentados no canto do quarto, olham fixamente para aquela coisa indescritivelmente perfeita, uma folha dourada no outono, que acaba de cair flutuando da árvore, e então executarão alguns atos que vêm do seu íntimo, e que não podem justificar nem argumentar contra—apenas fecharão a mão sobre a folha, esmagando-a, reduzindo-a a pó, e a jogarão pela janela, olhando a poeira fina chegar ao solo, pois há certo alívio no pensamento de que a chuva, na próxima semana, levará o pó da folha de volta para a terra, para as raízes, para que, no ano seguinte, ela brilhe no ar novamente. Ou talvez a mulher coloque a folha gentilmente num prato azul sobre a mesa, e ironicamente se curve em uma reverência, e com uma espécie de pedido de desculpas, que está sempre na mente dos shikastianos agora, pense que as leis que construíram essa forma perfeita devem ter, têm de ser, no fim, mais fortes do que os lentos venenos que distorcem e pervertem a substância da vida (…)

     Portanto, esta é a condição dos shikastianos agora (…) Nada do que tocam ou veem tem substância, e assim eles repousam em imaginação, no caos, procurando forças nas possibilidades de uma destruição criativa. Estão vazios de tudo, menos do conhecimento de que o universo é um motor ruidoso de criatividade e eles, manifestações temporárias do mesmo.

     Criaturas infinitamente danificadas, reduzidas e degeneradas, afastadas das suas origens, quase perdidas (…) e agora não têm onde se firmar a não ser nos extremos mais ultrajantes da paciência. Uma paciência humilde e irônica, que aprende a olhar uma folha, perfeita por um dia, e a ver nela a explosão das galáxias e o campo de batalha das espécies. Os shikastianos, nesse fim ignóbil e horrível, enquanto lutam, procuram, correm entre seus artefatos desmoronados, esquálidos, erguem as mentes para os píncaros da coragem e da… vou usar a palavra fé. Depois de pensar sobre o assunto. Com cautela. Com um respeito exato e esperançoso.”

 

                                                 II

Escolhi o trecho do diário de Rachel que narra a morte da mãe porque tanto Olga Sherban quanto seu marido Simon são personagens cuja lembrança me deixa emocionado.

“Olga me acordou no meio da noite e disse que eu devia levá-la ao hospital. Telefonei para Suzannah, que veio com o carro do exército. Levamos Olga para o hospital e pedi que Suzannah voltasse e ficasse com as crianças. Levaram Olga para um pequeno quarto de uma das seções onde ela trabalhava (…) Ela disse ao médico-chefe: por favor, não… queria dizer, não me deem narcóticos. Geralmente ele trabalha sob as ordens dela. O médico segurou-lhe a mão, sorriu e assentiu com a cabeça, e fez um sinal aos outros médicos e enfermeiras e todos saíram e me deixaram a sós com Olga. Ela estava muito cansada. Sua pele, cinzenta. Os lábios brancos. Fez um movimento com a mão e eu a segurei nas minhas. Olhava para mim de algum lugar muito distante. Percebi que o máximo que podia fazer era continuar respirando. Disse, com voz subitamente muita alta: Rachel. Esperei, e esperei, e esperei. As luzes brilhantes sobre todo o quarto. Então ela sorriu, um sorriso de verdade, e eu soube que Olga ia morrer naquele momento, e ela disse: bem, Rachel… com carinho na voz. Então parou de respirar. Depois de alguns minutos fechei os olhos dela. Continuavam fitos em mim. Pelo menos parecia. Fiquei ao seu lado até ela estar fria. Não senti pena porque achei que não devia. De qualquer modo, eu não acreditava na morte. E, na verdade, desejava estar com ela. Então, chamei uma enfermeira e perguntei se precisava assinar algum documento, porque eu era o único membro da família que ainda estava na cidade. Deram-me uma xícara de café e um formulário para assinar. Voltei então para casa. Já estava claro. Suzannah estava dormindo no sofá da sala. Isso me fez gostar dela porque havia seis camas vazias que podia ter usado. Não procurou me consolar nem fez nenhuma tolice, apenas mais café e depois acordou as crianças e preparou café para elas. Sentamo-nos na cozinha e eu lhes disse que Olga tinha morrido e que eu ia tomar conta delas. E Suzannah também?, perguntaram. Naturalmente eu disse sim. Parecia a coisa mais certa.

    Compreendi que George vai casar com Suzannah. Como não percebi isso antes? Ela já faz parte da família. Há muito tempo.

    Agora que George e Benjamin viajaram e mamãe e papai estão mortos, o apartamento ficou enorme. Kassim está no quarto de George e Leila no de Benjamin. Isso é muito importante para eles. Antes, sentiam-se como refugiados que tínhamos acolhido. Mas agora são parte da família. Determinei certas tarefas para os dois, como conservar o apartamento limpo, fazer as compras, e Leila e Kassim sabem cozinhar um pouco. Ainda não os mandei para a escola. Não sei onde, nem como. Pensei em procurar Hasan e perguntar-lhe: Talvez essas crianças sejam como George?”

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[1] “(…) vou registrar as minhas lembranças da visita a Shikasta, então Rohanda, no Primeiro Tempo, quando essa raça era a glória e a esperança de Canopus”.

