MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

15/09/2015

O “Romance da Rosa” de Audur Ava Ólafsdóttir: descobrindo a Islândia no mapa literário

audurcapa de rosa candida

[uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de setembro de 2015]

Numa matéria da BBC de cerca de dois anos atrás descobri, espantado, que a Islândia era um país prolífico em escritores. Ali se afirmava que “um em cada dez islandês publicará um livro”[1]! Até então, pelo menos para mim, o pequeno país (com 300 mil habitantes), literariamente falando, existia como o cenário da entrada para a jornada ao centro da Terra, em Júlio Verne («Desce à cratera do Youcul de Sneffels que a sombra do Scartaris vem beijar antes das calendas de julho, ó viajante audaz, e tu chegarás ao centro da Terra. Eu o fiz. Arne Saknussemm»), como o detentor de um daqueles inesperados anúncios do Prêmio Nobel, em 1955, para Halldór Laxness[2], e através de alguns bons romances policiais de Arnaldur Indridason (Cidade de Vidro, O Silêncio do Túmulo).

Esse desconhecimento multiplica o pioneirismo do lançamento de Rosa Candida (o título se refere a uma variedade rara de rosas), conquanto tenhamos de nos contentar com uma versão indireta (realizada a partir da francesa[3]). A julgar, todavia, pela tradução de André Telles, o terceiro romance da escritora Audur Ava Ólafsdóttir será um dos destaques de 2015 por seus próprios méritos, e não por qualquer apelo exótico.

É curioso que o relato do jovem Lobbi (sempre a reiterar seus 22 anos e sua inexperiência) transcorra em tempos atuais e apresente  atmosfera tão anacrônica: não há vestígio de internet ou de celulares, por exemplo, e o protagonista sai da casa paterna, depois da trágica morte da mãe (com a qual tinha forte ligação, inclusive na dedicação ao cultivo de flores—e em largo sentido, pode-se dizer que ele foi criado numa estufa), para cuidar do lendário porém deteriorado jardim num mosteiro localizado numa aldeia estrangeira com 700 habitantes, onde se fala um dialeto em vias de extinção.

Lobbi tem um irmão gêmeo que parece sofrer de um dos graus do autismo. Contudo, ele também apresenta clara dificuldade na percepção da linguagem sentimental e mesmo na comunicação simples: «__ Na rua, percebo os outros fundamentalmente enquanto corpos. Não presto sequer atenção ao que me dizem […] Às vezes julgo me resumir a um corpo, noventa e cinco por cento de mim é corpo […] O problema—digo—é que o meu corpo parece dotado de uma existência autônoma e ter uma maneira própria de pensar. Afora isso, sou um rapaz normal»

Em diversos momentos, Lobbi me trouxe à mente os narradores-protagonistas de Ricardo Lísias, curtocircuitados emocionalmente, e cuja vulnerabilidade adquire uma dimensão fisiológica:

«Como ela foi testemunha do meu sofrimento, me ajudou a vomitar e a regar as mudas, sinto-me na obrigação de lhe confidenciar alguma coisa íntima. Então pego o retrato do bebê e lhe estendo.

__ Minha filha—digo.

   Ela segura  a foto e a examina de perto.

__Uma gracinha—diz, sorrindo.—Quantos meses?

   Suas perguntas, simples e acessíveis, não exigem muito de meus conhecimentos linguísticos.

__ Sete meses exatos.

__ É mesmo uma gracinha—ela repete—, talvez  meio calva para uma garotinha de sete meses.

 Por essa eu não esperava. A gente mostra a outra pessoa uma coisa importante num momento crucial e termina levando uma rasteira.  Parece-me subitamente imprescindível que a última pessoa com quem interajo nesta vida compreenda de uma vez por todas aquela história de cabelo. Retratos enganam e cabelos de bebê louros talvez não sejam muito visíveis no primeiro ano, ao contrário das crianças  morenas, que costumam nascer cabeludas. Essas coisas ficam engasgadas na minha garganta, e só a dor e as deficiências no plano  linguístico me impedem de assumir a defesa da minha filha.

__ Ela só tem sete meses—insisto, como se isso explicasse definitivamente a calvície.

Então, mesmo o tom deliberadamente recôndito revela o esgarçamento contemporâneo dos laços, a proximidade líquida dos indivíduos, a virtualização do mundo da experiência, da realidade, o tudo-nada (tudo pode ser, como não ser):

«Só noto a câmera fotográfica depois que ela me atira um flash no meio da cara, quando estou com metade do corpo sob o edredom…

__ Queria um retrato seu, de recordação.

__Vai embora?

   Sinto como se ela tivesse apontado uma arma para mim e não uma câmera. Olho bruscamente a morte nos olhos, antes que o tiro parta. Eu também poderia ter dito: Vá em frente, atire.

__ Não—ela diz. E só.

  Tento esconder a emoção saindo da cama para vestir a calça. Mas tomo cuidado para não dar as costas para Anna, minha amada»

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Eu diria até que há um forte teor alegórico, uma atualização do Romance da Rosa, o célebre poema medieval, colocando seu jovem herói numa peregrinação, por assim dizer, em que as encruzilhadas o ajudam a se situar e esclarecer-se num mundo emaranhado e cheio de apelos contraditórios.

Viajando para fora do lar e do país natal, logo de supetão Lobbi quase tem uma experiência de morte—pelo menos, é o que ele sente (num leve efeito paródico), pois é apenas uma operação de apendicite. Isso acarretará um abalo na sua consciência corporal. No seu recolhimento (trabalhando no jardim), a aparição do bebê que gerou com uma estranha, num fugaz encontro, e a própria presença da mãe da criança, serão novas provas, desafios de apego e enraizamento, de engajamento no cotidiano e nos afetos: «sinto prazer em estar sozinho, pois a presença física de uma garota pode virar tudo de ponta-cabeça. Talvez eu não pense continuamente em sexo, mas, quando estou sozinho, me esforço em tentar apreender o laço que existe entre meu corpo e eu mesmo e entre meu corpo e o dos outros».

Mesmo com certos pontos obscuros e duvidosos (a aura mística que vai revestindo o bebê é o elemento que mais me incomoda), não há uma página em que Rosa Candida não apresente uma formulação, um detalhe, dignos de nota; e sobretudo é um romance que, contrariando seu substrato alegórico, deixa tudo em aberto. O imprevisível é uma dádiva da morte, do sexo e do corpo, tomados como aventuras individuais e não como dados da espécie ou conceitos domesticados. Em vez de um jardim simbólico, rosas que brotam de fato do solo, o qual, avessamente ao que se pensava da Islândia, território de lava e aridez, revela-se surpreendentemente fértil.

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TRECHO SELECIONADO

«Parece me olhar de outra maneia, como se tivesse algum assunto pessoal para acertar comigo. Então começo tirando meu suéter, depois desabotoo a camisa e afrouxo o cinto da calça. Assim, como se me despisse antes de ir para a cama ou estivesse no médico. Não é premeditado, na verdade não encontro explicação para ter achado pertinente me despir no meio da cozinha. Ela olha para mim e tenho a impressão de que uma outra perturbação a invade quando começo a tirar minhas roupas sem avisar […] mal começo a me despir, sei que estou cometendo um erro. Mas eu prossigo assim mesmo, como um homem que tem uma tarefa penosa e urgente a cumprir, até me ver nu em pelo, no meio de um monte de roupas, um pássaro no ninho acolchoado, um avestruz desplumado.

    Nesse mesmo instante, observo que Anna tem uma caneta na mão. É só nesse momento, e não antes, que me dou conta da possibilidade de ela estar querendo me pedir umas dicas sobre determinados termos genéticos em latim, como um colega de classe pedindo cola. Será que uma mulher que pensasse em outra coisa além de fazer anotações na margem do livro aberto à sua frente—que acalentasse, digamos, a ideia de transar com um homem—estaria  com uma caneta na mão? […]

   Seja como for, estou nu em pelo e, para fazer alguma coisa, recolho a trouxa de roupa e a arrumo na cadeira da cozinha. Por mais constrangedora que seja minha situação atual, não tenho a sensação de estar sendo ridículo. Tenho sorte de não me levar a sério, pelo menos no quesito nudez. Ajuda também o fato de o meu próprio corpo ainda me ser estranho em certa medida. De toda forma, ser homem é complicado, eu daria meu herbário inteiro com o meu último trevo de seis folhas para saber o que ela pode estar pensando […] Uma palavra e tudo está salvo. Uma palavra e tudo está perdido. Sinto calor. Sinto frio. Que palavra será suficientemente poderosa para apagar todo um corpo de homem e reverter a situação a meu favor?»

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NOTAS

[1] http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/10/131014_boom_literario_islandia_an

[2]  Há, dele, uma tradução antiga (de A estação atômica) e uma mais recente (de Gente independente, considerado sua obra-prima).

[3] Realizada por Catherine Eyjólfsson. O original, Afleggjarinn, é de 2007.

Rosseti-Roman De La Rose

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03/06/2014

A porta de entrada para o mundo do comissário Maigret: “Pietr, o letão” (ou “O assassino sem rosto”)

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“A situação era por demais teatral para o gosto dele. Teatral? Pesada, como o perfume que enchia a sala desde a entrada de Else. Acima de tudo, estranha à vida de comum. Ou, talvez, apenas excessivamente estrangeira…” (trecho de A noite da encruzilhada)

   (uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 03 de junho de 2014)

Há autores em cuja obra um determinado título é glorificado a custa dos demais. E há autores em que se verifica o fenômeno oposto: a leitura massiva parece obliterar os méritos próprios de cada realização.

É o que acontece, por exemplo, com Georges Simenon (1903-1989). São frequentes as demonstrações de admiração incontida pela prolífica série com as aventuras do comissário Maigret. Porém, poucas vezes elas são acompanhadas pela citação de títulos específicos ou pela memória da sequência cronológica em que foram publicados, desde o seu aparecimento no início dos anos 1930.

Uma grande chance para retificar essa quase indiferenciação é o lançamento (inaugurando a reedição da série), em tradução realizada por André Telles, dePietr, o letão, tido não só como a estreia do corpulento e de “lendária placidez” (“O comissário, cuja calma era proverbial na Chefatura…”), membro da Policia Judiciária francesa, como também o primeiro romance assinado pelo grande escritor belga, até então useiro e vezeiro de pseudônimos. Patrick Marnhan, na biografia O homem que não era Maigret (1992), mostrou que nada disso é necessariamente verdadeiro: Simenon gostava de embaralhar os fatos da sua existência, deixando pistas falsas em seus depoimentos autobiográficos[1].

