MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

09/07/2013

Destaque do Blog: A obra-prima de uma autora incomum (“Breathing Lessons-Lições de Vida”, de Anne Tyler)

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada em A TRIBUNA de Santos, em 09 de julho de 2013)

Um quarto de século atrás, coroando uma década gloriosa na produção de Anne Tyler, aparecia Lições de Vida, com o qual ganharia o Pulitzer[1].

Porém, o lançamento do livro pela Novo Conceito demonstra à exaustão a lamentável sabotagem que ela sistematicamente vem sofrendo no Brasil, a forma apelativa como se sugere tratar-se de uma auto-ajuda ficcional ou de “ficção para mulheres”: não bastasse a editora veicular a falsa impressão de que o livro é recente, sem a menor indicação da publicação original (o leitor incauto pensará que é de 2012), na poluidíssima capa lemos sobre a romancista de A Passagem de Morgan (1980), Refeição no Restaurante da Saudade (1982) e O Turista Acidental (1985): “autora best seller pelo The New York Times”! E embaixo do título: “Uma viagem inesperada aos sentimentos há muitos esquecidos…”! Ninguém merece, como se diz.

A falta de uma revisão decente sabota igualmente a tradução de Denise Tavares Gonçalves (em geral, boa; a anterior, lançada pela Imago e realizada por Wilma Freitas Ronald de Carvalho me irritou porque, entre outras coisas, custou a se decidir quanto ao sexo da criança que é neta do casal central), com erros crassos: num dos recuos temporais da narrativa (cuja espinha dorsal transcorre num dia), evocando a escolha profissional da protagonista (cuidadora de idosos), temos pacientes macróbios que comentam “a nevasca de 1988 ou a de 1989” (pág.104), o que é inverossímil, claro, nos anos 1950 (eles evocam a nevasca de 1888 ou a de 1889)!; no diálogo a respeito dos cada vez menores trajes de banho femininos utilizados na praia: “Ah, está ficando impossível. Eu estou me virando com meu velho terninho até a moda terminar” (pág. 218)!!!?? E a frase: “Tinha um estilo nasal e inexpressivo de cantar que fazera [sic] parecer que ele estava cantando” (pág.250)!!??  O que Camila Fernandes e Tamires Cianci (respectivamente, a preparadora e a revisora do texto como pomposamente nos informa a editora) estavam fazendo enquanto Lições de Vida era reeditado no Brasil?

Já é uma infelicidade o título adotado para Breathing Lessons (em Portugal foram mais criteriosos: Exercícios de Respiração)[2]. O significado decorre de um episódio: ao assessorar a nora Fiona durante a gravidez, a intrometida Maggie Moran insiste em que ela faça uso do que aprendeu nos cursos preparatórios para o parto, recebendo uma resposta atravessada: “Aulas de respiração, por favor! Será que eles não acham que, a esta altura, eu já sei respirar?” [3]

Anne Tyler coleciona contingências e detalhes em seus textos, e eles nunca são “a mais”: aqui vemos que todo um repertório de aconselhamentos, de fórmulas, de receitinhas de como viver bem a vida em todos os seus aspectos, muitas vezes não funciona e não auxilia ninguém a “respirar melhor” nesse mundo de colisão de afetos e gerações, de padrões emocionais circulares, que fazem com que cometamos os mesmos erros.

Nem por isso Maggie desiste. Para exasperação do sisudo Ira (há 28 anos casado com ela), no dia em que eles saem de Baltimore para a cerimônia fúnebre do marido de uma antiga amiga, encasqueta de visitar (em outra localidade mais ou menos próxima) Fiona, a nora, há anos separada do filho, Jesse, para tentar reconciliar o jovem casal, e principalmente tornar a ser uma presença próxima na vida da neta, com quem não têm mais contato —por culpa daquele desencontro entre as “aulas de respiração” e o estado emocional, muitas vezes desorganizado e irracional, tão contumaz nas relações familiares, que faz com que entremos em atrito pelos motivos mais estapafúrdios e insignificantes, as famosas picuinhas.