“Mas então já era Shikasta; Shikasta, a magoada, a danificada, a ferida. O nome já tinha sido mudado.”

[2] Publicada aqui pela Companhia das Letras na coletânea traduzida por Christian Schwartz & Sérgio Alcides, cf. As Entrevistas da Paris Review- volume 1  (2011).

[3]  Ou, mais precisamente Ref.: Planeta Colonizado número 5- ShikastaDocumentos pessoais, psicológicos, históricos sobre a visita de Johor (George Sherban), Emissário (Grau 9), 87º.  do período dos Últimos Dias, que comento na tradução de Aulyde Soares Rodrigues para a Nova Fronteira (1982).

[4] Aquele foi o ano em que ela lançou um romance (Diário de uma boa vizinha) com um pseudônimo, Jane Somers, para testar o sistema editorial e os resenhistas da Grã-Bretanha e dos EUA.

[5] Além dos já referidos  Shikasta e Os agentes sentimentais, este último um livro relativamente fraco do ponto-de-vista da fabulação, enfim, uma obra menor,  Canopus em Argos: Arquivos é formada por  três outros volumes que considero lindos, embora com um “alcance” menor do que a abertura da série: Os casamentos entre as zonas 3,4 e 5; As experiências de Sirius  e Planeta 8.

[6] Documentos relativos aos agentes sentimentais no Império Volyen, que cito na tradução de Aulyde Soares Rodrigues para a Nova Fronteira (1988).

[7] Não deixa de ser contraditório (beneficiando a complexidade do projeto, diga-se de passagem) que toda a intervenção “benéfica” de Canopus se processe numa linguagem que remete aos sistemas colonialistas europeus (que depois serão julgados no clímax do romance). Doris Lessing não deixa de ser uma filha do Império Britânico (ainda que de uma forma irônica), como foi ficando cada vez mais evidenciado pela fase tardia da sua obra.

[8] Em especial, as páginas referentes ao Festival da Criança, um ponto alto do romance.

[9] “O continente [a área dos EUA] estava repleto de lixo, de despojos do resto do mundo. Ao redor de cada cidade, vila ou até mesmo pequenos povoados no deserto, erguiam-se montes de refugo de objetos e alimentos que em outras partes do globo, menos favorecidas, significariam a diferença entre a vida e a morte para milhões de pessoas. Os visitantes desse continente ficavam maravilhados—mas com aquilo que o povo era ensinado a considerar como seu de direito.

    Essa cultura dominante determinou o modo de vida e a cultura da maior parte de Shikasta. Pois, independentemente do rótulo ideológico de cada área nacional, todos tinham em comum a ideia de que a tecnologia era a chave de todo o bem, e que o bem era o aumento da riqueza material, do ganho, do conforto, do prazer. Os objetivos reais da vida—há tanto tempo pervertidos, conservados por nós com dificuldade, mantidos a tanto custo—foram esquecidos, eram ridicularizados por aqueles que chegavam a ouvir falar deles, pois algumas insinuações distorcidas da verdade permaneciam ainda em algumas religiões. E durante todo esse tempo a terra estava sendo pilhada e despojada.”

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[10] Eu adoro particularmente o diário escrito por Rachel Sherban, talvez o ponto alto do livro enquanto estrutura romanesca.  Gosto demais também do reaproveitamento da figura de  Lynda Coldridge, remanescente de Os filhos da violência (mais especificamente do último volume da série, A cidade de quatro portas). Devo dizer, no entanto, que acho excessivamente caricaturais as passagens que enfocam os emissários de Shammat e acho muito longo—e cansativo—o  julgamento das raças brancas (poderia ter sido mais enxuto), apesar de serem, num livro de 450 páginas, pequenos senões.

[11] É o único verbo que me ocorre.

[12] Veja-se por exemplo, essas palavras sobre a ascensão do Partido Trabalhista ao poder: “Ele e os seus tinham-se deixado conquistar por tudo aquilo que deviam odiar e que tinham odiado, mas haviam-se esquecido de odiar. Nos primeiros tempos da sua história, tinham olhado de frente seus opressores, que provocavam e blefavam—e enganavam; e tinham-se sentido superiores porque eram honestos e defendiam a verdade. E, agora, eles também blefavam e provocavam e enganavam—como todo mundo, natualmente. Quem não o fazia? Quem não mentia e roubava e enganava e tomava tudo o que podia? Por que então tinham de ser diferentes?”

   E sobre as transigências  (tantas vezes ignóbeis) da “governabilidade”; “era um governo por grupos de pressão, administração por grupos de pressão, pois o governo não podia iniciar nada, apenas respondia”.

E sobre “vazamento” de informações secretas, numa das “anedotas sobre indivíduos”:

“Pouco a pouco tornou-se obcecado pela monstruosidade da natureza desses experimentos, o que teve como resultado uma neurose—o conflito do dever para com ´país´, ´ciência´, ´família´etc, que não pode resolver, fez com que ficasse doente. Durante anos guardou segredo da sua doença, pois não havia ninguém com quem pudesse discutir a situação (…) Providenciei para que conhecesse, em uma conferência internacional, um homem que trabalhava no mesmo campo, em um país ´inimigo´–coloco a palavra entre aspas porque, nessa época, os inimigos podem se tornar aliados da noite para o dia, ou são secretamente aliados… Esses dois homens, ambos carregando com dificuldade o peso do seu conhecimento, foram imediatamente atraídos um para o outro graças às suas preocupações semelhantes. Combinaram um modo de conseguir que as informações que possuem sejam passadas adiante (…) Cada vez mais esse homem se dedicará à disseminação dessas informações secretas, até ser  descoberto e preso.”