O que não arranha em nada a importância do livro (mais conhecido no Brasil como O assassino sem rosto[2]). Mesmo que precedido por experiências anteriores com o personagem, Pietr, o letão é fundamental e inovador, uma das obras-primas de todo o ciclo.

O personagem que lhe dá o título é um chantagista e falsificador de alto nível, acompanhado de perto pelas autoridades internacionais. A Suretê francesa recebe o aviso de que ele está num trem rumo a Paris. Só que, no seu destino, ele é encontrado assassinado. Entretanto, Maigret, que fora à estação para vigiá-lo, pouco antes de se deparar com o cadáver havia visto Pietr desembarcando e sendo encaminhado para um cinco estrelas, o hotel Majestic. Então, quem seria o morto? Aquele sobre o qual recebera o aviso da Interpol ou um sósia?

No Majestic, aquele-que-pode-ser-ou-não Pietr priva da amizade de um casal norte-americano podre de rico, como se diz, e ele e o marido vão ter o estranho hábito de desaparecer por algum tempo. Na investigação dos seus movimentos, um auxiliar de Maigret, Torrence, é assassinado também e Maigret —que guiado por descobertas científicas pré-CSI, nem por isso menos eficientes, viaja até a Normandia, descobrindo uma outra vida do letão, se é que ele é mesmo— sofre um atentado, ficando gravemente ferido.

Talvez seja difícil para o leitor de hoje (bombardeado com tantas séries policiais) avaliar a originalidade do enredo e da narrativa. Mas mesmo com a distância temporal e a saturação com tramas do tipo, ainda assim é possível perceber a sua densidade e seus meandros surpreendentes: trata-se do (cada vez mais) raro caso de um relato de mistério no qual é muito difícil prever o que virá a seguir.

assassino sem rosto

E além do mais há Maigret! Nas primeiras páginas, ele é caracterizado da forma como se cristalizaria sua reputação: “O olhar que se abateu sobre ela era puro Maigret! Que calma! Como se não escutasse nada além do zumbido de uma mosca! Como se tivesse à sua frente um simples e banal objeto”.

Só que, por efeito do choque da morte de Torrence (além de levar um tiro), em boa parte do entrecho ele se mostrará exatamente o oposto, mais frenético e ansioso: “Deixara de ser o monobloco granítico, formidável, que gostava de afrontar os adversários com sua presença”. E essa reviravolta íntima terá forte efeito sobre a forma: Pietr, o letão, é um romance progressivamente febril porque parece que, a certa altura, Maigret não conseguirá nunca mais parar e descansar, mesmo que fisicamente exausto, mesmo que quase desfalecendo, até chegar ao fim dos fatos e a uma resolução do crime. Poucas vezes, “ir até o fim” teve um sentido tão físico e palpável na ficção, o que é bem diferente da mera ação contínua e ininterrupta (que sempre resulta um tanto cansativa) de um romance “noir” mais superficial, pois adere completamente ao personagem (nem por isso, o mundo exterior, a burocracia policial e as diferenças de classe—como vemos no Majestic—deixam de ser realçadas, veja-se a reação de uma hóspede a um derruído Maigret: “Deixou-se cair na cadeira de vime onde sentara pela manhã. Um casal, formado por uma senhora já madura e um homem mais jovem com ares de dândi, se levantou na mesma hora e, enquanto manipulava nervosamente o lornhão, a mulher comentou, de maneira a ser ouvida: Esses hotéis estão ficando impossíveis…Olhe só para isso…”).

Simenon conseguiu já de saída uma alquimia que parecia impossível: juntar uma das matrizes do romance policial, desde Poe e Conan Doyle, o jogo gato-rato entre um investigador e um criminoso (vistos como adversários e pares intelectuais), aquela via cerebral  que fundamenta muito do fascínio detetivesco , a uma via expressionista, com um vertiginoso aprofundamento dos vilões, de uma forma que eles vão se tornando figuras quase dostoievskianas (e bem menos vilões do que a princípio), que relativizam a “autoridade” dos seus perseguidores, no sentido moral e metafísico, ainda que não no plano jurídico. O que já está inscrito no desdobramento incessante da figura de Pietr, como sintetizado num trecho digno de A morte e a bússola (Borges):

“Maigret pedira um vermute. Naquele bar minúsculo, ele parecia maior e mais corpulento do que em outros lugares. Não desgrudava os olhos do letão.

    De certa forma, vivia duas cenas ao mesmo tempo. Tal como antes, as imagens se superpunham. A sórdida birosca de Fécamp esgueirava-se por trás do cenário atual. Pietr se duplicava. Maigret o via ao mesmo tempo no terno pêssego e na gabardine surrada (…) Ambos confrontavam um espelho, e era em sua água embaciada que se estudavam…”

Não por acaso, os “malfeitores” são oriundos do Leste Europeu[3] (e suas fronteiras móveis ou ambíguas), fazendo o diabo na pátria cartesiana. E muito menos por acaso ainda um juiz deixará escapar um desabafo bem significativa: “Que diabos esses estrangeiros vêm fazer na nossa casa?”.

Se pegarmos outros romances dessa primeira leva de aventuras maigretianas (como A noite da encruzilhada) veremos que estrangeiros instáveis sempre estão na raiz da trama. E, por outro lado, há o mergulho na França “profunda”, como acontece em Pietr, o letão na investigação pela Normandia (onde ocorrerá inclusive o clímax) e, logo a seguir, em O cavalariço da Providence (ou A barcaça da morte), com sua alucinante ambientação numa terra remota de canais navegáveis, onde indivíduos regulam suas vidas ao ritmo das aberturas e fechamentos de eclusas em meio a uma paisagem rústica e provinciana. E nos dois vetores do universo de Simenon o “fio vermelho do crime entremeando-se na meada cinzenta da existência”[4].

Em tempo: apesar da competência habitual de André Telles, houve alguns cochilos na revisão, entre eles: na pág. 36, lemos “A sra. Swaan não mora em Fécamp” (na verdade, é o sr. Swaan[5]); na pág. 55, lemos: “Saberia que era inatacável?”, mas julgo ser melhor, e mais compreensível no contexto,  a solução encontrada em O assassino sem rosto: “Por acaso se julgaria inatacável?”; na pág. 109, lê-se: “O comissário sentia ser o momento para palavras ociosas”; não, não, não, é o contrário, como bem entendeu Áurea Weissenberg, que assim traduziu: “O comissário sabia que não era hora de falar sem refletir” (e lembrando de como se dava a alquimia da relação entre Maigret e seu auxiliar Torrence: “Haviam participado de inúmeras  missões, sem pronunciar uma única palavra em vão”).

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TRECHO SELECIONADO

Em todo malfeitor, em todo bandido, há não só um homem, como acima de tudo, um jogador, um adversário, e é para este que a polícia volta preferencialmente os olhos, é a ele que, em geral, ela ataca.

    Um crime é cometido, um delito qualquer? A luta é travada em bases mais ou menos objetivas. Problema com uma ou várias incógnitas, que a razão busca elucidar.

   Maigret fazia como os outros. Como os outros, recorria às extraordinárias ferramentas de que Bertillon, Reiss e Locard dotaram a polícia e as quais constituem uma verdadeira ciência.

    No entanto, o que procurava, esperava, espreitava acima de tudo era a “brecha”. Em outras palavras, o momento em que, por trás do jogador, surge o homem.

   No Majestic, era o jogador que ele tinha a sua frente.

   Ali, pressentia outra coisa. A vila pacata e confortável não fazia parte dos acessórios da luta travada por Pietr, o letão. Aquela mulher e, principalmente, aquelas crianças que ele vira ou ouvira pertenciam a outra ordem material e moral.

   Era por isso que aguardava, mal humorado, vale dizer, pois apreciava demais sua grande estufa de ferro e seu gabinete com cervejas espumantes sobre a mesa para não se sentir infeliz sob aquele aguaceiro hostil…

(na tradução de André Telles)

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Em todo malfeitor, em todo bandido, existe um homem. Mas existe também, e especialmente, um jogador, um adversário. É este que a polícia se sente tentada a descobrir e é a ele que em geral ataca.

   É cometido um crime ou delito qualquer? A luta trava-se com base em dados mais ou menos objetivos. Problema de uma ou várias incógnitas, que a razão tenta decifrar.

   Maigret agia como os outros. E como os outros utilizava-se dos extraordinários instrumentos que os Bertillon, os Reiss, os Locard haviam colocado nas mãos da polícia e que constituíam uma verdadeira ciência.

   Mas procurava, aguardava, espreitava principalmente a “brecha”, ou o momento em que, por trás do jogador, surgiria o homem.

   No Majestic, estivera diante do jogador.

    Aqui, pressentia outra coisa. A residência tranquila e ordeira não fazia parte dos acessórios da luta travada por Pietr, o Letão. A  mulher e as crianças entrevistas e ouvidas pertenciam a outra ordem material e moral.

   E era por isso que aguardava de mau-humor, aliás, pois apreciava demais a sua grande estufas de ferro fundido, o seu gabinete, com cervejas espumantes sobre a escrivaninha, para não se sentir infeliz sob aquela pegajosa tempestade…

(na tradução de Áurea Weissenberg)

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NOTAS

[1] Marnhan cita extensamente dois depoimentos de Simenon (um de 1966; outro, de 1979) sobre como surgiu a figura de Maigret e as circunstâncias (local, época do ano, etc) da escrita do romance em que teriam começado suas aventuras. Mas, segundo o biógrafo:

“Na verdade, Pietr-le-letton não foi o primeiro Maigret; não foi o primeiro livro publicado sob o nome de Simenon; não foi escrito em Delfzijl; e não foi o primeiro livro em que apareceu o comissário Maigret (…) embora Pietr-le-letton fosse o  primeiro Maigret propriamente dito a ser escrito, provavelmente em Paris no verão de 1930, e o primeiro a ser aceito, um detetive corpulento com um cachimbo aparece pela primeira vez em L´amant sans nom… escrito em 1929 e publicado por Arthème Fayard… No ano seguinte, Fayard publicou Train de nuit (também escrito em 1929), em que aparece um ´comissário Maigret´, pertencente à brigade mobile de Marselha, um homem calmo e que mostra compreensão com os criminosos. Foi este o livro na verdade escrito em Delfzijl, em setembro de 1929, quando o Ostrogoth [barco de Simenon, a bordo do qual ele afirmava ter criado Maigret e Pietr, o letão] estava em doca seca para recalafetagem. Mas não foi escrito nas profundezas do inverno, e nem mesmo no Ostrogoth, e sim numa barcaça vizinha, abandonada, onde Sim [enon] instalara uma grande caixa para a máquina de escrever, uma menor para sentar-se, e duas menores ainda para os pés. Maigret apareceu em seguida em La femme rousse, escrito pouco depois de Train de nuit, quando o Ostrogoth já chegara a Wilhelmshaven; mas neste, Maigret tinha um papel menor em relação ao inspetor seu subordinado, Torrence, que também estivera em Train de nuit; contudo, La femme rousse…foi recusado pela Fayard e só saiu em 1933, pela Tallandier.

