MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

29/07/2014

O trágico e o cômico do teatro de Ariano Suassuna (1927-2014): “Uma mulher vestida de sol” e “O santo e a porca”

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 29 de julho de 2014)

Esta minha coluna corre o risco de transformar-se num veículo necrológico. Tantos são os óbitos de escritores notáveis que alguns chegaram a ser negligenciados (como o de Nadine Gordimer, responsável por alguns dos mais belos e perceptivos romances da ficção contemporânea) e eles estão em franca concorrência com os lançamentos do ano.

O fato é que João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna são dois nomes fundamentais da nossa literatura. Na semana passada, a morte do primeiro me propiciou uma revisão de juízo a respeito de O sorriso do lagarto; nesta, me volto para o fascinante teatro do autor de A pedra do Reino: há exatamente 50 anos, eram publicadas em livro a trágica Uma mulher vestida de sol e a cômica O santo e a porca.

Já se disse que a distinção básica entre tragédia e comédia é o desenlace: em ambas, em três atos, temos um pai autoritário e zeloso, com uma filha única, tida como seu maior “tesouro”, e que tem de se haver com um pretendente indesejável, amado por ela, contrariando os planos dele.

Primeira peça de Suassuna, escrita aos 20 anos, Uma mulher vestida de sol (1947[1]) é perpassada por uma gravidade ímpar. Sem chegar à solenidade artificiosa, o tom das falas é sentencioso e fatalista: todos em cena estão conscientes do peso do sangue e da palavra “empenhada” (eco da noção de honra cavalheiresca), da mortandade exigida pelo conflito cuja origem é a posse da terra: “Quem pode esquecer a morte, vivendo entre estas paredes?”, diz uma das personagens femininas. Temos um clã que se divide em duas facções (uma cerca é o pomo da discórdia), e de todos se exige um papel na engrenagem: quando Francisco, o filho pródigo de Antônio Rodrigues, afirma não ter interesse pelas terras em litígio (na verdade, é um artifício dele), o pai imediatamente o risca da sua vida: se ele não é o herdeiro da luta, não será “nada”.

Francisco ama Rosa, filha de Joaquim Maranhão, contrário à união não apenas pela quizila com a família do outro lado da cerca, como também por inclinação incestuosa evidente (como, antes, tinha pela irmã, Inocência, casada com o inimigo Antônio)[2]. Traiçoeiro e vil, ele apenas extrapola as características gerais dos donos da terra: o que impera nessa mentalidade, sejam os personagens mais ou menos simpáticos, é a lei do “pôs o pé na minha propriedade leva bala”. Intentando destruir os Rodrigues, utilizando até a filha (que, após casar com Francisco, é sequestrada pelo pai) como isca, Joaquim prepara a própria perdição ao assassinar um rapazote, Neco, filho do até então pacato retirante Inácio. Donana (tia de Rosa) o interpela: “Ele não estava derrubando a cerca não, estava só tirando mel!… Ele não tinha a ver com o pessoal de Antônio!; Ele: “Como é que eu podia saber? Estava na minha cerca, eu só podia pensar que era para derrubar. E ele atirou em mim!”; Ela: “Com uma garrucha de menino, carregada de chumbo…”; Ele: “Cale a boca… Foi uma desgraça que aconteceu com ele como podia acontecer comigo. Manuel, leve o rapaz no caixão de caridade… E diga ao pai do menino que eu o matei por engano…”!

Uma mulher vestida de sol (cujo título remete ao Apocalipse[3], enquanto o casal Francisco-Rosa pertence a toda uma tradição “Romeu e Julieta” do romanceiro popular nordestino[4]) ajuda a esclarecer que a violência atual que horroriza a tantos é a feição moderna de uma situação tornada atávica pelos desmandos de uma noção patriarcal e patrimonialista do mundo. Dramaturgicamente, ela é ainda muito forte, nada fica a dever às peças mais contundentes, de ambientação mais urbana, de um Nelson Rodrigues.