E sobre família:

“A vida da família desmoronou-se. Os casais raramente ficam juntos por muito tempo. As crianças, tendo de se defender sozinhas desde pequenas, sem afeição, formam grupos e logo se transformam em criminosos. Os estudiosos preocupam-se com esse problema, e frequentemente anunciam a solução: maior atenção dos pais aos jovens. As autoridades exortam as famílias nesse sentido, mas os resultados são quase nulos.

     Um aspecto digno de nota é que constantemente são mostradas histórias de famílias ideais, nos vários meios de comunicação e de propaganda, mas são exemplos de épocas passadas e dificilmente se relacionam com presente, mas são muito populares.”

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03/02/2012

O talento oportunista de Michael Crichton (primeira parte)

(resenha originalmente publicada em A TRIBUNA de Santos, em 02 de novembro de 1993)

   Após Spielberg suavizar radicalmente o apocalipse genético de O parque dos dinossauros, outro livro, um pouco mais antigo, de Michael Crichton chega ao cinema: SOL NASCENTE (Rising Sun, 1982, em tradução de Aylide Soares Rodrigues para a Rocco), um sushi étnico que, nas telas, foi preparado por Philip Kaufman, que já fez um dos melhores filmes norte-americanos, Os eleitos, e a surpreendentemente bela adaptação de A insustentável leveza do ser.

    SOL NASCENTE é uma consumada combinação de oportunismo e talento. Conta a investigação de um assassinato cometido em Los Angeles, durante uma festa da Cia. Nakamoto, um dos gigantescos conglomerados japoneses que estão tomando de assalto a economia mundial, vencendo os EUA. Dentro da própria casa, como descobre o tenente Smith (o narrador), que tenta solucionar o caso o auxílio do capitão Connors, que não só fala fluentemente japonês como também tem uma relação toda especial com os japoneses e que no filme tem Sean Connery interpretando-o com a cara de… Sean Connery!

    O crime aparentemente prejudicava a imagem da Nakamoto e os homens da empresa usam todos os meios (pressão, suborno, difamação, manipulação de vídeos e eliminação) para arquivar o caso. Aos poucos, Smith & Connors descobrem que o crime, na verdade, foi executado para favorecer a Companhia, envolvida na compra de uma empresa americana de alta tecnologia.

    Crichton  tem a mania de narrar e ser didático ao  mesmo tempo, informando-nos sobre recursos tecnológicos utilizados pelos personagens e outros aspectos técnicos. Isso atrapalhava um tanto, a meu ver, O parque dos dinossauros, porém acaba assentando bem à trama de SOL NASCENTE, talvez porque o autor use o didatismo de forma mais enxuta e equilibrada, talvez porque seja um livro mais reflexivo, com pouca ação. Pois é o efeito das descobertas a respeito do crime sobre os personagens e seu comportamento para com os japoneses que importam na tessitura do romance. Que acaba sendo uma leitura absorvente porque o autor utiliza com mão de mestre um de seus recursos habituais, concentrar a ação em pouquíssimos e contados dias, o que dá um ar urgente, opressivo, à narrativa, e arrasta o leitor (além de conferir um efeito já de antemão cinematográfico, pois ele não é nada bobo).

 

   Seu ponto fraco continua sendo os personagens. Nenhum deles emociona ou interessa particularmente. Mas é uma grande cena aquele em que ele mostra a opressão da mídia e das pesquisas sobre o senador Morton, uma das chaves do mistério, porque era um amante da assassinada e um oponente da Nakamoto.

   O livro põe em xeque questões como soberania nacional, xenofobia, corrupção, decadência cultural e econômica, o futuro do mundo (visto como uma vasto mercado global em guerra), assuntos que nos tocam de perto, mesmo na periferia do império. Como lemos no texto, “todo mundo na América se concentra nas coisas sem importância. Como a situação com o Japão. Se você vender o país para o Japão, eles serão os donos, quer o povo queira ou não. E quem é o dono de uma coisa faz o que quer com ela.”

  Opinião do personagem que narra ou do autor?

10/06/2011

Dois aniversários na obra de Marguerite Duras: os 50 anos de HIROSHIMA, MEU AMOR e os 25 anos de O AMANTE

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10.11.09-

O  título deste “post”  é auto-explicativo: dentro da prolífica, irregular e muitas vezes deslumbrante obra de Marguerite Duras (1914-1996), podemos destacar, neste ano de 2009, duas datas comemorativas:

1) há 50 anos, o cinema era sacudido pela invenção, densidade e  fusão indissolúvel entre texto e imagem que resultou da parceria entre Duras e o genial Alain Resnais: HIROSHIMA, MEU AMOR, que eu eu colocaria sem hesitar entre os dez maiores filmes já feitos (o problema é que pelo menos três outros filmes de Resnais poderiam aspirar a pertencer essa lista, e ora estou mais apaixonado por um, ora mais apaixonado por outro: O ano passado em Marienbad, Providence,  Meu tio da América), absolutamente original na época em que foi lançado, em 1959, e até hoje uma experiência moderna, não “datada”;