   Em seguida veio o primeiro livro de Maigret, onde o comissário era o personagem central, e Torrence seu auxiliar. Maigret era enorme, tinha um cachimbo, um chapéu-coco, um caporão pesado e uma estufa… era casado, morava no Boulevard Richard-Lenoir,  e simpatizava com uma jovem envolvida com o crime. Esse livro, intitulado La Maison de l´inquietude, também foi escrito no frio de um inverno do Norte, mas em Stavoren, na Friesia, não em Delfzijl, e foi de fato mandado para a Fayard, que mais uma vez o recusou. Por isso, Simenon enviou-o para a revista L´oeuvre, que o publicou em série a partir de primeiro de março de 1930, antes de Train de nuit e La femme rousse.

   Todos esses romances foram recusados inicialmente. Todos eram mais experimentais e populares do que verdadeiros ´Maigrets´ , mas em qualidade era melhores que qualquer outro que Sim tinha escrito antes (…) Pietr-le-letton foi o primeiro Maigret no sentido completo, não apenas com o personagem, mas no estilo. Nessas circunstâncias, dificilmente surpreende que Simenon sempre afirmasse ser esse o primeiro Maigret. Na verdade, ao contar como inventou Maigret, ele embelezou a história como sempre fazia, lembrando parte das divertidas circunstâncias da viagem do Ostrogoth , quando escrevia ´pré-Maigrets´, e atribuindo tais incidentes a um livro que só escreveu ao retornar a Paris…” (utilizo, com ligeiras adaptações, a tradução de Marcos Santarrita, publicada pela Companhia das Letras em 1993).

[2] Cuja publicação mais recente fora a co-edição Nova Fronteira/L&PM Pocket, em tradução de Áurea Weissenberg.

[3] Há o vilão norte-americano, mas seu papel não é tão crucial.

Em um país tão antissemita quanto a França, é de se notar a presença de judeus em todas as tramas (e sempre com a enfatização pejorativa de traços étnicos e psicológicos).  Em Pietr, o letão, por exemplo, entre vários outros trechos: “Todos os olhares convergiam para a judia prostrada no corredor, as mãos unidas pelas algemas, a boca rancorosa, dirigindo palavrões e ameaças aos curiosos”; em A barcaça da morte: “Espanhol? O coronel deu de ombros. Maigret olhava firme os traços manifestamente judaicos do rapaz: Grego por parte do pai. Húngaro por parte de mãe…” (tradução de Raul de Sá Barbosa); em A noite da encruzilhada: “O senhor viu o corpo no necrotério, em Étampes? Não? Era um homem de seus 45 anos, com forte aparência de judeu. Um sujeito atarracado, de mandíbulas fortes, testa proeminente, cabelo ondulado…” (idem).

[4] Frase-chave de Um estudo em vermelho, de Conan Doyle.

[5] Em O assassino sem rosto grafada como sra. Swann.

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25/09/2012

Leitura em espelho: NÃO CONTEM COM O FIM DO LIVRO e A QUESTÃO DOS LIVROS

“Também aprendemos um monte de coisas lendo simples resenhas…” (Umberto Eco)

BIBLIOTECÁRIOS DE BABEL- primeira parte

A frase acima das fotos até poderia ser o mote do meu blog, já que nela aparecem os vocábulos monte e resenhas. É pena que ela se encontra no seguinte trecho, que eu achei incrivelmente frívolo e besta: “Quantos de nós já não se alimentaram do simples perfume de livros que víamos em prateleiras mas que não eram os nossos? Contemplar esses livros para deles extrair saber. Ora, uma razão para ser otimista é que cada vez mais pessoas têm acesso hoje à visão de uma grande quantidade de livros. Quando eu ainda era criança, uma livraria era um lugar muito escuro, pouco acolhedor. Você entrava, um homem vestido de preto perguntava-lhe o que você desejava. Era tão assustador que você não cogitava demorar-se. Ora, nunca houve na história das civilizações tantas livrarias quanto hoje, belas, iluminadas, onde você pode passear, folhear, fazer descobertas em três ou quatro andares, as Fnac na França, as livrarias Feltrinelli na Itália, por exemplo. E, quando vou a um desses lugares, descubro que estão cheios de jovens. Repito que não é necessário que eles compreme nem sequer que leiam. Basta folhear, dar uma olhsfs ns quarta capa. Também aprendemos um monte de coisas lendo simples resenhas. É possível objetar que em seis bilhões de seres humanos a porcentagem dos leitores continua muito baixa. Mas, quando eu era garoto, éramos apenas dois bilhões no planeta e as livrarias viviam desertas. A porcentagem parece mais favorável em nossos dias.”

Nos últimos meses, dois lançamentos vieram se somar à intensa discussão atual sobre o futuro do livro impresso, oferecendo a oportunidade de conhecer as posições de intelectuais e escritores da eminência de Robert Darnton,  Jean-Claude Carrière e do Umberto Eco da citação acima: pela Companhia das Letras, A questão dos livros; pela Record, Não contem com o fim do livro (cujo título original é bem mais saboroso: N´esperez pas vous débarrasser des livres). Tratarei primeiramente do segundo.

Jean-Philippe de Tonnac manteve longos colóquis (que viraram, evidentemente, um livro, como não podia deixar de ser!) com o semiólogo e romancista italiano, autor de O nome da rosa, e o roteirista francês que talvez seja o maior nome europeu na sua área[1]. E tanto Eco quanto Carrière não se mostram muito preocupados de que o e-book, as mídias eletrônicas vão substituir o livro tal como conhecemos hoje: “O livro é como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Uma vez inventados,não podem ser aprimorados. Você não pode fazer uma colher melhor que uma colher… O livro venceu seus desafios e não vemos como, para o mesmo uso, poderíamos fazer algo melhor que o próprio livro. Talvez ele evolua em seus componentes, talvez as páginas não sejam mais de papel. Mas ele permanecerá o que é”.

Tendo liquidado a questão com otimismo e chalaça, logo de início, como são recheadas as duzentas e tantas páginas de Não contem com o fim do livro?

Não se encontrará nenhuma reflexão aprofundada, sagaz ou surpreendente sobre a mudança no paradigma de leitura, da percepção do leitor quanto ao ato de ler, e Eco & Carrière manifestam uma singular convicção de que haverá mais leitores no futuro (mas como vimos logo na abertura, para Eco, o fato de as pessoas freqüentarem livrarias como se freqüenta quaisquer lojas de departamento ou shoppings, o leitor tomado basicamente como consumidor, e esquecendo de que o pessoal das classes D e E, e tenho minhas dúvidas sobre a classe C, a não ser os seus egressos “alternativos”, não ousa ir a lugares assim, que geralmente têm uma aura mais esnobe e intimidadora; e  aproveito para lembrar algumas palavras de Jean-Paul Sartre em Questões de Método“…numa sociedade onde tudo se compra, as possibilidades de cultura são praticamente eliminadas para os trabalhadores, quando a alimentação absorve 50% ou mais de seu orçamento. A liberdade dos burgueses, ao contrário,  reside na possibilidade de consagrar uma parte sempre crescente de sua renda aos mais variados campos de despesas”, , palavras publicadas há 50 anos e que ainda valem hoje), embora vejamos inquietantes indícios de que uma onda de analfabetismo real ou funcional varrerá todos os nossos alicerces culturais numa escala de tempo muito próxima.

Mas não, o que ocupa os dois entrevistados é sua condição de bibliófilos (aliás, José Mindlin é citado diversas vezes), de colecionadores (ambos possuem bibliotecas imensas e muitos livros raros e caros). Chega um ponto em que a vida entre livros fica equiparada à dos colecionadores de vinhos e selos. E então a trivialidade e auto-complacência destiladas em Não contem com o fim do livro começa a incomodar.

Conforme fui prosseguindo a leitura, fui me esquecendo progressivamente dos filmes admiráveis que Carrière ajudou a criar (A bela da tarde, O discreto charme da burguesia, A Via Láctea, Danton, Mahabharata) e do meu especial apreço por Eco tanto como teórico quanto como romancista (e da minha convição de que ele deveria ganhar o Nobel): sentia que estava acompanhando a conversa de dois velhos tarados ou dois empedernidos pedófilos, gabando-se de suas perversões e sacanagens, ou de dois nobres do ancien regime francês, pré-Revolução, ostentando sua gula, luxúria e vaidade, enquanto o povo passava fome e privações.

Claro, ambos têm todo o direito de viver bem e desfrutar dos seus prazeres. Só que tudo fica tão blasé, e parece que eles estão tão acostumados ao espetáculo do mundo (Eco diz que, pois estão próximos de se tornarem octogenários, “vivemos cada vez mais e temos a possibilidade de terminar nossos dias numa boa forma insolente”), no qual impera a burrice a estupidez (um tema comum à obra dos dois), que o melhor é dois veteranos trocarem anedotas eruditas, as quais no são ditas com um ar cansado e bolorento, como se eles as tivessem contado e recontado muitas e muitas vezes.

As inteligências afiadas, infelizmente, às vezes também ficam gagás. Esperemos que temporariamente.

(resenha publicada, de forma mais condensada, em “A Tribuna” de 10 de agosto de 2010)


[1] Colaborador tanto do genial Buñuel quanto do, a meu ver, superestimado Milos Forman. Uma colaboração recente entre os dois foi Sombras de Goya,  que não passa de um bom filme, muito convencional. Não conheço  a produção de Forman  na sua terra natal, a Tchecoslováquia, mas após sua ida a Hollywood, tirando o admirável (se minha lembrança  não falseia as coisas) Taking off, tudo o que veio depois e que eu assisti, não me causou maior impressão (e se causou foi mais negativa que positiva), a não ser  as coreografias de Hair e as notáveis  interpretações que ele extraiu em Valmont. Particularmente Um estranho no ninho & Amadeus tiveram uma recepção exagerada, hiperbólica mesmo.

