MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

28/07/2013

Destaque do Blog: SÚPLICAS ATENDIDAS

Mas agora, disse ela, como quem volta ao que interessa, me diga o que você espera da vida, além de fama e fortuna, que são o óbvio. Eu respondi: Não sei o que espero. Sei o que eu gostaria. Eu gostaria de ser adulto.”  (Truman Capote, Monstros Imaculados)

 CAPOTE CAPOTOU?

      No Brasil existem algumas lacunas editoriais difíceis de explicar (Henry James que o diga). Mesmo com o sucesso  de A sangue frio & Breakfeast at Tiffany´s- Bonequinha de Luxo (por sinal, grandes obras literárias, antes de qualquer coisa), e com o pequeno volume do conjunto da obra de Truman Capote (1924-1964), há livros dele que nunca foram traduzidos por aqui, salvo engano: os seus dois primeiros romances, Others voices, others rooms (em Portugal, Outras vozes, outros lugares, mas também poderia ser “Outras terras, outras gentes”, aproveitando o verso proverbial), de 1948, e o encantador A harpa de ervas, de 1951. Pelo menos, agora temos uma edição (pela L&PM) de seu romance inacabado, ANSWERED PRAYERS-SÚPLICAS ATENDIDAS (não seria melhor  “Preces atendidas”, mesmo porque existe um livro de Danielle Steel com o título escolhido?), na tradução cheia de escorregões e soluções ruins de Guilherme da Silva Braga (a L&PM faz um trabalho fantástico de divulgação de um leque amplo de títulos para o leitor de qualquer nível aquisitivo, contudo não se pode dizer que exija muito capricho dos seus tradutores, como já pude comprovar muitas e muitas vezes)

´Capote começou a pensar em SÚPLICAS ATENDIDAS  logo após atingir o auge do sucesso com A sangue frio (nós sabemos o que lhe custaram esses anos envolvido com o livro devido às produções biográficas que trataram exautisvamente do assunto, o sonolento Capote & o ótimo Confidencial). Ele pretendia um vasto painel das mazelas e do avesso dos ricos e famosos com os quais convivia e que se aproximasse do microcosmo proustiano de Em busca do tempo perdido. Contrariando seus editores, ele publicou alguns capítulos do livro na revista “Esquire”, em meados dos anos 70 (apos anos adiando a publicação do livro, sempre negociando novos prazos) e foi execrado e transformado em inimigo público número um daquela gente toda. Por quê? Ele nem se deu ao trabalho de fazer o chamado “roman a clef”, o romance com pessoas reais aparecendo sob nomes que as disfarçassem, não, ele deu nome aos bois, contando as fofocas, os disse-me-disse, o que corria à boca pequena e à socapa E usou um tom venenoso, deletério, transformando todo aquele mundo numa espécie de caverna de monstros (não à toa, o primeiro capítulo tem o título de Monstros imaculados).

No final, quando ele morreu, em  1984, todo o material prometido reduzia-se a três capítulos (a edição da L&PM tem 173 páginas). Nada mais foi encontrado (as hipóteses a respeito do assunto podem ser encontradas no Prefácio de Joseph M. Fox, para a edição póstuma de 1987, essa mesma que levou vinte e dois anos para chegar até nós).

Portanto, qualquer avaliação de SÚPLICAS ATENDIDAS tem de levar em conta o seu inacabamento. Todavia, é quase impossível não comparar o resultado com outros que ficaram inacabados, como A morte feliz, de Camus, Um sopro de vida, de Clarice Lispector, Entre os atos, de Virginia Woolf, para não falar das grandes obras inacabadas que fazem parte da nossa imaginação (a de Kafka, a de Musil, O livro do desassossego, de Pessoa, até mesmo Em busca do tempo perdido, que nunca teve uma última demão). Como, apesar da ligação entre eles, Capote parece ter trabalhado em cada capitulo como um bloco separado, independente, pronto para publicação, não dá para evitar a sensação de que ele não se preocupou com o acabamento  de cada um deles, o que é mais preocupante do que a falta do conjunto. Cada um por si tem altos e baixos gritantes, que causam espanto ao leitor habitual do autor de Música para camaleões (meu livro favorito dele, para mim uma das maiores obras do século XX; aliás, Capote é o mais perfeito dos autores norte-americanos da 2a metade do século passado).

O  tecto é uma narrativa de P.B. Jones, que está de volta a Nova York após anos de aventuras oportunistas na Europa e que escreve seu relato instalado na ACM  (“os corredores murmuram com as passadas abafadas de cristãos libidinosos; se você deixa a porta aberta, isso em geral é entendido omo um convite…”), aos 35 ou 36 anos (a imprecisão é devida às circunstâncias obscuras do seu nascimento).