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Além do passado que emerge nesse modesto “on the road”, o leitor vai se dando conta de que o casal Moran é tão real quanto qualquer pessoa que conheça. Os dois são inesquecíveis. Curiosamente, no final dos 40 anos (ela) e no começo dos 50 (ele), já são daquelas figuras que se cristalizaram como “pessoas de idade”, “avós”, que rapidamente queimaram (em torno da percepção que se tem deles, pelo menos) o estágio “the middle ground”, a geração do meio (como no título do romance de Margaret Drabble)[4], de todo modo uma geração descompensada, sempre meio em passo falso.[5] Quando Serena, a amiga que fica viúva, lhe diz que entrou na menopausa: “__Acredite, eu nem me preocupei. Ah, que bom, disse para mim mesma. Mais uma coisa da qual me desprender.   

           Maggie disse:

__ Eu não sinto que esteja me desprendendo; sinto que estão tirando as coisas de mim. Meu filho está um homem e minha filha está indo embora para a faculdade, e na casa de repouso estão falando em dispensar alguns funcionários…”

Em diálogos nunca menos do que primorosos, acompanhamos uma travessia pelas circunstâncias (mais do que escolhas) que moldaram o destino de ambos, numa ciranda que oscila maravilhosamente entre Bergman e a melhor sitcom (penso na encantadora e inteligentíssima The Middle, por exemplo), embora haja uma sequência —quando eles dão carona a um senhor negro—quase beirando o teatro do absurdo (na segunda parte, um ponto alto do romance, momento em que ela adota o ponto de vista de Ira). E quantas cenas incríveis, como aquela em que Maggie abre o coração com a garçonete de uma biboca da estrada, e quase que podemos medir o aborrecimento do seu cauteloso cônjuge. Aliás, para dar uma ideia do quanto de “turista acidental” tem o sr. Moran: “Ira ficou s perguntando por que Maggie sempre tinha de convidar outras pessoas para dentro da vida deles. Ela não achava que um mero marido era suficiente, ele desconfiava. Dois não era um número satisfatório para ela. Ele lembrava os desgarrados que ela havia abrigado ao longo dos anos (…) Em seu humor atual, Ira pensou que poderia incluir seus próprios filhos também, pois Jesse e Daisy não eram também estranhos? Interrompendo seus momentos mais íntimos, pondo-se entre eles dois? (É difícil acreditar que algumas pessoas tinham filhos para segurar o casamento).”[6]

Mesmo que conflitos em família sejam o que há de mais batido, sabe-se lá por qual milagre Anne Tyler faz tudo parecer novo e interessante. Talvez porque poucos como ela sabem equilibrar o gosto pelo que o cotidiano tem de mais pesadamente banal, com a capacidade de fazer sobressair o lado precário e insubstancial de toda essa materialidade, em redor da qual nos movimentamos. Isso ajuda a explicar a ênfase negativa que a palavra “comum” (na tradução anterior, “vulgar”, que não me parece reproduzir bem o escopo de preocupações tylerianas) adquire na boca da filha e da mãe de Maggie, que olham sua vida e perguntam acusadoramente como ela deixou tudo se tornar “tão comum”.

Como no final da primeira parte (Ida e Maggie foram flagrados num ato constrangedor durante as exéquias em razão das quais se deram ao trabalho de sair do seu ramerrão): “Um carro passou zunindo e Ira trocou de lugar com Maggie, colocando-a mais distante do trânsito. Agora, caminhavam ligeiramente separados, sem se tocar. Haviam voltado ao normal. Ou quase. Não totalmente. Alguma réstia de luz ou calor embaralhava a visão de Maggie e a velha casa de pedra diante da qual eles passavam pareceu tremeluzir por um momento. Ela se dissolveu numa névoa fina e brilhante, em seguida reestruturando-se e voltando a ficar sólida[7].

Lições de Vida é esse constante vaivém entre dissolução e reestruturação. E vinte e cinco anos depois continua a ser uma obra-prima. E Anne Tyler uma escritora incomum.

