MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

17/09/2013

Os sonhos e as sortes: “As Miniaturas”, de Andréa del Fuego

 

andreadelfuego360x360_8535922989

“A concepção pré-científica dos antigos sobre o sonho certamente se encontrava em plena harmonia com toda sua visão do mundo, que costumava projetar no mundo externo, como realidade, aquilo que era real apenas na visão psíquica. Além disso, ela levava em conta a principal impressão de que a vida de vigília recebe da lembrança que resta do sonho, após o despertar, pois nessa lembrança o sonho se opõe ao conteúdo psíquico restante como algo estranho, que, por assim dizer, provém de um outro mundo. Seria equivocado, aliás, achar que a teoria da origem sobrenatural dos sonhos não tem adeptos em nossos dias…” (trecho de A Interpretação dos Sonhos, Sigmund Freud)[1]

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 17 de setembro de 2013)

Freud, em A Interpretação dos Sonhos, comenta a concepção popular do onírico, fundamentada no “método da decifração”: uma linguagem cifrada na qual cada signo pode ser traduzido por outro, de acordo com uma chave fixa: “Sonhei, por exemplo, com uma carta mas também com um funeral… consulto um Livro de Sonhos e descubro que carta é aborrecimento, e funeral, noivado. Fica a meu critério estabelecer um nexo entre as palavras-chave que decifrei”. Para o senso comum, o sonho geralmente se refere ao futuro. Tais associações é que justificam muitos palpites no Jogo do Bicho, por exemplo. Quantas vezes não vemos uma pessoa fazendo sua fezinha motivada por um sonho?

Essas questões alimentam o ambicioso segundo romance de Andréa del Fuego, As Miniaturas. São três narradores e duas linhas narrativas.

Na primeira, conhecemos o Midoro Filho (referência ao grande codificador da decifração dos sonhos na Antiguidade, Artemidoro de Daldis[2]), em plena Praça de Sé, onde trabalham os Oneiros, funcionários encarregados de oferecer aos sonhantes miniaturas que servem de estímulo para a atividade que caracteriza o nome dos clientes. É maravilhosa a maneira como a lufa-lufa administrativa e corriqueira do edifício (regulamentos, diretivas de gestão) e a sua oferta de “serviços” são caracterizadas pela autora paulista. O protagonista, em grave infração, atende membros da mesma família (mãe e filho), envolvendo-se em demasia com eles. Isso acarretará sua degradação burocrática, ao mesmo tempo em que se dá conta do grau em que o aleatório rege sua prática (“Não há provas, apenas tendências, e tendências qualquer um tem…”[3]). Mesmo numa instância “fantástica”, não se escapa à maldição pós-moderna: a perda de uma Grande Narrativa que dê conta das atividades e destinos humanos. O trabalho do Oneiro com as miniaturas não seria apenas uma técnica arbitrária, uma convenção, mais uma forma de burlar escolhas individuais?

folhinha cinza claroartemidoro

Na segunda linha narrativa, tomam a palavra a Mãe e Gilsinho. Obcecada pelo futuro, mantendo um caso com Nelson, gerente do Posto Jacaré, a taxista quarentona tenta enquadrar o filho em “projetos de vida” meio sufocantes: ele trabalharia como frentista no posto, se acostumaria com o homem dela, e assim “arrumariam a vida”, aliviando a ansiedade com o envelhecimento e a pobreza, um planejamento de vida baseada na noção do “quinhão de sorte”.