Com o sonho de ser escritor, logo cedo Jonesy começou a se prostituir, já quando trabalhava como massagista, e continuou na sua condição de michê , mesmo depois de publicar o primeiro (e único) romance, queimando-se no meio editorial nova-iorquino por abandonar a mulher (mais velha) com a qual passara a viver, uma personalidade marcante daquele meio. Na Europa, após inúmeras peripécias (e “quatorze mil dólares” de capital acumulado), ele conhece a (segundo o texto, porque o leitor não sente nada disso) Kate McCloud. É esse relacionamento e as conseqüências (ao que tudo indica, criminais) que deveria constituir o centro anedótico da narrativa de Jonesy, só que nunca saberemos, já que ele não existe, apenas a cena em que os dois se conhecem, e as inúmeras referências a ela. Portanto, falta a espinha dorsal do enredo de SÚPLICAS ATENDIDAS.

Em Nova York, Jonesy volta a trabalhar como michê para a cafetina Victoria Self. Um dos seus clientes, embora não nomeado, é visivelmente Tennessee Williams, descrito de uma forma aniquiladora. No último capítulo “sobrevivente”, Jonesy acompanha uma amiga da alta sociedade ao La Côte Basque, lugar chiquíssimo de Nova York, onde os clientes são passados em revista, com todos os seus podres. Mas para o brasileiro de classe média de 2009, todas as fofocas malévolas e podres e lados b que avultam no texto não causam nenhum terremoto,  e boa parte do que se revela ali se mostra datado, letra morta, já que nenhuma personagem ganha relevo suficiente.

O que mais me surpreende em Capote é o seu moralismo. Eu já afirmei, no meu post em que destacava algumas efemérides literárias ligadas ao século XX, que a mãe dele, Nina (que abominava ter um filho gay e tinha vergonha explícita do seu afeminamento), fez um ótimo trabalho para incutir culpa e automortificação em Capote. Em SÚPLICAS ATENDIDAS, ele parece se comprazer em se mostrar (e mostrar os conhecidos, e principalmente os gays) em contornos sórdidos: todos chafurdam na lama, todos são explorados ou exploradores, e a lealdade é pra lá de duvidosa… Não há dúvida de que esse ingrediente maldoso e essa psique tortuosa fazem parte do chamado mundo gay, todos nós conhecemos esse aspecto. O que espanta é que parece ser a única coisa que emergiu das vivências de Capote, toda aquele outro lado tão lírico e tão peculiar, que faz a delicia do leitor das histórias curtas (e quem esquece Breakfast at Tiffany´s?) e de A harpa de ervas, só não desapareceu porque há lampejos, lampejos lindos, que atravessam o livro (e não se pode deixar de lado que há coisas engraçadas e bacanas no meio das maldades, dos retratos derrisórios, nas anedotas engafarradas por anos na adega Capote prontas a serem servidas). No fundo, o estilo do romance manqué de Capote me parece de um discípulo de Louis-Ferdinand Céline, aquele terrível autor francês, que nas suas obras-primas Viagem ao fim da noite, de 1932, e Morte a Crédito, de 1934, descrevem a existência como um fardo de sordidez e canalhice, num estilo vulcânico, aos borbotões: “contra a abominação de ser pobre, é preciso, vamos confessar, é um dever, experimentar tudo”, lemos em Viagem ao fim da noite, ou ainda: “nus. É assim que a gente deve se habituar a imaginar desde o primeiro contato os homens que vêm nos visitar; os compreendemos bem mais depressa depois disso, distinguimos de imediato em qualquer criatura sua realidade de gigantesco e ávido verme. É um bom truque de imaginação. Seu imundo prestígio se dissipa, se evapora. Nu em pêlo, só resta em resumo diante de nós um pobre saco vazio despretensioso e cheio de si que se esforça em tartamudear num gênero ou noutro” ou ainda: “Indiscutivelmente haveria que fechar o mundo por duas ou três gerações pelo menos se não existissem mais mentiras para contar. Não teríamos mais nada a nos dizer, ou quase. Na literatura norte-americana, houve um discípulo de Céline, Norman Mailer. E o que sentia, lendo SÚPLICAS ATENDIDAS,é quse uma paródia do estilo de Mailer, ou então um Mailer que escrevesse parodiando o universo e o imaginário de Capote. O resultado saiu muito estranho.

