MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/09/2013

O PRISIONEIRO DO INTERSTÍCIO: Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira e sua poesia entre o infinito e o quintal

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“…ali, o infinito

é feito um quintal” (versos finais de descoberta)

“…melhor que tudo, a goteira no canto da sala” (verso final de ars longa)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de setembro de 2013)

Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira destacou-se como prosador notável já no seu primeiro romance, As visitas que hoje estamos (Iluminuras, 2012). Peixe e Míngua, publicado pela Nankin em 2003, nos revela também, com uma década de atraso, um poeta do mais alto gabarito: trata-se de um volume hipnotizante, que se tem vontade de carregar para todos os lados.

Nascido em Mococa (SP) e vivendo em Arceburgo (MG), ele traz à tona esse Brasil “profundo”, ainda com forte lastro do universo rural, na fronteira entre os dois estados. Mais ainda, é —como o portão enferrujado que canta num dos melhores entre os 85 poemas do livro— um “prisioneiro do interstício”[1], atento ao infinito e ao quintal[2], a um só tempo. Se ora navega “por mínguas terras”, ora nos deixa à beira de uma “realidade impalpável”, muitas vezes perseguida nos “arredores de outrora”; ao fim e ao cabo, esse movimento pendular, entre uma existência inexpressiva (“um tempo em tom menor”), nos fundões desse Brasil, “vida bunda”, e o “assinalar indescobertas”, obriga-o ao Livro[3].

Sim, Antonio Geraldo, pelo que nos apresentou da sua produção até agora, é um inventor de Livros, de modo que— seja no romance, seja na poesia— fragmentos ou flashes do cotidiano, pequenas tiradas aforismáticas ou anedóticas (assim como o raso da vida, os pequenos nadas compõem nossa condição de criaturas contingentes e alienadas), e até, (como posteriormente no romance) fotografias[4], encontram seu lugar e significado mais amplo junto de textos do mais consumado refinamento literário [ver TRECHOS SELECIONADOS].

No caso específico de Peixe e Míngua, poemas de um vezo quase clássico, assim como sonetos, um longo poema (depois de tudo criado), em sete partes, que percorre eras e vem se movendo da Europa para as nossas plagas até alcançar a boca de um cantador de rua. Na sua voz, um mote também muito explorado em As visitas que hoje estamos: a religiosidade, o apelo à transcendência, como uma espécie de comportamento atávico e residual, esgarçando-se cada vez mais no tecido social que perde as referências da tradição: “Não é boa a dor da vida/mas a da morte é pior/se rezo pra aparecida/é que a reza eu sei de cor”[5]. Pois, as coisas da vida, quem as trama?: “deus, ou mesmo o que-diga, por pirraça”[6].

Às vezes, o tom é pachorrento, às vezes de uma gravidade raríssima de se encontrar ainda (portanto, na contramão da dicção literária praticada hoje em dia, tal como caracterizada no prefácio do autor: “fixação ao acaso de coisa alguma”, abdicando de ser o paradoxal “caminho novo a refazer agora”): “enquanto o tempo desenha/continentes de contornos/em quebradiças fronteiras/o portão resiste a tudo/traçando o rumo impossível/nos países da memória/cartografia de Atlântida”.[7]

Se nos seus dois livros, sentimos o vigor da originalidade e da amplitude, ele não se furta a dialogar com os grandes que o precederam. Sentimos muito evidente, por exemplo, as presenças de Drummond e de Bandeira em meio a essas referências a margarina, contrafilé, lâmpadas de 60w, sacolas, garfos, cristaleiras, cômodas, currículos e até tratos mesquinhos ou condescendentes com empregadas domésticas.

Veja-se por exemplo, o lindo memória: “na mesa da sala/fazendo-se  herança/o cupim é o tempo/essência da árvore/não importa a ausência/do prato do avô/a gordura fica/a mancha não sai/é uma outra coisa/sempre mesma coisa/atavismo triste/ou nódoa ou nó/ (que toalha irá/disfarçar a vida/que se fez caminho/trilha para dentro/noutros tantos furos/de outros mais cupins?) /ainda habitante/de lugar algum/rosto de impresença/há sem existir/as faces do filho/em que me adivinho/enterrado vivo/–o cerne da mesa/no interior do verme/no cerne da mesa”, que forma um par formidável com o seguinte, dor (“o que dói e machuca está em mim/é minha criação o sofrimento/e arranco finalmente de seu viço/ um pêlo que desnasce para dentro”), tão característico desse eu lírico que anuncia com relação aos antepassados: “já deu tempo de seu filho ficar velho”.[8]

   No poema (a arte me atormenta) em que fala de seu embate com a “vida bunda”, lemos que “a força criadora (ou maluquice) /teima que em mim vicejam, tal qual eco/da voz de um deus, confusa, vã, diária”. Numa obra admirável, onde a vida abunda, para o bem ou para o mal, maluquice é teimar em não ver que estamos diante de uma das forças criadoras mais relevantes da cena atual. Ninguém fica à míngua na leitura de Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira.