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O santo e a porca (1957) pertence ao ciclo supostamente mais brejeiro e singelo, cujo representante manjadíssimo é Auto da Compadecida (1955). É muito engraçada e dinâmica (Suassuna teve como modelo o romano Plauto, mestre da farsa), com um personagem que fez escola (de Molière a Ivani Ribeiro): o avarento. É o caso de Euricão Árabe, que esconde uma fortuna numa porca (um cofrinho), sempre em impagáveis apelos (e diatribes, quando contrariado) a Santo Antônio, pois tem a obsessão de que todos querem roubá-lo. Um dia, recebe a notícia de que o fazendeiro Eudoro Vicente, o qual tinha hospedado durante alguns meses sua filha, Margarida, chegará à cidade. Horrorizado com a possibilidade de ter de retribuir o favor, Euricão se apressa em reservar um quarto num hotel. Ao saber do verdadeiro objetivo do viúvo Eudoro (pedir a mão da moça), planeja extorquir do pretendente mais cabedal para forrar sua porca.

Acontece que Margarida ama Dodó, filho de Eudoro, que se disfarçou (como corcunda, coxo, embarbichado e com a boca torta) de empregado da casa, após abandonar os estudos, movido pela paixão. Ao longo da peça, como manda a lei do vaudeville (e dos espetáculos circenses), não faltarão disfarces, trocas de trajes entre os personagens (misturando as identidades), falas de duplo sentido (inclusive com a palavra “porca”), enfim engenhosidades cênicas nas quais Suassuna era um mestre. Curiosamente, a farsa se fecha com um toque sombrio e moralista, acentuando a cilada existencial que Euricão preparou para si ao se deixar levar pelo amor monomaníaco à porca (roçando o clima de algumas estranhas comédias shakespearianas, como O mercador de Veneza)[5].

Mas quem rouba mesmo a cena é a criada Caroba, uma das personagens mais inesquecíveis do teatro brasileiro. Na montagem de estreia (1958), ela foi vivida por Cleyde Yaconis, que dividia o palco com Cacilda Becker (Margarida) e Ziembinski[6] (Euricão). Se Caroba fosse casada com João Grilo (de Auto da Compadecida), sai de baixo, minha gente. Não haveria mundo para tanta tramoia, confusão e verve na fala.

No mais, tanto no registro trágico quanto no cômico, são justas as afirmações do próprio Suassuna, a quem deixo a última palavra: “Serei eu, na verdade, um escritor popular? Sim, às vezes, desde que se entenda esta palavra num sentido menos ilegítimo do que aquele que vem sendo empregado pela crítica brasileira. Mas às vezes também, mesmo no meu teatro, um poeta; bom ou mau, não importa, mas poeta”.

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NOTAS

[1] Mas profundamente reformulada dez anos depois (é o texto que comento na resenha acima). Mesmo assim, Suassuna ainda era um homem jovem quando criou seu fantástico ciclo de peças.

[2] Não se pode esquecer que ele assassinou a esposa.

[3] E que no meu entender toma o sentido da terra ensolarada (do sertão), mas encharcada de sangue, ao final.

[4] E tanto da cultura popular do Ocidente como um todo, mas também da tradição literária, basta lembrar de Romeu e Julieta na Aldeia, de Gottfried Keller.

VER: https://armonte.wordpress.com/2014/06/12/leituras-em-espelho-romeu-e-julieta-na-aldeia-gottfried-keller-e-lady-macbeth-do-distrito-de-mtzensk-nikolai-leskov/

[5] Devo dizer que a cena final me parece pouco convincente, ainda mais com seu apelo camusiano sobre o absurdo essencial do mundo. Também me parece meio forçada a dicotomia “santo” e “porca”, no senido de dois caminhos opostos na vida, o da santidade e o do interesse próprio. Nada na ação da peça (a sua verdade teatral, como diria Suassuna) enfatiza tal oposição.

[6] Este pode se orgulhar de estar envolvido na montagem dos dois maiores dramaturgos brasileiros do século XX, basta lembrar da montagem original de Vestido de Noiva.

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22/07/2014

NOSTALGIA DA GRANDEZA: “Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta”, de Ariano Suassuna

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Em Geografia do romance, comentando o pensamento de Mikhail Bakhtin, Carlos Fuentes escreve: Numa era de linguagens conflituosas (informação instantânea, sim, integração econômica global, idem, muita estatística e pouco conhecimento), o romance é, será e deverá ser uma dessas linguagens. Mas sobretudo deverá ser a arena onde todas elas podem marcar encontro. O romance não só como encontro de personagens, mas como encontro de linguagens, de tempos históricos distantes e de civilizações que, de outra maneira, não teriam oportunidade de relacionar-se .