2) há 25 anos, ela realizava o sonho dos sonhos: escrever um livro personalíssimo, com o léxico particular que todo escritor tem, mergulhar fundo nas suas obsessões (no seu narcisimo e auto-centramento, também)… e ser um grande sucesso, ter uma obra popular, que esgota edições e mais edições. E isso aos 70 anos, após décadas tachada como “difícil’, “impenetrável”, “hermética”. O AMANTE tem muitas dimensões, mas sobretudo é um livro “carismático”, que destoa de boa parte do que Duras escreveu e publicou (e como ela escreveu e publicou!) porque não necessita de “seguidores”, de fánáticos leitores apaixonados (um culto muito similar ao que ronda aqui no Brasil Clarice Lispector e que pouco tem a ver com o ato literário: são pessoas que querem ídolos, gurus, guias de vida, o que é um direito delas, claro, mas também é nosso direito ver os textos clariceanos e durasianos como “meros textos”, entendendo-se o mero num sentido irônico, já que são grandes escritoras, únicas, assim como são únicos  Guimarães Rosa  e Claude Simon, sem que haja um culto fanático em torno deles).

Hiroshima, meu amor”: O AMOR ENQUANTO EXPERIÊNCIA DA MEMÓRIA

         Hiroshima e Nevers, as referências espaciais do filme, são abstrações. São palcos para encontrar, perder e sobretudo rememorar o amor, pois em Duras os amantes mergulham numa intimidade palpavelmente física, de uma maneira como raras viu se viu em cinema ou literatura (sem um clichê erótico, sem especificações de posições, quem fez o quê, sem terminologia de lugares, o que sempre resvala para  cômico), porém o ‘amor’  passa longe deles, é inagarrável: quando se fala de amor, sempre é outra coisa: os amantes de Moderato Cantabile (1958) falam do amor de outro casal, os amantes que se conhecem e trepam na Hiroshima de 1959 vão falar do amor perdido da protagonista, durante a Segunda Guerra, um alemão (o que acarretou que lhe raspassem os cabelos por ser uma “colaboracionista”, quando na verdade ela é uma ‘durasiana”, uma autista devido ao arrebatamento da paixão, que é bem diferente e mais abissal do que simplesmente estar apaixonada, ela fica é “folle”).

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Após vários minutos em que nós vemos suas peles, tão aproximadas, que se tornam territórios, ou ainda com um tom que parece o de vítimas da radiação nuclear, num máximo de intimidade física a que uma câmera já tinha se permitido com dois personagens, e ao mesmo tempo a protagonista (interpretada por Emmanuelle Rivas)  conta suas idas ao museu de Hiroshima, e nos dá variadas informações sobre a recuperação coletiva da cidade enquanto cidade e ao mesmo tempo a recuperação coletiva, através de um gigantesco esforço, da tragédia, o amante japonês diz: você não viu nada de Hiroshima, quer dizer, você não conhece nada de Hiroshima. E é a pura verdade. Hiroshima é uma abstração, no máximo será o corpo desse homem com quem ela passa algumas horas, e do qual se aproxima  e se afasta, reconstituindo o antigo amor (em Nevers, no interior da França, enquanto outra destruição era levada a cabo), ressurgindo de um sono de quatorze anos (as mulheres de Duras, a não ser que estejam no estado de ‘ravissement”, arrebatamento ou êxtase, costumam ser meio mortas-vivas).

Se ele diz que ela nada viu de Hiroshima, o final do filme fornecerá a confirmação: ela é ‘Nevers”, ele é “Hiroshima”, ambos são os palcos de seus arrebatamento passionais. Quando ela repete e repete a palavra “Nevers” e depois ele quer saber tudo o que a palavra evoca, explica-se: “de todos os milhares de dados sobre a sua vida escolhi essa palavra”, pois na verdade é um fio da meada, um instantâneo. uma imagem (em O AMANTE lemos, na bela tradução de Denise Bottmann: “A história da minha vida não existe. Ela não existe. Nunca há um centro. Nem caminho, nem linha. Há vastos lugares em que é de se crer que houvesse alguém, não é possível que não houvesse ninguém”). Em Nevers encontramos alguém, que pode ser ninguém e que se torna alguém novamente por um curto tempo num curto-circuito passional em Hiroshima, onde é estrangeira, como era estrangeira na própria cidade natal, mas aí não há disfarces, não há família, não há nenhum modo de não encarar a verdade. Só não há juventude, que é simplesmente a senha para se deixar levar…

Devo dizer que, embora o texto de Duras seja belíssimo (não conheço outro igual no cinema), o filme praticamente impecável e a interpretação de Rivas excepcional (um tour-de-force incomparável, como será  de John Gielgud, duas décadas mais tarde, em Providence), há alguns (poucos) momentos em que acho que Resnais deveria ter confiado mais na força da imagem e do silêncio. É o caso da cena em que Nevers fica fugindo de Hiroshima e vão parar num terminal, sentendo-se cada um ao lado de uma velhinha que os observa (e depois puxa papo com Hiroshima, possibilitando que Nevers fuja dele, que a quer reter na cidade, e transformar sua memória da paixão numa nova experiência da paixão, e não há mais juventude, disponibilidade… e será que alguma vida aguentaria?). Pois bem, nessa hora, Resnais podia ter se limitado a filmar os seus maravilhosos atores, e até intercalar imagens do passado em Nevers… mas as elocubrações mentais da protagonista parecem excessivas nessa hora . Isso, aliás, ocorre com mais frequência (embora seja o momento mais grave) nessa altura do filme… Na época também se tornou um certo clichê a mulher apaixonada caminhando pela rua e elocubrando (é o caso de Jeanne Moureau, em Ascensor para o cadafalso, de Louis Malle). Repito: nada tira a beleza do texto ou a força do filme, mas às vezes a imagem é sobrecarregada por ele, em dois ou três momentos próximos ao final, e especialmente nessa cena do terminal.