VER TAMBÉM NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2013/03/04/as-vozes-do-brasil-profundo-em-as-visitas-que-hoje-estamos/

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TRECHOS SELECIONADOS

Pequeno mostruário das formas que povoam Peixe e Míngua:

–o poema com estrofes em dois versos, que Drummond gostava de utilizar:

falta

“cavado no quintal (há quanto tempo?)

um buraco perdido entre o capim

 

antiga brincadeira de menino?

toca desabitada de tatu?

 

fertilidade e parto retratados?

o medo disfarçado de morrer?

 

a inteligência em gênese constante?

essência disfarçada em falso raso?

 

planura na aparência sem um fim?

o nada em privação do próprio nada?

 

panela carcomida pela terra?

passagem demarcada no vazio?

 

sepultura de um cão que não morreu?

a súbita revelação da espera?”

–a Poética jocosa:

poética

“risquei um rosto no reboco

o homem ficou bem brabo

gritou e cuspiu

era depois do almoço

 

meses depois, a parede ria

boca cheia de tijolos com farofa”

 

–o poema jocoso-filosófico:

uma espécie de solidão

“um mundo de gente

uma porrada de gente

gente pra cacete

todo mundo pra caralho

 

um bando de gente

uma procissão de gente

formigueiro a dar com pau

 

e eu ninguém pra burro”

–o poema-“piada” curto, meio anedota dalton-trevisiniana:

elegia

“ela enfia os pés sob minhas pernas

nas dobras dos joelhos

 

ela não me ama mais

mas tem um fio danado nos pés”

 

não demora, você vai ver

“mulher não

mas homem

se a bunda cai

tá com o pé na cova”

–o soneto, na forma clássica (2 estrofes de 4 versos e 2 de 3), ou na forma abaixo, que Borges gostava tanto de praticar:

o encontro

“rola no tempo o fato em sua esfera

e tudo se repete,o mesmo traço

antiga queda e cicatriz, o abraço

nas linhas de meu rosto, esse outro que era

eu e outro e mesmo ser, livre da ceia

dessas tantas histórias, do cansaço

de viver novamente um mesmo passo

que, precipite, funda a morte, e nela

a própria ideia de concepção

mas um deus desconhecido, ao longe, acena

e estende a mão, para que o siga, apenas

esta pétrea figura sem feição

(darei as mãos cansadas ao demônio?)

quem és? pergunto e digo: sou antonio”

 

o poema-aforismático:

tudo foi assim

“ontem já faz tempo

reconstruo na memória

nada foi assim”

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–o poema-livre, de que é sumo exemplo outro favorito meu, com o qual encerro essa pequena seleção:

de pedra

“tenho um anjo torto na sala de casa

em toda sua verdade física

nada daquele poema

 

disseram que uma árvore arrancou-lhe aos poucos

                                                            [a asa esquerda

fê-lo pousar

fixar-se na contemplação vazia do chão

 

agora, por um lado menina

por outro ainda anjo

continua com o vestidinho arregaçado

para que as flores que carrega não caiam mais

e, nesse movimento

desnuda um peitico de nada

sob a lembrança daquela asa ausente

que, do outro lado, no entanto

abre-se muito comportada e nada revela

 

penalizei-me de seu voo suspenso

de sua queda interrompida, brasileira

 

o administrador do cemitério não entendeu nada

apenas recomendou que serrasse a outra asa

no que consenti, mentindo

 

em casa, paira na estante, penso

 

logo há de ser

para os meus amigos

na sala de estar

apenas maluquice, mau agouro, negócio anti-

                                 [higiênico, falta de respeito

 

mas em pouco tempo eles entrarão na sala

eu mesmo entrarei na sala

e ninguém ou nenhum anjo nos guardará”

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[1] “(…) prisioneiro do interstício

hiato que se demonstra

nômade de um só lugar

o portão enferrujado

mito desfeito de si

dá-se inteiro à mão que o abre

como se não existisse

 

fundido que foi um dia

transcendendo a própria fôrma

se pudesse, rediviva,

em outro portão fundir

a matéria principal

do que é a diferença:

um outro mesmo portão

 

separados na igualdade

não apenas pela forma

revelariam então

desmedida semelhança

pórtico duplo do ser

um e outro ou outro e um

igualmente um só portão”  (reproduzi três das sete estrofes do poema o portão)