Tais palavras aplicam-se bem a uma obra publicada em 1971 (embora venha ocupando boa parte da vida do autor, ao que tudo indica, pois ele pretende reformulá-la), bastante comentada e pouco lida efetivamente: Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, de Ariano Suassuna.

Escrita sob o signo do excesso, apresenta um narrador, Pedro Dinis Quaderna, o qual, aberta a sua tramela, não se consegue que a feche mais. É um tagarela que se repete, que promete sempre fatos e mais fatos e vai nos engambelando direitinho (às vezes, cansando um pouco a paciência), um Tristram Shandy de Taperoá, no sertão do Cariri, na Paraíba (ele começa a contar sua história, na prisão, em 1935). Rebento de uma estirpe de “fidalgos sertanejos” que tentaram impor uma monarquia paralela (ou em sublevação à nossa recém estabelecida, e autoritaríssima, República), num misto de exaltação política, sexual e mística, Quaderna é um intelectual, o qual, entre querelas com seus dois mestres (Samuel, reacionário e simpático ao Integralismo; Clemente, esquerdista e ligado às causas do povo; ambos, ao fim e ao cabo, comicamente parecidos, pois a idéia fixa se embebeda do oposto, já alertava Octavio Paz), almeja restaurar o Reino da família, através da criação de uma epopéia sertanejo-sebastianista, em forma de romance, transfigurando a pobre realidade do Nordeste.

Ao seu modo picaresco, Ariano Suassuna nos dá uma linguagem (através da qual se abebera de inúmeras fontes literárias e populares, de José de Alencar a cantadores de feira) que é evidentemente uma máscara: Quaderna, no exercício do seu estilo “régio” (delicioso e virtuosístico), acaba revelando o desencanto com seu mundo e sua posição social, como agregado de um rico clã, cujo ramo a que pertence empobreceu devido ao furor sexual do pai, a herança dilapidando-se pelos muitos filhos afora.

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Dois aspectos são particularmente notáveis em A Pedra do Reino: um, é o desejo de fazer um “romance”, que une narrador e autor. Curiosamente, num livro tão colorido e exuberante, vemos pouca ação; na verdade, é mais o anúncio eterno de uma ação que virá a ser narrada, tanto quanto o desejo de um Escolhido (o rei Sebastião ou o príncipe Sinésio) reaparecer e convulsionar o Sertão. Até agora não chegou à conclusão se isso é força ou fraqueza, no sentido literário (embora me incline mais para a primeira hipótese).

O outro aspecto é a vontade de que tudo seja significativo e simbólico, das pedras às roupas, dos animais de montaria aos animais selvagens. É a nostalgia do épico puro, das odisséias homéricas,  no qual “toda a ação é somente um traje bem talhado da alma”(Georg Lukács), embora tudo seja filtrado pelo des(encanto) cervantino.

Num mundo sem sentido e sem rumo, tal vontade não deixa de ser comovente. Não deixa de ser também uma forma de sublevação à autoritaríssima (e então recente), República Brasileira (Quaderna começa sua narrativa, preso, em 1938), engrandecendo até os embates, mais para cômicos e caricaturescos, dos dois “mestres” de Quaderna, Samuel e Clemente.

A linguagem de Suassuna, como seu anti-herói, que percorre todas as classes sociais, indo do legítimo e oficial, até o ilegítimo (seus irmãos, frutos do furor sexual de Quaderna-pai, cuja herança dilapidou-se entre os muitos bastardos) e o suspeito, é picaresca e paródica, abeberando-se e apropriando-se de inúmeras fontes literárias e populares, de José de Alencar a cantadores de feira, todos os criadores da “realidade do possível”. Nesse ponto, podemos aproximar o mundão sertanejo de Ariano Suassuna do labirinto urbano urdido por James Joyce, no “bloomsday” de Ulisses: o banal se transfigura, o mito é a “aura” de situações comezinhas.