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11.11.09- “O Amante” e o tudo-nada da experiência v ivida (primeira parte):

“Nas histórias dos meus livros que se referem à minha infância, não sei mais o que evitei dizer, o que disse, acho que falei sobre o amor que dedicamos à nossa mãe, mas não sei se falei do ódio também e do amor que havia entre todos nós, e do ódio também, terrível, nessa história comum de ruína e de morte que era a história daquela família, a história do amor como a história do ódio e que foge ainda à minha compreensão, é ainda inacessível para mim, escondida nas profundezas da minha carne, cega como um recém-nascido de um dia. É o limiar onde começa o silêncio. O que acontece é justamente o silêncio, esse lento trabalho de toda a minha vida. Ainda estou lá, na frente daquelas crianças possessas, à mesma distância do mistério. Jamais escrevi, acreditando escrever, jamais amei, acreditando amar, jamais fiz coisa alguma que não fosse esperar diante da porta fechada.”

Assim, como o nome da cidade natal da amante, Nevers, desperta o apetite de “saber” do homem em HIROSHIMA, MEU AMOR, também uma palavra me despertou o apetite de ler Marguerite Duras. Na capa da edição brasileira (da Francisco Alves, que no começo dos anos 80, publicava uma série magnífica e inesquecível chamada “A prosa do mundo”) de O vice-cônsul  (uma obra-prima) aparecia o nome da autora e, embaixo dele, seu país de origem: Conchinchina (o Vietnã atual). Que palavra pode ser mais poeticamente evocadora do longínquo, do confim do mundo do que Conchinchina? E volto a repisar uma afirmação que já fiz quanto a J.M.G. Le Clézio: há escritores que não só são bons, mas também tiveram sorte. Nascer na Conchinchina já torna M. Duras algo de único. E ela explorou bem isso: pode-se dizer que há um núcleo forte de experiências ligadas às condições do seu nascimento, da sua infância e da sua família. Essas são concretas, vividamente recordadas, mesmo que alteradas, deformadas… O resto é abstração, é prolongamento desse despertar para o mundo, o resto é como Nevers e Hiroshima no filme de Resnais: o que há de concreto é a intimidade do casal, e seus percursos passionais e memorialísticos, o resto é contorno, é o sombreado que realça o desenho principal. É o que acontece com o mundo das embaixadas e com a própria Índia em O vice-cônsul, meu primeiro contato (feliz primeiro contato, já que se trata de uma de suas melhores obras) com a obra durasiana, mas ainda longe da Conchinchina, que eu experimentaria apenas com a leitura de O AMANTE. Porém, antes, ainda li um outro texto belíssimo, traduzido então por Jorge Bastos, para uma pequena editora, Taurus,numa publicação bilíngüe: A doença da morte.

Então eu tive a sorte de que, devido ao sucesso do livro na França, lançassem logo O AMANTE por aqui (na tradução de Aulyde Soares Rodrigues, que usei na citação acima), num momento em que a Nova Fronteira vivia uma grande fase, com vários livros notáveis que encabeçaram a lista dos mais vendidos (sim, houve esse momento): Memórias de Adriano, A insustentável leveza do ser, O nome da rosa., até mesmo Doutor Fausto. E assim vieram ao mesmo tempo os livros mais recentes de Duras, como A dor, Emily L., como também suas obras-primas dos anos 50 e 60 (Moderato Cantabile, Dez e meia numa noite de verão  e o seu livro supremo, Le ravissement de Lol V. Stein,  que deveria ser “O arrebatamento de Lol V. Stein” e virou por aqui O deslumbramento) e seus livros de uma outra fase, diferentes e no entanto fascinantes (O marinheiro de Gibraltar, Os pequenos cavalos da Tarquínia)…

Uma das coisas mais deslumbrantes de O AMANTE é a lição que Duras dá de como tratar o sexo literariamente. Nada de descrições “eróticas”. A cena em que ela, aos 15 anos e meio, acompanha pela primeira vez seu amante chinês à garçonnière dele, em Saigon, e perde a virgindade, é um primor, um dos momentos mais bem escritos da literatura do século XX: “O ruído da cidade é intenso, na lembrança é o som de um filme alto demais, ensurdecedor. Lembro-me bem, o quarto está escuro, não falamos., ele está cercado pelo rumor contínuo da cidade, está situado na cidade,  numa rua movimentada da cidade. As janelas não têm vidros, só cortinas e persianas.  Nas cortinas  as sombras das pessoas que passam ao sol na calçada.Multidões sempre enormes.  As sombras regularmente estriadas pelas frestas das persianas. Os tamancos de madeira na calçada martelam minha cabeça, as vozes são estridentes, o chinês é uma língua gritada como sempre imagino serem as línguas dos desertos, é uma língua incrivelmente estrangeira.