Comentar essa colaboração com o tcheco Forman me faz lembrar que Carrière foi co-roteirista da adaptação de A insustentável leveza do ser (realizada por Philip Kaufman) do compatriota do diretor de O povo contra Larry Flint (outro filme bom e convencional), Milan Kundera. Há uma aura kunderiana nas seguintes palavras de Carrière: “O que mais me impressiona é a completa extinção do presente. Estamos obcecados como nunca pelas modas retrô. O passado nos alcança a toda velocidade, daqui a pouco teremos de nos curvar às modas do trimestre precedente. O futuro é como sempre incerto e o presente estreita-se progressivamente e se dilui.”

Bibliotecários de Babel (segunda e última parte)

“A leitura permanece um mistério. Como os leitores entendem os sinais na página impressa? Quais são os efeitos sociais dessa experiência? Como ela variou? Estudiosos da literatura côo Wayne Booth, Stanley Fish, Wolfgang Iser, Walter Ong e Jonathan Culler tornara a leitura uma preocupação central da crítica textual porque compreenderam a literatura como uma atividade, a construção de sentido dentro de um sistema de comunicação,e não como um cânone de textos”.

É irônico que eu tenha me interessado por A Questão dos Livros [The case for books]mais com o objetivo de enriquecer e complementar, em razão da  proximidade temática com  Não contem com o fim do livro e, no final das contas, como se pode verificar na primeira parte, as entrevistas de Umberto Eco e Jean-Claude Carrière, a respeito dos quais eu tinha tanta expectativa, se revelaram banais, uma decepção. E a coletânea de ensaios de Robert Darnton (um dos mais respeitados historiadores contemporâneos, especialista no século XVIII, com destaque para o Iluminismo francês, e cuja obra não conhecia ainda, já que não se tem tempo de ler tudo, apesar de já ter me interessado por O grande massacre de gatos, O Iluminismo como negócio e sobretudo Os Best-sellers proibidos na França pré-revolucionária) pode ser considerada um dos melhores lançamentos do ano. É um livro maravilhoso, que eu recomendo entusiasticamente..

Darnton também se mostra otimista com relação ao artefato de leitura em que se baseia nosso tipo de civilização. Mas esteve pessoalmente envolvido num ambicioso empreendimento de digitalização, o que dá um sabor todo especial à sua discussão (afora sua sedutora prosa): em 1997, ele foi o responsável pelo Gutenberg-e, premiação de monografias, e sua preparação e publicação no formato eletrônico (muitos autores de teses não estavam encontrando mercado para lançamento em formato impresso). Eu nunca pensei que ia mergulhar fundo e me interessar tanto pelas tramitações acadêmico-burocráticas de um projeto, mesmo que ele tivesse a função pioneira de “abrir caminho para um novo tipo de difusão do conhecimento, a monografia eletrônica de primeira categoria. Parece certo que determinados tipos de livro eletrônico irão prosperar no futuro próximo, mas isso só será feito corretamente se uma organização como a AHA [American Historical Association] tomar a frente de seu desenvolvimento determinando padrões e legitimando essa iniciativa aos olhos de uma classe profissional composta por céticos”.

Deixo para o leitor desse imperdível A Questão dos Livros saber se o empreendimento vingou. Ou, se vingou, foi nos moldes sonhados por Darnton (cito, entretanto, uma passagem reveladora: “No ano passado, o conselho da AHA votou por tirar das minhas mãos a supervisão cotidiana do Gutenberg-e e consigná-la ao Departamento de Pesquisa…Não creio que ninguém estivesse insatisfeito com meu gerenciamento, mas havia uma sensação de que o Gutenberg-e deveria fazer parte das operações normais da Associação, em vez de ser o projeto de estimação de Robert Darnton”.

Os ensaios (divididos em três seções, “Futuro”, “Presente” “Passado”) são quase todos irretocáveis e envolventes, e discutem a mais ampla gama de assuntos que se pode imaginar, desde o que o Google pode fazer com o futuro da publicação eletrônica, passando pelo massacre físico de milhões de volumes das bibliotecas públicas norte-americanas para que a digitalização dos mesmos se efetivasse, até apanhados históricos sensacionais sobre a importância da bibliografia, sobre o paradigma de leitura totalmente diferenciado do nosso, no início da Era Moderna, sem falar no meu favorito, uma panorâmica da publicação e divulgação das obras de Voltaire.

No primeiro caso, o da bibliografia (A importância de ser bibliográfico), ainda mais numa época como a nossa em que “graças à internet, os textos se tornaram ao mesmo tempo mais disponíveis e menos confiáveis”, ele mostra como a comparação de exemplares das primeiras edições (todos apresentando discrepâncias) ajudou a montar um cânone shakespeariano ainda não-definitivo, porém o mais confiável a que se pôde chegar, e discute o futuro dessa área (cuja zona fronteiriça conflita com a dos historiadores do livro: “Ao contrário dos bibliógrafos,  os historiadores do livro estudavam todos os aspectos da produção e difusão da palavra impressa,  incluindo suas conexões  com mudanças sociais e políticas. Para eles, o ano de 1710 se destacou como momento decisivo  na história do copyright…”), para a  qual confluem várias disciplinas.

No caso do paradigma de leitura (Os mistérios da leitura), um assunto premente nesta nossa época em que se criam novos suportes físico-cognitivos para essa atividade, ficamos sabendo que os homens do passado liam sem a preocupação de continuidade, interessados em anotar passagens para suas próprias antologias pessoais, seus livros exemplares de como se conduzir na vida: “Os ingleses do início da era moderna liam de forma intermitente, pulando de um livro para outro. Dividiam os textos em fragmentos, que agrupavam em novos padrões ao transcrevê-los em seções diferentes de seus cadernos… ler e escrever eram atividades inseparáveis. Pertenciam a um esforço contínuo de compreender as coisas, pois o mundo era repleto de sinais: era possível navegar por ele utilizando a leitura, e, ao manter u  registro do que lia, você criava seu próprio livro, um livro com a marca da sua personalidade”. Acho que esse aperitivo já dá uma indicação do interesse do texto.

E no ensaio sobre a obra de Voltaire (O que é a história do livro?), parece que estamos fazendo uma viagem no tempo, conhecendo intimamente os livreiros-distribuidores que atendiam à imensa demanda da obra do genial e irreverente autor francês: “…eu gostaria de me concentrar no elo menos conhecido no processo de difusão, o papel do livreiro, tomando como exemplo Isaac-Pierre Rigaud, de Montpellier… Pessoalmente, não simpatizava nem um pouco com Voltaire”. Você pensa, leitor, que ele não simpatizava por motivos religiosos, ideológicos, chocado pela verve e iconoclastia voltaireanas? Nada disso: “…deplorava a tendência do filósofo de remendar seus livros, adicionando e corrigindo trechos enquanto colaborava em edições piratas pelas costas dos editores originais. Esses hábitos geravam reclamações dos compradores, que não concordavam em receber textos inferiores (ou insuficientemente audaciosos)…” Uma delícia.

Uma leitura como essa nos faz contar com um longo futuro para os livros…Mas é o futuro, e como saber? O próprio Darnton está há uma década preparando um e-book para revolucionar a sua prática de publicação de material pesquisado: “Não que uma publicação eletrônica ofereça atalhos, nem que eu tenha a intenção de despejar na internet todo o conteúdo das minhas caixas… Meu plano é trabalhar com esse material de diversas formas, abordando os temas essenciais na narrativa em primeiro plano e incluindo nos planos inferiores mini-monografias e documentos selecionados nos arquivos mais ricos. Meus leitores poderão se servir do que quiserem, nas porções que preferirem, e até mesmo interligar meu trabalho com as pesquisas de outros na florescente área da história do livro. Um livro eletrônico sobre a história do livro na era do Iluminismo! Não consigo resistir. Vou mergulhar…”

(resenha  publicada  em “A Tribuna” no dia 17 de agosto, de forma mais condensada)

13/01/2012

SHERLOCK HOLMES À FRANCESA

ANOTAÇÕES DO DIA 23.11.09

“O que há de mais mortal, mais destruidor que a ordem para o espírito curioso, para o olhar esquadrinhador, que encadeia elos aparentemente disparatados, mas na realidade profundamente complexos?” (Alexis Decaye, SHERLOCK HOLMES & MARX).

Em 1974, Nicholas Meyer engenhosamente imaginou um encontro entre Sherlock Holmes e Freud, em razão do vício do primeiro em cocaína, em Uma solução sete por cento (A seven per-cent solution, um dos três livros em que ele reinventou o detetive de Conan Doyle) , que depois seria, infelizmente,  adaptado por Herbert Ross, com sua habitual preguiça de criar qualquer coisa de pessoal ou marcante, num desperdício da inteligência do texto e também do maravilhoso elenco (Nicol Williamson, Robert Duvall, Alan Arkin, Laurence  Olivier, etc). O  filme virou por aqui Visões de Sherlock Holmes e lhe faz falta a  mistura da pena da galhofa & da tinta da melancolia que o mestre Billy Wilder imprimiu a um filme contemporâneo: A vida íntima de Sherlock Holmes.

Em 1981, foi a vez de Marx. O autor francês Alexis Lecaye escreveu o imaginativo SHERLOCK HOLMES & MARX, traduzido há alguns anos por André Telles e publicado numa interessante série da Zahar,  “Creme do Crime” (há outra aventura lecayana de Homes, Sherlock Holmes & Einstein).

Lecaye imagina Marx (que morou em Londres boa parte da sua vida) contratando os serviços de um muito jovem Holmes (aliás, ele comete uma ousadia: faz do detetive o próprio narrador das suas aventuras: “É a primeira vez, e muito provavelmente a última, que pego da pena, pelo menos no que se refere à redação de um capítulo das minhas Memórias. Outros se encarregaram disso por mim. Por que, então, esse súbito prurido de escrever, esta necessidade irreprimível de traçar eu próprio os contornos esmaecidos de um passado irrevogavelmente morto?… O caso que vou recordar aqui… exerceu, mais que qualquer outro, grande influência em minha mocidade. Essa influência chegou inclusive a se estender para além da minha pessoa. O episódio talvez tenha alterado toda a história européia deste fim de se´culo. Será que o próximo também sentirá o seu peso?”), na época da eclosão da comuna de Paris (em 1871), quando a capital francesa ficou sitiada por meses, após a derrota francesa na guerra com a Alemanha. Um assassino, a soldo de uma potência estrangeira, pretende eliminar Marx, e este envia Holmes à França durante esses meses revolucionários que o autor de O Capital descreverá com uma retórica majestosa (às  vezes muito exagerada, porém como foi escrito no calor do momento) nos seus panfletos que consituirão A GUERRA CIVIL NA FRANÇA. Dessa mesma época temos as cartas que ele escreveu para seu admirador , o ginecologista L. Kugelmann, “que tomou parte em sua juventude no movimento revolucionário de 1848 e por toda a sua vida se considerou um ardente seguidor de Marx” (trecho do prefácio de Lênin a essa correspondência).

