MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

08/12/2010

AUGUSTO DOS ANJOS: os magníficos versos do coveiro

Todo leitor conhece a dedicatória de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver”, e o final do romance de Machado de Assis: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”.

Uma visão niilista similar norteia a produção poética de Augusto dos Anjos (1884-1914), que a Bertrand possibilita revisitar na esplêndida 43ª edição de EU E OUTRAS POESIAS:

Porque a morte, resfriando-nos o rosto/Consome a minha concepção vesânica/ E a alfândega onde toda a vida orgânica/ Há de pagar um dia o último imposto”.

É quando percorremos o conjunto da obra de Augusto dos Anjos que nos livramos daquela imagem-chavão de um poeta esquisito, useiro e vezeiro de uma linguagem esdrúxula, meio kitsch, tomada do vocabulário científico. A imagem que surge é outra: um poeta extremamente consciente (a perfeição do verso em Augusto dos Anjos e, em especial, a sua aplicação no soneto, são impressionantes) e um volume que está para o Brasil como As flores do mal para a França (em ambos, a mesma influência-matriz: Edgar Allan Poe). E estamos falando de um poeta que morreu aos 30 anos (Baudelaire morreu aos 46).

Outro grande sonetista, Antero de Quental (1842-1891), escreveu O palácio da Ventura:

Sonho que sou um cavaleiro andante/Por deserto, por sóis, por noite escura/Paladino do amor, busco anelante/ O palácio encantado da Ventura//

Mas já desmaio, exausto e vacilante/ Quebrada a espada já, rota a armadura…/E eis que, súbito, o avisto, fulgurante/ Na sua pompa e aérea formosura//

Com grandes golpes bato à porta e brado:/Eu sou o Vagabundo, o Deserdado…/Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!//

Abrem-se as portas d´ouro, com fragor…/Mas dentro encontro só, cheio de dor/ Silêncio e escuridão—e nada mais!”


Pessimista, cético, Antero ainda assim contraditoriamente procura fora de si a plenitude, simbolizada por uma metáfora arquitetônica, embora derrotado pela desilusão final. Igualmente arquitetônica é a maneira utilizada por Augusto dos Anjos, no extraordinário soneto Vandalismo, para mostrar que está em nos mesmos o obstáculo à plenitude que Antero perseguia:

Meu coração tem catedrais imensas/Templos de priscas e longínquas datas/ Onde um nume de amor em serenatas/Canta a alegria virginal das crenças.//

Na ogiva fúlgida e nas colunatas/ Vertem lustrais irradiações intensas/ Cintilações de lâmpadas suspensas/E as ametistas e os florões e as pratas.//

Como os velhos Templários medievais/ Entrei um dia nessas catedrais/ E nesses templos caros e risonhos…//

E erguendo os gládios e brandindo as hastas/ No desespero dos iconoclastas/Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos.”

Com sua desesperada iconoclastia, o genial poeta paraibano destila sua visão da vida cujo parâmetro não é a transcendência e sim a putrefação, o pó que nos é destinado, após o festim dos vermes: “O coração do Poeta é um hospital/ Onde morreram todos os doentes”.

A fisiologia é o ponto de partida para o diagnóstico metafísico:

E o cuspo que essa hereditária tosse/ Golfava, à guisa de ácido resíduo/ Não era o cuspo só de um indivíduo/ Minado pela tísica precoce.//

Não! Não era o meu cuspo,com certeza/ Era a expectoração pútrida e crassa/ Dos brônquios pulmonares de uma raça/ Que violou as leis da natureza”.

Para materializar essa visão, na qual “Há mais filosofia neste escarro/ Do que em toda a moral do Cristianismo”, o “filho do carbono e do amoníaco”, o “coveiro do verso” convoca o repertório das ciências e pseudo-ciências que dominaram as positivistas décadas finais do século XIX e começo do século seguinte. Estaríamos, então, diante de um poeta naturalista, de um Aluísio Azevedo (O cortiço) do verso?

Nada disso. O cientista, para os naturalistas, era uma autoridade absoluta, dava a última palavra sobre a vida, uma palavra otimista que entrevia progresso e desenvolvimento para nossa espécie. Ao utilizar um background científico-filosófico,o autor de EU E OUTRAS POESIAS parece apenas reafirmar o nada da nossa condição, o que lhe tira qualquer resquício de cafonice e mau gosto e o lança no reino da ironia. Além disso, por um efeito alquímico que só os gênios conhecem, os termos caem como uma luva na cadência do verso: “Que eu vejo enfim, com a alma vencida/ Na abjeção embriológica da vida/ O futuro de cinza que me aguarda”.


No mundo schopenhauriano da “negatividade universal”, o homem só pode se horrorizar diante de si mesmo:

Quando eu pego nas carnes de meu rosto/ Pressinto o fim da orgânica batalha/ Olhos que o húmus necrófago estraçalha/Diafragmas, decompondo-se, ao sol posto…//

E o homem—negro e heteróclito composto/ Onde a alva flama psíquica trabalha/Desagrega-se e deixa na mortalha/O tato, a vista, o ouvido, o olfato e o gosto!//

Carne, feixe de mônadas bastardas/Conquanto em flãmeo fogo efêmero ardas/ A dardejar relampejantes brilhos//

Dói-me ver, muito embora a alma te acenda/ Em tua podridão e herança horrenda/ Que eu tenho de deixar para os meus filhos!”

A partir daí, ele se debate num dualismo que rende imagens magníficas em sonetos inigualáveis: “Minha alma é um misto/ De anomalias lúgubres. Existo/ Como o cancro, a exigir que os sãos enfermem…

…minha alma, enfim, dada às bravas/Cóleras dos dualismos implacáveis/E a gula negra das antinomias!//

Psiquê biforme, o Céu e o Inferno absorvo…”

É a visão de William James sobre a morte: podemos fazer o que quisermos para ignorá-la e escondê-la de nós mesmos, mas no final, “a caveira arreganhará os dentes no banquete”. O notável em Augusto dos Anjos é como ele, tal como Euclides da Cunha e Guimarães Rosa, modelou uma linguagem única e irresistível para nos manter cientes disso. Por isso, EU E OUTRAS POESIAS, , livro da singularíssima pessoa, em cuja sorte um urubu pousou, é simplesmente indispensável em qualquer biblioteca que se preze, e 89 anos após sua edição original, é ainda um dos grandes, singularíssimos lançamentos de qualquer ano.

Resenha publicada em 10 de julho de 2001

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