      Lá fora o dia chega ao fim, percebe-se pelo ruído das vozes e o aumento das sombras que passam, cada vez mais misturados.  É um bairro de prazer que vive seu auge à noite. E a noite começa agora, com o pôr-do-sol.

     A cama está separada da cidade pelas persianas de treliça, pela cortina de algodão. Nenhum material resistente nos separa das outras pessoas.  Quanto a elas, ignoram nossa existência. Percebemos alguma coisa das suas vidas, o conjunto das suas vozes, dos seus movimentos,  como uma sirene que lançasse um grito entrecortado, triste, sem eco.”

     Chegam até o quarto cheiros de caramelo, de amendoim torrado, sopa chinesa, carne assada, ervas,  jasmim, poeira,  incenso, carvão vegetal, o carvão aqui é transportado em cestos, vendido nas ruas, o cheiro do bairro é o das aldeias do interior, da floresta (…)

    (…) O ruído da cidade está muito próximo, tão perto que o ouvimos ressoar na madeira das persianas. É como se as pessoas atravessassem o quarto.  Acaricio o corpo dele em meio a esse ruído, a essa movimentação. O mar, a imensidão que reflui, se afasta, volta. Eu lhe pedira que fizesse mais uma vez e mais outra. Que me fizesse aquilo. E ele o fizera.  Fizera-o em meio à untuosidade do sangue. E foi mesmo como morrer. Foi como morrer disso (…)

    (…)  Ficamos assim abraçados, gemendo por entre o clamor da cidade lá fora. Ainda o ouvíamos. E depois não o ouvíamos mais (…)

    (…) Pelas persianas a noite chegou. O barulho é maior. Mais estridente, menos surdo. Lampiões avermelhados se acendem.

           Saímos da garçonnière (…)  Na rua a multidão segue em todas as direções, lenta ou rápida, abre passagem, sarnenta como os cães abandonados, cega como os mendigos, uma multidão da China, vejo-a ainda nas imagens de prosperidade de hoje,  no modo como caminham todos juntos sem jamais demonstrar impaciência, aquele modo de estar só no meio da multidão, sem alegria, sem tristeza, sem curiosidade,  andando sem parecer ir a lugar algum , sem intenção de ir, mas apenas avançando,  por aqui e não por ali, isolados e no meio do povo, jamais sozinhos de verdade, sempre sozinhos no meio da multidão…”

duras

13.11.09- ‘O amante” e o tudo-nada da experiência vivida  (segunda parte):

“… todas as coisas confundidas numa única por essência inqualificável…” (M. Duras, O AMANTE)

