MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

17/11/2010

Centenário de Rachel de Queiroz: AS TRÊS MARIAS- enjôo na travessia da vida

     Neste mês (dia 17) se comemora o centenário de nascimento de Rachel de Queiroz que, na sua longa vida [1], teve como atividade principal a crônica em jornais,  e  foi uma romancista bissexta, ou seja, passava largos períodos sem publicar nada no gênero: após uma década inicial produtiva (O quinze, 1930;  João Miguel, 1932; Caminho de pedras; 1937; As três Marias, 1939), ela escreveu um folhetim para a revista “O Cruzeiro”, O galo de ouro, em 1950 (só publicado em livro em 1985); um quarto de século depois, Dôra Doralina (1975); e em 1992, Memorial de Maria Moura, grande romance de aventuras, no qual a octogenária narradora mostrava uma vitalidade admirável, que até então não fora a tônica da sua obra ficcional. E até então eu nunca fora  leitor entusiasta de Rachel de Queiroz. Sempre considerei suas crônicas bastante discutíveis, especialmente do ponto de vista ideológico, por seu conservadorismo e reacionarismo (mas elas também são fracas de um ponto de vista estritamente literário), e embora O quinze tivesse seu valor, o restante era muito fraco.

    Motivado pela data comemorativa, e porque mesmo depois de Maria Moura não fizera ainda uma revisão a sério dos livros da escritora cearense, reli nos últimos dias O quinze e As três Marias. O primeiro apresenta qualidades inegáveis, inclusive a sabedoria épica que norteia o seu livro da velhice (e, afinal, ela tinha cerca de 20 anos quando o publicou)[2]. Entretanto, ao terminar As três Marias dá para entender o motivo por que Rachel de Queiroz produziu tão espaçadamente romances. Ela simplesmente não tinha paciência nem se interessava em narrar uma história mais longa, isso é gritante, pelo menos nessa fase da sua vida.

     O romance é narrado por uma das Marias, Maria Augusta (as outras duas, Maria da Glória e Maria José mal aparecem[3]), desde o momento em que ingressa num internato dirigido por freiras (onde conhece as outras). Rachel de Queiroz perdeu uma grande chance de apresentar um equivalente feminino de tantas narrativas masculinas de confinamento em colégios e internatos, sendo a mais ilustre (no Brasil) O Ateneu, de Raul Pompéia. Acompanhamos a violenta veia anti-religiosa da autora de Beata Maria do Egito[4], sentimos a insatisfação feminista com o destino oferecido à mulher, e a vida irrisória e asfixiante destinada às moças da Fortaleza do começo do século (ainda que a própria mulher interiorize o moralismo e a estreiteza da sociedade à sua volta) [5].

    Volta e meio nos surpreendemos com um trecho que poderia pertencer à literatura existencialista (Camus, Sartre, Simone de Beauvoir), até com impressionante antecipação (pois eles ficaram famosos depois e começaram a escrever por essa época)[6], ainda que houvesse uma tendência católica que apresentava esse mesmo tema do abafamento existencial e angústias de formação.

    O que falta é empenho da autora, e por isso As três Marias não se tornou o romance marcante que tinha tudo para ser. Ela tem pressa de terminar, as histórias são mais vinhetas do que partes de um romance (e olhe que acontece coisa: ela tem um romance com um pintor casado, viaja e conhece um imigrante judeu, por quem se apaixona, volta para o Ceará, sofre as conseqüências de um aborto que ela mesma provocou), o tom adotado por Maria Augusta é mais de explicação didática (e crescentemente pobre [7]) dos seus problemas do que uma verdadeira narrativa, e a própria Maria Augusta no fundo é uma personagem bastante antipática (a Conceição de O quinze já não era nenhuma maravilha em termos de empatia).Que distância estamos da Joana de Perto do Coração Selvagem (Clarice Lispector) ou da Virginia de Ciranda de Pedra (Lygia Fagundes Telles), protagonistas inesquecíveis. Maria Augusta descortina o que parece ter sido o grande mal de Rachel de Queiroz, pelo menos a julgar pela sua literatura: a parcimônia, a avareza com que ela enfrentou a existência. Nada enriquece suas personagens, nada as aprofunda,  tudo parece sempre descolorido e ressequido. Ela só adquiriu alguma grandeza, 53 anos mais tarde, quando aderiu à ação pura, sem tempo para seus dramas mesquinhos (que a sua prosa torna mesquinhos): “Nunca eu tinha estado a bordo antes. Um navio era, para mim, o palácio feérico, levando através do mar toda uma carga de prazeres inéditos e de deliciosas convivências…Rapazes estrangeiros, vestidos de fazenda clara, contando histórias de terras longínquas, orquestras às refeições, bares, coquetéis, salões de dança… Tudo o que eu nunca vira, que nunca me atrevera a desejar, na minha vida sempre austera e sem prazeres… E naturalmente não encontrei nada disso… Enjoei toda a viagem”. Antes disso, seus romances eram isso: um enjôo durante toda a viagem.


[1] Ela faleceu em 2003.