[2]  Veja-se o belo casa e escombro, um dos meus preferidos:

“fazer com a terra as pedras

com as quais equilibramos

a vida, um amontoado

dos anos que se acumulam

dando liga e força a mínimas

partículas, maceradas

pela ação da natureza

(finalmente ossos, sangue

membros para além dos passos

de habitantes circunspectos

ou, quem sabe, de ninguém

vazio estando de dentro

por gerar  em si ruínas

ocupadas por fantasmas

de moradores defuntos

ou ainda não nascidos)

e estar em fragmentação

de outro tempo—o mesmo tempo

que é demolição, princípio

e recomeço primevo

de como se nunca dantes

quando faz das pedras terra

no que novamente chão

para pasto de outras pedras

erguidas por novos homens

que serão também nós mesmos”  (“no que novamente chão”, que arraso!)

[3] “navego por mínguas/terras, até que acabe o/ mar de quem amo…”, encontramos em circunavegação; “um tempo em tom menor…”, em dizer de novo; “(…) por aí, vê-se/a vida bunda, enfim, inexpressiva/ que levo…”, em a arte me atormenta; “na medida em que cria estes versos/só para assinalar indescobertas”, na parte V de depois de tudo criado.

No maravilhoso, nada modesto (contudo, nem um pouco pretensioso) prefácio intitulado mais um livro, lemos uma anedota de teor proustiano (ou machadiano, pelo tom?): “Dia desses, visitei meus pais, arredares de outrora. Mecanicamente olhei aquele chão familiar e percebi um remendo, na calçada, cobrindo uma antiga rachadura que era, ela própria, calçada. Foi a desculpa para ajuntar alguns poemas em livro. Livro que é quase um tropeção, portanto. Em versos, teria dito que  quase, porque tempo de outros/mesmos passos. Não fiz esse poema, mas a calçada está lá, ou não está mais lá—e é essa realidade impalpável que me obriga ao livro.”

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[4] Ao contrário de outras tentativas recentes de inserir fotografias em textos ficcionais, caso de Divórcio, de Ricardo Lísias, e Esquilos de Pavlov, de Laura Erber.

[5] Trecho da parte VII. Não posso deixar de observar que na sequência de depois de tudo criado, há a sequência em onze partes de por outro lado, que nos leva para o lado “Dalton Trevisan/Adélia Prado”—sacro-profanamente mesclados, por assim dizer, de Antonio Geraldo. São poemas curtos, anedóticos, corrosivos em sua fixação da comédia cotidiana da vida.

Há um vezo mais decididamente à Adélia Prado (sem deixar de ser muito característico do autor) em jejum:

“a panela de ferro no quintal

enferrujada, preparando a ruína

 

pensei desenterrá-la, mas o mato

que nascia por entre aquele ferro

obrigou-me a deixá-la ali, apenas

 

não tinha fome, a vida estava pronta”

[6]  Verso de um dos poemas de que mais gosto no livro, uma outra construção:

“ao receber da vida a grande infâmia

cidade planejada que se espaça

em tantas ruas tortas, tristes praças

a despeito de mim, subterrâneas

vislumbrei o princípio da desgraça:

serão idênticas mesopotâmias

nos vales de jequitinhonhas, treme-as

deus, ou mesmo o que-diga, por pirraça

que aceitarei, sem medo, a morte igual

a do mendigo, na calçada fria

tal como a de um herói, que já não há

ter sido, sem haver, atemporal

vivida plenamente, dia a dia

a minha mesma vida, aqui e lá”

Nele, como em outros momentos de Peixe e Míngua, Antonio Geraldo dialoga com Borges.

[7] “Literatura, hoje, é fixação ao acaso de coisa alguma”, diagnostica-se com precisão no prefácio, pois alude à perda da experiência como horizonte da arte literária;

O quase lukácsiano “caminho novo a refazer agora” é o verso final da parte V de depois de tudo criado;

o trecho maior citado é a linda terceira estrofe de o portão.