Pensando no sucesso que O AMANTE fez ao ser lançado, em 1984, me pergunto: as pessoas acharam que estavam lendo um “relato baseado numa historia verídica” ?  Seria delicioso saber que sim porque não há nada mais falso do que ler o livro por essa perspectiva. Não que Duras tenha inventado nada (embora também possa haver uma boa dose de invenção, ou pelo menos de ressignificação), é que, apesar do exotismo da situação (moça francesa de quinze anos e meio, pobretona, em 1929 inicia relacionamento de teúda e mantéuda com um chinês doze anos mais velho e rico,no que era então a Conchinchina antes de ser o atual Vietnã), esse aspecto é menos importante do que o desfile de obsessões da autora na sua Macro-Narrativa (isto é, na linha-mestra que percorre várias obras). O ser-escritora, frisado em diversos pontos do relato, é o que conta, e essa constelação de imagens primordiais (dos parentes próximos paradigmáticos, como a mãe e os irmãos; a travessia iniciática da balsa; a mulher fatal da embaixada; o carrão preto; o amante exótico) são as que povoam, mais do que um universo biográfico, um universo autoral (e por isso é totalmente pertinente, apesar de velha, essa discussão entre romancedepoimento biográfico): “Na balsa, ao lado do ônibus, está uma grande limusine preta, o motorista de libré de algodão branco. Sim, é o grande carro fúnebre dos meus livros. Éo Morris Léon-Bollée. O Lancia preto da embaixada da França em Calcutá ainda não estreou na literatura”.  Isso interessaria a um leitor do “relato biográfico”? Para ele, uma passagem acidental; para um iniciado nos textos de Duras, a revelação de que o aparentemente simples é uma armadilha. Na edição recente da CosacNaify há um ensaio de Leyla Perrone-Moisés, “A imagem absoluta” , no qual se faz referência ao trabalho imenso de escrita do texto aparentemente muito “legível” e “acessível” (em se tratando de Duras, é claro)  de O AMANTE (que, nesse ponto, lembra o sucesso de um outro texto igualmente complexo e desafiante, e no entanto “fácil”: A hora da estrela); “Quero escrever. Já disse a minha mãe: o que eu quero é escrever”… “Respondi que meu maior desejo era escrever, nada mais do que isso, nada”. E é isso que determina o belo jogo de linguagem, em que uma primeira pessoa (“eu”, a velha escritora, o rosto destruído) relata-se em terceira pessoa (‘ela”, a menina cujas experiências de prazer e dor já estavam inscritas na sina do seu corpo antes de ela vivê-las), de um modo muito mais complexo e caleidoscopico do que simplesmente passar de primeira para terceira pessoa, do que estar na Conchinchina, e depois na França.  “Eu” tenho um filho e desse filho tenho uma fotografia, onde ele aparece com determinada expressão e postura (“Encontrei uma fotografia de meu filho quando ele tinha vinte anos. Está na Califórnia, com suas amigas Erika e Elisabeth Lennard. É tão magro, magro demais, parece também um ugandense branco. Acho seu sorriso arrogante, um pouco zombeteiro. Quis parecer um jovem vagabundo. Agrada-lhe ser assim, pobre, com jeito de pobre, a magreza desajeitada da juventude”). “Ela” está na balsa do rio Mekong, aos 15 anos e meio, e está para atravessar um rito de passagem, é o último momento antes de “entrar” na obra durasiana. Só que a vida não forneceu uma fotografia dessa imagem da moça na balsa (a fotografia do filho é o que há de mais próximo, com as mil associações que podem ser feitas: “Essa fotografia é a que mais se parece com a que não foi tirada da moça da balsa”): “Durante essa travessia, a imagem poderia definir-se, destacar-se do conjunto. Ela poderia ter existido, uma fotografia poderia ter sido tirada… Mas não foi… A fotografia só seria tirada se fosse possível prever a importância desse acontecimento em minha vida, aquela travessia do rio… Por isso essa imagem, e nem podia ser de outro modo, não existe. Foi omitida. Foi esquecida. Não foi destacada, não foi registrada. A esse fato de não ter existido ela deve sua virtude, a de representar um absoluto, de ser seu próprio autor”. Ora, O AMANTE  se propõe a ser a fotografia em palavras que substitui a imagem que não foi fixada. Mas é uma travessia de rio, lembrem-se, e essas palavras formarão uma imagem fluida, auto-transformadoras, metamorfoseantes: o ódio-amor pela mãe, os irmãos oprimidos e desesperados, mas crianças risonhas, numa ótica que se corrige a todo instante, e que nos instila a cautela com a exatidão desses fatos contados (“Eu me esqueço de tudo, me esqueci de dizer isso, que éramos crianças risonhas, meu irmão mais novo e eu, que ríamos até perder o fôlego, a vida”); o amante que não é amado (no entanto, por que essa dor com o afastamento definitivo?, a viagem de navio, ao mesmo tempo libertadora, para a França): “Não havia vento e a música espalhou-se por todo o navio escuro, como uma injução do céu, vinda não se sabia de onde, como uma ordem de Deus de teor ignorado. E a jovem levantou-se como se fosse também se matar, jogar-se por sua vez ao mar, e depois ela chorou porque se lembrou daquele homem de Cholen e subitamente não tinha certeza de não tê-lo amado com um amor que não havia percebido porque se perdera na história como a água na areia e que só agora encontrava, no momento em que a música era lançada através do mar.” Ou só agora, quando o relato está sendo escrito, criando aquela música no mar que ressignifica todo o amor. Pois já não lêramos antes: “Durante a viagem, na travessia desse oceano (portanto, temos duas travessias iniciáticas pelas águas), tarde da noite, alguém morreu. Ela não sabe muito bem se foi essa viagem ou em outra qualquer. Algumas pessoas jogavam cartas no bar da primeira clsse, entre os jogadores estava um jovem e, num dado momento, esse jovem, sem uma palavra, colocou as cartas na mesa, saiu do bar, atravessou correndo o convés e jogou-se ao mar (…) Não, agora escrevendo, ela não vê o navio mas outro lugar, onde ouviu essa história. Foi em Sadec. O filho do administrador de Sadec. Ela o conhecia, ele estudava também no liceu de Saigon. Ela se lembra,muito alto, rosto suave, moreno, óculos com aros de tartaruga. Nada foi encontrado na cabine, nem uma carta. A idade ficou na memória, apavorante, a mesma, dezessete anos. O navio tinha partido afinal ao nascer do sol. Isso era o mais terrível. O nascer do sol, o mar vazio,e a decisão de abandonar a busca…”

o amante (nova fronteira)o amante (cosacnaify)

hiroshima

08/06/2011

Ripley no cinema: solar e lunar, mas qual o de Patricia Highsmith?

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 21 de março de 2000)

  Uma das surpresas boas dos últimos tempos no cinema foi certamente O TALENTOSO RIPLEY. O inteligente e climático filme de Anthony Minghella é, como se sabe, adaptado de uma obra de Patricia Highsmith (The Talented Mr. Ripley, 1956), traduzida por Aulyde Soares Rodrigues com o título O SOL POR TESTEMUNHA por causa da versão cinemagráfica anterior, realizada por René Clement.

    Quando apareceu na metade da década de 50, The Talented Mr. Ripley vinha sacudir a moral do romance de crime: não só tinha como herói um assassino, mas também o fazia matar por desejo de possuir coisas que lhe agradavam, e ainda por cima não era punido no final.

   Alguns críticos (que parecem não ter lido o romance) afirmam que Minghella e seu astro Matt Damon “traíram” o universo de Highsmith, introduzindo sentimentos de culpa e ansiedade na composição de Ripley, que destoam da amoralidade e do dandismo do personagem original.