       Antes de mais nada: o romance de Lecaye é ótimo. Eu teria o maior prazer de indicá-lo (sem que isso represente uma diminuição ou visão paternalista) para jovens leitores: é uma aula de como abordar uma aventura histórica sem pedantismos e sem explicações inúteis, confiando apenas na narrativa e na curiosidade e inteligência do leitor.  Em 170 páginas consegue nos transmitir uma imagem perfeita da Londres vitoriana, dos dias da comuna, da paisagem francesa (que Holmes atravessa para poder chegar a Paris e cumprir sua missão), das querelas ideológicas daquele momento, e, sobretudo, da transformação de Holmes em.. Sherlock Holmes, com as características que o consagrara, através de um relato retrospectivo que é um pouco também um balanço de vida, uma espécie de “ilusões perdidas” ou “educação sentimental” do detetive inglês. Gostei muito e recomendo (depois teríamos um “jovem Sherlock Holmes” muito interessante, também, na visão de Chris Columbus que resultou no filme, para mim e para vários amigos, memorável, porém pouco apreciado pela crítica: O enigma da pirâmide, talvez por ter sido realizado por outro diretor tão bisonho e nulo quanto Herber Ross: Barry Levinson).

E, por falar em “jovem” Sherlock Holmes, abaixo temos uma foto do “jovem” Marx, longe do estereótipo de velho barbudão, meio Jeová, consagrado pela posteridade:

A GUERRA CIVIL NA FRANÇA, fixando definitivamente o conceito de “luta de classes” vai tentar interpretar, mesmo no calor da hora, como afirmou Engels (num texto escrito vinte anos mais tarde), a “significação histórica da Comuna de Paris”“A 28 de maio os últimos combatentes da comuna sucumbiam ante a superioridade de forças do inimigo… O desarmamento dos operários era considerado o primeiro dever para os burgueses que se achavam na frente do Estado… Era a primeira vez que a burguesia mostrava a que extremo de crueldade e vingança é capaz de chegar sempre o que o proletariado se atreve a defrontar-se com ela como uma classe independente, que tem seus próprios interesses e reivindicações… O Segundo Império fora o apelo do chauvinismo francês: a reivindicação das fronteiras do Primeiro Império, perdidas em 1814… isso implicava a necessidade de guerras periódicas e de ampliação de fronteiras… não havia extensão territorial que tanto deslumbrasse a fantasia dos chauvinistas franceses como as terras alemãs da margem esquerda do Reno… Defraudado em suas esperanças de  ´compensações territoriais´ por Bismarck e por sua própria política demasiado astuta e vacilante, não restava a Napoleão [não o original, bem entendido, e sim o seu desprezível arremedo] outra saída a não ser a guerra, que se deflagrou em 1870… A consequência inevitável foi a revolução de Paris de 4 de setembro de 1870. O Império desmoronou-se como um castelo de cartas e foi novamente proclamada a República…. A 25 de março foi eleita, e a 28, proclamada, a comuna de Paris… Como os membros da comuna eram todos, quase sem exceção, operários, ou representantes reconhecidos, as suas resoluções se distinguiam por um caráter marcadamente proletário. Uma parte de seus decretos eram reformas que a burguesia republicana não se atrevera a implantar por vil covardia e que lançavam os fundamentos indispensáveis para a livre atuação da classe operária, como por exemplo, a implantação do princípio de que, com relação ao Estado, a religião não é senão um problema de foro íntimo; outros tinham o objetivo de salvaguardar diretamente os interesses da classe operária, algumas vezes mesmo abrindo profundas brechas na velha ordem social. Mas tudo isso, numa cidade sitiada, não podia ir além de um início de realização… Paris estava submetida a incessante bombardeio e pelas mesmas pessoas que haviam estigmatizado como um sacrilégio o bombardeio da capital pelos prussianos… E então atingiu o seu ponto culminante aquela matança de homens desarmados, mulheres e crianças… Logo quando se viu que era impossível matar a todos, vieram as detenções em massa, iniciaram-se os fuzilamentos de vítimas arbitrariamente escolhidas entre as fileiras de prisioneiros e a transferência dos demais para grandes campos de concentração, onde aguardavam o comparecimento diante dos conselhos de guerra.” (utilizo aqui o texto constante nas Obras Escolhidas, volume 2, de Karl Marx & Friedrich Engels, publicadas pela Alfa-Õmega; nãohá indicação de tradutor).

No primeiro dos onze capítulos de SHERLOCK HOLMES & MARX, o detetive novato recebe uma carta de alguém que ele ignora completamente quem seja: Marx, marcando uma reunião no dia 13 de abril de 1871. O indivíduo que se apresenta, com cerca de 55 anos,  tinha “estatura ligeiramente inferior à média, vestido com um casacão escuro, um pouco puído, e levemente folgado nos ombros, como se seu proprietário o tivesse pego emprestado de um amigo mais gordo, ou então subitamente emagrecido. Sua tez amarelada, doentia, e as olheiras roxas me fizeram inclinar pela segunda hipótese. Colarinho branco e botinas reluzentes, o restante do seu traje era irrepreensível. Uma grande barba precocemente grisalha, muito na moda em alguns círculos do continente, nele bastante crespa e encimada por um bigode basto e negro, engolia-lhe a parte inferior do rosto, sem conseguir dissimular uma grande boca, de expressão irônica”. Holmes fica admirado diante das “incrível vitalidade de sua expressão… Acima de espessas sobrancelhas, erguia-se uma testa imensa e ossuda, com pequenas entradas. O enorme cérebro escondido por trás daquela fronte devia encerrar uma inteligência prodigiosa. O que quer que tivesse vindo me propor, certamente eu não estaria perdendo meu tempo em escutar”.

Em 12 de abril de 1871, Marx escrevia a seu amigo Kugelmann, a respeito da sua saúde: “atualmente estou submetido ao tratamento do Dr. Matheson, o qual diz que meus pulmões estão em excelente estado e que a tosse é relacionada com bronquite, e pode afetar o fígado.” Ele informa seu correspondente também que, embora  genro (Lafargue) esteja em Paris, sua filha, Laura (guardem esse nome, terá grande importância neste post) não o acompanhou. Nesta carta lemos ainda: “Que elasticidade, que iniciativa histórica, que capacidade de sacrifício desses parisienses! Depois de seis meses de fome e ruína, causada mais pela traição que pelo inimigo externo, eles levantam-se por sobre as baionetas prussianas, como se nunca houvera uma guerra entre a França e a Alemanha  e o inimigo não estivesse às portas de Paris. A história não tem exemplo semelhante de tamanha grandeza…” (utilizo a edição conjunta, publicada pela Paz & Terra de O 18 Brumário & Cartas a Kugelmann, estas últimas traduzidas por Renato Guimarães).

ANOTAÇÕES DO DIA 24.11.09

“A diferença entre criminosos e inocntos não está na concepção, mas no poder e na força de transformação de um pensamento em ato. Se tivesse respeitado essa verdade eterna, infelizmente inacessível a um espírito de 23 anos, inexperiente, ainda imbuído de princípios rígidos, incapaz de imaginar uma passagem, uma passarela entre o mundo do Bem e o do Mal, a seqüência de minhas aventuras teria, uma vez mais, sido outra” (Alexis Lecaye, SHERLOCK HOLMES & MARX, mas aí na esteira dessas reflexões, precisaria ter uma pitada de Freud na perspicácia sherloquiana).

(para o leitor se orientar: estou comentando o livro SHERLOCK HOLMES & MARX, de Alexis Lecaye, mas utilizando como apoio dois textos de Marx da época da comuna de Paris de 1871: A guerra civil na França & Cartas a Kugelmann)

“É um fato estranho. Apesar de tudo o que se falou e se escreveu, com tamanha profusão, durante os últimos 60 anos, a respeito da emancipação do trabalho, mal os operários, não importa onde, tomam o problema em suas mãos, logo recomeça a ressoar toda a fraseologia apologética dos porta-vozes da sociedade atual, com os seus dois pólos, o capital e a escravidão assalariada… como se a sociedade capitalista se achasse ainda em seu mais puro estado de inocência virginal, com seus antagonismos ainda em germe, com suas ilusões ainda encobertas, com suas prostituídas realidades ainda não desnudadas. A comuna, exclamam, pretende abolir a propriedade, base de toda civilização! Sim, cavalheiros, a comuna pretendia abolir essa propriedade de classe que converte o trabalho de muitos na dos expropriadores.  Queria fazr da propriedade individual e o capital, que hoje são fundamentalmente meios de escravização e exploração do trabalho, em simples instrumentos de trabalho livre e associado. Mas isso é comunismo, o irrealizável comunismo! … Se a produção cooperativa for algo mais que uma impostura e um ardil, se há de substituir o sistema capitalista; se as sociedades cooperativas unidas regularem a produção nacional segundo um plano comum, tomando-a sob seu controle e pondo fim à anarquia constante e às convulsões periódicas,  conseqüências inevitáveis da produçao capitalista, que será isso, cavalheiros, senão counismo, comunismo realizável?