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TRECHO SELECIONADO

Uma das coisas que mais adoro em Lições de vida é a maneira como a bem-intencionada mas trapalhona Maggie espalha confusão à sua volta ao “interpretar” coisas que as pessoas disseram ou teriam dito, “no fundo”. É assim que ela garante que Fiona não aborte, ao comentar a intenção de Jesse de criar o filho, e do berço que ele “planejava montar ele mesmo”. Dispersivo e volúvel, Jesse tinha falado de montar um berço, mas esquecera há muito tempo.

Para convencer Fiona, Maggie pega umas peças avulsas de Ira (que está montando um varal ou coisa que o valha) e as apresenta como se fossem do berço em processo de montagem. Essa estratégia é utilizada inúmeras vezes e sempre termina em desastre:

“Fiona disse a Jesse:

__ Eu estava lá em cima caçando a minha saboneteira.  

  Maggie hesitou.

__ Saboneteira?—Jesse perguntou.

__ Eu tentei a gaveta da cômoda mas está vazia. Só achei naftalina. Você levou a minha saboneteira junto quando mudou para o seu apartamento? __ De que saboneteira você está falando?

__ Da minha saboneteira de tartaruga! Aquela que você guardou.   

Jesse olhou para Maggie. Maggie disse:

__ Lembra-se daquela saboneteira?

__ Bom, não, não posso dizer que lembro—Jesse disse, puxando um cacho da franja, como sempre fazia quando ficava intrigado.

__ Você a guardou depois que ela foi embora—Maggie disse a ele—Eu a vi com você. Tinha um sabonete dentro, lembra? Um sabonete claro, quase transparente.

__ Ah, sim!—Jesse disse, soltando a franja.

__ Você lembra?

__ É claro.   

  Maggie relaxou. Ela deu um largo sorriso para Leroy, que havia abaixado o pé e parecia insegura.

__ E onde ela está?—Fiona perguntou—Onde está a minha saboneteira, Jesse?

__Hum… a sua irmã não levou?

__Não.

__ Eu achei que ela tinha levado junto com as suas coisas.

__ Não—Fiona disse—Ela estava na sua cômoda.

__Nossa, Fiona—Jesse falou—Nesse caso alguém deve ter jogado fora. Mas olhe, se ela significa tanto para você, eu terei o maior prazer…

__Mas você a guardou para se lembrar de mim—Fiona disse—Ela tinha o meu cheiro! Você fechava os olhos e enfiava o nariz na minha saboneteira.   

O olhar de Jesse voltou-se para Maggie novamente. Ele disse:

__ Mãe? Foi isso que você disse a ela?

__ Quer dizer que não é verdade?—Fiona perguntou a ele.

__Você disse que eu fiquei por aí cheirando saboneteiras, mãe?

__ Você ficou!—Maggie disse. Embora ela odiasse ter que repetir aquilo na cara dele. Não tinha a intenção de envergonhá-lo. Ela virou-se  para Ira (que tinha exatamente a mesma expressão de choque e repreensão que ela esperava) e disse: Ele a guardou na gaveta de cima (…)