Embora resista à mãe, e vá amadurecendo ao longo da narrativa (chega, inclusive, a ter um caso com a mulher de Nelson), Gilsinho se deixa enlear por esses paradoxais vínculos familiares, cada vez mais evidenciados em nossa época, mesmo que se faça tanta propaganda da individuação: com a volta do pai, Ademar, que abandonara a família, todos se congregam numa soma de empreendimentos comuns: Gilsinho, de frentista; o pai e a mãe, num carrinho de lanches no Posto Jacaré, e explorando uma banca de Jogo do Bicho ali mesmo; a mulher de Nelson, vendendo bolos na lojinha de conveniência (“Ademar achou a proposta irrecusável, Gilsinho voltou a ser frentista e estudava à noite, os motoristas comiam ali mesmo no posto. A mulher do Nelson reclamou do lanche, disse que tinha muito sal na maionese (…) A mulher pediu ao Nelson que arrumasse um bico para ela na lojinha do Posto Jacaré. Ela sabia fazer bolo com cobertura, bolo de casamento (…) Em dois meses, ela estava atrás do balcão, com uniforme do Posto Jacaré…).  Gilsinho resume bem a empreitada: “A mulher do Nelson jogava toda semana e sempre no jacaré. Eu nunca joguei, não ia dar dinheiro para o meu pai…”. O futuro, a sorte, o acaso, amesquinhados numa vida “em miniatura”.

Como se pode constatar, As Miniaturas é um livro incomum. Só o feito de entrelaçar uma fábula insólita com a existência cotidiana, permeada pelo registro econômico, já valeria a leitura. O que o enfraquece, além de alguns vezos estilísticos incômodos (que já faziam estragos no romance anterior, Os Malaquias), é que a mistura das duas linhas narrativas nunca é muito convincente. Se fossem duas narrativas independentes, que se espelhassem no mesmo volume, acho que seria um ganho para ambas, em força e eficácia. Porque, na verdade, a relação do Oneiro com a mãe e Gilsinho não chega a ser bem explorada. Melhor que houvesse alusões, de uma para outra, sem essa ligação tão postiça.

Aliás, lendo esses talentosos, mas de alguma forma fraturados, textos delfueguianos vem à mente a acidentada carreira de M.Night Shyamalan, diretor de O Sexto Sentido, Corpo Fechado A Vila, Sinais, A Dama da Água, Fim dos Dias. Ambos têm uma invulgar e admirável capacidade de fabulação, de imaginar situações em que o fantástico se alimenta do cotidiano, só que não conseguem administrar esse talento até o fim, a invenção cedendo à certa gratuidade.  A impressão é de algo desandado, de que se perdeu uma genial possibilidade no caminho. Mesmo assim, acredito que Shyamalan e Andréa Del Fuego operam muito acima da média. Em certos jogos o risco é tão consequente e fecundo quanto o resultado.

capa_interpretação_sonhos_ouro.indd

VER TAMBÉM NO BLOG

https://armonte.wordpress.com/2013/09/13/o-milhar-ainda-nao-saiu-apontamentos-sobre-as-miniaturas-de-andrea-del-fuego/

https://armonte.wordpress.com/2013/09/08/procurando-o-angulo-do-encontro-com-os-malaquias/


[1] Nessa, e em todas as outras citações do livro de Freud, uso como base a tradução de Renato Zwick (L&PM, 2013), às vezes com uma ligeira adaptação.

[2] “(…) a interpretação dos sonhos por meio do simbolismo foi capaz de se elevar à categoria de uma arte que parecia ligada a um talento especial”. Com relação ao “método de decifração”, diz de Artemidoro:

“Uma variação interessante desse processo de decifração, que em alguma medida corrige seu caráter de tradução puramente mecânica, é apresentada na obra de Artemidoro de Daldis, na qual não se leva em conta apenas o conteúdo onírico, e sim também a pessoa e suas condições de vida, de modo que o mesmo elemento onírico não tem para o rico, o casado ou o orador o mesmo significado que para o pobre, o solteiro, ou o comerciante”.

[3] Freud: “O princípio de sua arte interpretativa é idêntico à magia, o princípio da associação. Um objeto onírico significa aquilo que ele lembra. Aquilo que lembra ao intérprete, bem entendido! Por isso, da circunstância de que o elemento onírico pode lembrar diversas coisas ao intérprete,  a cada intérprete coisas diferentes, resulta uma fonte de arbitrariedade e de incerteza que não podem ser controladas.”

20130917_082902

dsc_1739

Blog no WordPress.com.