MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

07/02/2010

O ESGAR DO LEITOR

annalee

   O sorriso da sociedade, de Anna Lee, utiliza um crime entre intelectuais para compor um painel da nossa belle époque (que coincidiu com as primeiras décadas da República): em 1915, o sergipano Gilberto Amado, jornalista e deputado, assassinou um desafeto, o poeta de Mato Grosso, Annibal Theophilo, no Rio de Janeiro, onde ambos viviam.

A partir desse fato, ela mostra um Rio colocado abaixo por reformas urbanas radicais, que expulsaram a população pobre do centro, iniciando-se o processo de favelização cujos resultados vemos hoje; os cafés e confeitarias, os grupos de intelectuais, as querelas entre eles, as figuras de proa (por exemplo, Euclides da Cunha, João do Rio, Bilac, Coelho Neto, Afrânio Peixoto, este último responsável pela célebre frase que fornece título ao livro). Nessa época consolidam-se, além das oligarquias republicanas, instituições como a ridícula (com a devida licença do seu genial e tão equivocado fundador, Machado de Assis) Academia Brasileira de Letras, que barrou Gilberto Amado naquela altura, mas o acolherá (e à sua nada imortal obra) na década de 60, quando ele mal lembrava do crime que cometera e do qual foi absolvido duas vezes, com uma defesa bizarra, envolvendo crises endocrinológicas que lhe alterariam o humor.

Com material tão farto e tão rico, o primeiro susto que gela o sorriso do leitor e o transforma em esgar é verificar que o livro de Anna Lee é estarrecedoramente péssimo. Mais: é uma bomba radioativa de ruindade literária cujos efeitos perdurarão talvez muito tempo após a malfadada leitura. E mais uma vez seu padrinho editorial, Carlos Heitor Cony, o mais superestimado dos nossos escritores, errou feio, como no caso da também desprovida de talento Heloísa Seixas.

Confesso, de saída, que nunca gostei do termo “jornalismo literário”. Ou há literatura, e portanto um talento único e pessoal, ou há jornalismo bem-escrito. A sangue frio é literatura, ponto. A canção do carrasco é literatura, ponto. Picture (Filme), de Lillian Ross, é jornalismo bem escrito, ponto. Anna Lee, porém, vive no pior dos mundos possíveis, uma vez que não conseguiu nem um nem outro. Sequer podemos considerar O sorriso da sociedade uma introdução ao tema, de tão mal alinhavado, confuso e rebarbativo. A pesquisa aparece de forma óbvia e rasa. O texto parece de livro escolar. Não há nenhum fato ou episódio que já não tenha sido explorado de forma melhor, e não dá para esquecer um livro esplêndido e merecidamente clássico (que Anna Lee não teve a dignidade de incluir na bibliografia, embora seja impossível que ela não tenha ouvido falar dele): Literatura como missão, de Nicolau Sevcenko, o qual aborda o mesmo período histórico, as mesmas figuras histórico-literárias.

Para se ter uma idéia do (será que é possível utilizar tal palavra sem um sorriso de mofa, mas vá lá, que a pena da galhofa é a única solução possível) “estilo” de Anna Lee, basta ler a hilariante caracterização da roda que cercava o grande (e até hoje injustiçado como poeta) Olavo Bilac: “Faziam da ficção, da poesia e das brincadeiras, sem diferença, formas de expressão da imaginação, que era bastante fértil”. Existe algum grupo literário digno desse nome que não tenha utilizado a ficção, a poesia (e as brincadeiras) como formas de expressão da fértil imaginação? Será que estamos diante de um fenômeno único? Único e ainda por cima passível de culpa: como eles poderiam utilizar, “sem diferença” coisas solenes como a poesia e a ficção e algo fútil como brincadeiras?

A certa altura, Anna Lee afirma que está tratando de um tempo “em que se matava pela letra, pela palavra. Tadinha dela, se se levasse esse preceito a sério.

(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos,  em 4 de novembro de  2006)

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