Não obstante, nenhum característica do livró é mais discutível ou mal solucionada do que seu próprio narrador-protagonista.  Capote fez dele ao mesmo tempo um alter ego e um catalisador de experiências, por meio da michetagem, que é mais ou menos correspondente ao pícaro (sem trocadilhos)  dos romances do tipo, que atravessam vários escalões da sociedade em suas aventuras. Mas, por alguma estranha razão, o autor (Capote) se esquece do physique de role básico do seu herói, que é essencialmente gay, e faz surgir diante de nós um hetero, apaixonado por Kate McCloud, um michê garanhão ativo, o que não convence ninguém, e falseia completamente os rumos da narrativa . Que Jonesy seja fascinado pelo mundo das mulheres (e que não o é?), tudo bem, mas que ele nos venha com ereções, tesões incontroláveis, disposições de cavaleiro andante,etc, nos faz rir e debochar.

Diálogo em torno de uma tradução

 

No meu post sobre Súplicas Atendidas, de Truman Capote,  (VER  https://armonte.wordpress.com/2013/07/28/destaque-do-blog-suplicas-atendidas/)

eu afirmava que a tradução de Guilherme da Silva Braga  era “cheia de escorregões e soluções ruins” (estendendo o reproche a uma parte dos tradutores da L&PM). Com toda a razão, o referido tradutor se referiu ao tom genérico e vago do meu comentário. pedindo que eu apontasse exemplos:

“Olá, Alfredo!

Não nos conhecemos, mas achei no seu blog uma referência à minha tradução “cheia de escorregões e soluções ruins” do livro Súplicas atendidas, do Truman Capote.

Como a crítica foi feita nos termos mais genéricos possíveis (sem um único exemplo) e é dirigida não só a mim mas todos os tradutores da editora, gostaria se possível que você me apontasse alguns desses deslizes para que eu possa analisá-los e comunicar à L&PM qualquer mudança pertinente. “(26.01.10)

Não me fiz de rogado, é claro, e logo enviei uma lista de trechos, expressões e soluções que me desagradaram ou me pareciam estranhos:

… em alguns casos, talvez a revisão tenha falhado também, acredito que você também não é responsável pelo título: “Preces atendidas” seria mais exato, por causa da esfera religiosa da citação e porque todo o mundanismo  do livro se contrapõe a ela, num sentido muito moralista;

 
na pág. 25 aparece “Hadrian”, quando o correto já que é o costume seria “Adriano”.
    Aliás, a questão de títulos e nomes de  logradouros também é muito espinhosa, poderia ter sido unificada, e unas notas de rodapé, ou esclarecendo o título ou o significado que teriam em português, ou traduzindo, e em notas, colocando o original.  Por que deixar, na mesma pág. 25, em inglês os títulos dos contos de P.B.Jones? (“Suntan” e “Massage”; e na pág. 28, “Many Thoughts of Morton”)?, por que manter “upper Eighties” (p. 28) ?
na pág.30- Nuriêv não seria Nureyev ?;
 
há sempre uma preguiça em não traduzir trocadilhos e jogos de linguagem- na pág. 32, por exemplo, o jogo com Billy, o nome do reverendo sedutor e o “billy” para o pênis, foi muito mal resolvido.
 
As palavras garoto e menino, em várias passagens (p.34 ou p.37, por exemplo)´ficam muito aquém do significado sexual que lhes é conferido. No Brasil, temos o termo “bofe”, que cairia muito melhor. Aliás, esse termo, “bofe” é utilizado de maneira singularmente inadequada para um cliente de Jonesy na pág. 101 (um cliente de michês jamais seria um “bofe” na nossa cultura gay);
 
há os trechos que ficaram esquisitos ou meio sem sentido (ou eu fui muito burro e não consegui captar o sentido).: É estranho o “venho existindo” da pág. 19 (“na ACM de Manhattan onde venho existindo há um mês”);  na página seguinte: “Meu nome é P.B. Jones e estou com dois corações” (?).
   A caracterização do escritório de Boatwright (p. 24):  “O escritório tinha uma atmosfera  meio de negócios (!?).; parecia um salão vitoriano”. “Meio de negócios”?
 
 na pág. 29, “Faulkner, aficcionado em Lolitas”, a preposição está muito esquisita, não? e mesmo o termo “aficcionado”
 
na pág. 34- “depois de exagerar no vinho tinto e no amarelo”- não consegui entender esse “amarelo”.
na pág. 39 e em várias outras o termo “cafetão” não é muito exato, já que se trata do “bancador” do michê.
 
na pág. 40, um trecho estranhíssimo, que me parece truncado: “Denny prestava-se a um único papel, o de Amado, pois era tudo o que ele jamais tiinha sido [ já essa formulação de saída é muito estranha; a gente entende, mas é estranha]. Assim, exceto pelos  eventuais flertes com o comércio marítimo, o Amado tinha sido Watson” (!?).
 