    Que fique claro: estamos falando do romance de Patricia Highsmith e não do filme O sol por testemunha, que ainda é a referência de muita gente para julgar a versão de Minghella. Há muita culpa e ansiedade em The Talented Mr. Ripley.

    Recapitulemos a história: Tom Ripley é um ambicioso vigaristazinho de Boston que, após um período obscuro em Nova Iorque, tem a sorte de ser enviado à Europa pelo empresário Herbert Greenleaf para convencer seu filho boêmio a voltar para os EUA. Na Itália, Ripley é envolvido pelo estilo de vida de Dickie,o filho de Greenleaf. Encontra seu ideal de existência, seu ideal de “qualidade de vida”, termo tão usado hoje em dia.

    Por sua vez, Dickie (na versão de Minghella vivido pelo maneiroso Jude Law, um ator que pode se tornar muito bom ou péssimo, dependendo de como vai desenvolver sua carreira; na versão de Clement, o papel é do maravilhoso Maurice Ronet)  parece totalmente envolvido por seu novo amigo. Porém, caprichoso e arrogante (embora entrem outros elementos psicossexuais, para utilizar um termo horrível, mais complexos nessa “ligação perigosa”), de repente cansa-se de Ripley e parece querer se livrar dele. Ripley, então, o mata e assume sua identidade. E terá de cometer mais um crime, depois, para conseguir manter a farsa.

   Quando Dickie passa a ser suspeito de assassinato, Ripley reassume a contragosto a sua própria identidade e, no final, fica com os bens do “amigo”. Enquanto isso, a trama nos levou para várias cidades da Itália (Mongibello, Roma, Nápoles, Veneza), para Paris e para a Riviera Francesa. E termina (se é que se pode falar assim, com um final “em aberto”, que abriu brecha para várias continuações) na Grécia.

    Há muitos aspectos apaixonantes em The Talented Mr. Ripley: por exemplo, sua impiedosa descrição dos norte-americanos, ou a maneira como o dinheiro (no sentido corriqueiro mesmo, de despesas) domina a narrativa, de uma maneira quase sufocante. Mas, por ora, é interessante limitar-se à psicologia de Tom Ripley, para o meu leitor ter uma idéia de como é brilhante o desempenho de Matt Damon no filme (assim como Tobey Maguire, de Regras da Vida, ele foi injustiçado nas indicações para melhor ator). Tirando a altura inadequada (Ripley tem 1,90), Damon consegue nos transmitir todos os matizes de Ripley que ficaram ofuscados pelo fato de sempre nos lembrarmos do inesquecível e solar Alain Delon de O sol por testemunha (um ótimo filme, mas em se tratando da densidade da história, eu considero o de Minghella bem melhor).

    Ripley é movido por um enorme complexo de inferioridade: ele não se sente “ninguém” (sua tia Dottie, que o criou, contribuiu para isso) e, portanto, não tem dificuldade em se passar “por alguém” para conseguir as coisas que deseja. É facilmente dominado pelos outros, pois deseja agradar, é tímido, extremamente suscetível e rancoroso.

    É fascinante ver, ao longo da trama, como ele reluta em tornar-se novamente Ripley, após ter passado um período “sendo” Dickie Greenleaf, e depois, aos poucos, começa a adquirir uma maior segurança de personalidade, um gosto próprio, uma verdadeira auto-estima (baseada na “liberdade” que ganhou com o dinheiro de Dickie: é o momento em que decide visitar a Grécia, “como ele mesmo”, e não se sente mais frustrado por isso. Essa é a grande transformação narrada em The Talented Mr. Ripley).

   Por outro lado, a “liberdade” não o livra da ansiedade, muito pelo contrário. E mais ainda, não o liberta do sentimento de vergonha e culpa que sempre aflora quando insinuam sua homossexualidade (também tia Dottie contribuiu para isso). Quem acha que isso foi invenção do filme e de Anthony Minghella, é só ler o livro. Também não é invenção do filme o sentimento de exclusão experimentado pelo personagem, que o torna um pouco irmão dos personagens de Truman Capote: “Estava só e o jogo que jogava era um passatempo solitário” (isso está na página 163 da edição da Nova Fronteira). Sobre as outras características de Ripley é só ir colhendo exemplos ao acaso: “Tom usava chapéu, para esconder os cabelos louros, uma capa de chuva nova, e no rosto a expressão tímida, quase assustada, de Tom Ripley”; “Detestava tornar-se Tom Ripley outra vez, odiava a idéia de ser um joão-ninguém, a idéia de adotar seus hábitos novamente e a sensação de que as pessoas o desprezavam, que ele as aborrecia… odiava ter de voltar a si mesmo, como detestaria vestir roupas velhas, que nunca tinham sido boas, nem mesmo quando novas”.

    Quando vai se apresentar à polícia: “Estava triste. Não sentia medo, mas sentia que se identificar como Thomas Phelps Ripley ia ser uma das coisas mais tristes da sua vida”.

    E, para concluir, se alguém ainda tem dúvidas: “Estava prestes a ir à Grécia, ver as ilhas antigas e heróicas, como o humilde Tom Ripley, tímido e dócil… Era uma situação intolerável. Resolveu, em Veneza, que sua viagem à Grécia seria heróica. Veria as ilhas, surgindo do mar pela primeira vez para ele como um indivíduo esperto, livre e corajoso, e não como um tímido joão-ninguém de Boston”.

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