      A classe operário não esperava da comuna nenhum milagre. Os operários não têm nenhuma utopia já pronta para introduzir, por vontade popular… Eles não têm que realizar nenhum ideal, mas simplesmente libertar os elementos da nova sociedade que a velha sociedade burguesa agonizante traz em seu bojo…”

(Karl Marx, A guerra civil na França)

Ontem, contei que no romance de Lecaye, Marx marca um encontro com o jovem Sherlock Holmes em 13 de abril de 1871. Querendo contratar os seus serviços, o informa de que, sob as ordens de Bismarck, um anarquista russo, “com status de desertor, um homem estranho, aristocrata arruinado, anti-semita e xenófobo” se prepara para assassiná-lo. Seu nome: Rupelski: “O que eu quero lhe pedir… procurar o assassino, desmascará-lo sem que ele suspeite de nada e fazê-lo desaparecer… Quando digo ´desaparecer´, entendo com isso esconder, dissimular, raptar se quiser, subtrair  à atenção e colocá-lo fora de circulação… O senhor o guardará durante algumas semanas, o tempo necessário para eu concluir um trabalho que me é caríssimo. Depois poderia soltá-lo…o importante é ele não me matar agora, o que representaria um golpe fatal para o movimento.” Que movimento? A Internacional dos trabalhadores. Marx fica espantado com o desinteresse e ignorância políticos de Holmes:  “Vocês, britânicos, são incríveis! Concedem asilo, quase irrefletidamene, ao cérebro de uma organização que, com ou sem razão, faz tremerem todos os burgueses e governos do continente, e não sabem sequer da sua existência…O senhor, jovem burguês briânico, inteligente e culto, não apenas não têm medo, o que concebo perfeitamente, como sequer tem conhecimento da nossa existência!” Numa carta de 27 de julho do mesmo ano a Kugelmann, Marx diz: “O trabalho da Internacional é imenso, e além disso Londres está abarrotada de refugiados, pelos quais tenho de olhar. Mas estou sobrecarregado por outras pessoas, jornalistas e gente de toda espécie, que querem ver o monstro com os próprios olhos. Acreditou-se até agora que o crescimento dos mitos cristãos durante o Império romano foí possível apenas porque a imprensa ainda não fora inventada. É precisamene o contrário. A imprensa diária e o telégrafo, que em um instante difundem invenções por todo o mundo fabricam mais mitos (o gado burguês acredita neles e aumenta com base neles) em um dia do que antes se fazia em um século.”. Numa preciosíssima  carta anterior (de 18 de junho), ele escreve: “Você sabe que durante o período da última revolução de Paris fui denunciado continuamente como o grand chef da Internacional, pelos jornais de Versalhes, e por extensão, pela imprensa aqui da Inglaterra… tenho a honra nesse momento de ser o mais bem caluniado e ameaçado homem de Londres. Isso faz um sujeito sentir-se bem, depois de um idílio entediante de 20 anos em seu antro…”

Voltando ao romance, após algumas peripécias londrinas (inclusive, um atentado contra sua vida), Holmes aceita a proposta de Marx, que é a de viajar para Paris, onde Rupelski, ou X (porque não há certeza firme da sua identidade) está camuflado, nos meios anarquistas, “em pleno coração da Paris revolucionária. Hoje em dia é o melhor lugar para se esconder e se urdir complôs, no meio da desordem e da efervescência populares”. Holmes vai para o continente com um colaborador francês da Internacional,  Philibert Longuet, e depois de algumas aventuras pelo interior da França (há até um duelo, mas deixo os detalhes para o leitor do romance), entra disfarçado em Paris, através de túneis subterrâneos antiquíssimos. acompanhado pelo desdenhoso e intrigante Vigot. Entre os comparsas da viagem de Holmes está a família Gottlieb, e madame Gottlieb, contrariando o marido, diz a seguinte frase, que vem a propósito, quando pensamos na missão do detetive e nas palavras que Marx escreveu em suas missivas a Kugelmann: “Se perguntar aos operários parisienses, não encontrará muitos que sequer conheçam o nome do senhor Karl Marx”.

Em Paris, Holmes refugia-se no apartamento de Vigot, conhecendo a irmã dele, Isabelle, uma pintora passional (e aqui podia-se temer que houvesse uma convencionalíssima aproximação amorosa, mas Lecaye se mostrou muito mais hábil do que se podia esperar, fazendo com que haja uma fixação por parte dele, enquanto os interesses dele irão por outros caminhos; ele a deixa indignado com sua “inocência” inglesa, não “entendendo” o que ela quer dele, e mantendo-se fleumático e racional: “Aquela desordem dos sentimentos, que nada seria capaz de explicar, bem diferente da apaixonante desordem de uma investigação criminal que esconde de fato elos secretos e encadeamentos rigorosos… O que há de mais fascinante que isolar o fio vermelho do crime da meada incolor da vida?”; mais adiante, numa daquelas considerações que são típicas das narrativas retrospectivas, ele se auto-congratula pelas decisões que moldaram sua existência: “felicito-me a cada instante por ter sido capaz, à minha revelia talvez, mas é o resultado que conta, de evitar os escolhos da paixão para me ater ao conforto de uma sólida e viril amizade“, referindo-se aqui, é claro, à sua relação com o doutor Watson).

       Enquanto conhece melhor os irmãos (chega a posar para quadros de Isabelle, entre um e outro arrufo), ele perambula por Paris, tentando estabelecer contatos (que Marx forneceu) e localizar X/Rupelski. E ele consegue se introduzir num círculo de niilistas (“o senhor viu a cidade que se diverte, vai descobrir a cidade que pensa”), que se reúnem nas catacumbas da Igreja Santo Eustáquio,  e ouvir o discurso inflamado, visando diretamente a figura de Marx, do tal Rupelski, um exemplo cabal dos eternos derrotistas, daqueles que teorizam para não agir e para impedir os outros de agir: “Entre esses homens, há um particularmente cuja ação e palavra devem ser imperativamente refreadas, tal é a astúcia diabólica que mostra na apresentação de seu programa e de suas idéias: trata-se de Karl Marx, gênio mau de todos os que aspiram ao movimento livre e espontâneo da revolta… Seguia-se então uma longa enumeração dos vícios imperdoáveis do pensamento e da ação de Karl Marx, um catálogo em que se misturava confusamente tudo o que Rupelski podia recriminar ao revolucionário alemão, inclusive sua origem judaica e seua pretensa lascívia (…) Apesar do tom virulento de Rupelski, a despeito do silêncio religioso que acolhia cada palavra sua, tive a estranha impressão de ter assistido a um sermão dominical, em que o fato de estar presente e escutar bastava para garantir a consciência limpa e sustentar a fé de todos os participantes. Decerto não era ali que se elaboravam os complôs e as decisões irrevogáveis.”

E Holmes consegue capturar Rupelski e mantê-lo preso num porão abandonado do edifício em que moram os irmãos (Isabelle até se torna uma amiga do niilista russo). A missão estava completa? Holmes tem a sensaçao que não, sua intuição lhe diz que não aprisionou um tigre, mas um reles chacalzinho, astuto e escorregadio, porém inofensivo. Por isso, decide esperar instruções do próprio Marx…

Holmes recebe, então, uma carta de Laura, a filha de Marx casada com o jornalista e colaborador da Internacional Paul Lafargue, dizendo que está em Paris e deseja encontrá-lo no Hotel de Bordeaux. Lá, ele sofre um “coup de foudre”: é amor à primeira vista, fica idiotizado, desajeitado, completamente tomado por aquela mulher (e a coisa pelo visto é recíproca): “sou incapaz de achar as palavras adequadas para explicar as razões daquela súbita e vergonhosa perda de autocontrole”). Mesmo embasbacado, há assuntos urgentes:  ela traz uma carta do pai, escrita no seu estilo característico (pitoresco e misturando palavras de vários línguas, uma das várias coisas que me fazem aproximar na minha cabeça, às vezes, as figuras de Marx e James Joyce). Nessa carta, ele diz que a missão realmente pode ser encerrada, pois ele não corre mais riscos. Holmes informa à Laura que capturou Rupelski (ela até chega a vê-lo no porão onde está trancafiado, embora tenha ficado desconfiada e mesmo em pânico quando Holmes a encaminhou até ali). De qualquer forma, Holmes está apaixonado, citando Werther e completamente indeciso quanto a voltar para a Inglaterra…

ANOTAÇÕES FINAIS (dia 25.11.09):

“Já era tempo de botar para funcionar aquela massa cinzenta de que tanto me orgulhava e de que até então fizera tão pouco uso”.        (Alexis Lecaye, SHERLOCK HOLMES & MARX)

Holmes e Laura Lafargue, née Marx, iniciam um ardente romance em plena Paris sitiada.  Um dia ela desaparece misteriosamente. Em busca da mulher amada, ele  vai a Bordeaux, na qual  casal Lafargue reside, e descobre que teve em seus braços uma falsa Laura, pois conhece a verdadeira filha de Marx: “Era falsa a carta de Marx à sua filha que eu lera em Paris, falsas as boas novas. mais terrível ainda: falsa, a identidade da mulher que eu adorava e cuja doçura e entega haviam adormecido em mim todas as desconfianças, atenção e vigilãncia. Falso,  o rapto! Falsidade! Falsidade! Falsidade! Era tudo uma mistificação. Mas então quem era aquela mulher? O que ela pretendia? Quais eram seus motivos, seus interesses? “

Na verdade, a falsa Laura é o verdadeiro X, é ela quem pretende assassinar Marx (não vou revelar os motivos aqui). Para chegar a Londres e impedi-la (o que acontecerá, com Holmes assumindo a identidade do autor de O capital, numa demonstração das suas habilidades no disfarce), Holmes, voltando a Paris, tem de sobreviver (e seus amigos também, e mais o pobre Rupelski, que era inocente) à invasão bárbara que a cidade sofre, e ao massacre dos seus habitantes, narrados de uma forma ao mesmo tempo concisa e eficiente por Lecaye. Na figura de X, a falsa Laura, vemos também uma alusão àquelas formidáveis e atraentes mentes criminosas femininas que tanto obsedaram o Holmes de Conan Doyle, embora nenhuma delas chegasse a ser tão destrutiva.

22/09/2011

Simia Sapens: “O planeta dos macacos”- A verdadeira origem

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 13 de setembro de 2011)

“A macaca tirou uma caneta do bolso e escreveu várias linhas em seu caderno. Em seguida, levantando a cabeça e ainda se deparando com meu olhar ansioso, sorriu novamente. Isso me estimulou a tentar outra abordagem amistosa. Estendi-lhe um braço através da grade, com a mão aberta. Os gorilas sobressaltaram-se e esboçaram um movimento para interferir. Mas a macaca, cujo primeiro reflexo havia sido de toda forma recuar, recobrou-se, deteve-os com uma palavra e, sem parar de me fitar, também projetou seu braço peludo, um pouco trêmulo, na direção do meu. Não me mexi. Ela aproximou-se mais ainda e colocou sua mão com dedos descomunais sobre meu pulso. Senti-a estremecer a esse contato. Tentei não fazer nenhum movimento que pudesse assustá-la. Ela deu  um tapinha na minha mão, acariciou meu braço, depois voltou-se para  seus auxiliares com uma expressão de triunfo.

    Eu arfava de esperança, cada vez mais convencido de que ela começava a reconhecer  minha nobre essência. Quando se dirigiu imperiosamente a um dos gorilas, tive  a louca esperança de que fossem abrir minha jaula, com desculpas. Ai de mim! Não era nada disso!O guarda  vasculhava em seu bolso e sacou um pequeno objeto branco, que entregou à sua patroa.  Ela colocou-o pessoalmente em minha mão com um sorriso encantador. Era um torrão de açúcar.