na pág. 41, o que seria exatamente “o jeito bondoso e BIOLÓGICO”  de Jean Connoly?
    E na mesma página, que raios é um “cenografista”, função de Christopher Isherwood em Hollywood?
 
na pág. 47, mais um jogo de palavras perdido, que ficou forçado, porque “bastardo” não é um xingamento comum em português, mas sim em inglês:  “sabia que eu era um bastardo mas e me perdoava porque afinal de contas eu tinha nascido bastardo”. O primeiro bastardo tem, na verdade, acepção de canalha, filho-da-puta, como você bem sabe, e o trecho empastelou isso.
 
na pág. 52 eu não consegui entender o que significa “mas eu senti que ela tinha se juntado  à maioria”.
 
tudo bem que Capote cite em inglês um título de Colette, mas o tradutor brasileiro poderia procurar o título em francês de “My Mother´s house” ou indicá-lo em nota. (pág. 55)
 
na pág.61, há o seguinte trecho descuidado: “ele me deu um MURRO na cara, um GOLPE DE CARATÊ que deu a impressão…” etc etc. Não entende de caratê, mas creio que “murro” não seria o termo exato.
 
Não consigo imaginar ninguém falando (pág. 65): “Eu não levo. Posso meter. Mas não levo”. O cara diria “Eu não dou” ou algo similar, mas “não levo”, parece legenda de filme pornô, nas quais em vez de “me chupe” colocam “sugue meu pau”, coisa que ninguém fala na vida real.
 
Na pág. 76- Outra preposição e regência estranhas: “Por muitos anos fui parcial a Veneza” (e na página seguinte outro título de Jonesy que foi mantido em inglês).
 
         Em conversas com amigos que leram sua tradução, alguns estranharam outras coisas, que eu não tinha sacado, por exemplo  o termo “lambedora de carpetes” (pág. 79), que soa estranho em português.
      Espero, assim, ter escapado dos ´termos mais genéricos possíveis`, e sempre sublinhando que se trata apenas de opiniões”. (28.01.10)
       Fiquei impressionado com a presteza, a conscienciosidade e o brio profissional com que Guilherme me respondeu, quase ponto a ponto, e me envergonhei de não ter sido mais preciso no meu comentário sobre a tradução. Sua resposta também mostra como se pode discordar civilizada, porém incisivamente, de outrem:

“Agradeço muito os comentários mais detalhados enviados por email. Acho que tem um pouco de tudo: críticas em que você tem razão, críticas em que se trata de simples gosto pessoal (onde “gosto pessoal” é equiparado a “bom” e “gosto alheio” a “ruim”) e críticas relativas a trechos não há erro algum ou impropriedade alguma.

Alguns esclarecimentos gerais sobre opções tradutórias: não traduzo nomes de logradouros e não ponho notas de rodapé. Há quem goste e há quem não goste, mas são opções tão válidas e defensáveis quanto traduzir logradouros ou pôr as famigeradas (e na minha modesta opinião execrandas) notas de rodapé.

Quanto a “Hadrian”, você tem toda a razão — foi um deslize e vou avisar a editora.

“Nureyev” e “Nuriêv” estão ambos corretos e dependem apenas da norma usada para se transliterar do russo, mas as formas com Y em geral são meras cópias da transliteração inglesa, enquanto as versões com I seguem uma grafia mais de acordo com a nossa língua.Compare “Dostoevsky” com “Dostoiévski” ou “Tolstoy” com “Tolstói”, por exemplo.

A suposta preguiça na resolução do trocadilho Billy/billy explica-se simplesmente porque não há trocadilho: “billy” não é gíria para “pênis” em inglês. O personagem simplesmente chama o pênis do cliente pelo nome deste, da mesma forma que se poderia chamar o pênis de um sujeito chamado João de “joãozinho” ou algo assim.

Observação de Alfredo Monte (também em função dos comentários gerados pelo post)- Na verdade, nunca pensei que “billy” fosse gíria para pênis, só achava que poderia haver uma adaptação para o português da brincadeira.

Os termos especificamente gays parecem realmente não estar de acordo. Também vou ver se resolvo isso melhor e comunico a editora.

“Estar com dois corações” é uma expressão bastante comum — ao menos por aqui (Porto Alegre) eu ouço com certa freqüência. O Google também registra mais de onze mil usos dessa mesma construção só na primeira pessoa do presente do indicativo, com o que se pode afirmar com razoável margem de segurança que se trata de expressão conhecida. Significa mais ou menos “não conseguir escolher entre duas opções por querer a ambas” (como em “Estou com dois corações — não sei se vou para a praia ou para a serra”, dando a entender que ambas opções são tão boas que é difícil escolher).