Já que comecei este meu breve comentário com palavras alheias (Fuentes), também assim termino, adaptando ao sertão do Cariri as palavras de Anthony Burgess a respeito do périplo ulissiano: o épico antigo era expansivo, o teatro, contrativo. Homero abrange céu, terra e mar e uma grande fatia de tempo; Sófocles se atém a um pequeno espaço e restringe a ação a um único dia. Joyce se atém a Dublin no dia 16 de junho de 1904, mas também usa o delírio e a imaginação para conter grande parte da história humana e mesmo o fim do mundo. A épica e o teatro cifram-se na estrutura de um romance burguês moderno… Com painel tão amplo, nenhum detalhe humano fica de fora”.

Ariano Suassuna, escritor e Secretario da Cultura de Pernambuco31jan2014---detalhe-do-carro-alegorico-a-pedra-do-reino-inspirado-na-obra-de-ariano-suassuna-homenageado-do-bloco-recifense-galo-da-madrugada-no-carnava

16/06/2012

Quadernasday: o outro 16 de junho

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16 de junho. Uma data que aproxima Homero, lá na remota Grécia Antiga, o irlandês James Joyce e o paraibano, de alma pernambucana, Ariano Suassuna. Em 1904, nessa data, os personagens de Ulisses (publicado em 1922) se encontravam e desencontravam para reviver num único dia, e dentro da jaula do cotidiano moderno, no aparentemente nada épico espaço urbano, a relação de Ulisses-Penélope-Telêmaco da odisséia homérica; nessa data, há 133 anos, nascia em Taperoá Pedro Diniz Quaderna, narrador e anti-herói de A pedra do reino,  cujo objetivo, errando numa existência degradada de rebento empobrecido, e cheio de expedientes, de antiga e ilustre família, é superar Homero criando a “suprema epopéia da Humanidade”, ao mesmo tempo grega, latina, ibérica e sertaneja. Para dar vida a essa rei/epopeida (como ele mesmo denomina), já que lhe falta a inclinação para o heroísmo, e a ação heróica de qualquer forma parece que ou já foi ou ainda será, nascia há exatos 80 anos Ariano Suassuna.

Labirinto urbano, mundão sertanejo. E Ulisses ainda tenta chegar em casa porque a épica não morre, apenas encontra novas e revolucionárias formas.

   (texto-anúncio de uma palestra no Bloomsday de 2007, na Livraria Realejo, em Santos)

A REDENÇÃO DO SERTÃO SOB O SIGNO DO EXCESSO E DO PICARESCO

Em Geografia do romance, comentando o pensamento de Mikhail Bakhtin, Carlos Fuentes escreve: Numa era de linguagens conflituosas (informação instantânea, sim, integração econômica global, idem, muita estatística e pouco conhecimento), o romance é, será e deverá ser uma dessas linguagens. Mas sobretudo deverá ser a arena onde todas elas podem marcar encontro. O romance não só como encontro de personagens, mas como encontro de linguagens, de tempos históricos distantes e de civilizações que, de outra maneira, não teriam oportunidade de relacionar-se .

Tais palavras aplicam-se bem a uma obra publicada em 1971 (embora venha ocupando boa parte da vida do autor, ao que tudo indica, pois ele pretende reformulá-la), bastante comentada e pouco lida efetivamente: Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, de Ariano Suassuna.

Escrita sob o signo do excesso, apresenta um narrador, Pedro Dinis Quaderna, o qual, aberta a sua tramela, não se consegue que a feche mais. É um tagarela que se repete, que promete sempre fatos e mais fatos e vai nos engambelando direitinho (às vezes, cansando um pouco a paciência), um Tristram Shandy de Taperoá, no sertão do Cariri, na Paraíba (ele começa a contar sua história, na prisão, em 1935). Rebento de uma estirpe de “fidalgos sertanejos” que tentaram impor uma monarquia paralela (ou em sublevação à nossa recém estabelecida, e autoritaríssima, República), num misto de exaltação política, sexual e mística, Quaderna é um intelectual, o qual, entre querelas com seus dois mestres (Samuel, reacionário e simpático ao Integralismo; Clemente, esquerdista e ligado às causas do povo; ambos, ao fim e ao cabo, comicamente parecidos, pois a idéia fixa se embebeda do oposto, já alertava Octavio Paz), almeja restaurar o Reino da família, através da criação de uma epopeia sertanejo-sebastianista, em forma de romance, transfigurando a pobre realidade do Nordeste.