    Um torrão de açúcar! Despenquei de tão alto, senti-me de repente tão desencorajado diante da humilhação daquela recompensa que quase atirei-a na cara dela.”

A exibição de O planeta dos macacos- a origem me deu vontade de conhecer a fonte original de uma saga que rendeu um clássico cinematográfico (o grande filme de 1968, dirigido por Franklin J. Schaffner[1]), quatro continuações, uma série de televisão, episódios em desenho animado (eu gostava muito deste cartoon), e neste novo século dois filmes (por enquanto).

O romance Le planète des singes do francês Pierre Boulle (o qual comento na tradução de André Telles para a Pocket Ouro da editora Agir) foi lançado em 1963[2]. Nele, um casal de namorados (que no final descobriremos serem símios, revelação que vai sendo antecipada por pequenas intervenções do casal na narrativa), num passeio espacial, recolhe uma garrafa que contém o relato de Ulysse Mérou. Este viajara (embora  jornalista e não astronauta!), no começo do século XXVI (e ainda se usam carabinas em 2.500!), com dois companheiros para a constelação de Órion.

São extravagantes os detalhes que Boulle fornece dos meios de locomoção espacialm, sem a menor preocupação com qualquer exatidão cxientífica. Ele segue nesse ponto a linha nitidamente fantasista de Verne & Wells. Quando os três viajantes pousam no planeta Soror, são espoliados de seus trajes, armas e provisões por um grupo de selvagens humanóides que parecem ter aversão a quaisquer artefatos fabricados e que parecem seres sem consciência ou alma. Não bastasse isso, são perseguidos como caça (vários são brutalmente eliminados) e depois capturados por macacos que apresentam o mesmo grau de evolução da espécie humana na Terra. Sem os seus companheiros (um deles foi morto e o outro reaparecerá mais tarde numa condição chocante), Ulysse é levado a um centro de pesquisas biológicas.

A civilização símia, ao contrário dos filmes (onde é mais rústica e com traços mais rurais), ostenta cidades, aviões, até arte impressionista e abstrata. Ganhando a confiança (e o amor e “comunhão espiritual”, atrapalhado pela aversão física[3] entre as “raças”—substituto revelador utilizado por Boulle no lugar de “espécies”—que descortina a sua intenção satírica [4]) da cientista Zira, Ulysse consegue sua libertação da condição de cobaia (“…começaram a me desferir varadas, a mim, Ulysse Mérou, um homem criado à imagem da divindade…”)  e é até assimilado à cultura de Soror. Contudo, escavações arqueológicas apontam para algo que Cornelius, noivo de Zira, já desconfiava: que os macacos herdaram a cultura dos humanos, que antigamente dominavam o planeta (no filme de Schaffner, o viajante estava na própria Terra sem o saber, o que era mais instigante). Como bons imitadores, os novos dominantes “macaquearam” as conquistas humanas, sem criar nada de novo (é por isso que eles estavam estagnados há séculos no mesmo estágio tecnológico), pelo menos no que se refere a gorilas e orangotangos; já os chimpanzés (como Zira e Cornelius) são mais criativos e capazes de iniciativa intelectual própria (“Quase todas as grandes descobertas foram feitas por chimpanzés”, afirma Zira) e são eles que revelam a verdadeira face da evolução da sua “raça”.

De qualquer forma, a descoberta leva à conclusão de que Ulysse, ainda mais depois que ele gera um filho, é uma ameaça. O ciclo pode se inverter. Zira e Cornelius resolvem ajudá-lo a fugir com sua família.

E aí então ele descobre o mesmo que Mark Walhberg descobre na Terra no (nada clássico, aliás não acrescentou nada ao  romance nem ao filme original, tirando uma impressionante interpretação de Tim Roth)  filme de Tim Burton.

Sobrevivendo a todos os seus “filhotes”, o livro de Boulle é engenhoso e ainda muito pertinente. Todos os seus temas encontram-se ainda na pauta do dia. A difícil convivência nos países do Primeiro Mundo entre seus “nativos” e os imigrantes (principalmente de outras “raças”) e os indecentes e inomináveis experimentos com cobaias revelam que somos tudo, menos o topo da evolução.


[1] Schaffner estava em grande fase, realizando filmes como O senhor da guerra, e olhe que com o antipático e (a meu ver) canastrão Charlton Heston. Depois de ganhar o Oscar com Patton, entretanto, ele se perdeu nas produções paquidérmicas e amorfas, tipo Nicholas e Alexandra, que esvaziaram seu impulso. O incrível é que O planeta dos macacos passou em branco nos principais Oscars, devido à nefasta tendência da Academia nos anos 60 de se manter autista com relação ao que estava acontecendo, privilegiando a forma musical  hiper-careta e super-produzida, que faz os filmes parecerem mais velhos do que os realizados décadas antes (caso de My fair lady, A noviça rebelde, Oliver, todos ganhadores do prêmio de melhor filme, o último no ano do filme de Schaffner e de 2001– sem comentários).

[2] Em seu currículo, Boulle também tem o livro que originou A ponte do rio Kwai, outro paquiderme superestimado. Por falar em superestimado, ninguém o é mais do que David Lean. Nunca entenderei por que ele é tão prestigiado.

[3]  “Eu gostava de ouvi-la rir… Eu partilhava o bom-humor da macaca. Na penumbra do vestíbulo, praticamente não discernia seus traços, mal via a ponta branca do focinho. Ela vestira, para sair, um tailleur elegante e um gorro de colegial que escondia suas orelhas. Esqueci por um instante sua condição símia e dei-lhe o braço.”

[4] Vejam se não lembra o ambiente  senhorial das colônias a seguinte passagem, que ocorre logo após a captura de Ulysse: “As damas gorilas estavam sentadas em círculo em poltronas e tagarelavam  à sombra de grandes árvores que lembravam palmeiras. De quando em quando uma delas bebericava outro copo, com a ajuda de um canudinho…”

12/04/2011

“O que não tem governo nem nunca terá…” (ELIZABETH primeira)

VER TAMBÉM NO BLOG:  

https://armonte.wordpress.com/2012/04/23/uma-toca-de-coelho-para-o-pais-das-maravilhas-freudianas/

“Catarina de Siena (1347-80) afirmou um dia não ter comido nada tão delicioso quanto o pus dos seios de uma cancerosa.”

O que o desiderato extremado de auto-mortificação de uma mística (canonizada pelo Vaticano), mesmo que nos pareça grotesco, poderia ter em comum com o genocídio sistemático praticado em Auschwitz pelos nazistas?

É o que se propõe a desvendar A parte obscura de nós mesmos, boa síntese que a veterana Elisabeth Roudinesco propõe a respeito da metamorfose do conceito de perversão desde a era medieval, circulando pelo biográfico, pelo filosófico, pelo literário (uma de suas grandes virtudes), pelo psicanalítico, pelo historiográfico, com grande desenvoltura e clareza, de forma a ser ao mesmo tempo contundente e didático (Roudinesco deve ser uma grande professora). Porém, algumas passagens (principalmente as biográficas) parecem muito claramente de segunda (ou pior ainda, de terceira) mão, transcritas sem maior preocupação de reelaboração, e há repetições indefensáveis de frases e formulações em vários trechos. O que está havendo com a velha e boa revisão de textos?

Ainda assim, A parte obscura de nós mesmos vale a pena porque organiza conhecimentos dispersos em disciplinas diversas, ao abordar as vidas não-exemplares de emblemáticos perversos. Começa com o conceito da prática pervertida como uma transgressão da Lei Divina (a figura catalisadora é Gilles de Rais, o monstruoso protetor de Joana D´Arc) e todas as experiências de supressão da tentação carnal (e o gozo proporcionado por tais experiências, que levaram a novas práticas perversas…), o que permite a indagação: por que esse apetite pelo Mal, que percorre a humanidade (aliás, onde se localiza o Mal: na prática perversa ou na sua repressão pura e simples, sem uma tentativa de aprofundar as raízes da perversão?); depois, nos estertores do absolutismo e início da nossa era iluminista e laica, a organização pervertida e subversiva do universo realizada pela obra do Marquês de Sade e as tentativas de suprimir sua circulação e impacto. O século 19 se encarregará de propor uma catalogação racional e com fins higiênicos de todas os comportamentos desviantes e assim começará a era totalitária da normalidade burguesa, amparada pelos princípios científicos positivistas, que será ameaçada pelo Darth Vader do Iluminismo otimista: Com Freud, a patologia esclarece a norma, e não o contrário. É precisamente a ênfase colocada no mandamento Não Matarás que nos dá a certeza de que descendemos de uma linhagem infinitamente longa de assassinos que tinham no sangue o prazer do assassinato, como talvez nós ainda.”

    Freud fornece a ponte para o século 20 e o resultado da catalogação e da higienização perseguidas pela “norma” autoritária: o genocídio. E sempre a sombra do Mal, antes teológico, agora patológico, presente. E a nossa dificuldade em separá-lo exata e coesamente de um suposto Bem. E no nosso preocupante século 21, a redefinição do que é perverso acarreta novos perigos à liberdade individual e ao esclarecimento da humanidade sobre si própria. Ou seja, esse terreno continua minado. Ainda bem.

(resenha publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos, em 21 de junho de 2008)

06/03/2010

A PERSPECTIVA DOS ESPELHOS

acesse LIVRARIA PORTO DAS LETRAS na intenet: www.estantevirtual.com.br/acervo/livrariaportodasletras

O PÁSSARO DA JUVENTUDE (doce?!)

“Uma mulher como eu não teria coragem de terminar? Vamos, vamos, já tivemos o suficiente, minha bela, para nossa casta. Contemplava a magnífica Léa de pé, mãos nas cadeiras, que lhe sorria.

        Uma mulher assim não termina nos braços de um velho. Uma mulher assim, que teve a sorte de nunca sujar as mãos nem a boca com uma criatura decrépita! Sim, aí está ela, a vampira que só quer carne fresca.

      Chamou em sua memória os namorados e amantes de sua juventude preservada de velhos, e viu-se pura, altiva, devotada havia 30 anos a moçoilos radiosos ou adolescentes frágeis (….)