[2] Tenho certa dificuldade de determinar se o livro está mais para resignado do que para revoltado. Quando falo em “sabedoria épica”, estou dizendo que a narração dos aspectos contingentes e imanentes da existência  é de tal forma poderosa que o autor nos fornece a ilusão da “realidade” quase tal qual. Porém, e isso é intrigante, quase todos os narradores pós-homéricos que apresentam essa qualidade (a sabedoria épica), e entre eles coloco Tolstói e Doris Lessing como os maiores,também apresentam uma contrapartida de visionarismo. Mesmo Vargas Llosa, que decerto não é nenhum visionário, em A guerra do fim do mundo, por estar tratando de visões apocalípticas e escatológicas, não deixa  de ser contamnado por essa característica radicalmente antípoda. Rachel de Queiroz, porém, nunca apresenta mais do que a superfície, não há profundidade ou sombreamento no quadro de O quinze: acompanhamos a atração frustrada entre os primos Vicente e Conceição, e a terrível miséria de retirante da família de Chico Bento, e é isso: tudo muito bem contado, e nada por trás.

     E quanto à resignação, ela parece alimentar até a frase mais revoltada de Chico Bento (no sentido de que a vida é assim mesmo, não há outro jeito): “Deus só nasceu pros ricos!”.

    

[3] No começo, parece que ela traçará destinos paralelos e que as três terão um peso equivalente, mas tal expectativa não se cumpre: “São as inseparáveis! Já notaram, meninas? [aqui quem fala é Irmã Germana] Essas três vivem juntas, conversando, vadiando, afastadas de todas. São as três Marias…

          A classe achou graça, o apelido ficou. Nós mesmas nos orgulhávamos dele, sentíamo-nos isoladas numa trindade celeste, aristocrática, no meio da plebe das outras… Adotamos superiormente a divisa…” Tanto que resolvem fazer uma tatuagem consagrando o apelido: “…sentadas no chão, com as meias descidas, fizemos na coxa,com a ponta da tesourinha, as três estrelas juntas, em fila.”

[4] “…é preciso dizer que já há muito tempo eu me desprendera da religião trazida do colégio… A verdade é que nunca acreditei direito em nada, a crença era, em mim, uma casca exterior, e o meu maior ato  de fé talvez fosse  me exaltar liricamente pelos mistérios da comunhão e do êxtase, assumir a atitude da prece, ´sentir´ a devota em mim, como o ator no palco sente em si o personagem que encarna.

     A falta de prática foi me mostrando a fraqueza de minha fé. Deixei de crer porque deixava de orar, deixava imediatamente de sentir o meu personagem quando não o representava mais em cena… e perderam-se as convicções. Tentei segurá-las, talvez me doesse um pouco sair da trilha em que as outras andavam, perder aquele apoio místico, que é como as muletas naturais de muita gente. Mas não lutei muito, ou não lutei nada, deixei a crença me fugir do coração como um pouco de água livre me escorrendo entre os dedos”.

[5] Foi assim com a Conceição de O quinze, que fica horrorizada com a intimidade do primo (de quem ela gosta) por uma capiau “negra”, é assim com a narradora de As três Marias: “Agora Violeta estava perdida, rapariga. Interroguei  Maria José de todas as maneiras, para conseguir detalhes. Ela, porém, não sabia quase nada, pouco perguntara à ´Vovó´, horrorizada com a frase dela, Perdeu-se…

    Fiquei pensando nos olhos bonitos de Violeta, na sua alma terna e arisca. Agora estava perdida, com a porta aberta, para todos os homens. E eu tentava imaginar o horror daquela vida (…) De repente, lembrei-me de mim. Não estava também em caminho de perdição, namorando com um homem casado?”

[6] “Eu ia fazer 14 anos quando tive, pela primeira vez, vontade de me matar.

      Naturalmente sem motivo. Creio que nesse caso é elemento secundário o que costumamos chamar ´o motivo´: isto é, uma causa concreta, imediata, responsável pelo impulso suicida. Os que precisam desse motivo, matam-se por acidente. Mas quem tem vontade de se matar, mata-se sem carecer de um pretexto trágico, tremendo e instransponível; mata-se em razão mesmo dessa sua obscura aspiração de morte, mata-se porque uma coisa chama, porque sofre uma atração violenta e invencível”. Ou mais adiante: [eu e Maria José] “éramos como duas mulheres de nações diferentes e língua estranha… Acordei mais tarde, assustei-me com um vulto inclinado junto  à cama de Maria José. Era ela, que ainda rezava. Punia-se, naturalmente, pelos gozos terríveis que o seu coração desejava, pelos maus desejos que teimava em alimentar. Como se eles existissem, Maria José. Como se as coisas ruins não fossem apenas ruins, sem poesia nem beleza…. Quem sabe neste mundo, onde estão os culpados? Quem sabe mesmo se há culpados?”

[7] Já quase no final: “Parece que a vida só chega para cada um tratar de si mesmo e vagamente circular os olhos pelas caras mais próximas”.

resenha publicada, sem as notas de rodapé, em “A Tribuna” de Santos, em 09 de novembro de 2010

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