__ O que você acha que eu sou? Algum perdedor?—Jesse perguntou a Fiona.

__ Escutem aqui—Ira disse.    Todos pareceram contentes em olhar para ele.

__ Vamos esclarecer isso—ele disse—Vocês estão falando de uma saboneteira de plástico.

__ Da minha saboneteira de plástico—Fiona disse a ele—com a qual Jesse dorme toda noite.

__ Parece haver algum engano—Ira disse—Como é que a Maggie saberia de uma coisa dessas?”

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[1]  Foi a época em que a Imago diversos títulos da autora (que depois teria alguns títulos editados pela Mandarim, e depois pela Record; a Companhia das Letras lançou uma tradução de Quase Santo). Na época do lançamento de Lições de Vida fazia sucesso a linda versão cinematográfica de Lawrence Kasdan para O turista acidental. Eu já lera o romance e, ao saber do elenco (antes de ver o filme), achei estranhíssima a escolha de William Hurt e Kathleen Turner para os papéis centrais. No caso dela, foi de fato um equívoco, mas o grande Hurt tem possivelmente o maior momento da sua carreira. E até hoje, tirando o fascínio inesgotável por Corpos Ardentes, considero O turista acidental o melhor trabalho de Kasdan como diretor.
[2] Anteriormente, já tinham traduzido  o belo título original A PATCHWORK PLANET (1998) como O jogo da vida  (Mandarim, 2000).
[3] Em outro passo:
“__ Querida, acho que você não está respirando corretamente—Jesse disse a ela.
  Fiona disse:
__ Para de falar da minha respiração! Eu respiro do jeito que quiser.”
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[4] Esse “envelhecimento”, por assim dizer, de pessoas já maduras, mas não velhas, por conta da condição de avós, era uma realidade mais palpável à época do lançamento do romance; mas, pensando bem, ainda hoje encontramos exemplares parecidos com os Moran, pessoas que parecem já ter completado o ciclo das suas vidas, e ficam em frente da televisão vendo a família crescer e multiplicar.
[5]  Até hoje, essa geração do meio não conquistou realmente nem o prestígio e status da Terceira Idade (pelo menos, é o que se apregoa; se é fato…) e nem a ascendência que a adolescência, em todos os seus aspectos, adquiriu na cultura ocidental.
[6] Diga-se de passagem, a família de Ira é tão esquisita e disfuncional quanto a do protagonista de O turista acidental. Tyler nunca cai no erro de querer transmitir o cotidiano através de famílias “normais”, “típicas”. Num passeio no qual, caracteristicamente, tudo dá errado: “A neblina amarrava-os juntos, trancava-os lá dentro, e as mãos de suas irmãs o arrastavam para baixo, como as vítimas de afogamentos arrastam quem tenta resgatá-las. E Ira pensou: Ai, meu Deus, estou preso nesta armadilha com estas pessoas por toda a vida…”. Mais adiante na narrativa, porém: “Ele soube, então, qual era o verdadeiro desperdício; é claro, meu Deus. Não era ter que sustentar essas pessoas, mas deixar de perceber quanto ele as amava. Ele amava até seu desgastado, derrotado pai, até a memória de sua pobre mãe, que sempre fora tão linda e nunca percebera isso, pois sempre que se aproximava de um espelho, ela puxava um lado da boca para cima, desfigurada pela timidez. Entretanto logo em seguida essa sensação se desfez (provavelmente no instante seguinte, quando Junie começou a implorar para ir embora) e ele esqueceu o que havia aprendido…”
[7]  Há um momento que serve quase como uma síntese dos seus romances (dessa fase, pelo menos): “Um dia, quando voltei do mercado—Serena disse—Max não estava em casa. Era sábado e, quando eu saí, ele estava trabalhando no jardim. Bom, não dei muita importância para aquilo e comecei a guardar as compras. Então, de repente, eu olho pela janela e vejo uma mulher totalmente desconhecida conduzindo Max pela mão. Parecia que o guiava; dava para notar que ela pensava que ele tinha alguma deficiência ou coisa assim. Eu saí correndo para fora. Ela disse: Ah, ele é seu? Se era meu? Como quando um vizinho vem arrastando seu cachorro todo sujo e pergunta: Ele é seu? Mas eu disse sim. Acontece que essa mulher o encontrou vagando pela Rua Dunmore com tesouras de poda na mão, parecendo não saber para onde estava indo. Ela perguntou se poderia ajudar e tudo que ele disse foi: Não estou bem certo, não estou bem certo. Mas ele me reconheceu quando me viu. Seu rosto se iluminou e ele disse a ela: Lá está a Serena. Então, o levei para dentro e o fiz sentar. Perguntei o que havia acontecido e ele disse que tinha sido uma coisa muito estranha. Ele disse que, do nada, se viu andando na rua Dunmore. Então, quando a mulher o conduziu de volta por onde ele tinha vindo e ele viu nossa casa, sabia que era nossa, mas ao mesmo tempo era como se aquilo não tivesse nada a ver com ele. Ele disse que foi como se houvesse saído de sua própria vida por um minuto.  
    (…) Maggie tentava imaginar Max naquela nova versão—vago, aturdido e com os joelhos deformados, sem dúvida, como seus pacientes da casa de repouso. Porém só conseguia imaginar Max como sempre o conhecera, um jogador de futebol robusto com mechas de cabelo louro brilhante e uma cara larga, saudável e cheia de sardas; o Max que havia ficado nu ao surfar em Carolina Beach. No final das contas, ela o havia visto poucas vezes nos últimos dez anos; não era exatamente sua especialidade manter o emprego e ele havia feito sua família mudar de casa diversas vezes. Mas o que ficara na mente dela era a imagem de um eterno garotão. Era difícil imaginá-lo envelhecido.”
Outro momento maravilhoso e esclarecedor acontece quando a irmã de Fiona vem buscar as coisas dela na casa dos Moran e só leva o que é bom, descartando tudo o mais: “Maggie disse:
__Ah—e deixou a blusa de lado. Ela sentiu uma pitada de inveja. Não seria maravilhoso guardar somente  que era de primeira, puro e genuíno, e deixar para trás todo o resto?”
VER TAMBÉM NO BLOG:

27/12/2012

SOLIDÃO EM FAMÍLIA À MODA ANNE TYLER

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 22 de julho de 1997)

 Com A Passagem de Morgan, publicado em 1980, Anne Tyler começou sua grande fase como romancista. Logo depois veio sua obra-prima, Diner at the homesick restaurant (1982), título que se presta a péssimas traduções; em seguida, seu romance mais conhecido, O turista acidental (ainda mais devido ao belo filme de Lawrence Kasdan, um dos raros casos em que o resultado da adaptação é tão bom quanto o da fonte original), finalmente, o Pulitzer por Lições de vida.

Agora em 1997, A Passagem de Morgan é publicado no Brasil (com tradução de Pinheiro de Lemos) com uma capa que nos mostra um sujeito que parece ter fugido de Muito além do jardim, aquela sátira onde Peter Sellers fazia um idiota viciado em tevê que era confundido com um sábio. Esse é o grande perigo com relação ao personagem central do livro, Morgan: tomá-lo como uma caricatura apenas. Como ele é muito esquisito e idiossincrático, assim como o professor Pnin do romance de Vladimir Nabokov, a tentação é vê-lo como uma figura folclórica, que serviria tranquilamente para overacting de algum ator hiper-histriônico tipo Robin Williams (o Malcolm de O turista acidental, que também é muito esquisito, ganhou a sorte de William Hurt tê-lo interpretado com todo o requinte do seu bom senso e genialidade de ator).

Morgan é um pai de família (esposa e SETE filhas) de Baltimore (cidade que está para Anne Tyler como Curitiba para Dalton Trevisan), gerente de uma loja de ferragens, que procura escapar da petrificação do cotidiano fingindo ser outra pessoa de vez em quando (além de usar roupas e chapéus estranhos). Um dia, quando uma moça entra em trabalho de parto numa apresentação de teatro de fantoches, ele se passa por médico e faz  o parto dela. A partir daí, ele passa a seguir o casal em questão, Emily e Leon (os quais trabalham justamente com fantoches), que para ele representam uma “família pura”, sem excesso de objetos, eletrodomésticos e emoções das famílias em geral.

Como nada pode permanecer “em estado puro”, Morgan acaba entrando na intimidade de Emily e Leon e eles na intimidade da família dele. Pior ainda, ele e Emily têm um caso. Isso permite a Morgan fazer a sua passagem, isto é, assumir o papel que era de Leon na sua concepção extremamente idealizado do casamento (despojado puro)  de Emily . Ele leva para a casa dela a mãe desmemoriada, a irmã neurótica, o cachorro e milhares de bugigangas. Até que um dia surge a oportunidade de realmente começar uma vida nova, em outro lugar…

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Alguns críticos acusam Anne Tyler de permanecer numa espécie de limbo agridoce, sentimentalista. Ou seja, ela escreve bem, só que não consegue ultrapassar a trivialidade ao tentar imitar o cotidiano, a vida comum de família comuns (ou nem tanto).