     Bolas! Adeus a tudo, é o mais apropriado. Vamos comprar um baralho, um bom vinho, fichas de bridge, agulhas de tricô, todos os bibelôs necessários para vedar uma grande caverna, tudo que é necessário para disfarçar o monstro: a mulher velha…”

“Sinto em mim a perspectiva dos espelhos” (Chérie, de Colette)

Não sou muito fã da primeira reunião entre o diretor Stephen Frears e Michelle Pfeiffer, Ligações Perigosas. Acho que ela é o grande destaque do filme. A adaptação de Christopher Hampton é dinâmica, mas superficial, “ligeira” demais, acentuando o aspecto vaudevillesco presente no livro de Laclos, o que é acentuado pela direção de Frears (cuja produção é muito irregular). E a dupla central, Glenn Close & John Malkovitch, deixa muito a desejar. Ele, na minha opinião (ainda mais comparando com a interpretação de Colin Firth do mesmo personagem, Valmont, dirigido por Milos Forman), é um desastre, com suas caras e bocas, seu andar afetado, sua ridícula “aura” de sedutor consumado. A grande Glenn Close, por sua vez, está em certos momentos ótima como megera ou como mulher vingativa, perversa e ressentida (e, no final, há um grande close dela),  porém muitas vezes ela está também na base da interpretação burlesca e careteira, e é ainda mais difícil de engolir como “femme fatale”, grande sedutora.

Frears & Pfeiiffer se reúnem em outra adaptação literária, outro filme de época: CHÉRI, um romance da hoje em dia meio esquecida Colette  (1873-1954), que teve muita influência na primeira metade do século passado, com seu ciclo sobre a heroína Claudine e o romance A vagabunda. Assim como Gide e Proust (guardadas as devidas proporçoes entre este, um visionário , tirante seu apego ao mundanismo, e todos os outros que eu pssa citar), ela herdou aquela perspectiva balzaquiana da sociedade, mas numa clave mais intimista. Ela pertence àquele grupo de autores (o próprio Proust, Oscar Wilde,  certo Tolstói, certo Thomas Mann, o Eça final,  Henry James, Edith Wharton, para lembrar alguns) tão encharcados de mundanismo que muita gente hoje em dia acha muito recôndito, muito elitista, “ultra-civilizado” em demasia,  para que eles tenham algum interesse para o leitor atual (o que é uma pena, pois se trata de uma leitura superficial).

A atmosfera dessa novela (é uma pequena narrativa, com cerca de 170 páginas na edição brasileira, publicada pela Record e traduzida por André Telles) é toda huis clos, com  poucos ambientes e poucos personagens, uma sociedade muito restrita, composta basicamente de cortesãs aposentadas ou a ponto de, sua criadagem, seus agregados e amantes. Trata-se de um mundo em que o vestuário, os objetos, as jóias, são tão importantes para os personagens quanto seus sentimentos. Léa usa uma roupa marrom e, dolorosamente, evoca o amante perdido: “ele, que nunca foi  capaz de  suportar o marrom”; ele, por sua vez, elogiando a antiga mentora: “Essa mulher, meu velho, quando está com o chapéu apropriado (…) pode colocar qualquer outra mulher de lado, ninguém lhe chega aos pés”.  Ou ainda, para reforçar essa materialidade mundana e ultra-civilizada, ainda que não necessariamente sofisticada: “Tenaz, incisivo, mistura de flores intensas e madeiras exóticas, o perfume de Chéri circulava”.

É uma linguagem bem “francesa”, com muita auto-inspeção dos personagens, examinando os próprios sentimentos, muitas formulações que parecem silogismos filosóficos e muitas réplicas, que mostram o universo “venenoso” e dúbio em que as personagens se movem. Afinal, as duas personagens femininas centrais mantêm uma “amizade rancorosa de rivais à espreita da primeira ruga e do primeiro fio de cabelo branco”. Eis algumas réplicas:

“Mme. Peloux- Você sabe, quando um Peloux volta a sua casa depois da devassidão, não sai mais de novo.

Léa- É uma tradição de família?”

 

“Mme. Peloux- Você sabe como lido com fofocas!

Léa- Ninguém sabe melhor do que eu”

 

“Mme. Peloux- Anda a tricotar?

Léa- Ainda não, mas vai acontecer”

Hoje em dia podemos ler superficialmente Chéri (publicado em 1920) como algo recôndito, quase exótico, com suas cortesãs ricas, que moram em mansões e vivem à larga, com motoristas e criadagem. Léa de Lonval, a protagonista, é uma lenda entre elas. Aos 49 anos “encerrava uma bem-sucedida carreira”, poupada pela vida “das catástrofes lisonjeiras e das mágoas nobres”. Seus deuses são “o amor e o dinheiro”.

Chéri, ou Fred, é o filho de uma ex-rival, a venenosa Charlotte Peloux (no filme, a grande Kathy Bates; no texto é descrita com uma megera com voz trombeteante  e cujos olhos “não exprimiam senão a suspeita, a atenção indiscreta e implacável“), e fez sua educação sentimental com Léa: dos 19 aos 25 anos foi seu amante, ele que é um ai-jesus da mulherada, cobiçado por todas : “ser belo a esse ponto é uma nobreza”, diz Léa a respeito dele, mesmo achando-o muitas vezes bruto, burro, e sobretudo vendo os aspectos vulgares herdados da mãe (além da avareza): “Aqueles langores da tarde davam-lhe asco. Nunca seu jovem amante a surpreendera desarrumada, nem com o espartilho aberto, nem de chinelos durante o dia. Numa, se quiserem, dizia ela, mas nunca desmazelada. Pegou de volta seu jornal ilustrado e não o leu. Ponha essa mãe Peloux e seu filho, pensava, diante de uma mesa farta ou leve-os para o campo e pronto, a mãe tira o sutiã e o filho o colete. Naturezas de donos de botequim em férias. Ergueu os olhos rancorosos para o dono de botequim incriminado e viu que ele dormia, os cílios pousados sobre suas faces brancas, a boca fechada. O arco delicioso do lábio superior, iluminado por baixo, retinha em seu topo dois pontos de luz prateada, e Léa admitiu que ele se parecia mais com um Deus do que com um vinhateiro.”

    Chéri não é nenhum Julien Sorel. Ele é rico (todo mundo é rico, no texto), mas tem alma de gigolô: “alguém é gigolô quando possui 300 mil francos de renda. Isso não depende da cifra, depende da mentalidade. Existem indivíduos a quem se poderia dar meio milhão e que nem por isso seriam gigolôs… Mas Chéri? E no entanto nunca lhe dei dinheiro… Mesmo assim…”

Quando a narrativa começa, mme. Peloux está planejando o casamento do filho. A partir daí, começa a imperar a “perspectiva dos espelhos” para Léa; curiosamente, tanto no começo quanto no fim, são os espelhos que marcam a situação dos personagens; no início é Chéri quem se contempla: “Achava-se em frente a um espelho comprido… e contemplava sua bela imagem de adolescente, nem alto nem baixo, cabelo azulado como a penugem de um melro. Abriu o pijama e exibia um peito fosco e duro, abaulado como um escudo…” etc, etc; no final, é a própria Léa, mas não antecipemos).

Ao se consumar a sua separação de Chéri,  percebe que o amava bem mais do que pretendia e até supusera, e o mimado rapaz se transforma numa espécie de anjo da morte, um pouco como o Tadzio de Morte em Veneza, de Thomas Mann, ou seja, o apelo final de Eros,  a apoteose de uma vida, após a qual virá o inevitável declínio.

O próprio Chéri, sem saber, faz um diagnóstico perfeito do destino da amante, mesmo antes da separação: não ligo a mínima para o fato de não ter sido seu primeiro amante! O que eu gostaria, ou melhor, o que teria sido… conveniente…limpo…seria ter sido o último”. Aliás, essa fala está em um passo magnífico do texto, em que se misturam o tom ferino que rege as relações entre as personagens, a dor escamoteada da separação (mas ainda muito exangue e pálida perto do que virá depois) e  a confirmação da percepção de Léa, de que ela e Chéri têm uma ligação em que “não falam a mesma língua”. Ela joga na cara o dinheiro que gastou com ele, e que ele economizou do próprio dinheiro (“Então não valho isso?”,o vaidoso moçoilo replica), e ele diz que ela devia cumprir seu papel na comédia: “Você, a vítima. Você, o personagem simpático da coisa, uma vez que eu a estou dispensando”. Ao que ela retruca ironicamente: “Ora, meu querido, não tenho a intenção de mudar nada em minha vida. Durante uma semana, continuarei a encontrar em minhas gavetas um par de meias, uma gravata, um lenço… E quando digo uma semana… são muito bem-arrumadas, você sabe, minhas gavetas. Ah! Vou mandar reformar o banheiro.” Vendo a expressão dele, de desgosto, por ela não demonstrar o sentimento de vítima de um cataclismo (o que ela será de fato, mas as aparências…, o jogo de poder que existe em cada relação): “Não ficou satisfeito? Queria o quê? Que eu voltasse para a Normandia para esconder meu sofrimento? Que eu emagrecesse? Que não tingisse mais os cabelos? Que mme. Peloux acorresse à minha cabeceira?

      Imitou a trombeta de mme. Peloux abanando os antebraços: A sombra de si mesma!A sombra de si mesma! A infeliz envelheceu 100 anos! 100 anos! Era isso que você queria?

     Ele a escutara com um sorriso abrupto e um frêmito das narinas que talvez fosse emoção: Sim.”

É interessante experiência de ler essa lapidar autópsia de sentimentos  num momento em que o sucesso de um filme “alto astral” como Simplesmente complicado (dirigido por Nancy Meyers, que também utilizou a mesma fórmula em Alguém tem que ceder) representa um auge na valorização da mulher madura, reflexo da emancipação feminina de vários tabus e preconceitos, pelo menos em certa faixa social.  Chéri é um registro definitivo daquela mentalidade patriarcal em que o destino da mulher mais velha é a solidão e o recolhimento, por mais sombrios que sejam, ou o ridículo e o escândalo. Seu relacionamento era, na verdade, de amante-mãe, todo em estufa, visando protelar o momento em que o amado-filho cairá no mundo, e só restará o vazio, o tricô, as fofocas e a troca de farpas em meio a uma mulherada que só tem passado, e nenhum futuro. Por isso mesmo, poucas cenas são mais patéticas do que aquela em que, após um idílio fugaz com Chéri, Léa se vê abandonada definitivamente por ele, que desce a escada da mansão dela e pára “no meio do pátio. Ele está voltando! Ele está voltando!, ela gritou, erguendo os braços. Uma velha ofegante repetiu, no espelho oblongo, seu gesto, e Léa perguntou-se o que ela podia ter em comum com aquela louca”.

Seria uma inverdade afirmar que essa “perspectiva dos espelhos” não assombra mais as mulheres. Ela só adquiriu novas formas de pressão e tortura.

(uma versão da resenha acima foi publicada em A TRIBUNA de Santos, em 09 de março de 2010)

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