Ao seu modo picaresco, Ariano Suassuna forja uma linguagem especialíssima  (através da qual se abebera de inúmeras fontes literárias e populares, de José de Alencar a cantadores de feira) que é evidentemente uma máscara: Quaderna, no exercício do seu estilo “régio” (delicioso e virtuosístico), acaba revelando o desencanto com seu mundo e sua posição social, como agregado de um rico clã, cujo ramo a que pertence empobreceu devido ao furor sexual do pai, a herança dilapidando-se pelos muitos filhos afora.

Dois aspectos são particularmente notáveis em A Pedra do Reino: um, é o desejo de fazer um “romance”, que une narrador e autor. Curiosamente, num livro tão colorido e exuberante, vemos pouca ação; na verdade, é mais o anúncio eterno de uma ação que virá a ser narrada, tanto quanto o desejo de um Escolhido (o rei Sebastião ou o príncipe Sinésio) reaparecer e convulsionar o Sertão. O autor deste artigo até agora não chegou à conclusão se isso é força ou fraqueza, no sentido literário (inclino-me para a primeira hipótese); o outro aspecto é a vontade de que tudo seja significativo e simbólico, das pedras às roupas, dos animais de montaria aos animais selvagens. Num mundo sem sentido e sem rumo, tal vontade não deixa de ser comovente.

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 09 de junho de 2007)

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 A NOSTALGIA DA GRANDEZA E E DO ÉPICO: um outro 16 de junho

   A propósito de A Pedra do Reino  comentei, na seção anterior, dois aspectos que nele se destacavam: um, era o desejo do romance, da ação heroica, que mais se anunciava do que se cumpria na narrativa de Pedro Dinis Quaderna (outro aniversariante deste 16 de junho: nasceu no mesmo dia do seu criador, mas há 110 anos).

O outro aspecto é a vontade de que tudo seja significativo e simbólico.  É a nostalgia do épico puro, das odisseias homéricas,  no qual toda a ação é somente um traje bem talhado da alma” ( na bela formulação de Lukács), embora tudo seja filtrado pelo  (des) encanto  cervantino.

Não deixa de ser também uma forma de sublevação à autoritaríssima (e então recente), República Brasileira (Quaderna começa sua narrativa, preso, em 1938), engrandecendo até os embates, mais para cômicos e caricaturescos, dos dois “mestres” de Quaderna, Samuel e Clemente.

A linguagem de Suassuna, como seu anti-herói, que percorre todas as classes sociais, indo do legítimo e oficial, até o ilegítimo (seus irmãos, frutos do furor sexual de Quaderna-pai, cuja herança dilapidou-se entre os muitos bastardos) e o suspeito, é picaresca e paródica, abeberando-se e apropriando-se de inúmeras fontes literárias e populares, de José de Alencar a cantadores de feira, todos os criadores da “realidade do possível”. Nesse ponto, podemos aproximar o mundão sertanejo de Ariano Suassuna do labirinto urbano urdido por James Joyce, no “bloomsday” de Ulisses: o banal se transfigura, o mito é a “aura” de situações comezinhas.

E podemos adaptar ao sertão do Cariri as palavras de Anthony Burgess sobre o romance irlandês: o épico antigo era expansivo, o teatro, contrativo. Homero abrange céu, terra e mar e uma grande fatia de tempo; Sófocles se atém a um pequeno espaço e restringe a ação a um único dia. Joyce se atém a Dublin no dia 16 de junho de 1904, mas também usa o delírio e a imaginação para conter grande parte da história humana e mesmo o fim do mundo. A épica e o teatro cifram-se na estrutura de um romance burguês moderno… Com painel tão amplo, nenhum detalhe humano fica de fora”.

Leopold Bloom e Pedro Dinis Quaderna têm outra seara em comum com o herói de Homero: a astúcia, a capacidade de enfrentar o declínio do heroísmo e o dia a dia com os mais diversos expedientes mentais. Daí, seu “carisma” e fascínio.

(Resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em homenagem aos oitenta anos de Ariano Suassuna, em 16 de junho de 2007)

 

 

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