Quando se lê A Passagem de Morgan percebe-se o quanto essa visão crítica é equivocada. Poucos autores são tão perversos e cruéis quanto Anne Tyler, sem que ela precise chegar ao nível de taras e loucuras das peças de, por exemplo, Nélson Rodrigues. Embora se movimente pelo espinhoso emaranhado dos sentimentos familiares, a impressão que se tem é que muitos desses sentimentos são forjados e confundidos com hábitos neuróticos, com referências, com  uma idéia de realidade que as pessoas vão construindo à sua volta como uma gaiola (o que o protagonista de O turista acidental manifestava ter plena consciência, ao escrever manuais que ensinavam a pessoa a reproduzir seus hábitos cotidianos mesmo em viagem).

Para se perceber bem como, para a grande escritora de Baltimore, os sentimentos são gaiolas pré-fabricadas, muito confortáveis e cômodas, mesmo quando a pessoa parece estar vivendo num  inferno, basta ver a facilidade com que, nos seus romances, as pessoas de repente abandonam suas famílias, seus seres amados. Só que para Anne Tyler tal facilidade em abandonar vínculos não redunda em liberdade. Rapidamente somos compelidos a criar outras gaiolas, outro engradado de referências, hábitos e sentimentos.

Independentemente das questões mais incômodas que sua obra pode levantar, sempre é um prazer ver como ela consegue dar vida às famílias, às pessoas, aos ambientes. Após algumas páginas de A Passagem de Morgan é como se o leitor sempre tivesse vivido a vida da família de Morgan, ou como se tivesse sido desde a infância amigo de Emily, essa personagem admirável, cujo foco de visão sobre o mundo parece refletir, em certa medida, o pensamento da autora norte-americana. De fato, é através de Emily que Morgan (e o leitor) tem um lampejo do que é realmente a solidão em família: Morgan está passando férias na praia, com sua esposa, sua mãe, sua filha caçula. Aparece sua irmã. Ela convida Emily, seu marido, e a filha (que Morgan ajudou a trazer para o mundo). Estão todos juntos, sufocantemente juntos, mas Emily, que é quem tira as fotografias, mostra cada um deles isolado, sozinho, preso na sua gaiola de gestos, manias e trejeitos adquiridos…

VER TAMBÉM AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2010/08/05/enforcando-se-nos-lacos-de-ternura/

capa em inglês

 

     

05/08/2010

ENFORCANDO-SE NOS LAÇOS DE TERNURA

Pelo menos dois tremendos desapontamentos Anne Tyler teve de enfrentar nos últimos anos. Um, é o fato de ter sido omitida por Harold Bloom na lista final de O Cânone Ocidental, das leituras que valem a pena ser resgatadas da enxurrada anual de lançamentos; a outra: encarar as capas que os editores brasileiros colocam nas traduções dos seus romances.

Por exemplo, na tradução anterior de Escada dos Anos (editada pela Mandarim), um tal Paulo Rogério dos Santos concebeu uma mulher esvoaçante e diáfana diante de um mar douradíssimo. Lembrava aqueles comerciais do Leite Molico no qual as pessoas que o tomavam dançavam sem parar nos tetos de edifícios, como que acometidas de uma diarréia cerebral que as obrigava a um instantâneo ataque de comportamento debilóide. Pois a Record relançou o livro em nova tradução, até mais caprichada, nem por isso melhorou a embalagem agridoce com a qual insistem em sabotar um dos principais nomes da ficção contemporânea.