[8] Este verso é de ainda sempre é tempo. A figura do pai e do avô são entretecidas  em presença:

I

pai—meu voo

grito pai

ouço ai

 

eu que ecôo

II

meu avô

minha ponte

grito com força

ouço um longo ôô

 

do outro lado ele responde

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04/03/2013

As vozes do Brasil “profundo” em AS VISITAS QUE HOJE ESTAMOS

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“…mas a cabeça regulada, querendo impor outra melhor ordem na memória, requentando o café para as visitas que hoje somos e estamos, para que eu possa pôr novo reparo nas manchas  que não via nas roupas, no instante que escapuliu quando todos foram morrendo…”

“…às vezes um artista se vê na obrigação de repetir o que outros disseram, o que ele mesmo já disse, apenas porque na verdade ninguém escuta nada, e um artista também precisa identificar no ruído geral aquilo que pede um coro sublinhado por parte de quem tem algum bom senso, fazendo eco não em razão do próprio tom, mas pela arte de fundo que precisa ser identificada, entende?, mas  o que eu dizia há pouco, mesmo?…

“… e isso é um deus nos acuda de desvios..”

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(uma versão condensada do texto abaixo foi publicada na Folha de São Paulo, de 04 de março de 2013:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/96745-leitura-e-experiencia-caudalosa-mas-formidavel.shtml)

Se os franceses inventaram o roman-fleuve (romance-rio), Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, em sua estreia no gênero,  criou o romance-aluvião. As 448 páginas de As visitas que hoje estamos, as quais apresentam de ponta a ponta forte controle autoral, inclusive nos aspectos gráficos, são uma experiência caudalosa até para os leitores mais calejados, com sua vozearia (inúmeros personagens tomam a palavra, num “ruído geral”, “apenas porque na verdade ninguém escuta nada”, como está lá na epígrafe), vinhetas (“esse povo é assim, quando as coisas dão certo pra eles, foi deus, eles merecem, mas se uma coisinha dá errado, pronto, foi olho gordo da gente”), poema—e os há jocosos, os há sérios e os há jocoso-sérios (“agora resta voltar/quero subir do meu ser//fugir de quem me empareda/de quem respira o meu ar//de quem sussurra, a dizer/não sou escada, sou queda”), fotografias, aforismos (“Não raro, o cansaço arrependido, depois do sexo, resulta da sensação incômoda, porque certeza, de que a nossa espécie foi longe demais”) e mesmo uma peça, Os olhos de Jussara (deixada por um escritor-suicida, Eusébio Souza), que enlaça incesto e câncer, cuja ação se intercala através do texto.

Na raivosa e contundente enchente narrativa, vêm arrastados o Brasil “profundo”—embora aparentemente circunscrito à região entre São Paulo e Minas–, o povo brasileiro arquetípico, e os pequenos nadas da vida: a passagem do tempo, a instabilidade econômica, os altos e baixos da sorte, os atos sórdidos, as guerras conjugais, a solidão, lendas urbanas (tem até a alusão ao “homem do saco” tão presente na infância de quem aqui escreve), a maciça presença dos santos, de fato tanta devoção, e no entanto a desordem geral, o desalinho de todo o tecido social (“por que será que deus olha mais pra uns do que pra outros?, será que tira par ou ímpar com o capeta e divide os homens?, aquele ali é meu, pronto…”). Há quase um enciclopedismo na maneira como velhos, jovens, casais, filhos, vizinhos, chefes e empregados, mendigos, animais de estimação vão marcando presença anônima (com algumas exceções) no tecido textual nada desalinhado, embora irregular. E, permeando tudo, certo humor, insólito, é claro, e um ainda mais estranho (e certamente intenso) prazer que o mergulho na torrente de As visitas que hoje estamos oferece ao leitor que seja, antes de tudo, um forte.

Como toda experiência radical, o livro causa tanto estranheza quanto fascínio. Por isso, executo a temível, odienta operação: domesticar a experiência de leitura, aproximando-o (sem jamais fazê-lo epígono) de dois universos já consagrados—e de certa maneira antípodas–em nossa ficção, os de Dalton Trevisan e Hilda Hilst.

Do primeiro, ele tem aquela ambientação “caipira”, com forte rastro rural, mesmo “modernizada”, e já deveras urbana (como pudemos acompanhar no arco que vai de Novelas nada exemplares até coletâneas mais recentes como Violetas & Pavões), e principalmente aquelas relações humanas apresentadas num nível tão primitivo e nu de disfarces, que as torna quase produtos do inconsciente; da segunda, ele tem o pendor para o escatológico, tanto no sentido fisiológico quanto no sentido apocalíptico, além do discurso-magma, sulfúrico: “você finalmente no banheiro, na frente do espelho, sozinho e pelado com você, enfim, escritor que obrou na hora certa, mas no lugar errado, fora do penico, o microcosmo falido de uma época, retrato a três por quatro dos homens, mas de corpo inteiro, mal cabidos em si no espelho ou nas páginas de um livro injustamente esquecido, de um livro nem sequer lembrado, imprestável até como papel pra limpar o cu em flor, ou  a boceta daquela puta filha da puta que você comeu pela primeira vez  no motel de uma cidade vizinha, no ano passado, e depois em casa, pulou miudinho despejando álcool na cabeça do pau…vai saber a qualidade do látex nesse país de bosta…isso, isso, o autor como produtor de merda, produtor da porra, isso sim, porra ou merda, sirvo só pra isso caralho? caralho e cu?…”