“Meio de negócios” quer dizer “mais ou menos como de negócios”, como se costuma dizer em linguagem corriqueira. Aqui já aproveito para ressaltar que esse livro destoa completamente, em termos estilísticos, de quase tudo o que o Capote escreveu — é muito mais coloquial e talvez (não sei) isso tenha afetado sua impressão a respeito da tradução como um todo. Mesmo em inglês, a linguagem do Capote deste livro pouco lembra o Capote de Bonequinha de luxo ou dos contos, por exemplo.

“Vinha amarelo” é simplesmente um tipo específico de vinho. Se chama assim mesmo em português (o Google registra cerca de 6.000 ocorrências).

O trocadilho com “bastardo”, é verdade, fica mais fraco em português. Mas simplesmente não há como resolver de maneira muito mais satisfatória — se você conhecer algum termo que queira dizer tanto “filho ilegítimo” como “filho-da-puta” na nossa língua, por favor queira me comunicar e prontamente pedirei a alteração. Esse é um exemplo bastante característico de crítica fácil a um problema tradutório para o qual uma solução ideal é absolutamente difícil de encontrar.

Sobre o livro da Collette: não há tradução para o português. Daí a opção por não traduzir (geralmente eu só traduzo os títulos de obras para as quais existe tradução, para evitar dar ao leitor a impressão — nesse caso, falsa — de que o livro existe em português).

Quanto a “não levo”, concordo que pode não ser muito comum, mas daí a dizer que não existe ou que é tradução malfeita vai um longo caminho. Uma busca por “não levo no cu” no Google, por exemplo, dá quase cem resultados.

“Lambedora de carpete” é um termo baseado na expressão bastante comum “lamber carpete” (fazer sexo oral em uma mulher, quase sempre com a implicatura de que quem faz sexo oral é também uma mulher).

Em relação às regências apontadas, você também tem razão, embora meia dúzia de erros desse tipo em um livro de 200 páginas não me pareçam justificar o emprego do termo “desleixo” em relação ao trabalho realizado. Na verdade foi o que me incomodou na sua crítica: não o fato de estar sendo criticado — o que faz parte, embora nunca seja agradável –, mas por simplesmente ver chamado de “desleixado” um trabalho que pode ter sido feito com qualquer coisa, menos desleixo.

Como você pode ler acima, pelo menos algumas das soluções criticadas com termos tão contundentes no blog são perfeitamente defensáveis e redigidas em português cursivo. Claro que daí a agradar vai um longo caminho — a meu ver, tão longo quanto o que separa a opinião perfeitamente legítima de “não gostei da tradução” ou “eu teria traduzido diferente” da opinião questionável (em vista dos argumentos acima) segundo a qual a tradução foi feita com desleixo.

Seja como for, agradeço o tempo que dedicou a essa correspondência.” (28.01.10)

Creio também (e por isso pedi permissão a ele para divulgar nossa pequena correspondência) que as nossas observações mais detalhadas serão úteis e oportunas ao leitor do livro traduzido e do meu blog.

“Oi, Alfredo!,  Se quiser postar os esclarecimentos, fique à vontade, desde que eventuais comentários em resposta sejam feitos com respeito ao meu trabalho e também ao dos tradutores em geral. Naturalmente isso não o impede de tecer mais críticas se achar que esta é a coisa a fazer — apenas pressupõe que estas sejam redigidas com o mesmo bom-senso e a objetividade demonstrados no seu email, e não nos termos genéricos e abrangentes usados anteriormente no blog. Parece-me que críticas nos moldes dessas feitas no seu email só tem a acrescentar a essa relação tradutor-leitor (você apontou erros indiscutíveis pelo menos em relação ao nome “Hadrian” e às gírias do circuito gay — que pretendo corrigir em edições posteriores –, e acredito que pelo menos um ou dois comentários meus devam tê-lo convencido de que o que parecia ser erro não era), ao passo que menosprezar o trabalho do tradutor não contribui em nada para qualquer discussão que se pretenda minimamente séria ou útil a respeito do assunto.

Se estiver de acordo, vá em frente. Fique à vontade para corrigir quaisquer erros de digitação também (notei que comi um pedaço de uma frase logo no início do meu email e escrevi “vinha” amarelo, entre outros)”.(28.01.10);acho, por essa última observação que talvez ele pense que eu tenha uma sanha assassina andando à cata de erros e deslizes; só sou um pouco detalhista demais…

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