Agridoce? Nada mais amargo do que o saldo final de Escada dos Anos, onde a escritora que pôs Baltimore definitivamente no mapa da literatura mostra como construímos jaulas à nossa volta, mesmo que tentemos depurar nossa vida. É o que faz Delia, a protagonista. Casada, três filhos, primeiro flerta com a possibilidade de adultério com um rapaz que conhece num supermercado (o começo do livro é ótimo, uma prova do domínio absoluto de Tyler sobre o reino do diálogo). Quando está passando férias com a família, um dia sai pela praia afora, pega uma carona com um desconhecido e some, assumindo nova identidade na pequena cidade de Bay Borough, a princípio como secretária, depois como uma espécie de governanta. O período como secretária, quando Delia procura esvaziar sua antiga personalidade, seus hábitos e “sentimentos” adquiridos, é o grande momento do romance (que perde um pouco do pique a seguir): “Era curioso como a vida dava um jeito de erguer camadas de coisas em torno de uma pessoa. Ela já adquirira o abajur, porque a lâmpada no teto se mostrara inadequada para ler na cama; e guardava uma pilha de copos de papel e uma caixa de saquinhos de chá na prateleira do closet, usando até agora a água quente da torneira do banheiro; era óbvio que precisava comprar um segundo vestido. Ontem à noite, a primeira noite realmente quente do verão, ela pensara: preciso comprar um leque. Mas depois dissera a si mesma: pare com isso, pare enquanto ainda tem a vantagem”.

Logo Delia vai criar relacionamentos, repetir padrões emocionais, até o ponto em que Escada dos Anos equacionará sua nova vida com relação à antiga. Sempre com a atenção implacável, até obsessiva, de Tyler com os detalhes (roupas, objetos, gestos), atenção que supera até mesmo a maestria dos diálogos.

Talvez seja um fato incontestável que ela diluiu seu talento com cartas marcadas, já sem a força total dos romances dos anos 80 (Escada dos Anos é de 1995), que talvez fiquem como o grande período de sua obra, com títulos do calibre de A Passagem de Morgan (80), o extraordinário Refeição no Restaurante da Saudade (82), os também maravilhosos O Turista Acidental (85), que foi filmado lindamente por Lawrence Kasdan (com um William Hurt simplesmente genial), e Lições de Vida (88).

Às vezes sentimos falta também da densidade de uma Mary Gordon (Homens & Anjos) ou da voltagem emocional de uma Sue Miller (Por Amor), para lembrar contemporâneas suas. Os personagens de Anne Tyler são muito cheios de nhénhézices, tendo crises de angústia por ultrapassar um sinal vermelho (e isso foi ficando cada vez mais pronunciado nos livros mais recentes). Mas ela jamais cai no nível do mero entretenimento ou se torna uma auto-ajuda ficcional. Basta ler um trecho como o seguinte, para não haver dúvidas: “Lembro de uma fotografia que ele tirou quase no final de sua vida. Mostra sua mesa posta para a ceia de natal. O próprio Savage senta entre as cadeiras vazias, esperando por sua família. Sucessivas cadeiras, os talheres e louças na mesa, até um cadeirão de bebê, tudo arrumado. E não posso deixar de pensar, quando olho para essa foto, aposto que foi o melhor que houve naquele dia. Desse momento em diante, foi tudo por água abaixo. Os filhos e filhas chegaram, repreenderam suas crianças pelas maneiras à mesa, lembraram-se de incidentes desagradáveis ocorridos há quinze anos; e um bebê não parava de choramingar, deixando todo mundo com dor de cabeça. Só que naquele instante nada disso acontecera ainda, a mesa estava linda, uma mesa de sonho, o velho Savage sentia-se muito feliz…”

Por isso, mesmo não oferecendo mais surpresas, a autora consegue fazer de Escada dos Anos um romance em que o leitor descortina a negra realidade que existe por trás do palco de sentimentalismo no qual se desenrola a vida familiar. Os laços de ternura são também a corda onde a gente se enforca na própria emoção embargada.

(a resenha acima, publicada de forma condensada em 25 de outubro de 2008, é uma versão de outra publicada em 29 de julho de 1997, quando do lançamento da tradução editada pela Mandarim).

VER NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/12/27/solidao-em-familia-a-moda-anne-tyler/

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