A diferença, com relação à autora de “A Obscena Senhora D” (e que o aproxima mais de Trevisan—não fosse também o gosto pelas microhistórias nada exemplares, por exemplo: “ele é o que mais quer, acho que está até atrapalhando, desde mocinha eu imaginava que tinha que ter um pouco de amor, acho que não engravido por isso, ele nem termina direito e vai dizendo, vai, vai, levanta o quadril, estica as pernas na parede, do jeito que o médico falou…”) é que, nela, há mesmo a presença forte da dimensão mística; no mundo de Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, os inúmeros apelos e referências a Deus, aos santos, toda a devoção e superstição, as frases-feitas, os ditados pios, são como um eco esmaecido, quase moribundo, e às vezes burlesco, de princípios transcendentes. Veja-se uma fala de Gislaine, uma das personagens de Os olhos de Jussara (que teve duas filhas com o próprio pai e cuja mãe está num estágio terminal: “O negócio do mundo é derrubar com o rodopio da vida aqueles que andam soltos… E a gente vai se virando com ele, fazendo força pra girar pro outro lado, torcendo pra tontura passar… Passar, não passa, mas Deus vai colocando as paredes no lugar certo pra apoiar, coloca uns postes… Bom, de vez em quando a gente se desequilibra e dá umas cabeçadas… Olha, parece que é mais difícil morrer do que viver, valha-nos Deus, todo poderoso!”

Ao fim e ao cabo, o nada epigonal  As visitas que hoje estamos é um texto formidável. E à medida que sua reputação cresça, como acredito que acontecerá mais cedo ou mais tarde (é o destino das obras originais), maior será o perigo para o autor: porque agora dele só esperaremos coisas superlativas. Não queria estar em sua pele.

hildaDalton Trevisan

TRECHO SELECIONADO

“… era assim, o oratório também fechado a chave, em multidão de imagens, ela muito carola, sempre, deus como chave mestra?, não, pra ela, chave mestra seria o diabo, com certeza, o oratório não tinha espaço pra mais nenhuma grande virtude, por menos que fosse o santinho, santo antônio olhando por sobre os ombros de são benedito, de são roque, são geraldo pisando o cachorro que trazia o pão na boca, são francisco de mão quebrada, com um pombo solto, meio estropiado, também,  desasado de um lado, manco de voo, de vez em quando entrava correndo no quarto, ela me chamava gritado, o assoalho se movimentava um pouco mais e o pombinho caía, ela ficava fula, eu dizia, pro pito ser menor, a pombinha avoou, vovó, a língua enrolava, ela não ria, mas também não tentava despregar minhas orelhas, o que já era uma bênção vinda de sua brabeza diária, ela, então, abria a porta do oratório e, não sei como, enfiava a mão por entre o povaréu sem empurrar ninguém, sem dar safanão em santo, eu torcia, confesso, pra ver o dominó de imagens, os primeiros enfiando a cara sonsa no vidro, mas o quê?, ela pegava o pombo com a ponta dos dedos e o recolocava no lugar, apoiando sua única asa no ombro de são sebastião, que devia fazer aquela cara de cansaço por causa do passarinho pesando, o braço levantado na altura certa, uma flecha escorando o pouso, havia outros santos, não me lembro de todos, são martinho, por exemplo, são josé, e por aí vai, ela me chamava para rezar, e não havia desculpa, rezar e rezar com ela, os olhos em jesus crucificado, reinando sobre aquelas cabeças todas, e, por incrível que pareça, ocupando a posição mais confortável do oratório, pensava isso comigo mesmo, na época, tenho certeza disso hoje, quando pego o metrô às seis da tarde, as santas ao fundo, uma sagrada família na fronteira entre homens e mulheres, nesse caso concordo com vovó, não ficava bem a mistureba, como o perdão da imagem, santo encoxando santa, imagine, era mais fácil vovó ter um treco, então todas lá no fundo, santa terezinha, santa bárbara, nossa senhora de fátima, de lurdes, do perpétuo socorro, santa edwiges, santa luzia, e o penico dela sob  a cama, com as flores decalcadas no esmalte esfolado, expondo, como os santos, chagas negras de metal, penico no soslaio da oração, como a descoberta de um segredo, de sua intimidade resguardada a chave…”

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